O lago Cholila, à direita, com parte de seu vale envolto em fumaça, no dia 12 de março, na província de Chubut, na Patagônia argentina. Foto: Cortesia de Daniel Wegrzyn

O lago Cholila, à direita, com parte de seu vale envolto em fumaça, no dia 12 de março, na província de Chubut, na Patagônia argentina. Foto: Cortesia de Daniel Wegrzyn

Buenos Aires, Argentina, 16 de março de 2015 (Terramérica).- Após o incêndio que arrasou mais de 34 mil hectares de florestas, algumas milenares, na Patagônia, sul da Argentina, as autoridades deverão apagar chamas não menos graves: as novas catástrofes socioambientais que vão surgir de suas cinzas.

O pior incêndio florestal da história do país demorará a ser extinto plenamente nos arredores de Cholila, um povoado entre lagos, vales e montanhas, a noroeste da província de Chubut. Seus dois mil habitantes esperam pelo início, em abril, da época de chuvas nessa região encostada na Cordilheira dos Andes e limítrofe com o Chile.

Mas na localidade – que entre suas atrações turísticas tem o fato de ter sido esconderijo, em 1902, dos lendários bandoleiros norte-americanos Butch Cassidy e Sundance Kids – o grande temor é o que virá depois do incêndio, que começou no dia 15 de fevereiro e foi extinto oficialmente no dia 6 deste mês, embora a fumaceira e pequenas línguas de fogo ainda persistirão por mais um mês, segundo especialistas.

“Estamos muito angustiados. Perdemos o marco natural que escolhemos para viver e consequentemente a atividade econômica se ressentirá”, afirmou ao Terramérica, por telefone, o aviador Daniel Wegrzyn, que precisou fechar sua hospedaria no lago Cholila, que não foi afetada pelas chamas, mas funcionou como abrigo para as vítimas do incêndio.

Esses incêndios “podem afetar a qualidade do ar e a saúde” pela fumaça e pelo pó na atmosfera durante “meses ou anos depois”, explicou ao Terramérica o especialista em florestas patagônias Thomas Kitzberger, da Universidade Nacional de Comahue. O fogo devastou áreas de pastoreio bovino. Mas a pecuária e o ecoturismo estão longe de serem as únicas perdas. “O dano ecológico é o que vem”, afirmou Wegrzyn.

O incêndio arrasou florestas de ciprestes, ñirres (Nothofagus antartica), lengas (Nothofagus pumilio), coihues (Nothofagus dombeyi), bambus colihue (Chusquea culeou) e de espécies milenares como o alerce (Fitzroya cupressoides). O fogo também matou ou fez migrar a fauna endêmica, como veados, lagartixas, aves e raposas, e inclusive espécies em extinção, como os cervos sul-andinos.

Kitzberger explicou que esses ecossistemas abrigam plantas “relativamente bem adaptadas ao fogo, como as de matagais e estepes”, que são resilientes e “rapidamente rebrotam do fogo”. Outros como as florestas de coihues, ciprestes ou alerces, com resiliência moderada, “podem sobreviver ao fogo e recolonizar áreas queimadas”.

Mas, no caso dos alerces que suportaram fogo severo, seus viveiros morreram e essa perda é praticamente irrecuperável, porque seriam necessários vários séculos para formar uma nova floresta. Também “a lenga é incapaz de se regenerar nesses locais (onde o incêndio foi intenso) ou o faz de maneira muito lenta, e por isso demoraria muitos séculos para se recuperar”, ressaltou Kitzberger.

O especialista destacou que as florestas são habitadas por numerosas espécies e “criam condições localmente estáveis para as funções ecossistêmicas”. Ao queimarem, “dão lugar a formas mais arbustivas ou herbáceas, que não substituem essas funções”, acrescentou.

Por isso, segundo a bióloga Silvia Ortubay, haverá alterações climáticas que se estenderão a outros ecossistemas. “Mudam os regimes de ventos, a disponibilidade de oxigênio, diminuem a umidade ambiental e a evapotranspiração, aumentam a temperatura, a radiação solar, a luminosidade e o efeito estufa”, detalhou Ortubay ao Terramérica desde a região.

A bióloga alertou que existe o risco de inundações e secas acentuadas e por isso é “prioritário delinear um plano de restauração”. Também ressaltou que a vegetação, a matéria orgânica e as raízes arbóreas atuam como camada protetora do solo e barreira natural da água, e, com as primeiras chuvas e a dispersão de cinzas, haverá erosão e a terra perderá sua fertilidade. Por outro lado, aumentarão as correntes de água nos terrenos, causando deslizamento de lodo onde a inclinação é maior.

