kenia640 O celeiro vazio do Quênia

Jane Njeri, da semiárida divisão de Mukurweini, e seus cinco filhos, têm muito pouco para comer por culpa da atual escassez de milho que afeta o Quênia. Foto: Miriam Gathigah/IPS

 

Nairóbi, Quênia, 11/2/2014 – Jane Njeri, da semiárida divisão de Mukurweini, na Província Central do Quênia, começou a ferver raízes silvestres para alimentar seus cinco filhos, todos com menos de dez anos e muito pequenos para entender o motivo de não ter comida na mesa. “À noite se recusam a dormir com o estômago vazio, por isso digo que estou fervendo araruta (Maranta arundinacea). Como sabem que demora para cozinhar, esperam pacientemente até que acabam dormindo ao lado do fogo”, contou à IPS.

Segundo a regional Autoridade para o Manejo de Secas, Mukurweini só recebeu 200 milímetros de chuvas anuais, o que causou uma severa escassez de alimentos. E Mukurweini não é a única região que sofre seca ou falta de alimentos. As áreas áridas são as mais afetadas, particularmente o condado de Turkana, na Província do Vale do Rift, onde metade de seus 400 mil habitantes sofre fome extrema.

Segundo o Instituto de Pesquisas Agrícolas do Quênia (Kari), pelo menos um quarto dos 41 milhões de habitantes deste país do leste africano carece de suficientes alimentos, e 1,7 milhão correm o risco de sofrer fome severa. Segundo a Rede de Sistemas de Alerta de Fome, com exceção de escassas áreas, todo o país sofre uma situação de insegurança alimentar, pois a última colheita de milho, o alimento básico no Quênia, não foi suficiente para alimentar toda a população.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) afirma que o país tem déficit de aproximadamente dez milhões de sacas de milho, e alerta que a previsão é que a seca atingirá seu clímax em agosto. No entanto, especialistas agrícolas, como Mary Abukutsa-Onyango, culpam pela escassez a excessiva dependência da agricultura baseada nas chuvas.

Segundo o Ministério da Agricultura, menos de 7% da terra cultivada no Quênia é irrigada, e o plano do governo para colocar meio milhão de hectares sob irrigação, particularmente em áreas áridas e semiáridas, não avança de maneira suficiente. Abukutsa-Onyango pontuou que também se dá muita ênfase no milho como cultivo alimentar básico. “Não estamos cultivando outros produtos, como sorgo, milho africano, araruta, batata-doce e amendoim, bem como frutas e verduras autóctones que podem crescer facilmente em muitas partes do país, criando fontes alternativas de alimentos”, ressaltou.

Winnie Mapenzi, especialista em segurança alimentar, disse à IPS que os pequenos agricultores, que produzem três quartos dos alimentos do país, não conseguiram produzir o suficiente para alimentar a nação por vários problemas. “Eles têm pouco acesso a insumos e serviços financeiros e uma infraestrutura de má qualidade”, afirmou a especialista, explicando que isto significou que os pequenos agricultores não puderam ter acesso aos mercados para vender a colheita excedente. E também implicou terem “instalações de armazenamento de má qualidade, que causam perdas posteriores à colheita”.

O limitado financiamento do setor agrícola também é apontado como responsável pela escassa produção alimentar. Em 2003, o Quênia foi um dos 53 países africanos que assinaram o Programa Exaustivo de Desenvolvimento Agrícola da África para acelerar o crescimento e reduzir a pobreza em massa, a insegurança alimentar e a fome na África, no qual os governos se comprometeram a destinar um mínimo de 10% do orçamento nacional à agricultura.

Estatísticas da Oxfam Internacional mostram que apenas nove países cumprem este limite. “Dez anos depois (do acordo de 2003), o Quênia não conseguiu destinar nem 10% de seu orçamento nacional ao Ministério da Agricultura”, destacou Abukutsa-Onyango. No orçamento de 2013, a agricultura representou 3,6% do gasto nacional. Para superar essa brecha, houve maior participação de doadores no setor agrícola, segundo o escritório queniano da organização ActionAid International.

Porém, o Ministério da Agricultura não conseguiu utilizar o dinheiro. Gastou apenas 61% de seu orçamento do ano financeiro anterior. O Kari recebeu menos de 1% do orçamento nacional, mas o instituto de pesquisa continua divulgando uma variedade de cultivos resistentes à seca. Porém, estes não são adotados por muitos agricultores porque, segundo Abukutsa-Onyango, “o custo das sementes híbridas está longe do alcance da maioria dos camponeses”. Envolverde/IPS