14 A revolução da energia se projeta para o futuro na AlemanhaHelsinque, Finlândia, junho/2014 – A Alemanha é hoje em dia a primeira nação no campo da energia renovável. Os números afirmam isso. A economia alemã obtém 29% da eletricidade que consome de fontes renováveis: solar, hídrica, eólica e a proveniente de madeira e biomassas.

Essa média nacional oculta grandes diferenças entre as regiões do país. O Estado de Saarland produz apenas 15% de eletricidade de fontes renováveis e o de Rheinland-Pfalz só 21%, enquanto os Estados de Schleswig-Holstein e Mecklenburg-Vorpommern chegam a 54% e 56%, respectivamente.

O caso que chama mais a atenção é o do Estado de Brandenburgo, vizinho a Berlim, onde 78% da eletricidade provem de turbinas eólicas, painéis fotovoltaicos e biomassa.

Deve-se destacar que Brandenburgo é um território mediterrâneo e faz parte da vasta planície do norte da Europa. Em outras palavras, não tem acesso ao mar e sua capacidade de gerar energia de origem hídrica, e complementar com outras fontes renováveis, é escassa.

Apesar dessas limitações, é provável que em alguns anos Brandenburgo chegue a gerar mais eletricidade de origem renovável do que a que consumirá, e exportar uma parte crescente de sua produção.

É frequente a afirmação de que é quase impossível conseguir um sistema de energia que obtenha 100% de sua eletricidade de fontes renováveis.

Segundo a opinião convencional, essas fontes sempre necessitarão do complemento de uma boa parte de eletricidade proveniente de combustíveis de origem fóssil, já que as turbinas eólicas só geram eletricidade enquanto sopra o vento e os painéis fotovoltaicos o fazem apenas enquanto brilha o sol.

A realidade alemã demonstra que as preocupações são excessivas. Em Brandenburgo e outros Estados alemães, as fontes renováveis (solar, eólica e biomassa) se complementam eficazmente, desmentido as previsões pessimistas de muitos especialistas.

O norte da Alemanha pode produzir pouca energia solar durante o inverno. Porém, a maior parte da energia eólica é gerada no inverno, porque na Alemanha essa estação apresenta mais vento do que o verão.

Além disso, o vento de inverno é mais frio e denso do que o de verão e por isso as correntes de ar contêm mais energia. A queima de madeira e outras biomassas para o aquecimento doméstico e geração de eletricidade também se concentra nos meses de inverno.

Um fator fundamental da chamada revolução alemã (Die Energiewende) é um sistema de pagamento aos produtores individuais de energia solar e eólica (feed-in-tariff), introduzido por lei em 2000, que garante uma tarifa relativamente elevada e fixa. Depois da aprovação dessa lei a capacidade instalada de eletricidade solar aumentou de 114 para 36 mil megawatts (MW), e a eólica de seis mil para 35 mil MW, no final de 2013.

O plano oficial prevê que em 2020 a participação das fontes renováveis chegará a 35% do consumo de eletricidade na Alemanha, aumentando para 80% em 2050.

O sucesso do programa de energia solar também gerou alguns problemas políticos.

Estima-se que 1,4 milhão de prédios residenciais instalaram redes de painéis solares em seus tetos. Em consequência, o custo do sistema feed-in-tariff se expandiu e agora custa cerca de 18 bilhões de euros (US$ 24,3 bilhões) por ano.

Como os custos do programa não são cobertos por subsídios públicos, a eletricidade que os privados consomem (e não produzem) encareceu.

Por outro lado, os exportadores alemães se beneficiaram porque foram isentados da carga correspondente ao tariff-in-system, e porque produzem parte da eletricidade que consomem, o que resulta em um preço total baixíssimo.

A Alemanha ainda não decidiu qual seria o melhor caminho para aumentar a produção de eletricidade solar e eólica e, ao mesmo tempo, evitar um tratamento desigual entre os diferentes setores de consumidores.

Mas deve ser descartada a ideia de que a revolução energética alemã começou a diminuir, como afirmam muitos analistas.

A mais recente pesquisa de opinião mostra que dois terços das empresas projetam produzir ao menos uma parte de seu consumo elétrico por meio de painéis solares.

A opinião publica compreendeu o aspecto mais importante da revolução energética. A Alemanha foi capaz de criar uma industria de painéis fotovoltaicos que atrai a demanda – junto com Itália e Espanha – de grande parte do mundo, graças à redução de custos. O preço médio unitário das células caiu de cinco euros (US$ 6,75) em 2003 para 0,7 euro (US$ 0,94) no ano passado.

Embora a energia solar agora seja economicamente competitiva inclusive no norte da Europa, as regiões ensolaradas da Terra recebem o dobro de radiações solares e têm níveis salariais e custos de instalação menores do que os europeus.

No Sul em desenvolvimento, a indústria da energia fotovoltaica está destinada a ser maior e economicamente mais conveniente do que na Europa e é provável que o boom da demanda ocorra em curto prazo em muitos países.

* Risto Isomäki é militante ambientalista e escritor finlandês.