protesto Novamente sem teto

Pessoas despejadas da corrala Buenaventura e ativistas protestam contra a medida. Foto: Inés Benítez/IPS

 

Málaga, Espanha, 4/10/2013 – Um cordão policial impedia, ontem, a aproximação da corrala Buenaventura, um edifício no centro de Málaga que as autoridades desocuparam no começo da manhã de ontem, e que estava ocupado desde fevereiro por 13 famílias sem recursos, com 12 crianças. “Esta noite dormiremos na casa de uma amiga. Não tenho trabalho nem dinheiro. Temos de começar do zero e é complicado”, disse à IPS, entre lágrimas, Catalina González, de 39 anos, uma das expulsas desta corrala, tipo de construção coletiva característica da Espanha, similar a uma vila

González, natural de Barcelona, buscou abrigo em um dos apartamentos de Buenaventura há dois meses, quando chegou da Itália fugindo de um marido que “maltratava” seus filhos, Leónidas, de quatro anos, e Manuel, de três. As crianças brincavam, sentadas no chão junto com seus dois cães, perto de um carro policial, enquanto vários agentes tentavam alcançar com ajuda dos bombeiros três ativistas que resistiram ao despejo e protestavam em cima do telhado do prédio.

Gritando palavras como “gente sem casa, casa sem gente, comm se entende”, ou “um despejo, outra ocupação”, dezenas de despejados, membros de movimentos sociais como Parem os Despejos, os indignados de 15 de Maio (15M) e ocupantes de outras corralas de Málaga, se reuniram por várias horas na rua sob uma chuva intermitente, até que as autoridades levaram detidos os ativistas.

O prédio pertencia ao Banco Bakinter, que o adquiriu após a quebra da empresa construtora e o vendeu (com as famílias dentro) à firma Gestiones Hospedalia, especializada na compra e venda de imóveis. Há cerca de 3,5 milhões de moradias vazias na Espanha, equivalentes a 14% do parque imobiliário, e 700 mil ficam na região de Andaluzia, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE).

Embora a maioria dos ocupantes de Buenaventura tenha conseguido um alojamento temporário, “algumas famílias não têm para onde ir”, afirmou à IPS o advogado José Cosín, ativista da Plataforma de Afetados pela Hipoteca (PAH), que ajuda a paralisar despejos e recuperar prédios vazios para realojar pessoas sem recursos, tentando negociar aluguéis sociais.

Montse, que tem uma filha de 11 anos e não quis dar seu sobrenome, contou à IPS que a partir da agora “viverá em um trailer”. Andrés Clemente voltará a buscar teto na garagem de um conhecido. Carolina, que também pediu para não dar o nome completo, ficará com os filhos, no momento, na casa de uma amiga na corrala La Suerte, outro prédio ocupado.

Desde que começou a crise econômica em 2007 multiplicaram as ocupações de imóveis vazios, muitos deles novos, propriedade de bancos ou agências imobiliárias. Os ocupantes de Buenaventura conversaram por vários meses com as autoridades locais e regionais, o banco e a empresa proprietária. “Finalmente, nada conseguiram. Brincaram com a gente e nos enviaram para os serviços sociais”, queixou-se Leticia Gómez, de 32 anos, que vivia em Buenaventura porque não “tinha onde ficar” após separar-se de seu companheiro.

A municipalidade de Málaga entregou a cada família despejada a média de mil euros (US$ 1.362) para pagamento de aluguel nos primeiros meses, mas os beneficiados consideram a ajuda insuficiente e pedem que as moradias vazias sejam destinadas à locação social, para que cada um pague em função de sua renda. “Me deram 900 euros (US$ 1.226) para três meses de aluguel. E depois? Estaremos novamente na rua”, lamentou Yuli Fajardo, de 42 anos, enquanto abraçava seu cão.

Ao seu lado, José Manuel disse que ocupará um apartamento de outro edifício vazio e contou que os policiais desfizeram uma cadeia humana que haviam montado contra o despejo. Encontrar alguém que queira alugar sua casa não é fácil para essas pessoas que frequentemente não podem apresentar avalistas, emprego formal, nem pagar fiança. Alguns dos desalojados denunciaram que a polícia usou força excessiva e “arrancou as portas”, mas os policiais garantiram à IPS que a operação ocorreu “dentro da normalidade”.

“Até o céu chora por nós”, disse, ao ouvir um trovão, Kira Vela, de 37 anos, que chegou a Buenaventura após ter sido despejada, por falta de pagamento, de uma casa que comprara com hipoteca no bairro de Ciudad Jarín, em Málaga. Tem três filhos, e uma delas, Yolanda, também vivia até agora no prédio com seu bebê de um ano.

Um total de 362.776 pessoas perderam suas casas entre 2008 e 2012 por execuções hipotecárias, segundo informe da PAH, que até o momento conseguiu deter 757 despejos e realojar 712 pessoas. O desemprego, que afeta 26,2% da população economicamente ativa, segundo o INE, fez muitas famílias perderem suas casas por falta de pagamento do aluguel ou da hipoteca contraída com entidades financeiras. Dezenas de pessoas que se suicidaram diante da iminência do despejo.

“Há muitas casas vazias. Que sejam entregues a estas famílias com crianças”, disse à IPS a vizinha Carmen Gil que observava os despejados gritando diante dos policiais postados na entrada do prédio: “Não é uma crise, é uma fraude”, afirmou. Vários dos afetados estão há anos sem trabalho, muitos deles antigos empregados da construção civil. “Se tivesse como pagar aluguel, pagaria”, disse à IPS o carpinteiro Clemente.

O governo da região autônoma de Andaluzia, onde ficam Málaga e Sevilha, aprovou, em 12 de abril, o decreto de função social da moradia, que estabelece a necessidade de uma bolsa de imóveis de aluguel social e a expropriação do uso por três anos das moradias “em iminência de despejo, em caso de risco de exclusão social ou ameaça para a saúde física ou psíquica das pessoas” que nelas moram.

“Por que temos de ir?”, perguntava José, de oito anos, à sua mãe, Silvia, que o levava pela mão junto com sua irmã, Esther, de seis anos, durante uma manifestação pedindo “direito a um teto”, na tarde anterior ao despejo.

Em maio, os legisladores do governante e direitista Partido Popular (PP) aprovaram a lei de medidas para reforçar a proteção de devedores hipotecários, reestruturação da dívida e aluguel social. O projeto surgiu a partir de um texto preparado pelo Poder Executivo e de outro apresentado pela PAH como iniciativa legislativa popular, com apoio de um milhão e meio de assinaturas. Porém, as propostas da PAH foram eliminadas do texto final. Envolverde/IPS