Um panteão na Espanha espera os nomes de seus mortos

O panteão em forma de pirâmide, em construção no cemitério de San Rafael de Málaga. Embaixo, em uma cripta, repousarão os 2.840 cadáveres exumados de uma vala comum. As famílias poderão reclamá-los quando suas identidades forem conhecidas. Foto: Inés Benítez/IPS

 

Málaga, Espanha, 16/10/2013 – Uma pirâmide em construção chama a atenção no antigo cemitério de San Rafael, na cidade espanhola de Málaga. Está destinada a ser monumento de milhares de fuzilados, cujos corpos foram encontrados na maior vala comum da Guerra Civil Espanhola e da ditadura de Francisco Franco (1936-1975). A IPS visitou o cemitério, fechado em 1987, e pôde ver que está muito avançada a construção do panteão, que será recoberto por pedras de mármore branco com os nomes gravados de todos os fuzilados nesse local.

O resto da área abandonada será um jardim público. Completar o monumento não vai demorar. Mas saber quais dos restos encontrados correspondem ao nome de cada vítima demorará muitos anos. “Só lembro dos gritos da minha mãe quando o levaram”, disse José Dorado, de 79 anos, que tinha três quando tropas de Franco fuzilaram seu pai, o ferroviário Pedro Dorado Cruces, na localidade de Bobadilla, em Málaga. Era 1937. O corpo de Pedro, de 33 anos, foi jogado com os de seus companheiros de trabalho em uma faixa do cemitério de San Rafael, contou Dorado à IPS.

Documentos indicam que aqui foram fuzilados 4.471 pessoas até a década de 1950, supostamente por serem republicanas, o grupo derrotado na guerra civil. Entre outubro de 2006 e outubro de 2009, 2.840 cadáveres foram recuperados na maior exumação já feita na Europa ocidental. O resto dos corpos pode ter sido levado para o Vale dos Caídos de Madri, um monumento que o franquismo levantou nas décadas de 1940 e 1950, disse Francisco Espinosa, da Associação Contra o Silêncio e o Esquecimento – Memória História de Málaga, que reúne mais de 400 familiares.

Dorado, presidente dessa entidade, se define como “uma pessoa que gosta de batalhar”. Em 2002, começou a lutar, precisamente para que fosse aberta a vala comum de San Rafael, e o conseguiu em 2006. A Universidade de Málaga colheu amostras de DNA dos restos para cruzar com as de mais de mil parentes dos fuzilados, mas ainda não há identificações, disse à IPS o sócio fundador da associação de Málaga, Antonio Somoza. Os restos estão em caixas à espera de ocupar a cripta sob a pirâmide.

Em quatro décadas, entre 88 mil e 130 mil pessoas foram assassinadas e enterradas em qualquer parte por diferentes regiões do país e cerca de 30 mil bebês foram roubados, segundo as denúncias. “Pedimos que retirem os restos das valas e sejam enterrados como pessoas”, disse Espinosa, de 76 anos, que lutou mais de três décadas para encontrar o paradeiro de seu pai, um carpinteiro argentino. “Meu pai morreu aqui. Eu ainda estava no ventre da minha mãe e meu irmão tinha três anos”, contou à IPS, de pé junto a um cipreste em San Rafael.

Nenhuma tentativa de investigação prosperou, porque os tribunais se apegam à lei de anistia de 1977, que impede julgar crimes daquele período. Além disso, o atual governo do primeiro-ministro Mariano Rajoy fechou o escritório que coordenava as exumações e os fundos para os caros testes de DNA. Emilio Silva, de 47 anos e neto de outro fuzilado, participou há poucas semanas de uma reunião em Madri com dois especialistas do Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Desaparecimentos Forçados e Involuntários, que estavam em visita à Espanha no mês passado, para revisar se o governo deu resposta às vítimas.

Nesse encontro, os familiares pediram ao grupo que reveja a decisão de não cuidar de desaparecimentos forçados anteriores a 1945, data de fundação da Organização das Nações Unidas (ONU). “Temos centenas de casos muito bem documentados anteriores a essa data e o desaparecimento é um crime permanente”, argumentou Silva à IPS. Seu avô, Emilio Silva Faba, foi fuzilado em outubro de 1936 na Priaranza del Bierzo, na província de León.

“Foi a primeira vítima da repressão franquista na Espanha identificada em um teste de DNA”, contou Silva, membro da Associação para a Recuperação da Memória Histórica. “Agora está enterrado junto com minha avó”, acrescentou. Os especialistas da ONU “devem ser flexíveis e acolher as demandas dos desaparecidos antes de 1945. Do contrário, se estará perdendo a maioria dos que sofreram represálias”, disse o dirigente sindical Cecilio Gordillo, que coordena o site Todos los Nombres, onde estão registrados quase 78 mil nomes e sobrenomes de supostas vítimas.

É possível que o grupo de especialistas reconsidere sua decisão quando divulgar
seu informe final junto ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, em 2014. No entanto, também foi pedido ao governo que revogue a lei de anistia. A Plataforma por uma Comissão da Verdade lançou recentemente a campanha #DiseloalaONU para denunciar que há “mais de 2.500 valas comuns sem exumar”. Dorado gostaria de enterrar seu pai em Bobadilla, onde está sua mãe, Pilar Cubero, que tinha 29 anos quando o marido foi assassinado. “Se viver até lá (quando o DNA colhido permitir identificar as vítimas) eu o levarei e lhe comprarei um nicho”, afirmou.

No mês passado um promotor espanhol se opôs à detenção de quatro ex-agentes da ditadura, solicitada pela juíza argentina María Servini de Cubría, em cujo tribunal tramita o único processo sobre crimes do franquismo, com base no princípio da justiça universal. Gordillo destacou que um capítulo do processo na Argentina se refere a supostos trabalhos forçados de presos políticos. “O Estado alugava presos para empresas privadas, que os usavam como escravos para construir estradas, aeroportos e canais. Cerca de 250 mil pessoas foram vítimas dessa situação”, denunciou Gordillo, que tem um tio-avô fuzilado.

Emilio Silva assegura que a maior parte das exumações é feita graças ao trabalho de familiares e voluntários. Miguel Alba, também sócio fundador da associação de Málaga, é neto e bisneto de fuzilados e suas cinco tias foram condenadas à morte. Durante oito anos investigou sobre desaparecidos em 31 localidades da comarca de Axarquía, em Málaga. “Não se trata de abrir feridas, mas de fechá-las em boas condições”, enfatizou à IPS. Envolverde/IPS