Estoura a guerra interna na Al Shabab

Ex-combatentes da Al Shabab que se entregaram às autoridades somalianas. Foto: Abdurrahman Warsameh/IPS

 

Nairóbi, Quênia, 24/10/2013 – A organização radical islâmica Al Shabab foi considerada durante anos a força mais unida e poderosa na falida Somália, mas agora desmorona como um castelo de cartas por profundas divisões internas. Esse é o diagnóstico de Abdiwahab Sheikh Abdisamad, professor de história e ciência política na Universidade Queniana, em Nairóbi. A Al Shabab está se dividindo em “pequenos minigrupos que lutam entre si por diferenças ideológicas e está à beira de uma guerra civil interna”, disse à IPS.

Em setembro a organização reivindicou a ocupação por quatro dias do centro comercial de Westgate no Quênia, que terminou com mais de 70 mortos. Também assumiu um atentado com bomba, na semana passada, em Adis Abeba, capital da Etiópia, no qual morreram dois somalianos, que, se acredita, seriam os próprios responsáveis pela explosão. Contudo, o grupo, formalmente vinculado à Al Qaeda a partir de 2012, se encontra dividido em duas facções que disputam entre si a liderança: os jihadistas (combatentes islâmicos) estrangeiros e os somalianos nacionalistas.

Abdisamad afirma que essas divisões são uma oportunidade de ouro para que o governo federal somaliano se aproxime dos elementos menos extremistas da organização. Se Mogadísico não capitalizar a situação e não se aproximar da facção nacionalista, os jihadistas ganharão a luta interna e ficarão mais fortes, alertou. “Então, o futuro da Somália será incerto, a estabilidade da região estará em risco e também a do resto do mundo”, ressaltou o professor.

Segundo Abdisamad, essa guerra interna ficou evidente quando dois cofundadores e líderes do grupo, Ibrahim Haji Jama e Moalim Burhan, foram assassinados em junho, ao que parece por seus próprios companheiros. Contra Jama, mais conhecido como Al-Afghani (O Afegão) por ter sido treinado pela Al Qaeda no Afeganistão, havia um pedido de captura com recompensa de US$ 5 milhões, mas o xeque Abdiaziz Abu Musab, porta-voz da Al Shabab, negou as divisões e disse que Jama e Burhan morreram em um tiroteio originado quando resistiram à prisão determinada por um tribunal somaliano.

No mês passado, foram assassinados por membros da Al Shabab dois jihadistas estrangeiros: o norte-americano Omar Hammami, conhecido como Abu Mansoor al Amriki, um dos mais procurados pelo Escritório Federal de Investigações (FBI) dos Estados Unidos e por quem também era oferecida recompensa de US$ 5 milhões, e o britânico de origem paquistanesa Osama al Britani.

Al Amriki talvez tenha sido quem mais fez propaganda da Al Shabab graças aos seus vídeos de rap em inglês. Em 2012, foi o primeiro membro a revelar por meio da internet que se afastava do grupo porque sua vida estava em perigo. Al Amriki escapou e sobreviveu a várias tentativas de assassinato por parte da unidade Amniyat, divisão de inteligência da Al Shabab encabeçada pelo líder supremo do grupo, Ahmed Abdi Godane, também conhecido como xeque Mujtar Abu Zubeyr. Por fim, Al Amriki foi assassinado em setembro.

Abdisamad afirmou que Godane é partidário de uma jihad (luta) mundial e acredita que a Somália pertence aos muçulmanos de todo o planeta. “A facção jihadista global tem uma agenda que vai além da Somália, e quer propagar o Islã da China ao Chile, da Cidade do Cabo ao Canadá”, ressaltou. Outro membro do grupo vinculado à facção nacionalista, xeque Hassan Dahir Aweys, fugiu da maior base que ainda resta à Al Shabab, em Barawe, 180 quilômetros ao sul de Mogadíscio. Decidiu se render antes ao governo somaliano depois dos assassinatos de Jama e Burhan.

Abdisamad afirma que os nacionalistas são menos extremistas, e sua intenção é estabelecer um Estado islâmico apenas na Somália, sem intervir em outros países. “A facção religiosa nacionalista é contra globalizar o conflito somaliano, os assassinatos indiscriminados e matar clérigos, eruditos islâmicos e qualquer um que não esteja a favor dos combatentes. Há anos estão em campanha para substituir Godane, mas fracassando”, detalhou o acadêmico.

Acredita-se que as divisões internas contribuíram para que o grupo perdesse cidades e povoados estratégicos no sul e centro da Somália, incluindo a capital, Mogadíscio, onde o mercado local de Bakara era uma importante fonte de financiamento. Os radicais extorquiam os empresários e obtinham grandes somas de dinheiro. As forças somalianas e as tropas da Missão da União Africana na Somália (Amisom) expulsaram a Al Shabab de Mogadíscio em 2011. Exatamente um ano depois, o grupo perdeu sua última e mais importante fonte de renda: o porto de Kismayo, no sul do país.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a Al Shabab obtinha anualmente entre US$ 35 milhões e US$ 50 milhões dos portos de Kismayo e Marko, agora sob controle das forças somalianas e da Amisom. “A perda de fontes econômicas e as divisões internas levaram centenas de combatentes a desertarem da Al Shabab e se entregarem ao governo”, explicou à IPS o jornalista somaliano Mohammad Abdi. O grupo já não pode pagar regularmente seus combatentes “como costumava fazer”, afirmou.

As limitações financeiras e as divisões afetaram a moral dos combatentes. Centenas se entregaram ao governo ou fugiram para países vizinhos. Entreanto, o parlamentar somaliano Abdisamad Moalim Mohamud, ex-ministro do Interior e de Segurança Nacional, afirmou à IPS que o grupo ainda é ameaça não só para seu país, como também para a região e o mundo.

“Perderam muitos combatentes e já não podem enfrentar diretamente as forças somalianas e da Amisom, mas são capazes de realizar uma guerra de guerrilha com atentados suicidas e ataques surpresa como o de Westgate, em Nairóbi, e no complexo da ONU em Mogadísicio”, pontuou Mohamud. O legislador acredita que a região deve trocar informações de inteligência e adotar estratégias antiterroristas comuns para prevenir essa ameaça. Envolverde/IPS