ArgentinaGratiferia TERRAMÉRICA   Compartilhar, não comprar

Nada está à venda nesta feira da Plaza Itália, no bairro de Palermo, em Buenos Aires. Foto: Juan Moseinco/IPS

Em meio a uma intensa onda de consumismo, alguns argentinos começam a experimentar as vantagens de compartilhar objetos e serviços, em lugar de comprá-los. 

Buenos Aires, Argentina, 2 de setembro de 2013 (Terramérica).- Desencantados com uma economia que promove o individualismo e o consumo predador, milhares de argentinos se somam às feiras nas quais os objetos são presenteados, compartilham viagens de carro com desconhecidos e oferecem alojamento gratuito a viajantes estrangeiros. São tendências incipientes neste país, mas que crescem apoiadas nas plataformas 2.0.

Os usuários compartilham uma mesma preocupação pelo cuidado ambiental e certa rejeição ao consumismo. Além de sua vontade de aumentar o contato comunitário e de incentivar a confiança entre as pessoas.“Necessitamos muito menos do que consumimos. Por isso a base de nossas feiras é o desapego, a necessidade de liberar objetos do conceito de propriedade privada”, explicou Ariel Rodríguez, criador da La Gratiferia, que tem o lema “traga o que quiser (ou nada) e leve o que quiser (ou nada)”.

A iniciativa começou em 2010. A primeira feira foi em sua casa, no bairro portenho de Liniers. Rodríguez colocou à disposição de amigos e vizinhos, livros, discos, roupas, móveis e outros bens que acumulava e não precisava. Também preparou algo para comer e beber. Com o tempo, houve quem o imitasse e, recordou, a feira número 13 “saiu à rua e explodiu” com a difusão nas redes sociais. “É algo que rompe com os esquemas”, observou Rodríguez.

Os visitantes se aproximam incrédulos, sem saber se têm o direito de pegar objetos sem deixar nada em troca. As pessoas podem ir a uma gratifeira com objetos dos quais deseja se livrar e não tem de se preocupar se alguém os levar. A ideia é justamente que encontrem um interessado em prolongar sua vida útil, em lugar de comprar um novo. “É como um reordenamento dos objetivos que também gera uma socialização interessante, porque surge um patrimônio que agora é comunitário”, explicou Rodríguez.

As gratifeiras se estenderam para cidades de algumas províncias e também para o Chile, México e outros países, assegurou seu criador. Este fenômeno não nasce, segundo Rodríguez, em um contexto de crise, com o sistema de troca, muito popular diante do colapso social e econômico do final de 2001. “Isto é uma tentativa de responder a uma crise mais longa de nossa relação com o material”, apontou. A prática se espalhou para outros contextos.

Na Faculdade de Engenharia da Universidade de Buenos Aires, um grupo de estudantes organiza este mês uma feira de apostilas para compartilhar, gratuitamente, material de estudo já utilizado. “A ideia vem com o ânimo das gratifeiras e deveria ser um movimento mais amplo incluindo outras faculdades, mas agora queremos que se firme na Engenharia”, disse ao Terramérica o estudante Santiago Trejo, um dos organizadores da feira, que coleta material e o coloca em circulação.

São modalidades sui generis do consumo colaborativo, expressão cunhada no começo de 2000, nos Estados Unidos, para identificar mecanismos para compartilhar ou trocar aparelhos eletrônicos, livros, roupas, calçados, instrumentos, móveis, bicicletas e até automóveis. Em 2011, a revista Time definiu o consumo colaborativo como uma das dez ideias capazes de mudar o mundo.

Propostas semelhantes surgiram entre os que consideram que viajar não é apenas se deslocar de um lugar a outro, mas viver uma experiência humana e social com pessoas que vivem em outro lugar do planeta. “Quando fui à Europa, fiquei em hostels e ao voltar me dei conta de que não tinha muita ideia de como viviam as pessoas desses países, ou o que pensavam do nosso”, contou ao Terramérica a jovem Aranzazú Dobantón, de 24 anos, que trabalha e estuda cinema.

Há quatro anos registrou seu perfil na plataforma internacional Couchsurfing, que aproxima pessoas dispostas a alojar em suas casas visitantes estrangeiros. A operação, que começa com a troca de e-mails e um encontro prévio, se concretiza sem dinheiro, apenas compartilhando teto e experiência. O grupo local tem mais de cinco mil pessoas registradas. “Até agora recebi cerca de 15 pessoas de diferentes partes do mundo. Muitas da Dinamarca, também do México, das Filipinas, da França, um turco que vivia na Alemanha”, contou Dobantón. Como anfitriã, ela estabelece as condições.

Se conhecem pela internet e já em Buenos Aires se encontram primeiro em um local público. “Os que ficam são muito dispostos. Às vezes cozinho para eles, outras vezes eles preparam a refeição. Se dão conta de que não é fácil quando se trabalha. São pessoas normais, que têm as mesmas inquietações, mas que vivem outra realidade”, observou Dobantón. Os visitantes depois escrevem em seu perfil como se sentiram ficando em sua casa, e esses comentários fazem outras pessoas desejarem a mesma experiência. Ou não. Ela, por sua vez, também pode fazer uso dessa rede para se hospedar na casa de alguém quando viajar. Até agora só o fez no Uruguai.

O consumo colaborativo é uma modalidade da economia do compartilhar, que está crescendo tanto nos Estados Unidos que a empresa de corretagem e serviços financeiros ConvergEx alerta em um artigo que poderia ter efeitos “catastróficos” na economia capitalista tradicional. Seu maior desenvolvimento ocorre quanto às viagens de automóvel. Com a ideia de poupar dinheiro e reduzir a poluição e os congestionamentos, várias plataformas conectam pessoas dispostas a compartilhar o veículo, a viagem e os gastos.

Vayamos Juntos e En Camello são duas destas redes argentinas onde cada interessado publica sua oferta ou demanda de viagem, ponto a ponto. Há quem busca compartilhar a viagem de casa ao trabalho, os que precisam ir de uma província a outra, ou quem deseja ver um espetáculo musical ou um jogo de futebol.

Em outros países, como o México, o transporte compartilhado tem várias modalidades, como o automóvel multiusuário, que permite ter acesso a um veículo quando necessário, pagando por hora, ou com mensalidade anual ou mensal. Como com as bicicletas públicas, é preciso pegar o carro em uma estação e deixá-lo em outra. Na Argentina, cada uma das propostas já tem milhares de usuários registrados, e vão aumentando as opiniões sobre a experiência de compartilhar. (Envolverde/Terramérica)

* A autora é correspondente da IPS.

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Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

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