Guerra entre vacas, ovelhas e cultivos na Tanzânia

Da esquerda para a direita: Jumanne Kikumbi, chefe da aldeia Langoni, Hamza Sakiki, funcionário do Conselho da Água da Bacia do Pangani, e Joseph Mwaimu afundam os pés no barro do leito do rio. Foto: Kizito Makoye/IPS

 

Pangani, Tanzânia, 23/10/2013 – Os enfrentamentos entre agricultores e pecuaristas pela água minguante da bacia do rio Pangani, nordeste da Tanzânia, são cada vez mais frequentes. Na última década, comunidades de pastores massai das áreas de Moshi e Arusha, no norte, se assentaram na bacia em busca de água e pastagem para suas dezenas de milhares de cabeças de gado. Segundo Hafsa Mtasiwa, comissária do distrito de Pangani, os territórios tradicionais dos massais estão esgotados pelo excessivo pastoreio e uso dos recursos hídricos.

Nos últimos três anos se mudaram para a bacia 2.987 pastores, com 87.132 vacas e 98.341 cabras, destruindo terras cultiváveis, contou Mtasiwa à IPS. Embora o governo desse país do leste africano tente controlar a afluência de população à bacia, falta coordenação política entre as autoridades regionais para consegui-lo. “É um assunto muito complexo, cuja solução exige consenso geral entre os grupos em luta. Não se pode simplesmente afugentar os criadores de gado. Devemos educá-los sobre a necessidade de respeitar os direitos dos demais”, disse Mtasiwa.

A bacia do rio Pangani, de 44 mil quilômetros quadrados, já é exigida ao máximo, pois suas águas e seus ecossistemas são objeto de contínua demanda. Segundo a Iniciativa da Água e da Natureza, da União Internacional para a Conservação da Natureza, a bacia tem 3,4 milhões de habitantes, e “80% dependem da pequena agricultura. Os ecossistemas estão em declínio e, como os recursos aquáticos propiciam até 25% da renda das famílias em parte da bacia, os mais pobres são os mais afetados pela escassez de água”.

Estatísticas da Agência Meteorológica da Tanzânia (TMA) indicam que, nos últimos dez anos, as precipitações diminuíram drasticamente em muitas partes da bacia do Pangani. Algumas áreas, que há uma década registravam 990 milímetros de chuva, agora recebem quase a metade. “Os impactos da mudança climática são muito difíceis de prever, continuam mudando de tempos em tempos. Podem começar com uma seca e depois repentinamente virar para inundações. O importante é que as pessoas se adaptem”, disse por telefone à IPS a diretora-geral da TMA, Agnes Kijazi.

O projeto Clim-A-Net, para desenvolver conhecimentos científicos sobre a mudança climática, afirma em seu site que “quase 90% do fluxo superficial da bacia do Pangani é usado para irrigação e geração hidrelétrica”. O jovem massai Vincent Ole Saidim, morador de Pangani, disse que “passamos noites sem dormir apenas para encontrar água. A pouca que conseguimos damos ao gado. Perdemos muitas vacas. A população daqui também deveria entender nossa situação”.

Porém, os agricultores se queixam porque os animais entram em suas terras e destroem suas plantações e instalações de irrigação. “Esses massais são muito egoístas, pensam que sempre têm razão, até quando destroem as vidas de outras pessoas. Não os suporto; deveriam voltar para o lugar ao qual pertencem”, protestou à IPS o agricultor Mwasiti Isinika.

Outros moradores da região contam que nos últimos seis meses aumentaram as tensões entre agricultores e criadores, e muitos temem que o conflito se prolongue. O último incidente foi em agosto na aldeia de Makenya, comunidade de 600 habitantes a 19 quilômetros da cidade de Pangani. A violência começou quando 24 pastores tentaram tomar a fonte central de água da aldeia para dar de beber aos seus animais. Os habitantes, agricultores, conseguiram expulsá-los, e não houve mortos.

Há dois anos, na aldeia de Mbuguni, a 18 quilômetros de Pangani, guerreiros massai indignados mataram com facões quatro agricultores que tentavam impedir que uma manada pisoteasse suas plantações de milho. Omar Kibwana, funcionário do governo local em Mbuguni, disse à IPS que o conflito se estendeu porque as autoridades são reticentes em estabelecer limites entre agricultores e pastores. “Essa questão estaria resolvida há muito tempo se tivesse sido feita uma demarcação clara”, afirmou.

O Conselho da Água da Bacia do Pangani assegura estar sabendo desses desafios. O engenheiro Arafa Maggidi, da Autoridade Hídrica da Bacia do Pangani, explicou à IPS que, embora a mudança climática seja o principal motivo do menor fornecimento de água, também contribuíram outros fatores, como desmatamento, maior quantidade de animais e expansão da agricultura.

“Não se deve exagerar a ameaça da mudança climática e a necessidade de se adaptar. Estamos fazendo tudo que podemos para ensinar as pessoas a mudarem seus estilos de vida. Devem entender que destruindo o meio ambiente preparam seu próprio sofrimento”, pontuou Maggidi. “Acreditamos fielmente que um manejo correto dos recursos hídricos deve integrar todas as demandas ambientais, econômicas e sociais”, acrescentou.

Para o futuro, os cientistas preveem temperaturas mais altas, menos chuvas e, definitivamente, menos água. Para Pius Yanda, professor da Universidade de Dar es Salaam e membro do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC), deve-se esperar que a temperatura aumente entre 1,8 e 3,6 graus, que haja precipitações e maior evaporação na bacia do rio ainda neste século.

Diante desse futuro incerto, a população local evoca épocas melhores, quando o Pangani era caudaloso o ano todo. “O rio perdeu sua antiga glória. Algumas espécies de peixes também desapareceram. É vergonhoso”, lamentou à IPS Fundi Mhegema, morador do povoado de Buyuni. Envolverde/IPS

* Este artigo é o primeiro de uma série de três sobre a bacia do rio Pangani, na Tanzânia.