Uma avó e sua filha, uma jovem mãe, com outros membros de sua família, na aldeia indígena de Mby’a Guaraní Iboty Ocara, na província de Misiones, no nordeste argentino. A população indígena é uma das mais vulneráveis à mortalidade materna na América Latina. Foto: Fabiana Frayssinet

Uma avó e sua filha, uma jovem mãe, com outros membros de sua família, na aldeia indígena de Mby’a Guaraní Iboty Ocara, na província de Misiones, no nordeste argentino. A população indígena é uma das mais vulneráveis à mortalidade materna na América Latina. Foto: Fabiana Frayssinet

 

Buenos Aires, Argentina, 4/5/2015 – Apesar de seus avanços, a América Latina sofre uma inaceitável mortalidade materna, em muitos casos evitável, devido, em parte, à ausência da aplicação da receita prescrita pelos especialistas: prevenção e promoção da saúde. 

O argentino Juan Reichenbach, uma referência regional em saúde materno-infantil, viveu “no barro” (junto com as mães e seus bebês), como pediatra e como diretor nacional de Maternidade e Infância (2008-2009). “Se tivesse que dar uma receita mínima compreensível, eu diria: diga-me onde nasceu e te direi se viverá. Isto é incorporar a saúde da criança e da mãe como um direito fundamental”, afirmou em entrevista à IPS. 

“Os protagonistas da mudança são a prevenção e a promoção”, ressaltou Reichenbach, que atualmente é docente da Universidade Nacional de La Plata e chefe e instrutor de médicos residentes de um hospital infantil. 

O informe Tendências nas estimativas de mortalidade materna 1990-2013, da Organização das Nações Unidas (ONU), revelou no ano passado que nesse período a mortalidade materna caiu 40% na região. Apesar dessa redução, em 2013 morreram 9.300 mulheres por complicações na gravidez e no parto, afirma o documento. Em média, a cada dia 16 mulheres morreram por complicações ligadas à maternidade na América Latina, segundo dados deste mês da Organização Pan-Americana de Saúde (OPS). 

“Quando se vê as causas fundamentais de morte materna não é preciso ser muito inteligente para entender que estão relacionadas com falta de acesso (ao sistema sanitário) e com o aborto, que é a principal causa de morte materna na Argentina e na América Latina”, destacou Reinchenbach. 

Segundo Bremen De Mucio, do Centro Latino-americano de Perinatologia, Saúde da Mulher e Reprodutiva, da OPS, houve um progresso “relevante e valioso”, mas a taxa de mortalidade materna ainda se mantém em um nível “inaceitável”. 

O ponto cinco dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), que é o de melhorar a saúde materna, estabelece que a região deveria reduzir a mortalidade materna em 75% até o final deste ano, com relação a 1990, bem como proporcionar acesso universal à saúde reprodutiva. 

“Continuar incentivando o desenvolvimento humano é a chave principal. E isto vai além do setor de saúde exclusivamente. O trabalho efetivo sobre os determinantes sociais da saúde têm mais alto impacto do que as intervenções em saúde isoladas”, disse De Mucio à IPS. “Melhoraremos os ODM somente se educarmos na dignidade e no direito de viver, que não são quantificáveis”, acrescentou. 

Na região, as principais causas de mortes maternas poderiam cair para “quase zero”, segundo De Mucio, mas continuam sendo os transtornos hipertensivos da gravidez, as hemorragias e infecções. 

Segundo a OPS, as complicações maternas são a principal causa de morte entre mulheres de 20 a 34 anos, e metade das mortes maternas se devem a abortos inseguros, em uma região onde a interrupção voluntária da gravidez é ilegal na maioria dos países. 

“Na Argentina nascem, mais ou menos, 700 mil crianças por ano, e calcula-se que sejam feitos 500 mil abortos. Este último número, não esclarecido no sistema sanitário, é a ponta do iceberg da mortalidade materna”, afirmou Reichenbach. O pediatra considera que 35% das mortes maternas em seu país são evitáveis, por exemplo, com um controle adequado da gravidez. 

A lei argentina estabelece pelo menos cinco exames, em gravidez de baixo risco, mas, na prática, “não superam os 2,5, e o primeiro é feito tardiamente. Há mães que chegam a um hospital público aos sete meses de gestação em uma situação crítica”, acrescentou o médico. 

