Mali1 O norte de Mali segue em crise enquanto o sul se recupera

Pessoas lavando roupa em águas do rio Níger, em Bamako. Foto: Marc-Andre Boisvert/IPS

 

 

Bamako, Mali, 10/2/2014 – Sob o abrasador sol vespertino, Daouda Dicko lava as roupas de seus clientes na encosta do rio Níger, que atravessa a capital de Mali. “Há dois anos comecei a fazer este trabalho para sobreviver. Agora estou acostumado e me agrada o dinheiro extra que rende”, disse à IPS este homem, que também trabalha como jardineiro.

Dicko se esforçou para alimentar sua família durante a crise em Mali, em março de 2012, quando os rebeldes tuaregues e os islâmicos tomaram o controle de quase dois terços desse país do ocidente africano. Mas a intervenção militar da França libertou o norte em janeiro de 2013 e levou a eleições no país em julho do mesmo ano. O conflito destruiu a economia de Mali e gerou pressão sobre as famílias. Mas a situação agora mostra lentos sinais de melhoria no sul.

Binetou Diarra acomoda tomates em sua banca de madeira do Quartier du Fleuve, um mercado de Bamako. “Os preços aumentaram muito há um ano. Mas agora praticamente voltaram à normalidade”, disse à IPS esta mulher de 37 anos, vestindo uma camiseta da campanha presidencial do ano passado. O óleo de cozinha, que aumentou para o equivalente a US$ 2,47 em setembro de 2012, agora baixou para US$ 1,75. Mas em Bamako não é só nos bolsos dos consumidores que se nota sinais visíveis de recuperação econômica.

Os hotéis, fechados entre 2012 e 2013, reabriram. Mas já não estão cheios com os 250 mil turistas que, segundo o Escritório de Turismo de Mali, chegaram ao país em 2009. O Hotel de l’Amitié, um dos maiores edifícios de Bamako, se converteu na sede da missão da Organização das Nações Unidas (ONU) na capital. Outros hotéis estão repletos de pessoal de organizações não governamentais e de outras missões para ajudar Mali a retomar seu caminho.

Os restaurantes e outros comércios também estão ocupados com o regresso de expatriados. Fatoumata Coulibaly e seus amigos têm comércios perto de vários bairros de expatriados. E o regresso deles tem um efeito direto sobre seus faturamentos. “Está entrando mais dinheiro. Não é fácil sobreviver, mas somos positivos. Sabemos que o pior ficou para atrás”, afirmou a IPS.

Rumo ao crescimento

Em janeiro, Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), disse que o produto interno bruto de Mali aumentará 6,6% ao ano, corrigindo, assim, uma previsão anterior de 5,7%. Lagarde disse à imprensa em Mali que o país deveria avançar para a recuperação. “Agora temos que fortalecer os fundamentos econômicos para aumentar o crescimento, gerar empregos e reduzir a pobreza”, acrescentou. No entanto, haverá desafios.

Quando foram impostas sanções a Mali depois do golpe de Estado de 2012, o país perdeu 30% de seu orçamento de US$ 3,5 bilhões, que dependia da ajuda estrangeira. Os escritórios do governo centralizados na Cidade Administrativa, um complexo localizado na costa do rio Níger, se converteram em um distrito fantasma durante um ano, devido à escassez de dinheiro.

“Ficamos totalmente paralisados durante a crise. Recebi meu salário, mas atrasado. Não havia orçamento para realizar operações. Mas agora as coisas voltam à normalidade. Nos pagam e temos as ferramentas para trabalhar”, contou à IPS Fofana Daouda, funcionário do Ministério da Família.

No entanto, enquanto a capital experimenta uma lenta recuperação, o norte ainda carece de oportunidades econômicas, e muitos ainda vivem na pobreza extrema, disse Dedeou Traore, membro do parlamento pela região de Niafunké, do norte. “A economia é ruim”, afirmou à IPS. Os habitantes do norte, cujo sustento dependia em grande parte da agricultura de subsistência perderam tudo. “Em Niafunké, o prefeito está de volta, mas a justiça e outras instituições estatais não voltaram. As pessoas se sentem abandonadas”, explicou o parlamentar.

Em maio de 2013, doadores internacionais ofereceram quase US$ 3,5 bilhões para reconstruir Mali. Mas na semana passada voltaram a se reunir em Bruxelas porque só entregaram metade dos fundos prometidos. Enquanto isso, um relatório, divulgado no dia 5, pela Oxfam Internacional pede melhor governança e melhor distribuição dos recursos estatais. O documento denuncia que “o impacto combinado de descentralização frágil, corrupção e falta de transparência na destinação orçamentária e na distribuição da ajuda causou uma crença generalizada de que os cidadãos do país não recebem do governo o que lhes cabe”.

“A situação no norte de Mali é frágil. Os doadores não devem esquecer que mais de 800 mil pessoas precisam de ajuda alimentar imediata devido ao impacto do conflito, às más colheitas e às chuvas escassas. Mali precisa de uma resposta exaustiva aos muitos desafios que enfrenta”, disse Mohammad L. Coulibaly, diretor da Oxfam neste país.

Aicha Belco Maiga integra o partido do presidente Ibrahim Boubacar Keita, que tem maioria no parlamento. Ela representa a região de Tessalit, um dos lugares mais isolados e áridos de Mali, perto da fronteira com a Argélia. “Em Tessalit estão paralisadas todas as atividades econômicas. A localidade está vazia. As pessoas que ficaram tiveram que vender seus pertences para comprar alimentos. Não há nada para comer. Não há uma administração que funcione. A situação é tão ruim que se vê que são trocados mais dinares argelinos do que francos CFA. Essa população precisa de nossa ajuda. A economia não está em crise. Está morta”, destacou. Envolverde/IPS