BIODIVERSIDADE – ZÂMBIA: Resgatando as planícies de Kafue

Lusaka, 19/11/2010 – A colaboração entre atores sociais com interesses nas planícies alagadas do rio Kafue, um banhado de grande diversidade biológico no sul de Zâmbia, permitiu criar uma reserva e começar a reverter o dano causado por represas, plantações de cana-de-açúcar e pelo rápido crescimento populacional na região.

BIODIVERSIDADE   ZÂMBIA: Resgatando as planícies de Kafue

Rebanho dos pastores tonga em Kafue. - Lewis Mwanangombe/IPS.

A área tem 6.500 quilômetros quadrados e integra o sistema do rio Kafue, que desemboca no Zambeze.

O curso de água cai apenas 13 metros em seu trecho de 250 quilômetros, da represa de Itezhi-Tezhi até a garganta de Kafue, formando-se uma enorme área úmida onde habitam antílopes, gazelas, búfalos, entre outras espécies. Além disso, a zona está repleta de aves como a garça de garganta vermelha e o grou carunculado, em risco de extinção. “Quando éramos crianças costumávamos ver muitos animais selvagens pastando nas planícies. Mas foram desaparecendo na medida em que chegavam as pessoas. Agora, só há gado”, disse o chefe da etnia Tonga, Mwanachingwala.

As planícies estavam praticamente desabitadas, só havia membros da comunidade pastoril Tonga que levava seu gado para pastar na exuberante vegetação que ficava depois que a água baixava na estação seca. Mas, a paisagem mudou com as plantações de cana-de-açúcar que se instalaram em 1968. Milhares de pessoas se dirigiram para a área em busca de trabalho e se assentaram perto da localidade de Mazabuka.

Chegaram muitas pessoas para os postos de trabalho disponíveis. A companhia açucareira de Zâmbia empregou 3.250 pessoas de forma permanente e oito mil, durante as safras. Cerca de 22 mil pessoas se assentaram em Nakambala, propriedade da empresa e outras 10 mil em áreas próximas habitando moradias precárias e lotadas feitas com teto de palha. Homens e mulheres desses assentamentos viveram como puderam de trabalho durante as safras nas fazendas, da pesca, ou cometendo pequenos delitos.

A pesca diminuiu por dois motivos. As plantações de cana extraíam diariamente uma grande quantidade de água para irrigar, que voltava ao rio contaminada com fertilizantes químicos. Isso criava as condições para o crescimento de plantas como o jacinto de água, que consumiu o oxigênio dessa área úmida e expulsou os peixes para zonas mais favoráveis.

A construção da represa Itezhi-Tezhi na década de 70, águas acima do banhado, também foi prejudicial. A obra deveria armazenar água na estação chuvas, deixá-la correr na seca, de outubro a novembro, e fazer funcionar as turbinas da hidrelétricas da garganta de Kafue, 250 quilômetros depois do banhado. Seus geradores, que produzem um terço da eletricidade consumida no país, alteraram gravemente as oscilações naturais do nível da água com consequências negativas para muitas espécies, cujos ciclos de vida estavam adaptados às inundações e secas anuais.

Numerosas intervenções promovidas pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF) e organizações locais começaram a restaurar o equilíbrio do ecossistema. Foram implementados novos protocolos operacionais das represas para limitar as elevações e baixas do nível da água. Nas plantações de cana foram tomadas medidas para diminuir os resíduos com nutrientes. A população local criou uma zona de conservação de 50 mil hectares que lhes garante renda graças ao turismo.

“Na primeira fase foi criada a Estratégia Integrada de Gestão de Recursos Hidricos, modelos informatizados para simular as variações da água e estudar suas conseqüências possíveis”, explicou Nalumino Nyambe, que trabalhou na WWF. “A segunda etapa se concentrou na implementação do novo sistema nas planícies de Kafue”, acrescentou. A federação se esforçou para criar uma associação entre governo, donos das plantações de cana, a Corporação de Fornecimento Elétrico de Zâmbia e a população local, disse Dickson Mwape, do WWF em Lusaka.

As plantações de cana controlam a maior parte de seus dejetos com soluções biológicas. Plantaram juncos e papiro que funcionam como “filtros pantanosos” que detêm muitos elementos nocivos antes que a água retorne limpa ao rio Kafue. “As plantas que atuam como filtros biológicos também pode servir para se obter modesta renda, por exemplo, fazendo cestas de junco”, disse Nyambe.

A proposta do chefe tonga de criar uma área de conservação não foi bem recebida inicialmente pelos pastores, que temiam perder acesso à valiosa vegetação da qual dependem na estação seca. Por fim, superou-se a resistência e foi possível criar a Área de Conservação de Mwanachingwala em terras doadas pelos maiores plantadores de cana e outras áreas comunitárias.

A reserva começou com 22 zebras e 130 impalas, e agora conta com antílopes lechwe, pouco comuns, e outra espécie típica conhecida como sitatunga. A reserva tem apoio da Autoridade de Vida Silvestre de Zâmbia e recebeu licença para operar no entendimento de que a renda com turismo seja utilizada em projetos comunitários, como escolas e clinicas, bem como a entrega de pequenos pagamentos à população diretamente afetada pela criação da reserva.

A iniciativa de proteger as planícies de Kafue teve sucesso porque contou com a participação dos atores de longa data e com maior presença e interesse na zona, disse Nyambe. Os conservacionistas consideram que o êxito obtido na reserva serve de modelo para proteger outros banhados de Zâmbia, com as planícies de Barotse e os pântanos de Busanga-Lukanga, águas acima dos banhados de Kafue. IPS/Envolverde

*Este artigo é parte de uma série de reportagens sobre biodiversidade produzida por IPS, CGIAR/Bioversity International, IFEJ e Pnuma/CDB, membros da Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (http://www.complusalliance.org/Templates/COMPLUS/COMPLUS5/layout.asp?MenuID=2).

Lewis Mwanangombe

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