coco640 Mudança climática é boa para os cocos

Rosamund Benn segura duas garrafas de óleo de coco virgem que produziu em sua casa. Foto: Desmond Brown/IPS

 

Georgetown, Guiana, 8/11/2013 – A mudança climática é uma espécie de benção disfarçada para Rosamund Benn e outros agricultores da região agrícola The Pomeroon, na Guiana. Crescer no negócio do coco não foi nada fácil para ela, que durante os últimos 32 anos trabalhou em uma plantação de 20 hectares nessa região. The Pomeroon tem limites com o Oceano Atlântico ao norte, com a região das ilhas Esequibo-Demerara Ocidental a leste, com Cuyuni-Mazaruni ao sul, e Barima-Waini a oeste. Se caracteriza por grandes rios, muitas propriedades e frutos, especialmente coco.

O fruto do coqueiro permite obter uma ampla variedade de produtos: água, óleo, leite e coco dessecado, que têm demanda regional e internacional. Junto com sua filha e seu marido, Benn produz óleo de coco virgem em sua casa. De aproximadamente 400 cocos secos se obtém entre 19 e 23 litros de óleo. “É um trabalho duro. Após colher os frutos, os quebramos e extraímos a polpa, a ralamos e obtemos o leite. Tudo é feito à mão”, contou Benn, de 48 anos, à IPS. “Com três pessoas fazendo esse trabalho só se consegue produzir entre 57 e 68 litros de óleo de coco virgem”, explicou.

Benn acredita que a mudança climática também tem um papel importante na quantidade de óleo que pode produzir. “Com o tempo quente e a estação seca, que na Guiana é cada vez mais seca, se obtém maior rendimento dos cocos”, afirmou. Segundo os cientistas, a mudança climática responde pela elevação das temperaturas do ar e do mar, por mais secas, chuvas mais intensas, transformações nas estações tradicionais e por maiores eventos meteorológicos extremos, entre outros.

Janet Lawrence, entomologista jamaicana que trabalha para o Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Agrícola do Caribe, com sede em Trinidad e Tobago, também acredita que o aquecimento global pode ter alguns aspectos positivos. Porém, com as temperaturas mais elevadas e maior seca, os agricultores deveriam esperar a chegada de muito mais pestes, alertou. “A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indica que a cada ano se perde entre 20% e 40% dos cocos e outros cultivos por causa de pestes e enfermidades”, disse Lawrence à IPS.

Pamella Thomas, camponesa de Antiga e Barbuda que integra a Rede de Agricultores Caribenhos (CaFAN), disse à IPS que, embora os membros de sua associação estejam prontos para enfrentar os impactos da mudança climática, a maioria dos produtores rurais é de idosos e “é um pouco mais difícil educá-los”. Assim, a CaFAN embarcou em uma campanha para dar participação aos agricultores mais jovens.

“Também temos ações educativas, porque as pessoas sabem que a mudança climática está acontecendo, mas precisam compreender sua dinâmica, e isso exige educação”, afirmou Pamella. Embora nas escolas de Antiga se ensine ciência agrícola, é necessário modernizar toda a área de estudo, indicou. “Ensina-se o aspecto prático, mas o triste é que ainda se usa métodos antigos. Não se capacita considerando a mudança climática ou a agricultura protegida”, acrescentou à IPS.

Vilma da Silva é uma pequena produtora de água de coco que também vive em The Pomeroon. Dedica-se à agricultura há mais de 33 anos e lamenta a falta de apoio e reconhecimento às mulheres que praticam essa atividade. “A agricultura é um trabalho duro, e as autoridades têm que trabalhar com os produtores e incentivá-los a permanecer na terra”, opinou à IPS. “Quando se é uma coletora de cocos deve haver o reconhecimento de que se faz um excelente trabalho e que você é necessária”, ressaltou.

No Caribe também há outros desafios: drenagem deficiente, altos custos de produção, falta de mercados rentáveis e poucas opções de manufatura e processamento. Vilma acredita que há potencial para produzir grandes volumes de coco e seus derivados. “Não usamos nenhum fertilizante e produzimos muito. Não temos pestes nem doenças. Assim, The Pomeroon pode manter a si mesmo para obter óleo de coco virgem e água de coco”, destacou à IPS.

As agricultores da região criaram a Associação de Mulheres Agroprocessadoras de The Pomeronn, da qual Vilma é cofundadora. Graças ao trabalho da associação no processamento do fruto, mudou a qualidade de vida de suas integrantes e, em geral, das mulheres da comunidade, pois lhes foi dada oportunidade de manejar seu negócio e gerar uma renda.

Benn afirmou que sua lista de sonhos inclui mercados seguros, sua própria fábrica e expandir a produção de óleo de coco virgem com fins comerciais. “The Pomeroon tem uma grande variedade de cocos”, disse à IPS. Na Guiana o coco é o terceiro produto com mais área cultivada, depois do arroz e do açúcar, com produção anual média entre 90 e cem milhões de unidades. “As mulheres estavam em casa, frequentemente com grandes famílias, e precisávamos nos ocupar para mantermos a nós mesmas. Agora conseguimos”, ressaltou. Envolverde/IPS