Washington, 29/01/2008 – A influência dos neoconservadores no governo dos Estados Unidos, que atingiu seu ápice há quase cinco anos com a invasão do Iraque, se diluiu acentuadamente. Mas, ainda não deixou o campo de batalha. Embora golpeados, na medida que os representantes da mais moderada corrente “realista” de relações internacionais assumiam o controle da política externa, sua voz ainda ressoa, alta e clara, nos círculos do poder.

Suas esperanças de que o presidente George W. Bush ataque o Irã antes de terminar seu mandato, em janeiro de 2009, se desfez, mas contam com figuras-chave como o vice-presidente, Dick Cheney, e o conselheiro-adjunto de Segurança Nacional, Elliott Abrams. Os neoconservadores também são apoiados entre dois dos principais aspirantes do governante Partido Republicano à candidatura presidencial: o ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, e o senador John McCain, que conseguiu importantes avisos nas eleições internas feitas até agora.

Os neoconservadores, apesar do fiasco do Iraque, já procuram se distanciar de Bush e da aventura bélica que fomentaram com tanto entusiasmo para se entricheirarem mais profundamente nos círculos institucionais de Washington, segundo afirma Jacob Heilbrunn em seu livro “They Knew They Were Right: The Rise of the Neocons”. “São guerreiros curtidos que criaram uma base permanente para si mesmos, seja na Fundação para a Defesa das Democracias, no Fundo Nacional para a Democracia, no semanário Weekly Standard e no jornal New York Sun. Não vão desaparecer”, garantiu.

Ele mesmo é um ex-neoconservador e editor do jornal The National Interest, publicado pelo Centro Nixon, criado pelo ex-presidente Richard Nixon (1968-1974) ao completar 0 25º aniversário de sua investidura. O livro de Heilbrunn, que coincide com a publicação de uma biografia de Richard Perle, o mais influente entre os representantes da linha dura, intitulada “Príncipe das trevas” – embora não totalmente crítica – lança luz sobre algumas verdades a respeito do movimento neoconservador.

Heilbrunn se refere ao que acertadamente se denomina uma “atitude mental”, mais do que uma “ideologia”. Em primeiro lugar, o neoconservadorismo – diz – “é em aspectos decisivos um fenômeno judeu”, embora muitos de seus participantes, mas não a maioria, não sejam judeus. Por outro lado, a maioria dos judeus norte-americanos não são neoconservadores. Mas todos os integrantes do movimento, com independência de sua religião, “estão unidos por seu compromisso com a causa da sobrevivência do Estado de Israel”, explica Heilbrunn.

Em segundo lugar, suas idéias básicas estão largamente determinadas pelas eleições que seus seguidores extraíram das causas que, em sua opinião, tornaram possível o Holocausto. Entre elas, a impossibilidade de social-democratas e liberais alemães de enfrentarem a ameaça combinada do nazismo e comunismo, bem como o fracasso das democracias européias para conter o regime de Hitler às vésperas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Também acreditam na necessidade de contar com um esmagador poderio militar que permita sufocar, preventivamente, qualquer “novo Hitler” que possa surgir.

Heilbrunn, cujo pai judeu fugiu da Alemanha antes da guerra, acredita que os neoconservadores “vêem em todos os lados um novo Munique”, em referência ao acordo assinado em 1938 nessa cidade pelo qual França e Grã-Bretanha entregaram a Hitler parte da Checoslováquia em uma tentativa de “apaziguar” o ditador nazista. É típico dos neoconservadores ver uma repetição desse processo em cada desafio à hegemonia norte-americana ou israelense, seja do governo sandinista da Nicarágua há 25 anos ou do presidente iraniano Mahmoud Ahmadineja atualmente.

Segundo Heilbrunn, “criaram uma imagem romântica de si mesmos, segundo a qual constituem uma espécie de novo Churchill para enquadrar as forças do mal”. O especialista se refere ao ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill, que, como parlamentar, se opôs ao pacto de Munique e conduziu seu país durante a guerra. O temor de que o ex-ditador iraquiano Saddam Hussein (1979-2003) tentasse um “segundo Holocausto” contra Israel foi uma das principais motivações para que os neoconservadores promovessem a invasão do Iraque, destaca Heilbrunn.

“Como judeus – do mesmo modo que seus aliados católicos conservadores – estavam perseguidos pela lembrança da impossibilidade das democracias deterem Hitler e acreditavam firmemente que a obrigação dos Estados Unidos era agir preventivamente para evitar o próximo”, afirmou Heilbrunn. Em terceiro lugar, este especialista revela as raízes trotskistas do movimento neoconservador, encarnadas em seu “pai fundador” Max Shachtman. Essas raízes, afirma, eram muito fortes entre os judeus da Europa central e oriental na primeira metade do século XX.

A tradição trotskista insuflou em seus membros desconfiança e inclusive ódio ao liberalismo, apesar de seu compromisso dos últimos anos em promover a democracia. Ao mesmo tempo, determinaram suas táticas políticas enquanto corriam para a direita, primeiro para o Partido Democrata, depois da Segunda Guerra Mundial, e depois para o Partido Republicano, sob a liderança do ex-presidente Ronald Reagan (1981-1989). “Sua aventura amorosa com o trotskismo lhes deu uma atitude e uma série de ferramentas intelectuais que muitos jamais abandonaram: um temperamento combativo e uma inclinação pelas afirmações dogmáticas e idéias grandiosas. Vêem a si mesmos como uma intelectualidade aristocrática”, segundo Heilbrunn.

Em quarto lugar, a discriminação sofrida pelos judeus nas mãos dos WASP (sigla em inglês de brancos, anglosaxões e protestantes) que persistiu nos Estados Unidos até o comço dos anos 60, consolidou um “forte ressentimento” entre muitos dos mais influentes lideres neoconservadores, em particular Irving Kristol e Norman Podhoretz. Este último editou desde o começo da década de 60 até meado dos anos 90 a prestigiosa revista judia Commentary e agora assessora Giuliani, coloca o movimento neoconservador na “guerra” contra o “patriciado dos WASP”, segundo Heilbrunn.

“Os neoconservadores sabem que jamais serão aceitos pelo stablishment. Se deleitam em saber que são intrusos. Mas debaixo do verniz de confiança em suas próprias forças há a fúria contra a democracia governamental e as elites sociais”, acrescentou Heilbrunn. Este especialista oferece úteis, embora pouco originais, referências sobre as influências do filósofo judeu-alemão Leo Strauss e o estrategista militar Alfred Wohlstetter na visão do mundo dos neoconservadores.

Mas se perde na recapitulação de sua evolução e no surgimento de suas distintas facções, desde o momento em que gozaram de poder real pela primeira vez durante a presidência de Reagan até o desastroso epílogo da invasão do Iraque. Uma das razões poderia estar nas pressões para entregar o original, bem como em uma pobre edição. Mas, também podem ser atribuídas às contorções ideológicas dos neoconservadores e ao decepcionante fato de que Heilbrunn aceita a narrativa de sua própria historia.

De fato, descreve os progressistas ou esquerdistas, desde o movimento Poder Negro ou a Nova Esquerda, até lideres do Partido Democrata como George McGovern, Jimmy Carter e Bill Clinton em termos que facilmente os neoconservadores mais fundamentalistas aceitariam. Diz, por exemplo, que funcionários-chave do governo de Clinton (1993-2001) “aparentemente acreditavam que os Estados Unidos, e não seus inimigos, eram o principal problema no planeta”. Em suma, embora Heilbrunn critique os neoconservadores, aceita grande parte de sua visão do mundo. (IPS/Envolverde)