palestina640 629x352 “Intifada verde” toma conta de aldeia palestina

Mustafa Aweinah, agricultor de Battir, ara sua terra com ajuda de voluntários britânicos. Foto: Pierre Klochendler/IPS

 

Battir, Palestina, 8/11/2013 – “Oh, verde Battir, mãe do ar”, canta Mariam Ma’mmar em honra à sua aldeia da Cisjordânia. A estação quente próxima de seu fim fez com que a terra secasse em todas as partes, mas não aqui, onde lança raízes uma forma pacífica de resistência contra a ocupação israelense. Os cinco mil habitantes do lugar se orgulham de seu vínculo cultural e histórico com a paisagem que os rodeia. Assentada em 554 quilômetros quadrados de ladeiras secas e pedregosas, a maior rede arada em ladeiras, frutos e hortaliças de toda Palestina oferece uma imagem em cascata que termina em um vale profundo.

Graças à cisterna e ao aqueduto da era do Império Romano, a água flui todo o dia, irrigando as ladeiras agrícolas. Oito mananciais naturais, cheios de vida e compartilhados por oito famílias de Battir, alimentam o antigo sistema de irrigação, nutrindo os sonhos de autossuficiência hídrica. Mas os dias em que a reputação de suas berinjelas, as “betinjan battiri”, ultrapassava as fronteiras de Battir ficaram para trás.

Agora a região é cenário de uma batalha entre diversos cultivos. Em uma ladeira avança uma frente unida de duros pinheiros plantados em torno dos assentamentos judeus. Na outra, em filas dispersas, as retorcidas oliveiras, símbolos do apego palestino à terra. As folhas dos pinheiros acidificam o solo e colocam em perigo as oliveiras, explicou Ma’mmar.

Os assentamentos de Har Guiló e Beitar Illit crescem por trás dos pinheiros. Um terceiro, Guivat Yael, está em construção. Um muro de concreto de oito metros de altura avança lentamente para Battir, pegando em sua passagem grandes porções de terra palestina. “O muro enlouquecerá Battir. Cortará a irrigação. Os agricultores perderão sua terra”, protestou Ma’mma. “Oh, Israel, leve minha vida, mas não leve minha terra…”, acrescentou.

Iniciada em 2002, no momento mais álgido da segunda Intifada (levante contra a ocupação) para proteger os israelenses, a barreira de segurança, formada por muros e cercas, invade a maior parte do território que os palestinos veem como parte de seu futuro Estado. O Ministério da Defesa israelense tenta levantar o muro neste vale desde 2006. “Não há motivo para o muro. Nenhum israelense foi ferido ou assassinado aqui”, declarou o prefeito de Battir, Akram Badr.

Os aldeões pediram ao Supremo Tribunal de Israel que desviasse o traçado do muro para que não passe por metade do vale e assim não sejam confiscadas as terras nem destruído o meio ambiente e o sistema de irrigação. Obtiveram o improvável apoio da governamental Autoridade de Natureza e Parques de Israel. Em maio, o Tribunal intercedeu em nome dos aldeões e propôs que o Ministério buscasse alternativas “não físicas” para o muro.

A decisão judicial sairá em dezembro, mas já há alternativas. São colocadas câmeras de vigilância e sensores no alto das colinas. Há patrulhamento na área e veículos de segurança controlam diariamente a passagem de uma dezena de trens. “Somos otimistas”, disse Mustafa Aweinah, um agricultor de Battir. Essa renovada confiança faz evocar o passado dessas terras.

As propriedades se estendem além das vias férreas da era do Império Otomano, que serpenteiam entre Jerusalém e Tel Aviv-Iafo. Essas vias se superpõem à linha de demarcação traçada pelo armistício de 1949 – a famosa Linha Verde – que pôs fim à primeira guerra entre árabes e israelenses. Desde então, o trem já não para aqui. Naquele tempo, Hassan Mustafa, um jornalista de Battir formado na American University do Cairo, agiu com persuasão e contatos para obter de Israel uma concessão extraordinária na história do conflito.

Em troca de seu compromisso de proteger a rota da ferrovia, os agricultores mantiveram o direito de cultivar sua terra do outro lado da estrada, dentro de território israelense propriamente dito. Quando Israel ocupou a Cisjordânia em 1967, a Linha Verde perdeu importância. A comunidade internacional insiste que Israel a reconheça como a base das futuras fronteiras nas atuais negociações com a Autoridade Nacional Palestina para uma solução de dois Estados.

Graças ao herói local, o status especial de Battir sobrevive até hoje. “Permanecemos na terra pela sabedoria política do falecido Mustafa”, destacou Aweinah. Battir é a exceção ao controle de Israel na Cisjordânia: trata-se da única aldeia palestina onde a Linha Verde não existe. No total, 300 mil metros, 30% da superfície da aldeia, ficam sobre a Linha Verde e dentro de Israel. O restante de Battir está sob controle total de Israel (Área C) ou sob controle conjunto de Israel e Palestina (Área B).

Em contraste com outras partes do muro, onde a cada semana há confrontos entre manifestantes palestinos e soldados israelenses, em Battir os agricultores cultivam uma forma pacífica de resistência. “Ao promover o ecoturismo, os habitantes de Battir protegem a si mesmos. Obrigam Israel a garantir suas terras”, explicou o diretor do ecomuseu da paisagem da aldeia, Michel Nasser.

Armada com enxadas e ancinhos, uma delegação do consulado da Grã-Bretanha em Jerusalém ajuda Aweinah a arar seu terreno e a plantar feijão. “Estamos aqui para expressar nossa solidariedade e contribuir com o ecoturismo do lugar”, disse à IPS o cônsul geral britânico Vincent Fean. “Nosso objetivo é garantir que, junto com a população local, apresentemos uma perspectiva de coexistência pacífica e economicamente sólida. Battir pode ser um modelo”, ressaltou.

Aqui não se joga pedras. Por outro lado, há caminhos para excursionistas, criados especialmente para explorar a beleza da área, uma pousada que será inaugurada este mês, e o ecomuseu, que abriu em fevereiro. Milhares de turistas visitam Battir a cada ano. É “uma intifada verde”, disse, sorrindo, Badr.

Enquanto aguardam a sentença judicial, os aldeões tentaram incluir Battir na lista de locais do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que há dois anos aprovou a entrada da Palestina como membro pleno. Esperavam que lhes fosse concedido esse caráter como medida de emergência para convencer Israel a mudar o local do muro.

No entanto, em junho, a Autoridade Nacional Palestina desistiu de continuar com a solicitação a fim de respeitar seu compromisso de se abster de medidas unilaterais durante os noves meses que durarem as conversações de paz. O chamado para a oração é ouvido em todo o vale. Ibrahim, irmão de Ma’mmar, entoa sua própria oração: “Oh, terra de Battir, onde nos multiplicamos e vivemos”. Envolverde/IPS