Nações Unidas, 3/9/2013 – Quando a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2013 Ano Internacional da Cooperação na Esfera da Água (IWYC), há três anos, estava consciente dos conflitos que poderia desatar a competição pelo mais rico dos recursos finitos do planeta. Diferenças marítimas e pela água causaram enfrentamentos entre Israel e Jordânia, Índia e Paquistão, Egito e Etiópia, Palestina e Israel, e entre Bolívia, Peru e Chile.

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Refugiados cavam a terra em busca de água no acampamento de Jamam, no Sudão do Sul. Foto: Jared Ferrie/IPS

 

Adotando a posição da ONU, o Instituto Internacional da Água de Estocolmo (SIWI), organiza esta semana uma reunião sob o tema “Cooperação na esfera da água: construindo sociedades”. Esta vigésima-terceira reunião anual na capital da Suécia, com mais de 2.500 delegados, terminará no dia 6. Dando uma nota otimista, o diretor-executivo do SIWI, Torgny Holmgren, disse à IPS que, historicamente, a água é fonte de cooperação em mais ocasiões do que de conflitos.

Nos últimos cinco anos houve quase duas mil interações entre países por causa do uso de bacias fronteiriças, das quais apenas sete implicaram violência e em 70% houve cooperação, destacou Holmgren, ex-embaixador e chefe do Departamento para Desenvolvimento de Políticas no Ministério das Relações Exteriores da Suécia. “Creio que a situação futura dependerá muito de nossa capacidade para enfrentar o desafio da demanda por água”, acrescentou.

“Será fácil cooperar se pudermos aumentar a produtividade hídrica de tal forma que possamos liberar nossos recursos e ao mesmo tempo proteger nosso meio ambiente, assegurando, assim, a sustentabilidade da oferta, permitindo novos tipos de uso e novos usuários”, afirmou. “Entretanto, se não pudermos manejar a demanda e a administração da água, então se parecerá mais com um jogo de soma zero, e, portanto, será todo um desafio evitar um conflito”, ressaltou.

Por sua vez, Irina Bokova, diretora-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), agência esta que supervisiona o IWYC, afirmou que há inúmeros exemplos de que as águas fronteiriças podem ser fonte de cooperação e não de conflito. Entre 1820 e 2007 foram assinados quase 450 acordos sobre águas internacionais, 90 deles estabelecendo a administração conjunta de bacias no continente africano, apontou Bokova à IPS em uma entrevista em março passado.

Segundo a organização WaterAid, com sede em Londres, aproximadamente 768 milhões de pessoas vivem sem água potável no mundo, cerca de uma em cada oito. Outros 2,5 bilhões não têm acesso a saneamento. Os serviços de inteligência dos Estados Unidos apresentaram um cenário sombrio para o futuro imediato: enfrentamentos étnicos, tensões regionais, instabilidade política e inclusive assassinatos em massa motivados podem ocorrer devido a conflitos pela água.

Nos próximos dez anos, “muitos países importantes para os Estados Unidos seguramente experimentarão problemas de água (escassez, má qualidade ou inundações) que contribuirão para os riscos de instabilidade e de falhas do Estado, bem como para maiores tensões regionais”, segundo a Avaliação Nacional de Inteligência, divulgada em 2012. Por outro lado, em um informe divulgado ontem, o SIWI diz que, em um mundo onde a população cresce rapidamente e, de forma paralela, a demanda por água, “é impossível ignorar o fato de que todos dependemos dos mesmos recursos finitos. A cooperação entre os setores é fundamental se queremos compartilhar e administrar com sucesso nosso recurso mais precioso”.

O problema dos recursos hídricos não é algo que só possa ser resolvido por especialistas, diz o informe intitulado Cooperação Para Um Mundo Sábio Com a Água: Sociedades Para Um Desenvolvimento Sustentável. E acrescenta: “Necessitamos cooperar com atores externos ao setor da água, fortalecer a cooperação entre as diversas instituições que tomam decisões, entre os setores privado, público e civil, bem como entre atores que trabalham em pesquisas, políticas e práticas”. “Somente por meio de associações sólidas e com visão de futuro poderemos alcançar um mundo sábio no uso da água”, afirmou Holmgren.

Ao falar perante os delegados, ontem, o vice-secretário-geral da ONU, Jan Eliasson, afirmou que alcançar uma sólida e justa administração da água constitui “uma enorme tarefa e é um claro imperativo para todos nós. Não temos tempo a perder”. O prazo para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, em 2015, se aproxima rapidamente, ressaltou. Desde a adoção desses objetivos, em 2000, as taxas mundiais de pobreza caíram pela metade, 200 milhões de habitantes de assentamentos precários melhoraram sua qualidade de vida e os índices de matrícula escolar aumentaram drasticamente.

“No ano passado pudemos anunciar que o mundo havia alcançado a meta de melhor acesso a fontes de água”, disse Eliasson. Mas a qualidade de grande parte da água ainda não atende os padrões da Organização Mundial da Saúde, destacou Eliasson. Um dos principais fatores que afetam negativamente é a falta de saneamento. A meta referente ao saneamento é uma das que está mais atrasada. Mais de 2,5 bilhões de pessoas em todo o mundo carecem de serviços adequados, isto é, mais de um terço da humanidade, detalhou.

Holmgren disse que a água e o saneamento deveriam ser um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que serão adotados a partir de 2015, uma vez vencidos os ODM. “Creio que precisamos de uma meta dos ODS dedicada à água, que destaque tanto o papel produtivo quanto protetor da administração dos recursos hídricos”, opinou. E também ressaltou que devem ser contempladas as íntimas ligações entre água, alimentação, energia, segurança, biodiversidade e outros temas. Envolverde/IPS