Estudantes ilegais no limbo migratório dos Estados Unidos

Todos os anos, cerca de 65 mil jovens ilegais, como este jogador de futebol de uma escola secundária de Somerville, Estado de Massachusetts, entram no país com seus pais. Mas, com a paralisação da reforma migratória em Washington, ficam presos em um limbo legal sem poderem seguir estudos universitários. Foto: Marcelo Brociner/IPS

 

Somerville, Estados Unidos, 9/5/2014 – Fez tudo certo. Trabalhou duro. Foi excelente aluno. Se converteu em capitão de sua equipe de futebol e é procurado por meia dezena de universidades nos Estados Unidos. “Marquei seis gols e dei 28 passes para gols. Minha equipe foi às finais estaduais”, contou um tranquilo jovem de 18 anos. Porém, essa estrela do futebol da escola secundária de Somerville, no Estado de Massachusetts, não poderá ir à universidade. Não pode aspirar bolsas de estudo nem empréstimos.

Nem mesmo pode ter acesso à matrícula estadual, um benefício ao qual têm direito os moradores de cada Estado que queiram entrar em instituições públicas como a Universidade de Massachusetts, e que significa desconto de aproximadamente US$ 13 mil por ano. Esse jogador não tem documentos de identidade. “Não vou mentir. Deito todas as noites pensando nisso”, confessou o jovem, cuja identidade se preserva para protegê-lo e à sua família. “Às vezes minha mãe me vê chorar e pergunta o que acontece, mas não gosto de falar disso. Não quero magoar meus pais que trabalham duro”, afirmou.

Todos os anos, cerca de 65 mil jovens ilegais entram no ensino secundário nos Estados Unidos. Chegaram ainda crianças ao país, que não consegue aprovar uma reforma migratória integral, e permanecem em um limbo legal. Pode haver várias dezenas de adolescentes sem documentos legais prestes a se formarem na escola secundária pública nessa cidade de 77 mil habitantes, onde, em uma em cada três famílias, se fala uma língua diferente do inglês e dois terços dos estudantes pertencem a minorias étnicas.

Como a legislação norte-americana garante o direito à educação a todas os meninos e meninas e proíbe as autoridades de indagar sobre a situação legal dos alunos, ninguém sabe exatamente o número de jovens nessa situação. Estima-se que existam cerca de 11 milhões de pessoas vivendo ilegalmente nos Estados Unidos.

A conselheira escolar Anne Herzberg, que ajuda os estudantes a preencherem os formulários de inscrição para a universidade, disse que vê muitos moços e moças nessa situação. “O mais difícil é ver todos os anos aqueles que fizeram tudo certo no secundário e que, devido ao seu status legal, não encontram um lugar que os aceite e lhes dê a ajuda econômica que precisam para cursarem quatro anos de universidade”, destacou à IPS.

Um curso de quatro anos pode custar nos Estados Unidos até US$ 60 mil por ano em uma instituição privada, incluindo alojamento e comida. Nas universidades públicas, o valor varia entre US$ 15 mil e US$ 23 mil, se o estudante puder se beneficiar da matrícula de residente. Alguns jovens ilegais têm opções, pois 16 dos 50 Estados norte-americanos oferecem matrícula estadual a residentes nessa situação. Mas Massachusetts não é um deles.

Outra opção é o programa Deferred Action for Childhood Arrivals (Daca), criado em 2012 pelo Departamento de Segurança Interna, que entrega aos jovens autorização de trabalho temporário e permite que aspirem uma matrícula estadual e alguns outros benefícios. Mas o requisito é ter entrado no país antes de 15 de junho de 2007 e ter menos de 31 anos em 15 de junho de 2012. O custo é de US$ 465 e o cartão Daca tem validade de apenas dois anos. Para renová-lo é preciso pagar novamente esse valor.

No final do ano passado, 610.694 pessoas haviam recebido o cartão Daca em todo o país, e 5.232 em Massachusetts, segundo o Departamento de Segurança Interna. “Somerville tem uma grande quantidade de estudantes que podem aspirar o cartão Daca”, explicou Herzberg. Ela conhece dez que o solicitaram. Mas “é caro, e a grande maioria dos estudantes com os quais trabalho chegou depois de 2007”, lamentou. Esse é o caso do jogador de futebol. “Cheguei aos Estados Unidos no dia 27 de janeiro de 2009”, contou. “Dois anos atrasado”, observou.

“Tomara que mais gente compreenda o que é ver estudantes se esforçarem tanto para descobrirem que não têm muitas portas abertas. Como imigrante e conselheira escolar, é difícil para mim não acreditar no sonho americano, que os estudantes possam ficar, ter sucesso, trabalhar duro e consegui-lo”, ressaltou Herzberg.

Em 2001 foi apresentado o projeto de lei Dream (sonho, em inglês e acrônimo de desenvolvimento, alívio e educação para menores estrangeiros). Reapresentado em 2009, permitiria a legalização dos jovens que fossem à universidade ou se alistassem nas forças armadas por um período de pelo menos dois anos. Depois teriam um prazo de espera de cinco anos para almejarem a residência permanente.

Estudantes ilegais no limbo migratório dos Estados Unidos

Entre 800 mil e dois milhões de jovens poderiam se beneficiar da lei Dream, e cerca de 27 mil em Massachusetts, segundo o Center for American Progress. Esse centro de pesquisa calcula que a aprovação da lei injetaria cerca de “US$ 329 milhões na economia norte-americana e criaria 1,4 milhão de postos de trabalho até 2030”. Mas, como outros projetos sobre imigração, a Dream está parada na atual legislatura, considerada por muitos a mais ineficaz da história.

O representante por Massachusetts, Michael E. Capuano, do governante Partido Democrata, apoia esse projeto “como uma ponte para ir onde realmente queremos estar”, que é uma reforma migratória integral. Descendente de italianos e irlandeses, Capuano lamenta que haja tantos jovens “reféns” dessa situação. “Pode-se discutir todos os dias da semana sobre os adultos que chegam ou que ficam de forma ilegal, mas não creio que seja válido incluir na discussão as crianças que não escolheram a vida que têm”, insistiu. “Os imigrantes estão aqui pela mesma razão que trouxe minha família. Para melhorar sua vida e a de seus filhos”, ressaltou.

Herzberg incentiva os estudantes a não se renderem. “Meu conselho é: você pode ir à universidade e deve lutar por isso. Participem de organizações que lutam pelos direitos dos imigrantes. Quanto mais fizerem, maiores possibilidades terão de que as coisas melhorem, já que sentar e esperar não muda a realidade das pessoas”, acrescentou.

O jovem jogador de futebol não sabe o que fazer. Se ele e sua família conseguirem o dinheiro, talvez vá para uma universidade comunitária. Ou, talvez, retorne ao seu país de origem, o Brasil. “Creio que, para as pessoas boas, acontecem coisas boas, e trabalhei duro por mim, para ter sucesso e por meu futuro. Tenho esperanças. A esperança é a última que morre”, afirmou. Envolverde/IPS

* Com colaboração do estudante de jornalismo Marcelo Brociner.