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Mulheres refugiadas do Paquistão encontraram um meio de vida elaborando artesanato. Foto: Ashfaq Yusufzai/IPS

 

Peshawar, Paquistão, 9/1/2014 – Farhat Bibi, de 43 anos, ficou sozinha para cuidar dos filhos quando seu marido morreu em um atentado, há três anos, nas Áreas Tribais Administradas Federalmente (Fata) do noroeste do Paquistão. Poucos dias depois, chegou a um acampamento de refugiados da violência. “Foi uma benção”, reconhece.

“Me ensinaram um ofício e agora ganho o suficiente para comprar roupa, comida e cobrir outras necessidades dos meus filhos”, contou Bibi. Ela borda roupa e produz almofadas, bolsas, cestas de vime, pulseiras e outros artesanatos, cuja venda lhe rende cerca de US$ 150 por mês. “Também ensino outras mulheres das tribos”, contou à IPS.

Artesanatos de cem mulheres refugiadas como ela foram apresentados na mostra Hunnarmande Guthey (Mãos Habilidosas). A colorida gama de produtos exibidos contrasta com o trágico passado das mãos que os criaram. A exposição foi organizada pelo não governamental Centro de Excelência para o Desenvolvimento Rural (Cerd), em colaboração com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

Foram apresentados artesanato produzido por mulheres de Kurram, uma das Fata, que agora vivem no Novo Acampamento de Durrani, lar de 29.600 famílias refugiadas. As Fata, fronteiriças com o Afeganistão, são palco de intensa violência desde que membros do movimento islâmico Talibã ali se instalaram, após serem expulsos de território afegão pelos Estados Unidos em 2001.

Como aliado de Washington na “guerra contra o terrorismo”, o Paquistão realizou várias operações militares nas Fata contra combatentes islâmicos. Em consequência, dois milhões de pessoas dessa região viraram refugiados, segundo dados do Acnur citados pelo coordenador do Cerd, Kashif Islam. “As mulheres representam 50% da população de refugiados. É preciso empoderá-las com capacitação vocacional”, disse à IPS.

Muitos habitantes das Fata fugiram para a província vizinha de Jyber Pajtunjwa. Capacitamos 200 mulheres por mês no distrito de Hangum, nesta província. A maioria das refugiadas da agência de Orakzai perdeu seus maridos e precisam desesperadamente de ajuda”, afirmou Islam. “As viúvas da guerra são as principais beneficiárias da iniciativa patrocinada pelo Acnur. “Realizamos feiras mensais buscando mercados para estes artesanatos, que demonstram a destreza e a criatividade das mulheres das Fata”, ressaltou.

Os visitantes se maravilham com o que veem. A maioria destas artesãs é analfabeta e muitas sofriam depressão quando chegaram aos acampamentos, mas aprenderam a seguir adiante.

Jamila Bibi, de 33 anos, é originária da agência de Waziristão do Norte. Ficou devastada quando seu pai morreu vítima de bala perdida. Mas o acampamento lhe deu o valor que precisava. Aprendeu a bordar e a tecer, entre outras habilidades, e agora ajuda a sustentar suas duas irmãs, um irmão e sua mãe.

Sentada junto às suas cestas e bandejas de vime, Jamila reconhece que estaria mendigando nas ruas se não tivesse chegado ao acampamento. “Forneço artesanato para um mercado próximo. Isso trouxe dignidade às nossas vidas, já que não dependemos de caridade nem de doações de organizações não governamentais”, afirmou.

Saeeda Gul, capacitadora do Cerd, disse que as mulheres são treinadas mesmo antes de terem os materiais básicos para trabalhar. “Elas vão a três centros comunitários perto dos acampamentos, onde aprendem a fabricar objetos de vime. As mulheres estão muito felizes com suas novas habilidades, porque as ajudam a ganhar a vida de forma decente”, apontou Gul.

A maioria começa do zero e todas devem frequentar o centro comunitário quatro horas por dia. A treinadora Shukria Jan explicou que “as ajudamos a fazer os produtos de forma mais profissional e lhes damos três meses de formação, além das matérias-primas”. Segundo Jan, as mulheres demonstram muito interesse em se aperfeiçoar e elaborar produtos de boa qualidade. E os esforços são compensados.

O empresário local Aziz-ur-Rehman exibe os artesanatos em sua própria exposição. “Os artigos refletem a criatividade e as habilidades das mulheres das tribos, e, sobretudo, atraem compradores. É animador ver que não desistiram, apesar da dura realidade que vivem”, afirmou. Os compradores se interessam porque os objetos são bonitos e baratos, e “alguns artigos, como roupa feita à mão, vendem rapidamente”, ressaltou o empresário.

Kashmala Shah, de uma tribo da agência de Kurram, abriu seu próprio centro, onde capacita outras 30 mulheres. “Perdi minha mãe e meu irmão no conflito, mas isso não significa ficar de braços cruzados esperando a caridade. Esta é uma grande oportunidade e a estamos aproveitando”, afirmou. Envolverde/IPS