siria640 “Interrogando” um combatente de Al Assad

Rebeldes no norte da Síria. Foto: Shelly Kittleson/IPS

 

Ma’arrat an-Nu’man, Síria, 3/10/2013 – Um prisioneiro com as mãos amarradas e sujo é guiado para o interior do que até o ano passado era usado como escola. “Um shabiha”, diz um dos rebeldes sírios contrários ao regime de Bashar al Assad que se encontram no local. “O encontramos há dois dias em um posto de controle”. Na parede, no fundo da sala, um quadro negro pendurado contém umas poucas palavras árabes escritas em azul.

O homem é levado ao centro da sala e forçado a se sentar sobre o gasto tapete. Um membro da inteligência do Exército Livre Sírio (ELS) para atrás dele, junto com o comandante de uma divisão local da Brigada Suqour al Sham. Também está presente um combatente do ELS de pouco mais de 20 anos. Vários homens armados montam guarda do outro lado de uma porta que leva ao que antes foi o pátio da escola, e que depois dos bombardeios do regime ficou parcialmente reduzido a escombros.

A palavra shabiha é usada há muito tempo na Síria para se referir às milícias que derivaram de agrupações criminosas alauitas na região de Latakia no começo da década de 1970, quando Hafez al Assad, pai do atual presidente, se converteu no primeiro representante dessa minoria a assumir a Presidência da Síria. O regime, que por muito tempo participou impune de contrabando, torturas extrajudiciais, violações e assassinatos, esperava que as gangues fossem funcionais aos seus propósitos quando necessário.

Culpa-se essas milícias de alguns dos piores atos de brutalidade cometidos contra civis. Desde o levante de 2011, o termo se popularizou e é usado em referência às várias organizações paramilitares conhecidas por cometerem massacres e espalhar o terror com apoio do regime sírio.

Maher, comandante da Brigada Suqour al Sham, um ex-taxista que antes do levante só havia disparado uma arma durante seu serviço militar obrigatório e que agora comanda cerca de 400 homens, disse à IPS que o detido confessou múltiplos assassinatos e violações na área de Hama, 200 quilômetros ao norte de Damasco. Afirmou que realizou todas essas ações com fins de intimidação, para conseguir combustível, remédios ou outros suprimentos, ou por meio de pressões indiretas.

Foi permito à IPS fazer perguntas ao prisioneiro.

Mustafá, como se identifica, disse pertencer a uma comunidade de refugiados palestinos perto de Hama. A pobreza, exacerbada pela guerra, o levou a unir-se à milícia irregular ligada ao regime, acrescentou. Afirmou que é casado, tem pouco mais de 30 anos e três filhos, para os quais “já não podia nem mesmo comprar pão”, depois de ser forçado a fechar sua loja. Foi treinado por 45 dias com cerca de outros 50 recrutas palestinos e lhe deram um salário a cada três meses quando começou a participar de “missões”, detalhou.

Certa vez, contou, ele e outros milicianos violaram a mulher de um homem que se negou a lhes dar combustível. Esta correspondente não conseguiu assegurar se essa foi uma confissão feita sob pressão após a captura. Também confessou ter violado em Hama uma farmacêutica que se negou a vender sedativos para a milícia após verificar que a receita era falsa.

Mustafá alegou que foi obrigado a participar de violações e assassinatos, e que o forçaram a violar a mulher de seu irmão para conseguir que ela convencesse o marido a unir-se à milícia irregular. O preso afirmou que havia ameaçado a mulher de contar ao seu irmão sobre a violação se esta não o convencesse, mas, finalmente, o homem se integrou ao grupo armado. Neste ponto, o combatente do ELS presente cospe indignado contra o prisioneiro e sai da sala.

Quando a IPS perguntou o que poderia ter ocorrido caso seu irmão ficasse sabendo do ocorrido, Mustafá se calou, aparentemente desconfortável. O membro da inteligência rebelde respondeu por ele, dizendo que o marido da mulher a teria matado, que haveria uma questão de honra familiar. O detido disse que não era responsável por suas ações porque estava sob influência de remédios dados aos combatentes da milícia irregular sem seu conhecimento.

Após tirar Mustafá da sala, o comandante local da Suqour al Sham explicou à IPS que ele será julgado por um tribunal integrado por três juízes que desertaram do regime, auxiliados por dois assessores religiosos especialistas na shariá (lei islâmica). O tribunal decidirá, não as brigadas do ELS. Se for condenado à morte, será fuzilado. A justiça é rudimentar nas áreas controladas pelos rebeldes. Muitas das reclamações iniciais do levante eram contra o sistema judicial de Assad, notoriamente corrupto, e muitos dizem ser pouco realista esperar que os rebeldes respeitem o devido processo. Entretanto, os tribunais locais, de certa forma, fazem justiça.

Quatro dos maiores batalhões contra o regime – incluído o grande grupo islâmico Ahrar al Sham e a Brigada Suqour al Sham – começaram a cooperar com o setor da justiça na província de Idlib, pontuou Maher à IPS. Porém, a cooperação é dificultada pelo fato de Ma’arrat an-Nu’man e a área vizinha praticamente estarem isoladas do mundo. Não há acesso à internet e tampouco sinais de telefonia celular. Os combatentes conversam por meio de walkie talkies.

Casualmente, segundo um combatente, na mesma frequência usada pelo regime. “Às vezes dizemos coisas apenas para assustá-los”, disse à IPS um combatente do Ahrar al Sham. “A maioria dos chamados atentados suicidas, na realidade, foram bombas detonadas à distância”, afirmou, acrescentando que seu grupo concluiu que falar de ataques suicidas era uma tática útil para fazer os recrutas do regime abandonarem mais facilmente os postos de controle. Envolverde/IPS