Netanyahu reaviva duvidosa acusação contra o Irã

A Comissão Rumsfeld alertou, em 1998, que o Irã “poderia” colocar os Estados Unidos em perigo. Foto: Domínio público

 

Washington, Estados Unidos, 16/10/2013 – Em busca de gerar oposição em círculos de Washington a um possível acordo nuclear com o Irã, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, volta a acusar Teerã de fabricar mísseis balísticos intercontinentais, para lançá-los sobre território norte-americano. A denúncia de Netanyahu se baseia em um prognóstico extremista mantido durante anos pelo Pentágono e pela Força Aérea dos Estados Unidos, e inclusive vai além.

No dia 1º deste mês, em uma entrevista a Bob Schieffer, da rede CBS News, Netanyahu afirmou que o Irã está fabricando mísseis para “alcançar território norte-americano dentro de alguns anos”. Os mísseis balísticos de Teerã “não são para nós, mas para vocês”, disse uma semana depois em entrevista a Charlie Rose, da mesma rede. “A inteligência norte-americana sabe tão bem quanto nós que o Irã desenvolve mísseis intercontinentais”, acrescentou.

Porém, especialistas independentes coincidem em afirmar que não há evidências que apoiem a acusação de Netanyahu. “Não vi provas de que o Irã tenta desenvolver mísseis balísticos intercontinentais, menos ainda de que os possua”, disse o especialista Michael Elleman, do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, com sede em Londres, e autor de um acreditado estudo sobre o programa iraniano de mísseis. Elleman pontuou que o Irã deveria testar pelo menos meia dúzia de projéteis antes de alcançar a capacidade operacional para disparar um intercontinental.

Até agora, Teerã nem mesmo instalou, e menos ainda testou, novos lançadores espaciais capazes de disparar mísseis intercontinentais, apontou, por sua vez, David Wright, codiretor do Programa de Segurança Global na União de Cientistas Preocupados. O Irã testou apenas um lançador espacial, que só pode colocar em órbita um pequeno satélite, explicou à IPS. “O fato de não ter dado continuidade indica que algo os detém. Claramente, não vemos que estejam progredindo rápido nessa direção”, acrescentou.

As acusações de Netanyahu se baseiam em avaliações prévias da inteligência norte-americana, influenciadas por interesses da indústria armamentista e do Pentágono, que promovem a ideia da ameaça iraniana a fim de obter apoio para um gasto militar maior. O primeiro-ministro israelense lançou suas primeiras advertências há 15 anos, depois que uma comissão norte-americana destinada a estudar ameaças com mísseis, encabeçada por Donald Rumsfeld (depois secretário da Defesa), alertou em 1998 que Irã e Coreia do Norte “poderiam” colocar os Estados Unidos em perigo com esse tipo de arma.

A chamada Comissão Rumsfeld, que buscava pressionar o governo de Bill Clinton (1993-2001) para que aprovasse a criação de um sistema nacional de defesa antimísseis, convidou os quatro maiores fornecedores militares do país, aos quais assinalaram como acreditavam que o Irã poderia testar com êxito mísseis intercontinentais. O órgão não seguiu a prática habitual nesse tipo de avaliação, que é distinguir claramente o teoricamente possível do provável.

É assim que, desde 2001, a comunidade de inteligência dos Estados Unidos aceita e repete que o Irã “poderia” alcançar a capacidade necessária para testar mísseis de grande alcance antes de 2015, se tiver a necessária ajuda externa, ou seja, da Rússia. Porém, se considerava pouco provável que Moscou estivesse disposta a colaborar com Teerã na fabricação dessas armas. E o Conselho Nacional de Inteligência publicou um informe, em dezembro de 2001, minimizando esse hipotético “poderia”, mas não recebeu muita cobertura da mídia e, portanto, permaneceu praticamente desconhecido do público.

Em 2009, já era óbvio para a maior parte da comunidade de inteligência que a data de 2015 era indefensável, nem mesmo como hipótese. A Avaliação Nacional de Inteligência desse ano, nunca tornada pública, reconhecia que o Irã não estaria em condições de alcançar essa capacidade militar ao menos até 2020. De todo modo, as agências de inteligência vinculadas ao Pentágono e à Força Aérea insistiram na data de 2015.

O Centro Nacional de Inteligência do Ar e do Espaço, da Força Aérea, e a Agência de Inteligência de Defesa (DIA) publicaram um documento que repetia o mantra: “Com suficiente ajuda externa, o Irã poderia desenvolver e testar até 2015 um míssil balístico intercontinental capaz de alcançar os Estados Unidos”. Em abril de 2010, o Pentágono citou o texto palavra por palavra em um informe ao Congresso. Em fevereiro de 2012, quando Netanyahu quis avivar o fogo da crise
internacional pelo programa nuclear iraniano, seus funcionários citaram o documento para apoiar uma acusação ainda mais extrema.

O ministro de Assuntos Estratégicos de Israel, Moshe Yaalon, afirmou que o Irã desenvolvia um míssil com alcance superior a 9.600 quilômetros, o que o aproximaria da costa leste dos Estados Unidos. Por sua vez, o ministro das Finanças, Yuval Steinitz, colocou data na ameaça. “Estimamos que em dois ou três anos terão o primeiro míssil balístico intercontinental capaz de alcançar a costa leste dos Estados Unidos”, afirmou, garantindo que sua avaliação estava em linha com a do Pentágono.

Porém, o documento militar norte-americano previa somente o momento em que o Irã poderia começar a realizar testes com um míssil intercontinental. O desenvolvimento da capacidade operacional levaria vários anos mais. Em julho, o Centro Nacional de Inteligência do Ar e do Espaço da Força Aérea, a Dia e o Escritório de Inteligência Naval apresentaram um relatório intitulado Ameaças Balísticas e de Mísseis Cruise, no qual insistem que “até 2015 o Irã poderia desenvolver e testar um míssil balístico intercontinental capaz de alcançar os Estados Unidos”.

Esse informe omite toda referência à ajuda estrangeira, que sempre foi um elemento importante da fórmula para satisfazer os interesses de defesa. É que esses interesses agora exigem uma linguagem mais forte, como forma de pressionar o Congresso a aprovar a instalação de um sistema de defesa antimísseis na costa leste. Enquanto isso, o Irã assegura não estar interessado em desenvolver esse tipo de armamento.

O ministro da Defesa, Ahmad Vahidi, afirmou, em abril de 2010, que “não tem planos de construir esse tipo de mísseis”. Por sua vez, Amir Ali Hajizadeh, comandante da Divisão Aeroespacial dos Corpos da Guarda Revolucionária, que dirigiu o programa de mísseis iraniano por décadas, afirmou em 2011 que não havia planos de fabricar mísseis com alcance superior a dois mil quilômetros. No momento o Irã só está interessado em projéteis que possam ser lançados contra bases norte-americanas na região, afirmou Hajizadeh.

Além disso, Teerã tem uma boa razão estratégica para não procurar projéteis de alcance intercontinental, segundo uma equipe de especialistas norte-americanos e russos que analisaram o programa iraniano, em maio de 2009. A tecnologia que o Irã possui o obrigaria a lançar mísseis apenas a partir da superfície, explicou essa equipe. Seriam necessários dias para preparar um lançamento e horas para carregar o combustível, tudo isso podendo ser perfeitamente detectado por satélites espiões. Envolverde/IPS

* Gareth Porter é historiador e jornalista investigativo especializado em segurança nacional dos Estados Unidos. Recebeu o Prêmio Gellhorn de jornalismo em 2011 por seus artigos sobre a guerra no Afeganistão.