Na África do Sul, o Rio Umgeni, com 232 quilómetros, está limpo a montante mas, quanto mais se aproxima do mar, mais sujo fica.

Salvar um rio sobrecarregado

Na África do Sul, o Rio Umgeni, com 232 quilómetros, está limpo a montante mas, quanto mais se aproxima do mar, mais sujo fica. crédito : Brendon Bosworth/IPS

África do Sul, Howick, (IPS) – No decurso de uma viagem de 28 dias pelo Rio Umgeni na África do Sul, que atravessa as zonas húmidas pristinas da Reserva Natural de Umgeni Vlei até à costa de Durban, Penny Rees, coordenadora do Fundo de Conservação Duzi uMgeni, testemunhou os extremos da saúde fluvial. O fundo é uma organização não lucrativa que visa conservar r proteger o Umgeni e o seu afuente, o Rio Msunduzi. Na nascente do Rio Umgeni, a água estava limpa e era suficientemente boa para ser bebida por Rees e pelos quatro voluntários que a ela se juntaram para caminhar ao longo do rio de 232 quilómetros e documentar o seu estado de saúde. A jusante, depois do rio ter passado por terras agrícolas e terrenos urbanizados, a água tornou-se lamacenta e com mau cheiro. “Às vezes pode sentir-se o cheiro, como em Durban da última vez que atravessámos o rio,” disse Rees à IPS durante uma entrevista em sua casa em Howick, 97 quilómetros a norte da cidade portuária de Durban. “Começámos a conhecer a cor do rio – [tem esta] aparência cinzenta e suja e cheira a esgoto.” O Rio Umgeni fornece água potável a mais de cinco milhões de pessoas e é a principal fonte de água para as cidade de Durban e Pietermaritzburg, a 66 quilómetros da costa. A viagem de Rees acentua o trabalho dos cientistas que já apontaram os problemas de poluição deste rio. A contínua saga dos esgotos Como outros rios na África do Sul, o Umgeni está sob pressão devido aos esgotos não tratados que desembocam no rio. As fracas infra-estruturas e os esgotos adicionais em locais como Mpophomeni, uma zona habitacional de baixo custo a montante da Barragem de Midmar, causaram elevados níveis de E. coli e nutrientes que desembocam na barragem, disse à IPS Simon Bruton, hidrólogo da GroundTruth, companhia de consultoria ambiental. A Barragem de Midmar é uma grande barragem com capacidade de armazenamento de 235 milhões de metros cúbicos de água nas redondezas de Pietermaritzburg. Embora Mpophomeni represente apenas 2.4 por cento da bacia hidrográfica da Barragem de Midmar, é responsável por metade dos E. coli e 15 por cento do fósforo que entra na barragem, segundo um estudo de 2009 elaborado pela GroundTruth. As projecções indicam que a poluição causada pelos esgotos que entram no Rio Umgeni, associada aos nutrientes provenientes dos escoamentos das explorações leiteiras, suínas e avícolas, podem levar a Barragem de Midmar e a adjacente barragem de Abert Falls a tornarem-se “eutróficas” – ricas em nutrientes como azoto e fósforo que promovem o crescimento de algas – até 2019. Quando as barragens chegam a este estado marcado por elevados nutrientes, crescem algas nelas. “Muitas das algas podem ser tóxicas ao contacto humano, portanto deixaria de ser possível utilizar a água para fins recreativos,” afirmou Bruton. “O outro problema é que aumenta de forma significativa o custo do tratamento da água porque a biomassa de algas causa problemas na purificação da água e a sua remoção é bastante dispendiosa.” As estações de tratamento das águas residuais estão sobrecarregadas As estações de tratamento de águas residuais que escoam os efluentes tratados no rio também estão sobrecarregadas, o que aumenta os problemas de contaminação. Em quatro das estações geridas pela companhia estatal Águas Umgeni as taxas de conformidade referentes à qualidade da água tratada descarregada no rio diminuíu para 71.6 por cento em Junho de 2013, de acordo com um relatório de auditoria das Águas Umgeni. Uma taxa de conformidade de 95 por cento é considerada aceitável. O incumprimento global deve-se principalmente a problemas na estação de Darvill, que trata as águas residuais industriais e domésticas da cidade de Pietermaritzburg. A estação de Darvill está sobrecarregada, disse à IPS Shami Harichunder, responsável pela gestão das partes interessadas empresariais das Águas Umgeni. A companhia lançou um concurso avaliado em milhões de dólares para aumentar a capacidade da estação em mais de 50 por cento, e já gastou 500.000 dólares em instalações de arejamento adicionais, que irão entrar em funcionamento brevemente. As companhias que descarregam efluentes industriais nas estações e não cumprem as obrigações da sua licença referentes à qualidade dos efluentes que descarregam também afectam de forma “significativa” a capacidade da instalação de processar as águas residuais, disse Harichunder. Contudo, o cumprimento na estação de Howick, que está a funcionar na quase plenitude da sua capacidade, era de 90 por cento em Junho de 2013. Poluição a jusante No início deste ano, o Rio Umgeni fez manchete como “um (dos) rios mais sujos” na África do Sul, com base num estudo publicado pela Comissão de Investigação Hídrica da África do Sul. O estudo analisou os níveis de contaminantes virais e bacteriológicos na secção do rio que se estende desde a barragem de Inanda, perto de Hillcrest, até à foz do rio em Durban. Os investigadores descobriram bactérias, incluindo a Salmonella e a Shigella, assim como vírus, como a Hepatite B, em todas as amostras que recolheram. Muitas das bactérias e virus encontrados nas amostras são potencialmente patogénicos aos seres humanos e têm demonstrado capacidade para eliminar culturas de tecidos humanos, explicaou à IPS um dos autores do estudo, Johnson Lin, da Universidade do KwaZulu-Natal. A água do rio não satisfaz as normas de qualidade de água para uso recreativo e para beber do Departamento de Assuntos Hídricos e Silvicultura. Os resultados “podem levantar preocupações nas pessoas que consumem água directamente do rio sem qualquer tipo de tratamento,” concluíram os investigadores. Lin aponta os surtos de diarreia como um risco potencial para os indivíduos que bebem a água do rio contaminada. E o estudo sublinha que na África do Sul, 2.6 por cento de todas as mortes são atribuídas ao abastecimento de água insalubre e sistemas de saneamento e de higiene desadequados. O rio mostra a sua força Durante a viagem de um mês, Rees e o seu grupo documentaram outros impactos negativos neste importante rio. Viram os efeitos prejudiciais das operações de extracção de areias, o despejo illegal de lixo nas margens do rio e ainda a proliferação de plantas aquáticas invasoras que se desenvolvem em condições onde há um nível elevado de nutrientes criado por escorrências agrícolas e contaminação provocada por esgotos. Apesar disso, Rees ficou surpreendida com o facto de, com base nas amostras da água recolhidas pelo grupo, a qualidade da água poder melhorar novamente em secções do rio não sujeitas ao impacto das actividades humanas. “O milagre é que se dermos [ao rio] um período suficientemente alargado sem qualquer impacto, a àgua regressa a uma grande qualidade,” afirmou. Com isso em mente, Rees defende a designação de zonas tampão intactas entre os principais pontos de contaminação ao longo do rio. “Mais cedo ou mais tarde irá haver um derramamento proveniente de alguma estação de tratamento das águas residuais,” indicou. “Nessa altura, pelo menos saberemos que, se houver algum problema, é necessário um número específico de quilómetros sem nenhum impacto humano e o rio [ficará] limpo.”