sierraleona Parteiras ajudam a baixar a mortalidade materna em Serra Leoa

As oito ilhas que formam as Ilhas Tartaruga, no sul de Serra Leoa, são de difícil acesso e seus moradores têm pouco contato com o resto da população. Foto: Joan Erakit/IPS

 

Mattru Jong, Serra Leoa, 2/9/2014 – Com uma das maiores taxas de mortalidade materna e a poucos meses do vencimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) das Nações Unidas, o governo de Serra Leoa capacitou parteiras tradicionais para levar serviços de saúde sexual e reprodutiva às aldeias mais remotas. E os homens que fazem parto também foram bem-vindos.

Emmanuel é um parteiro de 26 anos que trabalha em uma das oito ilhas situadas em frente à península de Serra Leoa. Sai de Mattru Jong, capital do distrito de Bonthe, na província Sul, e demora uma hora para chegar ali de lancha. Ele é um dos primeiros homens dedicados a fazer partos em uma das Ilhas Tartaruga. Facilita as visitas pré-natais, atende partos, cuida de algumas doenças e, quando necessário, envia pacientes ao hospital.

Para atender as necessidades de planejamento familiar e de serviços de saúde sexual e reprodutiva, o governo recorreu a parteiras tradicionais e as capacitou para que pudessem assumir os partos nas localidades mais distantes. Gozam de grande respeito dentro de suas comunidades, nas quais trabalham, e sua opinião, seus conselhos e conhecimentos são levados a sério.

A IPS visitou uma das lhas com representantes da organização Marie Stopes, do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e do Ministério da Saúde. Algumas das ilhas não têm atracadouro, por isso os visitantes, mas em especial as parteiras que vão atender pacientes, devem deixar a embarcação e caminhar para terra firme levando seus pertences sobre a cabeça para não molharem. “A dificuldade para as parteiras é que não têm um barco. Para serem eficientes, precisam de boa embarcação”, afirmou à IPS Safiatu Foday, coordenadora de planejamento familiar do UNFPA em Serra Leoa.

Com seis milhões de habitantes e mulheres cuja idade reprodutiva vai dos 15 aos 49 anos, este país redesenhou suas iniciativas sanitárias, trabalhando incansavelmente para fortalecer as capacidades de parteiras, um elemento essencial para reduzir a mortalidade materna e infantil.

Emmanuel atende uma aldeia insular com apenas algumas centenas de moradores, a maioria com grandes famílias e muitas delas só há pouco começaram a frequentar a unidade de saúde periférica (PHU). “Algumas pessoas nunca saíram da ilha”, contou Foday. Algumas mulheres dizem que pariram entre os 13 e 14 anos, antes que a Marie Stopes começasse a trabalhar ali.

A Marie Stopes é uma organização britânica que oferece serviços de saúde sexual e reprodutiva, bem como de planejamento familiar, em mais de 30 países. Seu trabalho é apoiar as iniciativas estatais e preencher os vazios em áreas de difícil acesso e às quais não chegam os serviços do governo.

Há várias razões pelas quais as mulheres têm uma gravidez após outra. Uma delas disse que temem ser abandonadas pelos maridos. Se não mantêm relações sexuais, eles buscarão em outro lugar, por isso não têm outra alternativa que não engravidar. Além disso, muitas precisam do consentimento do marido para usar anticoncepcionais.

“Estávamos o tempo todo grávidas, mas nossos maridos nos abandonavam assim mesmo e tínhamos que nos arranjar sozinhas para sobreviver. Desde que a Marie Stopes chegou à ilha e temos anticoncepcionais, podemos nos cuidar”, disse à IPS Yeanga, de 33 anos. “Quando eu quis consultar sobre planejamento familiar, meu marido não concordou, mas conversei com ele e finalmente acertamos que eu começaria a usar”, contou.

“Antes de chegarem as parteiras qualificadas à ilha, só havia as que não tinham capacitação e aconteciam muitos problemas com os nascimentos”, disse à IPS a enfermeira Isatuy Jalloh, de 28 anos. As complicações eram causadas por pré-eclampsia, fístulas obstétricas e outros problemas que podiam causar a morte da mãe.

Serra Leoa tem uma das maiores taxas de mortalidade materna, com 857 mortes em cada cem mil nascidos vivos, e também infantil, com 140 para mil nascidos vivos. Mas Jalloh acredita que nesta pequena ilha os indicadores diminuíram graças ao trabalho das parteiras. Planejar os nascimentos permitiu às mulheres do local começarem pequenos empreendimentos, e agora são capazes de gerar uma renda para elas e os filhos.

Em setembro de 2015, vence o prazo para o cumprimento dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) estabelecidos em 2000. Entre eles, o que inclui a redução da mortalidade materna em 75%, em relação aos dados de 1990, e o de reduzir a mortalidade infantil em 60%. Duas metas que exigem melhores serviços de planejamento familiar.

O UNFPA e a Marie Stopes oferecem suprimentos dentro desse esforço, e também são enviadas parteiras para localidades de difícil acesso, mas ainda há muitos desafios. Com o foco do vírus ebola, muitas parteiras foram evacuadas de imediato, o que deixou as pacientes, muitas delas grávidas, sem a atenção necessária.

Serra Leoa tem a possibilidade de melhorar seus serviços em matéria de saúde sexual e reprodutiva mediante associações como a que tem com a Health Coalition for All (Coalizão de Saúde Para Todos). “Nos concentramos em informação e monitoramento, e tentamos fazer com que os serviços estejam disponíveis, sejam acessíveis e cheguem aos seus beneficiários”, explicou à IPS Al Hassane B. Kamara, gerente de programa da coalizão.

Ao atender problemas como falta de pessoal, distribuição de suprimentos e, o mais importante, o elevado custo da atenção médica, a coalizão, com sede em Makemni, na província Norte, desempenha um papel fundamental no acesso das mulheres à atenção médica, em especial na gravidez.

Com programas como a Iniciativa Gratuita de Atenção Médica, que dá às mulheres grávidas e em período de amamentação e aos menores de cinco anos acesso a serviços médicos gratuitos, Serra Leoa se esforça para atender as necessidades de planejamento familiar e de saúde sexual e reprodutiva. Envolverde/IPS