Obama5 A saúde de Obama

Barack Obama. Foto: casabranca2012

 

Miami, Estados Unidos, outubro/2013 – O principal problema de Barack Obama é ter ganho as eleições duas vezes. Foi uma dupla bofetada que os eleitores que ficaram em casa ou votaram contra ainda não digeriram.

A ilusão dos números globais oculta que nem mesmo dois terços dos potenciais eleitores se deram ao trabalho de ir às urnas. Dos que o fizeram, metade o rejeitou frontalmente, preferindo John McCain, ou depois Mitt Romney.

O resultado é que apenas um quarto se inclinou por Obama. Como recompensa por este duplo triunfo, os que preferiram seus adversários e inclusive os que se abstiveram lhe negam não apenas o perdão mas o simples reconhecimento. Em seus roteiros históricos ainda não se inclui a ascensão tão espetacular de um candidato negro.

Esse mesmo setor é o que ouviu os delirantes cantos da sereia de Sarah Palin, quando qualificou Obama de “socialista” por ter se atrevido a propor em sua campanha alguns programas de governo ameaçadores.

A joia da coroa era, e continua sendo, uma moderada reforma do sistema de saúde que se antevia revolucionária. O plano resistiu até a atualidade mas corre o risco de ser aniquilado se o sistemático ataque dos republicanos e afins fizerem das suas.

Algumas coisas mudaram nos Estados Unidos ostensivamente desde metade do século passado, quando foram apagados os fogos da Segunda Guerra Mundial, a última “guerra justa” de Washington.

Algumas pautas de conduta não se modificaram em absoluto.

Quando cheguei aos Estados Unidos, no crepúsculo da administração de Lyndon Johnson (1963-1969), o pai de um colega meu, em uma elegante, excelente e cara escola secundária privada, teve a generosidade de adiantar algumas previsões para ir conhecendo o país. Médico de profissão, me alertou que em um par da anos o país adotaria um sistema de saúde “socializado”, semelhante ao europeu.

Apenas me recuperara desse categórico cálculo, animou-se e quase com admiração por minha origem europeia, me garantiu que no mesmo espaço de tempo os Estados Unidos adotariam o sistema métrico decimal.

Curioso em comprovar se tais previsões tão drásticas se concretizariam, decidi permanecer neste intrigante país. Minha família continua indo ao mercado, enchendo o tanque de gasolina, calculando as distâncias de viagens em automóvel e em avião em milhas, medindo peso e estatura em um conjunto de medidas que continuam ressoando na velha Inglaterra.

E, quase meio século depois, examino a cada ano as condições do seguro médico proporcionado por minha universidade. Me sinto felizardo, já que milhões de norte-americanos não têm tal privilégio. Jogam-se na vida e namoram com a ruína financeira por não contarem com nenhum seguro e não podem ser acolhidos pela proteção da cobertura de saúde da aposentadoria completa.

A teimosia do sistema em não dar razão ao pai do meu amigo se deve, mais do que a uma interpretação financeira dos gastos e benefícios da aplicação do proposto sistema misto, a razões intra-históricas firmemente assentadas na psique norte-americana, atiçada por um grupo dominante de políticos com interesses econômicos.

O grosso do opositor Partido Republicano e afins, não apenas os militantes do ultradireitista Tea Party, consegue sistematicamente ir fundo em um duplo sentimento do norte-americano médio. Por um lado, desconfia do governo e, por outro, tem um pânico atroz de se ver identificado com uma classe inferior que, para chegar ao fim do mês, precisa contar com a ajuda dos cupons de alimentos.

Esse setor, amplamente majoritário, vive em uma permanente contradição ideológica e sociológica. É fundamentalmente “anarquista” e preferiria subsistir sem a tutela do governo. Daí que precisa se autoproteger de sua inércia de governança com leis e tribunais que religiosamente terminam por tolerar com entusiasmo. Por esse motivo, tudo o que transpira sabor de “socialismo” o deixa nervoso.

Desde o berço tem a consciência corroída por uma dicotomia falsa entre “democracia” (capitalismo até a morte) e “socialismo” (sinônimo de comunismo).

Mas aos mesmos cidadãos que desconfiam dos planos de Obama, nem em sonho lhes ocorreria se opor a outras facetas da vida dos Estados Unidos, como a escola elementar e média, gratuita, universal e obrigatória, projetada como uma fábrica de cidadãos. Só a menção de ter de pagar os livros de texto geraria motins.

De nada serve recordar aos norte-americanos que uns 20 países europeus e o Canadá têm indicadores de saúde melhores que os dos Estados Unidos, e expectativa de vida superior, a um custo inferior.

Se, além do mais, é Obama, de origem racial mista, quem se atreve a propor um sistema que desafia os oligopólios da indústria dos seguros privados e a pressão da profissão médica, com a anuência dos produtores de medicamentos e das companhias de pesquisa que se alimentam de fundos públicos, o drama está à mesa.

A mudança será mais difícil do que a adoção universal do sistema métrico. Envolverde/IPS

* Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Europeia da Universidade de Miami (jroy@Miami.edu).