Como evitar que as Filipinas se convertam em outro Haiti?

Uma mulher volta para casa com um pacote de ajuda de emergência. Embora a destruição seja generalizada, a reconstrução está em andamento. Foto: Simon Davis/DFID/cc by 2.0

 

Washington, Estados Unidos, 22/11/2013 – A reconstrução da zona central das Filipinas, arrasada pelo tufão Haiyan, deve evitar erros cometidos depois de catástrofes anteriores. Quase duas semanas depois da passagem do tufão, acadêmicos e especialistas da sociedade civil pedem que a comunidade internacional aprenda com os erros cometidos nas respostas a desastres desde o terremoto de 2010 no Haiti.

“O grande mito é acreditar que o socorro se divide em diferentes etapas, primeiro a ajuda de emergência e depois a reconstrução”, disse à IPS Jake Johnston, pesquisador associado do Centre for Economic and Policy Research (CEPR), um centro de estudos com sede em Washington. “É necessária uma visão mais integral desde o começo”, ressaltou.

Johnston acompanhou de perto as gestões para reconstrução do Haiti após o terremoto que deixou 316 mil mortos e 300 mil feridos, e quase 1,5 milhão de desabrigados. Várias lições aprendidas na catástrofe haitiana podem ser aplicadas na atual crise nas Filipinas, afirmou. “Algo que não foi bem no Haiti foi que as organizações estrangeiras deixaram de lado, em grande medida, o governo e a sociedade civil desse país”, ressaltou.

Por exemplo, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) “destinou quase US$ 1,3 bilhão a empresas e organizações não governamentais, a imensa maioria norte-americana ou radicada nesse país, e menos de 1% desse dinheiro foi dirigido a entidades haitianas”, detalhou Johnston. Nas Filipinas, a ajuda internacional deve garantir que o governo do país encabece as operações e tenha um papel destacado na coordenação da reconstrução, apontou. A transparência e a prestação de contas também precisam melhorar muito. Desse modo se garantirá que as organizações que trabalham no terreno respondam às necessidades locais com eficácia, acrescentou.

“As organizações não governamentais e as empresas são intermediárias na maioria desses fundos”, afirmaram Vijaya Ramachandran e Owen Barder, dois pesquisadores do Center for Global Development (CGD), um grupo de pesquisa de Washington. Apesar de “essas organizações serem beneficiárias de fundos públicos, há pouquíssimas avaliações publicadas sobre os serviços que prestaram, as vidas que salvaram e os erros que cometeram”, acrescentaram.

Essa falta de transparência e prestação de contas gerou um desânimo crescente na população haitiana. “No Haiti vimos que os grupos que trabalhavam ali não se comunicavam entre si, o que levou a ações duplicadas”, pontuou Johnston. “É um claro indício da opacidade da ajuda”, acrescentou. Para ele, maior comunicação entre as organizações permitiria que fossem mais eficazes em seu trabalho e prestassem contas da melhor forma aos contribuintes e doadores.

Algumas organizações não governamentais que trabalham nas Filipinas destacaram que a transparência e a comunicação são parte central de seu trabalho. “Tentamos ser muito transparentes sobre nossas finanças e nos asseguramos de que todos vejam para onde vai nosso dinheiro”, disse à IPS a integrante da equipe de comunicações da América Latina Hands Volunteers, Rachel Sawyer.

“Nos comunicamos constantemente com outras organizações”, garantiu Sawyer, cuja organização sem fins lucrativos trabalha em áreas de desastre em todo o mundo. “As ‘operações de socorro’ são, evidentemente, uma expressão muito ampla”, acrescentou. Outra questão importante é garantir que a injeção de fundos arrecadados logo que ocorre um desastre se sustente no tempo, que é o que a reconstrução exige no longo prazo.

“Os meios de comunicação, os patrocinadores e os socorristas dedicam pouco tempo às necessidades imediatas, o que não gera a infraestrutura para mitigar riscos futuros e deixam sem resolver nem financiar necessidades de longo prazo, como o reassentamento, a saúde pública e a viabilidade fiscal”, escreveu em um artigo Lori Bertman, presidente da organização norte-americana Pennington Family Foundation, que outorga doações.

Há quem afirme que essa atenção de curto prazo se deve à natureza cíclica da cobertura jornalística, que tende a desviar a atenção do público rapidamente. “O ciclo de notícias é um, e tentar que as pessoas continuem prestando atenção a um tema não funciona”, opinou o professor de economia do desenvolvimento Jesse Anttila Hughes, da Universidade de São Francisco. Contudo, acrescentou, as atuais estratégias podem ser melhoradas.

“O financiamento nessas situações se centra, em grande parte, em abrigo e alimentos. E, quando os fundos acabam, a reconstrução ainda exige atenção. É necessário garantir que os pedidos de fundos sejam explicitamente vinculados à reconstrução”, enfatizou Hughes. A última informação do Conselho Nacional de Redução de Riscos de Desastres das Filipinas indica que, até hoje, o tufão Haiyan provocou a morte de mais de quatro mil pessoas e deixou quase 4,5 milhões de desabrigados.

Esta semana o Banco Mundial anunciou que vai liberar US$ 500 milhões para recuperação e reconstrução das Filipinas, em resposta a uma solicitação do governo. Funcionários da instituição já analisam como empregar esse dinheiro no longo prazo, e também evitar alguns dos problemas que afetaram reconstruções anteriores.

“Devido à magnitude desse desastre, o país vai precisar de um plano de reconstrução”, afirmou, no dia 18, Axel van Trotsenburg, vice-presidente do Banco Mundial para Ásia Oriental. “Podemos aproveitar as lições aprendidas em nosso trabalho após os desastres de Aceh, Haiti e outras áreas, que poderão ser úteis nas Filipinas”, destacou. Envolverde/IPS