“As soluções não passam pela compra de tomógrafo computadorizado, mas em dar condições de vida adequadas, educação, trabalho, um lugar digno para morar e acesso à saúde. As grandes maternidades, em geral, só reparam o que não foi feito corretamente”, ressaltou Reichenbach. 

A seu ver, a chave está em agir nos estágios básicos da prestação de saúde, incluídos o de um ambiente adequado e são e o acesso a um sistema sanitário “que valorize os problemas cotidianos” dos pacientes, chegue a zonas inacessíveis, incluindo zonas de risco, casa por casa. Para o pediatra, também deve somar uma rápida detecção de casos graves, enviados a maternidades com equipamentos obstétricos e neonatais essenciais, com sala de cirurgia, banco de sangue, reanimação cardiopulmonar e ambulâncias equipadas. 

Além disso, Reichenbach destacou a necessidade de uma equipe interdisciplinar onde o médico “seja mais um trabalhador”, entre obstetras, enfermeiras, trabalhadores sociais, agentes sanitários, “que seguramente farão um trabalho muito mais vinculado com o território e a saúde”. 

Reichenbach considera essencial uma distribuição “equitativa” dos médicos nas populações marginalizadas, como os indígenas, “primeiros no ranking dos despossuídos” – e os imigrantes intra-regionais. O pediatra disse que na Argentina há um médico para cada 80 habitantes em Buenos Aires, enquanto existe apenas um para cada três mil habitantes em El Impenetrable, uma grande região florestal na província do Chaco. “Se a saúde for conceituada como um direito, deve-se dizer que todas as crianças, mães, os adolescentes e idosos – os mais pauperizados – têm que estar sãos, e não é tão difícil que estejam sãos”, acrescentou. 

Por isso, deve-se incluir nas políticas de saúde soluções para aspectos como a inacessibilidade geográfica, de infraestrutrura e cultural, que também impedem que chegue a educação sexual e reprodutiva. “Estamos falando da gravidez, mas é preciso ver também se essa gravidez ocorre como um fenômeno desejado na família ou é um acidente, por falta de informação ou práticas culturais, que fazem uma mãe de 30 anos ter sete ou oito filhos”, afirmou o pediatra. 

Ariel Karolinski, consultor da OPS na Argentina, disse à IPS que há 20 anos “a razão da mortalidade materna” se mantém em cerca de 40 por 100 mil nascidos vivos’, embora existam grandes disparidades regionais. Mas, observou, entre 2010 e 2012, pela primeira vez a Argentina conseguiu uma tendência decrescente, com “redução relativa de 22%” na taxa de mortalidade materna. 

Karolinski atribuiu essa redução a programas como os denominados Somar e Nascer, que priorizam as províncias com piores indicadores e medidas como a extensão de transferência de renda às grávidas, condicionada à realização de exames pré-natais e às vacinas. 

Em nível latino-americano, políticas semelhantes fizeram com que países como Bolívia, Peru e Uruguai reduzissem sua mortalidade materna em mais de 50%. 

De Mucio destacou que no caso de Bolívia e Peru repercutiram “favoravelmente os enfoques interculturais aplicados durante a gravidez, o parto e o pós-parto”, aos quais no Peru se somou a multiplicação de casas maternais para mulheres afastadas dos centros de saúde.  

No Uruguai, no entanto, “as leis sobre o aborto (que desde 2012 é facultativo até a 12ª semana de gestação) contribuíram para fazer praticamente desaparecer a mortalidade por essa causa”, destacou De Mucio. Porém, concluiu, “não se pode ignorar que bonança econômica” contribuiu para melhorar as condições de vida, “diretamente relacionada com a redução da mortalidade materna”, acrescentou o funcionário da OPS.

  •  Entre 1990 e 20134, os países latino-americanos reduziram a mortalidade materna em 40%, em média, bem distante da meta de 75%. Mas, 11 deles conseguiram baixá-la além da média: Uruguai (-67%), Peru (-64%), Bolívia (-61%), Chile e Honduras (-60%), República Dominicana (-57%), Guatemala (-49%), Equador (-44%), Guatemala (-49) e Haiti (-43%). 
  • Os países com razão de mortalidade materna mais baixa da região são Uruguai (14 em cada 100 mil nascidos vivos) e Chile (22/100 mil). 
  • O número de mortes maternas acima dos 100 mil nascidos vivos continua alto no Haiti, com 380. 

 

*Fonte: Tendências nas estimativas de mortalidade materna 1990-2013. 

Envolverde/IPS

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