1152 Festas gays marcam brechas na comunidade LGBTI cubana

Festas gays marcam brechas na comunidade LGBTI cubana.

 

Havana, Cuba, 23/6/2014 – Dois homens se beijam enquanto um casal de mulheres dança sem incomodar a clientela do clube privado Humboldt 67, um dos locais que viu um filão comercial na insatisfeita demanda por espaços recreativos para o coletivo LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersexuais), na capital de Cuba.

As festas para homossexuais, que há poucos anos eram ilegais e geralmente acabavam com a chegada da polícia, agora têm programas fixos em estabelecimentos estatais e privados da florescente vida noturna cubana. Porém, ativistas alertam para o perigo de que esse direito traga consigo a segregação das pessoas não heterossexuais e a formação de guetos dentro desse coletivo bastante diverso.

“Os lugares onde as pessoas LGBTI possam expressar seus modos e suas preferências com liberdade e sem pressão são necessários”, disse à IPS o ativista Isbel Díaz, do Projeto Arco-Íris, uma organização defensora dos direitos sexuais. Entretanto, fica difícil que esses estabelecimentos transformem a consciência do público heterossexual homofóbico porque são espaços lúdicos e não de ativismo, acrescentou.

“Não são gerados pela comunidade LGBTI de maneira autônoma, mas buscam ganhos comerciais a partir da lenda de que o mercado rosa é muito solvente”, disse, por sua vez, à IPS Yasmín Portales, também integrante do Projeto Arco-íris. Portales afirmou que a perseguição policial diminuiu, mas agora surge uma “opinião pública” ofendida pela existência de locais de lazer que qualifica de “indecentes”. Segundo a ativista, “passamos da repressão em nome da ilegalidade para a legalização e a visibilidade sem o acompanhamento de um debate pela sociedade”.

Projetos culturais independentes como El Divino e Los Dioses Del Olimpo organizam espetáculos culturais dirigidos ao público homossexual em diferentes boates da capital.

Um público muito diverso, que pode pagar entradas entre três e cinco CUC (equivalente ao dólar) em um país no qual o salário estatal médio é de US$ 20 mensais, desfruta até quase o amanhecer de apresentações de DJs, cantores populares, transformistas, danças eróticas com modelos esculturais, homens e mulheres. Na falta de espaços de promoção, seus promotores divulgam as atividades por meio de mensagens de texto por celular, folhetos entregues nas ruas ou pelo “boca a boca”.

Outros bares, discotecas e restaurantes se declaram amigáveis com a comunidade gay e lésbica. O estatal Escaleras ao Cielo é um dos mais frequentados por mulheres inclinadas sexual ou sentimentalmente a outras mulheres, enquanto os privados Le Chansonier e Esencia Habana dedicam noites à diversidade sexual.

Mesmo fora da capital surgem esses espaços, embora com menor frequência. É o caso de La Vaca Rosada, um bar-restaurante privado muito popular no balneário turístico de Varadero, 150 quilômetros a leste de Havana. “Embora seja uma zona turística, este continua sendo um povoado do campo e não há tantos locais gays como na capital”, disse à IPS o dono do lugar, Ever Cano, que precisou começar sensibilizando seus 14 funcionários sobre o respeito às pessoas e aos casais de toda condição.

Cano afirma que seu estabelecimento, encravado no terraço de sua casa, é gayfreindly (amigável com a diversidade sexual). A estética gay é notória na decoração pop do local, nos porta-copos com mensagens contra a homofobia e no cardápio de bebidas que levam nomes como Drag Queen Mojito e Vodka Travesti.

“Sou de uma geração que sofreu bastante pelas muitas maneiras como os gays foram maltratados em Cuba. Fui expulso do trabalho e do bacharelado por causa da minha orientação sexual. Hoje me sinto feliz em poder falar abertamente de um tema que era tabu”, revelou este empresário de 52 anos, que também trabalha em uma agência estatal.

Cuba é um país de forte cultura machista e homofóbica, onde houve agressões públicas a pessoas LGBTI nas primeiras décadas da revolução iniciada em 1959. A discriminação institucional foi corrigida paulatinamente desde o começo dos anos 1990, quando a homossexualidade foi despenalizada. Mas os ativistas afirmam que a polícia ainda aplica com frequência sanções por “escândalo público” a pessoas não heterossexuais, caso se mostrem efusivos em público.

Uma pesquisa sobre o transformismo cubano, publicado em 2011 pela jornalista Marta María Ramírez, afirma que as festas gays têm seu primeiro período entre 1994 e 1997, quando aconteciam clandestinamente na periferia de Havana, com a polícia vigiando. “Sem se condenar legalmente, mas com múltiplos pretextos para reprimi-las, ressurgem com novos brios nos anos 2004 e 2005, muito esporádicas e isoladas, tanto no tempo como no espaço”, resume a comunicadora no blog TransCuba.

A campanha em favor do respeito à livre orientação sexual e identidade de gênero, que desde 2007 é promovida pelo estatal Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex), deu visibilidade à comunidade LGBTI e impulsionou algumas reivindicações.

Em 2010, o Cenesex conseguiu um convênio com o Ministério da Cultura para a apresentação sistemática de artistas transformistas na boate Las Vegas, em Havana, que do palco promovem o sexo seguro e a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Sob a luz do palco do Las Vegas, as anfitriãs Margot e Império (nomes artísticos dos transformistas Riuber Alarcón e Abraham Bueno, respectivamente) salpicam suas apresentações com mensagens sobre o uso da camisinha.

Não há muitas estatísticas sobre LGBTI em Cuba. Mas a Pesquisa sobre Indicadores de Prevenção do HIV/aids de 2011, do Escritório Nacional de Estatísticas e Informação, indica que 6,3% dos homens cubanos entre 12 e 49 anos tiveram sexo com outros homens. Deles, 49,6% declararam ter companheiro estável. O estudo também mostra que são homens 80% das pessoas que vivem com HIV (vírus causador da aids), dos quais 86% praticam sexo com outros homens.

A prostituição masculina e transgênero é habitual nesses lugares, onde também cresce o turismo sexual, de homens gays estrangeiros, majoritariamente de idade madura, que viajam a Cuba para praticar sexo com outros homens.

Alberto Roque, médico e ativista gay, identificou outras discriminações latentes nos crescentes espaços desse tipo. A seu ver, predominam homens gays, majoritariamente brancos e com alto poder aquisitivo, enquanto lésbicas e transexuais permanecem menos visíveis.

Pensando nas lésbicas e transgêneros sem dinheiro para frequentar centros noturnos, a afro-feminista Anabelle Mitjans criou o projeto Motivito, que realiza reuniões lúdicas para pessoas não heterossexuais em casas particulares e lugares públicos, sem pedir dinheiro aos assistentes.

“O mundo gay está se convertendo em um espaço restritivo economicamente e de consumo capitalista, como um gueto onde as lésbicas não são rentáveis”, afirmou à IPS esta professora universitária e que se declara “queer” (pessoas que rompem com o esquema heterossexual, gay e lésbico). Mitjans defende os locais próprios da comunidade LGBTI, mas pede mais. Deseja uma sociedade onde se possa compartilhar e se divertir com seu companheiro, ou companheira, sem ser discriminada, em nenhum lugar. Envolverde/IPS