Em escala regional, “quando a cobertura florestal é eliminada por incêndios severos que afetam altas bacias, se degrada, por exemplo, a capacidade de regulação e provisão de água de qualidade”, e altera-se a constância no fornecimento energético, gerado por represas situadas bacia abaixo, reforçou Kitzberger.

O transporte de sedimentos pode turvar lagos patagônios, “considerados os mais transparentes do mundo”, enquanto a degradação de bacias, com caudais menores no verão austral e maiores no inverno, propiciará cheias ou secas, afirmou Ortubay. Além disso, a degradação florestal gerará pradarias que atrairão o gado, criando obstáculo para o “estabelecimento de sementes e a regeneração arbórea”, acrescentou. Já o gado, por meio de suas fezes dispersará sementes de espécies exóticas invasoras, como a rosa mosqueta, um de seus alimentos preferidos.

Wegrzyn questionou a falta de avaliação de riscos e “a demora em agir”, enquanto realiza sobrevoos na região, que o levaram a alertar para o perigo de reativação de alguns focos. Era sabido que seria um “ano crítico” por causa de um fenômeno que ocorre a cada meio século: o florescimento e a morte do bambu colihue, que é altamente combustível quando seco, afirmou.

Além disso, uma seca muito acentuada e as condições climáticas favoreciam ventos e altas temperaturas, “decisivos para a expansão do fogo”, que chegou a se propagar ao ritmo de um quilômetro por hora. Segundo Wegrzyn, como alerta teriam bastado torres de vigia em pontos estratégicos, um bom sistema de rádio e patrulhas aéreas.

O ativista Darío Fernández afirmou ao Terramérica, de Cholila, que também “o fogo poderia ter sido apagado com pás”, evitando recorrer a brigadas nacionais, aviões e helicópteros lançadores de água que chegaram como apoio do Chile.

Fumaça isolada no vale do rio Alerce, dia 11 de março, depois de alguma chuva reparadora na área. A Patagônia da Argentina sofreu o maior incêndio florestal da história do país. Foto: Cortesia de Daniel Wegrzyn

Fumaça isolada no vale do rio Alerce, dia 11 de março, depois de alguma chuva reparadora na área. A Patagônia da Argentina sofreu o maior incêndio florestal da história do país. Foto: Cortesia de Daniel Wegrzyn

Incêndio provocado

O governo nacional demitiu o responsável pelo Plano Nacional de Manejo do Fogo por erros na gestão do incêndio e denunciou que foi provocado. Essa também é a tese do governador de Chubut, Martín Buzzi, que vinculou o incêndio ao “negócio imobiliário”, que diante da proibição de cortar árvores, patrimônio do Estado, “as fazem desaparecer”. Para deter essa especulação, Buzzi anunciou medidas como a proibição por dez anos de transferência de terras com florestas incendiadas e também uma comissão investigadora.

Fernández, que nasceu e sempre viveu em Cholila, e que havia antecipado que haveria incêndios intencionais, responsabiliza o “negócio verde”. Ele denunciou que, entre 2003 e 2011, o governador anterior, Mario das Neves, entregou terras fiscais por decreto, violando a Constituição da província. E explicou que o “negócio verde” inclui desde clubes de campo e desenvolvimentos turísticos até a indústria florestal, que “precisa eliminar espécies nativas” para introduzir pinhos comerciais, onde “o denominador comum é o desmonte”.

Essas denúncias contrariam a hipótese de um raio ter sido a origem do fogo, também duvidosa para Kitzberger e Wegrzyn, porque a última tempestade elétrica na região foi em 3 de fevereiro, 12 dias antes de começar o incêndio, embora ambos tenham admitido que o fogo originado por um raio pode ficar latente de forma incandescente.

“É improvável um tempo tão prolongado entre a ignição e a propagação”, afirmou Kitzberger, mais ainda quando um dos primeiros focos foi detectado por satélite em um vale, sendo que “os raios tendem a cair em picos ou em ladeiras, mais altos do que os vales”. Mesmo assim, recordou que, desde a década de 1990, no norte da Patagônia há um acentuado aumento da frequência e magnitude de tempestades elétricas e de secas, que intensificam os incêndios.

Por exemplo, no Parque Nacional Nahuel Huapi, a 160 quilômetros de Cholila, a última tempestade elétrica gerou oito focos de fogo, afirmou Kitzberger. “Da política à máfia há apenas uma faísca”, resumiu as dúvidas sobre o maior sinistro florestal argentino o jornal digital Cholila Online, criado por moradores autóctones da região. Envolverde/Terramérica

* A autora é correspondente da IPS.

 

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Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

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