Internet oferece uma via para romper o bloqueio em Gaza

Khalil Salim (esquerda) e Yassir Younis, proprietários da companhia de aplicativos móveis e desenvolvimento de software Motawiron, que surgiu da Incubadora de Tecnologia em Gaza. Foto: Khaled Alashqar/IPS

 

Gaza, Palestina, 23/6/2014 – “Quando concluí meus estudos, me juntei aos milhares de formados na lista dos desempregados. Depois li sobre um projeto que oferecia uma incubadora de tecnologia para projetos juvenis, me inscrevi, fui aceito, e agora já não estou nessa lista”, disse à IPS o empresário de produtos de informática, Yasser Younis.

Este coproprietário da Motawiron, empresa de aplicativos móveis e desenvolvimento de software, descreveu dessa forma sua experiência na Incubadora de Tecnologias da Informação e das Comunicações da Palestina, um programa criado e dirigido pelo Colégio Universitário de Ciências Aplicadas (Ucas) de Gaza, com apoio da organização humanitária Oxfam.

A iniciativa tem o objetivo de furar o bloqueio de Israel. O programa proporciona aos estudantes de pós-graduação o patrocínio e o apoio financeiro necessários para desenvolverem seus projetos durante um período de gestação de seis meses, com pessoal e mão de obra para ajudá-los a trabalhar em colaboração com empresas estrangeiras e comercializar seus produtos na internet.

“As ideias são aceitas com base em critérios específicos e sua capacidade de superar o bloqueio contra Gaza e de comercialização dos produtos no estrangeiro pela internet”, explicou à IPS o professor Saeed Azzibda, gerente de programas de desenvolvimento do Ucas. “Se esses critérios essenciais são atendidos, apoiamos a ideia e a desenvolvemos até que se converta em um produto com potencial de comércio exterior”, acrescentou.

A Incubadora de Tecnologia qualifica cinco empresas em cada sessão de avaliação e alguns de seus projetos já desenvolveram seus próprios programas e aplicações que são vendidos no mercado internacional de software para telefone celular.

O programa foi muito bem recebido pela comunidade palestina e no âmbito internacional, e alguns investidores árabes ofereceram aos participantes de maior sucesso a oportunidade de viajar e trabalhar no Catar e em outros países da região interessados no campo da tecnologia e dos mercados online, bem como locais para as empresas emergentes fora de Gaza e aumentar o investimento nelas.

A incubação tem dois aspectos. “O primeiro é que a empresa venda seus produtos pela internet para superar o bloqueio de Gaza, e o segundo é que os estudantes que criarem suas próprias empresas possam explorar oportunidades fora das fronteiras e desenvolver investimentos no exterior também com o objetivo de apoiar o povo” palestino, explicou o professor Azzibda.

Dois dos que participaram do programa do Ucas são Younis e Khalil Salim, proprietários da Motawiron. Após seis meses de incubação, agora vendem seus produtos pela internet para empresas da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e outros países. A Motawiron foi escolhida para representar a Palestina na copa Imagine, a competição mundial de estudantes de tecnologia organizada pela Microsoft.

Embora tenha sido a primeira vez que a Palestina esteve representada, o bloqueio de Gaza impediu Younis e Salim de viajarem no começo deste mês ao Catar para as semifinais regionais da copa, mesmo tendo os documentos necessários e o convite oficial.

“Nossa empresa desenvolveu o aplicativo Esperanza para telefone celular, que ajuda as pessoas surdas a se comunicarem e se integrarem à sociedade. Obtivemos o primeiro lugar na Palestina e agora competiremos no mundo, mas não pudemos viajar”, contou Younis à IPS.

Mais de 40 mil estudantes universitários se formam por ano na Palestina, o que gera a necessidade urgente de encontrar formas criativas de incorporar suas habilidades ao mercado de trabalho. Mas o constante assédio e bloqueio de Israel enfraqueceram o mercado em diferentes níveis.

Algumas organizações humanitárias, entre elas a Oxfam, gerenciam programas de desenvolvimento que apoiam os diplomados pelo Ucas na entrega de seus produtos ao resto do mundo via internet, apesar dos cortes de eletricidade durante 12 horas por dia e das dificuldades para a entrada de equipamentos de apoio para as empresas emergentes em Gaza.

“A tecnologia da informação é um dos setores emergentes e promissores em Gaza, onde os produtos, cujo acesso tradicional ao mercado está impedido pelo bloqueio, podem ser oferecidos pela internet”, disse à IPS o coordenador de meios de comunicação da Oxfam, Alun Macdonald. “Uma companhia que produz publicidade animada ganhou seis contratos fora de Gaza com empresas dos países do Golfo, Canadá e da Arábia Saudita”, destacou.

A jornalista Nour Al Harazin utiliza os meios de comunicação para superar as barreiras físicas e políticas que impedem o acesso ao mundo exterior. A jovem prepara o lançamento de um canal de notícias em inglês, com sede em Gaza, pela rede audiovisual YouTube. “Será o primeiro no mundo árabe e na Palestina. O canal dará informações e histórias humanas da assediada Gaza para o mundo exterior. Pela primeira vez exerceremos nosso direito como palestinos de transmitir nosso sofrimento, é a ideia principal do projeto”, explicou à IPS.

Ativistas de países ocidentais ajudarão a jornalista por meio das redes sociais. Harazin colocou na internet uma página para arrecadar fundos e publicou um vídeo curto no YouTube pedindo ajuda financeira e apoio de defensores da justiça em todo o mundo. “O assédio e a proibição de viajar sempre foram um obstáculo para os palestinos, por isso pensei em utilizar a internet e as redes sociais para chegar ao mundo que não podemos alcançar. A internet se converteu em um meio para romper esse cerco”, enfatizou. Envolverde/IPS