zimbabwe640 Zimbábue vive um novo êxodo


Em Rodeport, o terminal de ônibus transfronteiriços de Harare, os zimbabuenses se preparam para partir em busca de pastagens “mais verdes”. Foto: Jeffrey Moyo/IPS

 

Harare, Zimbábue, 16/10/2013 – Admire Gumbo, de 26 anos, detesta a ideia de deixar o Zimbábue e ir para Botsuana. Porém, vê que não tem opção, a não ser voltar ao país vizinho, onde trabalhou três anos como operário. “Me formei eletricista, tenho um diploma nacional. Em Botsuana nunca tive trabalho decente, mas me arranjei com empregos temporários, geralmente como ajudante de obras de construção, onde ganhava 60 pulas (US$ 7) por dia”, contou à IPS. “Agora tomei a difícil decisão de voltar, porque não consigo trabalho aqui”, acrescentou Gumbo, do populoso subúrbio de Mbvuku, na capital do país.

Apenas dois meses após as polêmicas eleições de 31 de julho, que garantiram ao presidente Robert Mugabe novo mandato, os zimbabuenses, convencidos de que não haverá nenhuma mudança nesse país, o abandonam em grande proporção. Edwin Gandari, presidente da Associação de Transportadores Transfronteiriços do Zimbábue, disse à IPS que o tráfego chegou ao seu clímax depois das eleições.

“Não estávamos seguros do negócio, até que, um mês depois das eleições, gente em busca de melhores oportunidades começou a solicitar nossos serviços em grande quantidade”, disse Gandari. Muitos emigrantes sem documentação escolhem viajar por esse meio. “Em média, nossa associação registra 1.200 emigrantes por dia, que decidem cruzar a fronteira para países limítrofes, como África do Sul, Moçambique e Botsuana”, detalhou.

Um funcionário sul-africano da fronteira, que não quis se identificar, acredita que quase duplicou a quantidade de zimbabuenses que entram em seu país. “Nosso governo saudou o resultado eleitoral no Zimbábue, mas, para nossa surpresa, pouco mais de dois meses depois, estamos registrando diariamente mais de 700 zimbabuenses que atravessam a fronteira para a África do Sul”, afirmou, lembrando que antes da eleição o fluxo diário era de 400 imigrantes zimbabuenses.

Estima-se que mais de três milhões de pessoas deixaram o país depois de 2000, no momento mais duro da crise econômica. Entre 2003 e 2009, o Zimbábue viveu uma das piores ondas de hiperinflação do mundo. Em 2008, a inflação anual chegou a mais de 231.000.000%. Os que saíam como refugiados foram tantos que, em 2009, o Departamento de Assuntos Internos da África do Sul suspendeu as deportações e autorizou a permanência dessas pessoas, concedendo-lhes autorizações de trabalho e estudo.

Muitos zimbabuenses, como Jason Mandundu, de 31 anos, que regressou da África do Sul no começo deste ano, esperavam que essa disposição já não fosse necessária, e que uma nova era política em seu país permitiria que ficassem definitivamente. “Esperávamos um novo Zimbábue sob um novo governo que não estivesse liderado por Mugabe. Mas agora não temos nenhuma esperança econômica. Sem dúvida, para pessoas como eu, só resta mendigar na África do Sul”, destacou à IPS.

“As pessoas partem porque o país demonstrou que não pode oferecer meios de sobrevivência aos desempregados”, declarou à IPS Okay Machisa, diretor da Associação de Direitos Humanos. Vários economistas concordam que o renovado êxodo ocorre porque a situação econômica não melhora. Culpa-se o colapso das políticas de Mugabe, entre elas a controvertida reforma agrária iniciada em 2000, pela qual mais de 300 mil pessoas ocuparam à força terras que antes eram propriedade de aproximadamente quatro mil agricultores comerciais de raça branca.

Antes, a agricultura fornecia emprego para 60% a 70% da população, e contribuía entre 15% e 19% com o produto interno bruto anual. “Aqui não acontece realmente nada de destaque. Pelo contrário, a vida está se tornando mais difícil e cara dia a dia, desde que a União Africana do Zimbábue-Frente Patriótica (Zanu-PF) obteve uma polêmica vitória. Os zimbabuenses que voltaram para casa agora se dirigem aos países vizinhos”, ressaltou à IPS o economista independente Kingston Nyakurukwa.

Prosper Chitambara, economista do Instituto de Pesquisa sobre Trabalho e Desenvolvimento Econômico do Zimbábue, um grupo de especialistas independentes, acredita que “há muitas incertezas e perguntas sem respostas quanto ao curso que a economia está tomando”. John Robertson, diretor da Serviços Robertson de Informação Econômica, enfatizou à IPS que, “ao verem que não terão emprego aqui, os que aguardavam uma mudança agora buscam oportunidades além fronteiras. Eles também sofrem os efeitos do desrespeito ao direito à propriedade por parte do governo da Zanu-PF.

A Lei de Indigenização e Empoderamento Econômico, de 2007, estabelece que as empresas de capitais estrangeiros devem vender 51% de suas ações a cidadãos do país, para estimular o crescimento econômico. Em uma entrevista anterior à IPS, Robertson indicou que tal política afugentava os investidores e conduzia ao fechamento de várias empresas, após ter passado para mãos de zimbabuenses. Envolverde/IPS