soda640 Estoura a “bolha de sangue”

Trabalhadores palestinos na fábrica da SodaStream. Foto: Pierre Klochendler/IPS

 

Zona Industrial Mishor Adumim, Cisjordânia, 11/2/2014 – A já tradicional prática israelense de etiquetar produtos elaborados em suas colônias com os dizeres “feito em Israel” gera uma oposição maior à ocupação. Os assentamentos judeus em territórios palestinos são considerados uma violação do direito internacional. Porém, Israel não os vê dessa maneira. Frequentemente, os consumidores de produtos israelenses em todo o mundo não sabem se estão comprando um produto produzido de fato em Israel ou em uma colônia.

A impressão dos rótulos usados por essas empresas israelenses, que realizam seus negócios em terras que os palestinos consideram como parte de seu futuro Estado, fez uma estrela de Hollywood cair em um conflito de interesses. Até agora, a atriz norte-americana Scarlett Johansson cumpria o duplo papel de embaixadora da caridade da organização não governamental britânica Oxfam e de embaixadora da marca SodaStream, uma firma israelense de sistemas de gaseificação de bebidas cotada no índice Nasdaq da Bolsa de Valores de Nova York, cuja principal unidade processadora funciona em uma velha fábrica de munições perto do assentamento Maalé Adumim.

Seu elogio às garrafas amigáveis com o meio ambiente nas quais se gera a efervescência, bem como aos sabores caramelizados oferecidos pela empresa, tornou-se viral nas redes sociais da internet, inclusive antes de o comercial ir ao ar pela primeira vez durante o Super Bowl, a final do principal campeonato de futebol norte-americano. A Oxfam, que se opõe ao comércio com os assentamentos judeus, pressionou Johansson para se retratar de seu apoio à Soda Stream, mas a atriz, ao contrário, se desligou da organização britânica.

Em um comunicado, a atriz ressaltou o compromisso da SodaStream de “construir uma ponte para a paz”, na qual 500 palestinos, 450 árabes israelenses e 350 judeus estão “trabalhando lado a lado, recebendo pagamento igual, benefícios iguais e com direitos iguais”. Os palestinos que trabalham na unidade da SodaStream ganham duas ou três vezes mais do que receberiam da Autoridade Nacional Palestina (ANP).

“Esta é uma relação coercitiva por definição”, disse o ativista pelos direitos humanos palestinos Omar Barghouti, cofundador do movimento Boicote, Desinvestimentos e Sanções (BDS). “Depois de décadas destruindo sistematicamente a indústria e a agricultura palestinas e de impor restrições extremas à circulação, impedindo que muitos chegassem aos seus locais de trabalho, Israel obrigou milhares de trabalhadores e agricultores palestinos a buscar empregos nas colônias ilegais israelenses”, acrescentou. Ativistas do BDS consideram que a SodaStream é uma “bolha de sangue”.

“Somos uma anomalia”, reconheceu o presidente da empresa, Daniel Birnbaum, que se descreve como um fervoroso partidário da solução de dois Estados. Apressadamente, Birnbaum convidou jornalistas estrangeiros para conhecerem a controvertida fábrica, ocasião em que se mostrou indignado diante do movimento BDS, e perguntou “por que dar emprego é um obstáculo à paz? Se esta área acabar sendo parte da Palestina, não terei problemas em pagar impostos ao governo palestino”, afirmou, elogiando em seguida a “heroica posição” de Johansson.

Entretanto, Barghouti disse à IPS que, “mediante a resistência civil popular e os esforços sustentados do BDS, como contra o apartheid na África do Sul, Israel será obrigado a reconhecer nossos direitos sob o direito internacional e acabar com seu regime de ocupação, colonização e segregação”. Nos últimos dias, instituições nórdicas decidiram romper seus vínculos com as empresas israelenses envolvidas na construção de assentamentos ou que mantêm filiais na Cisjordânia e em Jerusalém oriental.

O Danske Banc, o maior banco da Dinamarca, colocou na lista negra o Bank Hapoalim de Israel. O Ministério das Finanças da Noruega excluiu as firmas israelenses Africa Israel Investments e Danya Cebus de seu Fundo Mundial de Pensões do Governo. A PGGM, maior companhia de administração de fundos de pensões da Holanda, retirou todos seus investimentos dos cinco maiores bancos de Israel.

O acordo científico Horizon 2020, assinado por Israel e pela União Europeia (UE), proíbe entidades do bloco de financiar pesquisas acadêmicas nos assentamentos, e agora a Alemanha, o aliado europeu mais forte de Israel, prevê ampliar a proibição para empresas privadas que operam nos territórios ocupados. Em julho do ano passado, a Comissão Europeia, órgão executivo da UE, divulgou novas pautas proibindo que as instituições do bloco concedessem subvenções ou empréstimos a organizações israelenses vinculadas às colônias.

Barghouti destacou o aumento do apoio ao boicote acadêmico contra Israel nos Estados Unidos e na Irlanda, e a crescente quantidade de artistas ocidentais que se negam a atuar em Israel. No entanto, Birnbaum parece não se perturbar com a onda de ações do BDS. “Os países nórdicos boicotam produtos manufaturados nesta fábrica. Nós passamos a produção para nossa unidade na China”, afirmou. Mas o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, alertou o governo israelense que, se fracassarem as conversações de paz, Israel corre o risco de enfrentar maiores ameaças de boicote e campanhas de deslegitimação.

O BDS promove o fim da ocupação israelense em territórios palestinos, incluindo o desmantelamento da barreira de segurança e as colônias. O movimento também reclama “o direito sancionado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e inerente aos refugiados palestinos de regressarem à suas terras de origem”. Para a maioria dos israelenses, o direito de regresso de milhões de refugiados palestinos desde a guerra de 1948, e de seus descendentes, ao que atualmente é Israel equivaleria a que seu país deixasse de ser um Estado judeu.

O reconhecimento de Israel como tal por parte da ANP é uma das principais demandas do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Por outro lado, tal caracterização é rechaçada categoricamente pelos palestinos, que consideram que isso equivaleria a ignorar não só seu direito de retorno, importante demanda palestina e ponto crucial do conflito, mas também a existência da minoria de palestinos israelenses, que constituem aproximadamente 20% da população de Israel.

Netanyahu convocou uma reunião de seu gabinete para orquestrar opções estratégicas a fim de enfrentar as potenciais iniciativas europeias do BDS. “A estratégia mais eficaz e imediata para enfrentar o BDS e outras formas de guerra política é pôr fim ao financiamento maciço que se dá a organizações não governamentais radicais que promovem essas campanhas contra Israel”, afirma em seu site a NGO Monitor, uma organização de direita próxima ao governo israelense. Envolverde/IPS