Robert “A última grande exploração é para sobreviver sobre a Terra”

Robert Swan na Antártida. Foto: Cortesia do explorador

São Francisco, Estados Unidos, 16/9/2013 – Recém-chegado de Londres, Robert Swan enfrenta a promessa que fez há décadas ao famoso pesquisador marinho francês Jacques Cousteau. Cousteau lhe pediu que, por ser o último grande entorno natural sobre a Terra, preservasse a Antártida de prováveis perfurações e atividades mineradoras que poderiam começaram em 2041, ano em que o Protocolo Antártico sobre Proteção do Meio Ambiente será submetido a avaliação e a uma possível emenda.

Se esse documento for alterado, é possível que uma das partes mais antigas do mundo mude para sempre. Swan pretende chamar a atenção para este assunto por meio do que chama sua “última grande exploração”. Agora planeja caminhar uma vez mais pelo Polo Sul sobrevivendo unicamente com energias renováveis. O explorador britânico não é um novato neste tipo de desafio. Nos anos 1980, foi a primeira pessoa a chegar caminhando ao Polo Sul, primeiro, e depois ao Polo Norte.

Dedicou sua vida a conscientizar sobre a mudança climática, e agora espera voltar a fazê-lo em sua última expedição. Sua primeira parada foi na conferência pelo Dia Norte-Americano da Energia Renovável, no Colorado, onde falou a líderes do setor, como Ted Turner e T. Boone Pickens. Depois seguiu rumo à Organização das Nações Unidas (ONU), onde hoje falará no TEDx UN Plaza.

IPS: O que, exatamente, Jacques Cousteau lhe pediu?

RORBERT SWAN: Me pediu para preservar a Antártida. Sua missão durante 50 anos foi preservar um lugar, e depois usar energia renovável para salvá-lo. E salvá-lo é pensar em formas para que não valha à pena empresas irem à Antártida para explorá-la.

IPS: Falemos sobre sua expedição.

RS: Já caminhei nos dois polos e vi todas estas coisas sobre mudança climática antes que o mundo começasse a despertar para ela. A última grande exploração é para sobreviver sobre a Terra. Temos que ver como usar a energia em nosso planeta. Se não o fizermos, não haverá mundo a explorar. Estamos preparando uma expedição em dois anos que é um desafio realmente grande, e sobreviveremos na Antártida com energias renováveis, algo jamais feito. Estamos dispostos a voltar e submeter as energias renováveis à última prova. Não sobreviveremos sobre a Terra se não começarmos a depender das energias limpas. As decisões de hoje estão ameaçando o futuro da vida sobre a Terra. Esta é uma história que se iniciou ao ir até os polos para experimentar pessoalmente os problemas, caminhando sobre camadas geladas que derretiam, sentir que nosso rosto queimava devido a um buraco na camada de ozônio há 25 anos. Qual foi nossa resposta para isso? Poderíamos ter nos unido ao Greenpeace e nos tornado ativistas; eles fazem um excelente trabalho. Mas, o que poderíamos fazer de diferente? Pudemos trabalhar com a indústria e as empresas. Mas decidimos inspirar as pessoas também, especialmente os jovens, com as redes sociais e nossa página no Facebook.

IPS: Como sua missão de conscientizar sobre as energias renováveis se relaciona com os países em desenvolvimento?

RS: Quando caminhei sobre os polos, há 22 anos, o assunto da energia não era uma prioridade para ninguém. As pessoas não estavam comprometidas com a energia. Estou trabalhando em projetos de energia renovável na Índia; se não conseguirmos que Índia e China usem energia renovável limpa para pelo menos um bilhão de habitantes (cada um) teremos um problema. Há 15 anos que trato com esses países, que são muito mais importantes do que convencer os Estados Unidos. Há mais gente em Mumbai do que na Califórnia, há 30 milhões de pessoas um uma única cidade indiana.

IPS: Quais países são os líderes na produção de tecnologia de energias limpas?

RS: Os Estados Unidos são o mais avançado nesta área, e também o que tem mais dinheiro. É brilhante em tecnologia. Se alguém tem uma boa ideia nesse país, há grandes possibilidades de concretizá-la. Steve Jobs começou em um garagem em Berkeley. Se alguém tem uma ideia fantástica nos Estados Unidos pode fazer com que funcione, e conseguir apoio financeiro para desenvolver a tecnologia. Isto se deve ao fato de as pessoas estarem dispostas a investir, os bancos e a infraestrutura dão o apoio para que isto ocorra. Alguém na China ou Índia pode ter uma grande ideia, mas depois não há apoio financeiro para fazer com que seja realidade. Os Estados Unidos podem financiá-la; é por isso que corre com vantagem, e estas grandes pessoas percebem que há dinheiro para fazer, e um grande mercado.

IPS: O que está faltando no debate internacional sobre energias renováveis?

RS: A ciência nos diz que deveríamos estar fazendo certas coisas, mas as pessoas não estão respondendo a ela porque não estão ouvindo. As pessoas estão paralisadas. Há muitas nações que estão se desenvolvendo e querem o que nós queremos e temos no Ocidente. A comunidade internacional tem que ser muito mais clara nas direções que toma. Os Estados Unidos podem ajudar a comunidade internacional apresentando uma liderança melhor. Uma nação como a Índia produz entre uma e 1,5 tonelada de carvão por pessoa, mas nos Estados Unidos a quantidade chega a 22 toneladas. Na Índia, as pessoas dizem: “Como podemos conseguir mudanças quando eles produzem 22 toneladas e nós uma? Por que não podemos fazer o que estamos fazendo?”. Os Estados Unidos têm que mostrar sua liderança, que estão conseguindo mudanças. De outro modo, o resto do mundo não levará esse país a sério. E a Europa também tem de mostrar liderança. Envolverde/IPS