Japan protest 629x419 Energia nuclear aviva campanha eleitoral em Tóquio

Um protesto em Tóquio contra a energia nuclear. Foto: Suvendrini Kakuchi/IPS

 

Tóquio, Japão, 10/2/2014 – A capital do Japão, uma das maiores cidades do mundo e das mais ávidas por energia, votou ontem para eleger seu novo governador. O resultado pode ser crucial para deter a intenção do governo de reiniciar alguns reatores nucleares este ano. Também poderá dar um importante impulso às fontes renováveis de energia.

“Só os dirigentes políticos podem pôr fim à perigosa energia atômica no Japão. Por isso é vital que o candidato antinuclear mais popular do país tenha um sólido desempenho nas eleições deste mês”, afirmou Yurika Ayukawa, especialista em mudança climática da Universidade de Comércio da China. “A dolorosa ironia é que o Japão já lidera em tecnologias inovadoras livres de carbono que podem substituir a fonte nuclear”, ponderou à IPS.

O candidato a governador Morihiro Hosokawa, ex-primeiro-ministro (1993-1994) que rompeu com a hegemonia do poderoso Partido Liberal Democrático (PLD), é o novo rosto do movimento antinuclear no Japão. Ele entrou na campanha em janeiro, mas sua promessa de proibir a energia atômica e impulsionar as fontes renováveis teve um impacto imediato em um público ainda preocupado pelas consequências do acidente na central de Fukushima, em 11 de março de 2011, em razão de um terremoto seguido de tsunami. “Se for eleito adotarei uma política de zero energia atômica. A mensagem ao mundo é que o Japão substituirá a perigosa energia nuclear por fontes renováveis”, disse Hosokawa à imprensa.

Seu adversário é Yoichi Masuzoe, que tem apoio do primeiro-ministro, Shinzo Abe, do PLD. Ao contrário de Hosokawa, ele promove a energia atômica como opção viável para sustentar a economia japonesa, a terceira maior do mundo. O setor industrial é responsável por 43% dos quase 860 bilhões de quilowatts de eletricidade consumidos no país em 2011. O transporte público ficou em segundo lugar, com 24%. Apesar de a área de Fukushima continuar contaminada por radiação, Abe insiste que a energia nuclear é necessária e viável se forem adotadas melhores medidas de segurança nos reatores.

O governo do PLD apoia há muito tempo essa lucrativa fonte e concedeu subsídios para que as empresas elétricas construíssem grandes centrais atômicas, que atendiam quase 30% da demanda energética do país até o acidente de Fukushima. Mas a catástrofe forçou o governo a apoiar a exploração de fontes renováveis, para responder à desconfiança pública e encontrar uma alternativa para os combustíveis fósseis, importados quando foi preciso desligar os reatores nucleares.

Uma clara mudança da política energética tradicional foi a decisão de destinar, nos últimos dois anos, fundos estatais e adotar medidas de desregulamentação para o desenvolvimento de fontes com baixa emissão de dióxido de carbono, como a solar, a eólica e a de biomassa. A política nacional energética de 2012, por exemplo, estabeleceu novas metas para as fontes renováveis, que agora, cobrem 11% da demanda nacional e deverão passar para 35% até 2030. Para isso serão destinados mais de US$ 700 bilhões.

Um passo importante foi a adoção em abril de 2013 de um novo sistema de tarifas reguladas (feed-in-tariff), destinado a abrir o protegido e lucrativo mercado das empresas de serviços públicos e estimular os investimentos em energias renováveis. Segundo esse sistema, o Estado intervém nos preços da energia renovável que uma produtora privada vende às grandes empresas de serviços elétricos, estabelecendo tarifas especiais ou prêmios para que possa assegurar a recuperação de seu investimento inicial.

Deste regime se beneficiou, por exemplo, a Solar Sharing Association, companhia privada que fornece painéis solares a agricultores. Estes geram sua própria eletricidade em suas terras e vendem o excedente. “Nossa empresa busca incrementar a produção de energia solar e diminuir a dependência da nuclear. Nos focamos nos agricultores, que querem ampliar a renda”, declarou seu porta-voz, Mayumi Yamada. A empresa tem mais de cem empregados.

Kenta Hiaasa, um agricultor que investiu em julho US$ 8 mil para instalar painéis solares em suas terras, disse que agora sua renda mensal chega a US$ 1,5 mil. No setor agrícola também se multiplica a energia eólica. Um dos objetivos é estendê-la às assoladas costas do nordeste do país, que sofreram o impacto do tsunami. A Hokkaido Power Company prometeu comprar 390 quilowatts de energia eólica (equivalente à produção de três reatores nucleares) de empresas privadas nos próximos dez anos. O projeto custará à empresa US$ 30 milhões, em sua maior parte procedente do novo sistema de tarifas reguladas.

Entretanto, apesar desses avanços, o maior obstáculo para as energias renováveis no Japão continua sendo a falta de uma clara postura do governo a respeito da política nuclear, pontuou a especialista Ayukawa. “Grande parte das estimativas e metas oficiais de compra de energia alternativa são traçadas pelas empresas sob a suposição de que a energia nuclear continua sendo uma opção. Essa política não constitui um fundamento estável para expansão das fontes renováveis”, acrescentou. Por esta razão, as eleições para governador de Tóquio poderão ser o primeiro degrau da tão esperada mudança política. Envolverde/IPS