O acampamento de Loma Campana, onde a YPF e a Chevron produzem petróleo de xisto, em Vaca Muerta, no sudoeste da Argentina. A queda dos preços do petróleo não alterou, até agora, o caro desenvolvimento desse hidrocarbono não convencional. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

O acampamento de Loma Campana, onde a YPF e a Chevron produzem petróleo de xisto, em Vaca Muerta, no sudoeste da Argentina. A queda dos preços do petróleo não alterou, até agora, o caro desenvolvimento desse hidrocarbono não convencional. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

 

Buenos Aires, Argentina, 6/4/2015 – Apesar da queda mundial do preço do petróleo, a Argentina mantém sua aposta estratégica na produção de hidrocarbonos não convencionais, embora no curto prazo possa haver complicação na captação dos investimentos externos necessários para explorar suas reservas em Vaca Muerta.

A incerteza se seguiu à euforia inicial pela exploração de gás e petróleo de xisto (rocha), do qual a Argentina tem uma das maiores reservas mundiais. Com um barril de petróleo passando, em sete meses, de US$ 110 para menos de US$ 50, a jazida de Vaca Muerta está na UTI? Essa é a pergunta repetida entre especialistas de finanças e da indústria.

O déficit da balança energética argentina aproximou-se em 2014 dos US$ 7 bilhões, em parte pela redução de suas jazidas de petróleo convencional. A eliminação desse déficit depende do desenvolvimento de Vaca Muerta, uma grande formação de gás e petróleo de xisto na Bacia Neuquina, no sudoeste do país. Os investimentos necessários para isso são de pelo menos US$ 10 bilhões anuais nos próximos anos.

“No curto prazo, convém importar e não explorar os recursos do xisto”, disse à IPS o diretor do Centro de Estudos de Energia, Política e Sociedade, Víctor Bronstein. “Mas, com um olhar mais estratégico, é preciso manter os investimentos e o desenvolvimento desses recursos, já que o preço do petróleo voltará a subir em não muito tempo e temos que ter a capacidade para produzir nossos próprios recursos quando esse momento chegar”, acrescentou.

Segundo Bronstein, assim entendeu a presidente Cristina Fernández, que, para apoiar Vaca Muerta, fixou internamente o valor de US$ 72 para o barril (de 159 litros), “40% acima de seu valor internacional”, entre outros estímulos produtivos.

A empresa estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF) informou que Vaca Muerta multiplicou por dez as reservas argentinas de petróleo e por 40 as de gás, o que permitiria o autoabastecimento energético e também a exportação de hidrocarbonos. A YPF responde por 12 mil dos 30 mil quilômetros quadrados da jazida situada na província de Neuquén.

A empresa admite que para sua exploração é necessário associar-se a firmas transnacionais que possam aportar “capital intensivo”. Assim já o fez com a norte-americana Chevron, na mina de Loma Campana, onde havia projetado um preço de US$ 80 o barril para este ano.

“Quem investirá nos atuais valores no não convencional?”, perguntou à IPS o vice-presidente do Grupo Moreno, Gustavo Calleja. “Temos que guardar Vaca Muerta e continuar estudando em poucos poços-piloto suas jazidas, a que profundidade estão, que tipo de perfuração é necessário para baixar seus custos” e seus impactos ambientais, afirmou o empresário, que foi subscretário de Combustíveis na década de 1980.

Técnicos da YPF trabalham na base de uma das torres de perfuração de petróleo de xisto na jazida de Loma Campana, em Vaca Muerta, na província de Neuquém, sudoeste da Argentina. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

Técnicos da YPF trabalham na base de uma das torres de perfuração de petróleo de xisto na jazida de Loma Campana, em Vaca Muerta, na província de Neuquém, sudoeste da Argentina. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

 

A extração do xisto, preso a mais de dois mil metros de profundidade em formações sedimentares de baixa permeabilidade e porosidade, é feita mediante a fratura hidráulica, também conhecida pelo termo inglês fracking. A fratura hidráulica apresenta riscos ambientais – tremores, utilização de grandes volumes de água, contaminação de aquíferos, entre outros – e também é muito cara.

