Libia A primavera do povo tubu floresce no deserto da Líbia

Milicianos tubu em sua base na localidade de Murzuq, sul da Líbia. Foto: Karlos Zurutuza/IPS

 

Murzuq, Líbia, 27/11/2013 – “Há algo mais satisfatório do que ensinar a escrever aos seus em seu próprio idioma?”, perguntou Abdel Salam Wahali. Ele é professor de tubu, uma língua milenar que experimenta um autêntico auge na Líbia pós-Muammar Gadafi. “As aulas são das 17h às 19h30 porque as crianças vão ao colégio pela manhã”, explicou Wahali à IPS, na escola de Murzuq, cidade 800 quilômetros ao sul de Trípoli, capital do distrito de mesmo nome. “No momento, a educação formal é dada em árabe, mas tudo chegará”, disse esse professor voluntário de 38 anos.

Distribuídos pela inóspita região onde confluem as fronteiras de Líbia, Chade e Níger, os tubus foram vítimas de brutais campanhas de “arabização” sob o regime do assassinado Gadafi (1969-2001), que buscavam eliminar as culturas e línguas originárias. Além disso, muitos tubus foram despojados de seus documentos de identidade e isso os privou de atenção médica, educação e trabalho.

“A nossa é uma corrida contra o relógio para a qual não temos nenhuma ajuda do governo líbio. Ainda assim, estamos satisfeitos com os resultados”, afirmou Wahali, que também ensina francês. A falta de ajuda de Trípoli mencionada pelo professor foi detalhada dias antes por Adam Rami Kerki, líder da Assembleia Nacional Tubu, a principal organização política desse povo na Líbia.

“Apesar de hoje em dia não sofrermos perseguição, o atual governo insiste em identificar a Líbia como um país árabe, como fazia Gadafi”, denunciou Kerki em seu escritório em Trípoli. “O que determina que um indivíduo seja árabe: a cor da pele, sua religião ou sua língua?”, questionou. “O que está claro é que não somos árabes, mas líbios. De fato, foram encontrados rastros humanos em nossa região que datam de mais de 30 mil anos”, acrescentou o líder tubu, ao destacar o estigma que ainda supõe ser negro na Líbia.

O certo é que todo o país sofre de uma instabilidade permanente, que aumentou após os sangrentos episódios de violência desatados no dia 15 deste mês em Trípoli, que deixaram dezenas de mortos e centenas de feridos. Os tubus contemplam a trágica deriva da Líbia de uma certa distância, acreditando que sua própria milícia seja capaz de responder a uma eventual agressão. Sabem que a estabilidade em sua região é fundamental para poder subir no trem do século 21 que, no momento, tem paradas inclusive nesse deserdo nada misericordioso.

Uma delas é o centro social dos Filhos do Saara, a principal organização para o despertar cultural desse povo. Nesse local, voluntários dão aula de inglês, francês e internet para todos que têm tempo. Hasán Egi, um de seus coordenadores, destacou a importância que tem o acesso à internet para essa que descreve como “a região mais inóspita de um dos países mais isolados da Terra”.

“Nós, os líbios, pensávamos que vivíamos no melhor país do mundo até 1997, quando chegou a televisão via satélite. O acesso à internet é como uma nova revolução para nós”, disse à IPS Egi, de 31 anos, enquanto anda entre os dez computadores do centro. Diante de um deles está Adam Kukin, que, aos 14 anos, é capaz de guiar um rebanho de cem camelos através do deserto. Além disso, ao contrário de seus pais, sabe ler e escrever em sua língua e também domina as redes sociais. “Graças à internet, posso saber o que acontece fora daqui, e em qualquer parte do mundo”, afirmou o jovem.

Seja como for, a “primavera tubu” transcende as quatro paredes das salas de aula e do centro cultural para se espalhar por toda a região sudoeste Líbia de Fezán, ou Zalaa, em tubu. Iniciativas como o jornal Sodur Zalaa (O Eco de Zalaa) ou a revista Labara Zalaa (Notícias de Zalaa) são veículos para essa projeção. A revista começou a ser produzida justamente quando Gadafi perdia o controle do sul do país, como quase tudo o relacionado com o auge dessa cultura.

“Começamos com 500 exemplares em agosto de 2011, até chegarmos aos dois mil atuais”, contou à IPS seu orgulhoso editor, Ahmed Kuki. Em seu número mais recente, traz notícias, entrevistas, palavras cruzadas, canções e inclusive uma reportagem sobre o atual centro nevrálgico da cultura tubu, as montanhas Tibesti, em sua maioria localizada no Chade. “Devemos muito a Kandamai. Nada disso seria possível sem seu trabalho e a injeção moral que nos deu”, pontuou Kuki.

Kandamai, “ambicioso” em língua tubu, é o pseudônimo pelo qual todos conhecem Mark Ortman, um linguista norte-americano que se estabeleceu na região tubu do Chade há 20 anos. Seu objetivo foi desenvolver um alfabeto que colocasse a língua no papel e contribuísse para a alfabetização desse povo. “Optei por uma adaptação do alfabeto latino, que há de servir de ponte entre a língua tubu e a alfabetização em francês, a língua oficial do Chade”, explicou Ortman à IPS por telefone, de sua base na região de Tibesti, onde vive com sua mulher e os cinco filhos, o mais novo nascido no Chade.

Ortman insiste em dizer que o futuro dos tubus da Líbia passa por “continuar resistindo à assimilação que chega do mundo árabe, para conservar suas características de identidade, históricas e culturais”. No momento, a determinação desse povo parece mais que provada, em parte graças à altruísta iniciativa da família Ortman, para a qual o povo tubu é sua aposta vital.

“Nossos filhos cresceram entre os tubus. Fazemos parte dessa comunidade, e, quanto mais aprendo, mais consciente sou de que compartilhamos os mesmos valores de liberdade, secularidade e democracia, no sentido de que cada um é livre para escolher viver como melhor gostar”, enfatizou Ortman. Ao ajudar esse povo a escrever sua história, Ortman, ou Kandamai, talvez já seja parte dela. Envolverde/IPS

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