A bonança do xisto surgida nos Estados Unidos em 2008 foi impulsionada, entre outros fatores, pelos altos preços dos hidrocarbonos, que o tornaram rentável. “A preços atuais, os únicos que podem desenvolvê-lo são os que têm tecnologia de alto peso”, afirmou Calleja. O custo de produção do barril de xisto é estabelecido mediante variáveis como extração, exploração, amortização de investimentos e pagamento de impostos e taxas. Nos Estados Unidos, calcula-se que esse custo varia entre US$ 40 e US$ 70.

Bronstein explicou que esse fato fez a atividade perfuradora diminuir mais de 30% desde a queda dos preços, “o que gerará uma baixa na produção nos próximos meses”. Na Argentina, o desenvolvimento do xisto é incipiente, o que aumenta os custos, por “um tema de escala e problemas de logística e infraestrutura”, acrescentou o especialista.

Nos Estados Unidos, “um poço de xisto, incluindo o fracking, custa cerca de US$ 3 milhões”, enquanto na Argentina “custa mais do que o dobro”, acrescentou Bronstein. “O custo de extração de petróleo convencional na Argentina fica entre US$ 20 e US$ 30, enquanto o de xisto está em torno de US$ 90, mas está baixando com o desenvolvimento de Vaca Muerta”, ressaltou.

Canadá e China também produzem comercialmente petróleo não convencional, mas, por suas características geológicas e operacionais, considera-se que Estados Unidos e Argentina têm o maior potencial futuro de xisto. A YPF assegura que, com a progressiva redução de custos de extração, o aumento da produção e um preço interno maior do que o de petróleo, Vaca Muerta ainda é rentável.

O setor espera que a queda de preços baixe os valores dos insumos e serviços internacionais, reduzindo os altos custos internos industriais. A companhia também assinou acordos para exploração conjunta de jazidas de xisto com as empresas Petronas (Malásia) e Dow Chemical (Estados Unidos), enquanto outras grandes transnacionais anunciaram que planejam investir em Vaca Muerta.

Brostein acredita que os investimentos continuarão porque foram planejados para uma produção “significativa de cinco anos”. E destacou que “isso faz com que os investidores não considerem tanto o preço atual do petróleo, mas o preço futuro. E quase todos os analistas coincidem em afirmar que dentro de alguns anos o preço do petróleo se recuperará”.

Para o especialista, “o petróleo convencional alcançou seu pico de produção, por isso será necessário o desenvolvimento dos recursos não convencionais para atender o aumento da demanda. Nesse sentido, a Argentina é um dos países melhor posicionados”.

Cristian Folgar, que foi subsecretário de Combustíveis na década passada, pontuou que “qualquer foto” que for tirada hoje do mercado “estará viciada”, pois “ainda não terminaram de se acomodar os custos de diferentes serviços petroleiros”. E acrescentou que a “YPF seguirá adiante e não freará investimentos que dependem de sua decisão”, porque atualmente a empresa “concentra todo seu fluxo investidor na Argentina”.

Já as empresas internacionais, segundo Folgar, diminuiriam seus investimentos em nível mundial, por isso “a YPF seguramente não conseguirá novos acordos com outras petroleiras para fazer joint ventures (associações de risco) até que a situação se estabilize”. Mas, ressaltou, “os que já lançaram investimentos não vão parar”.

Segundo Folgar, “a Argentina continua pagando pelo petróleo e pelo gás os mesmos preços de antes do início desse ciclo de baixa. Como há uma mudança de governo batendo à porta, é provável que novos desenvolvimentos esperem que a nova administração envie sinais sobre o que fará no setor energético”.

Calleja teme que a Arábia Saudita, maior exportador mundial de petróleo e que, segundo especialistas, move os fios da queda dos preços para – entre outros objetivos – tirar do mercado o emergente xisto, ainda “pode baixar mais” as cotações.

Diante do que considera uma “guerra” mundial de interesses, o especialista avalia como oportuno pensar em fontes energéticas não fósseis. Calleja aposta nas fontes hidrelétrica e nuclear, que, com “menores custos” ambientais e econômicos, representam apenas 14% da matriz energética argentina. Envolverde/IPS

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