Vinhedos da Bodega Dominio del Plata, em Luján de Cuyo, na província de Mendoza, na Argentina. É uma das adegas do Programa Produção Mais Limpa, que impulsiona uma reconversão sustentável de todos os processos dos viticultores. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

Vinhedos da Bodega Dominio del Plata, em Luján de Cuyo, na província de Mendoza, na Argentina. É uma das adegas do Programa Produção Mais Limpa, que impulsiona uma reconversão sustentável de todos os processos dos viticultores. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

Por Fabiana Frayssinet*

Luján de Cuyo, Argentina, outubro/2015 (Terramérica) – A região de Cuyo, no centro ocidental da Argentina, é famosa por seus vinhedos e também por ser uma das principais vítimas dos efeitos da mudança climática, com desertificação e degelo. Agora seus viticultores promovem uma resposta própria ao fenômeno.

No copo, a cor púrpura e o sabor da mais tradicional variedade de uva Argentina, a malbec, tem a mesma intensidade. Mas, por trás, sua produção sintetiza uma prática de reconversão ambiental em Mendoza, que começou há quatro anos nessa província mediterrânea e majoritariamente desértica, onde seus vinhedos florescem em meio a oásis criados pela atividade humana.

Mendoza tem apenas 4,8% de seu território nesses oásis irrigados, 3,5% dedicados à produção agrícola, que consome 90% da água, e o restante é área urbana. “Buscamos a mesma quantidade de produção usando menos água, menos energia, minimizando e reutilizando dejetos e gerando menos contaminação”, explicou ao Terramérica o coordenador provincial do Programa Federal de Produção Mais Limpa, Germán Micic.

Trata-se de uma iniciativa da Secretaria de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Nação, que beneficia cerca de 1.250 pequenas e médias empresas argentinas. No programa, executado com apoio técnico e administrativo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), com fundos do Banco Interamericano de Desenvolvimento, participam em Mendoza 210 empresas, 60% adegas, que recebem assessoria e recursos até o máximo de US$ 28 mil.

“É produzir o mesmo vinho, mas de maneira sustentável”, afirmou Luis Romito, responsável pela Comissão de Sustentabilidade da associação de viticultura Bodegas de Argentina, durante sua participação no Fórum sobre Mudança Climática, realizado este mês em Mendoza, convocado pela Universidade Nacional de Cuyo e pelo Pnud.

Dominio del Plata, uma adega familiar ao pé da Cordilheira dos Andes, na localidade de Agrelo, departamento de Luján de Cuyo, com sua capital de mesmo nome, começou a implantar algumas dessas práticas. Durante a produção do vinho se conseguiu economizar água, com a mudança de equipamentos e processos. A água é usada fundamentalmente em enxágues, lavagens, calefação e esfriamento.

Um exemplo é o da lavagem de barricas que transportam as uvas colhidas, operação na qual foi substituído o processo manual, que demorava cerca de 20 minutos por unidade, por hidrolavadoras industriais.

“Com esta máquina, em cinco minutos se faz a limpeza. Reduzimos o consumo em cerca de 60 mil litros de água por mês. Em três meses de colheita, são 180 mil litros de água a menos”, pontuou ao Terramérica o assessor de qualidade e responsável ambiental da adega, Marcelo Del Popolo. “Por sua vez, essa água de lavagem cai em uma canaleta, segue para uma segunda unidade de tratamento e é usada para irrigar os vinhedos”, acrescentou.

Os próprios sistemas de irrigação estão sendo melhorados em Mendoza, onde 90% do recurso é usado para atividades agrícolas, e seu déficit cresce como problema estrutural para as secas terras da província, em um cenário de aquecimento global. “Podemos ser seriamente afetados em um recurso que é vital para a província. O elemento que controla o desenvolvimento regional é a água”, disse à IPS o especialista em geociências Ricardo Villalba, ex-diretor do Instituto Argentino de Nivologia, Glaciologia e Ciências Ambientais, com sede em Mendoza.

“Nossa província vive fundamentalmente da água que se acumula através da neve na cordilheira, e todos os prognósticos e modelos globais indicam que essa neve diminuirá ao longo do tempo”, destacou Villalba, que integra o Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC). O setor vinícola, que representa 6% do produto interno bruto de Mendoza e 1,3% do PIB argentino, também busca reduzir seu consumo energético que, no caso desse país, responde por 43% das emissões de gases-estufa, responsáveis pelo aquecimento do planeta.

Nas adegas, a energia é usada em processos de aquecimento, esfriamento, bombeamento para engarrafamento e iluminação. “Em cada um podemos incorporar modificações de equipamentos ou processos que permitem poupar bastante energia. Desde a cobertura de tanques para a conservação eficiente de temperatura até a troca de bombas pelas de nova geração, para maior caudal e menor consumo energético, passando pela mudança de compressores e das luminárias”, disse Micic.

“Temos um registro da água que entra e da temperatura que conseguimos. Com esta medida reduzimos em 15% o consumo de energia que se usava neste setor para aquecimento”, exmplificou Del Popolo. A empresa também utiliza insumos ecológicos como garrafas de menor peso, caixas mais leves pelo menor uso de papelão e rótulos reciclados. Todos os plásticos e outros resíduos, como garrafas quebradas, são classificados e reutilizados. “Usamos caixas que já reciclamos muitíssimas vezes”, acrescentou.

“Encaramos dois aspectos fundamentais: economia de energia elétrica e de água. E nos dois estamos vendo também uma importante poupança econômica”, destacou o responsável pela adega, que em uma segunda etapa pretende investir recursos próprios em calefatores solares para aquecimento e fermentação

Isto, segundo o representante do Pnud na Argentina, René Mauricio Valdés, é o que permite a autossustentabilidade dos projetos. “Muitos pensam que investir em práticas ecológicas tem um custo adicional e que não significa necessariamente um lucro para a empresa. Isso demonstra que não é assim”, pontuou, durante a visita à adega.

Tanques para armazenar o vinho, com enchequetamiento, ou cobertura especial. A técnica permite a conservação eficiente da temperatura nas adegas da região viticultora de Luján de Cuyo, na província de Mendoza, na Argentina, que participam de um programa especial para tornar mais limpos seus processos e enfrentar os efeitos da mudança climática. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

Tanques para armazenar o vinho, com enchequetamiento, ou cobertura especial. A técnica permite a conservação eficiente da temperatura nas adegas da região viticultora de Luján de Cuyo, na província de Mendoza, na Argentina, que participam de um programa especial para tornar mais limpos seus processos e enfrentar os efeitos da mudança climática. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

A Fincas Patagónicas Tapiz, uma produtora de azeite de oliva no vizinho departamento de Maipú, é outra empresa participante do programa em Mendoza. Entre outras medidas, implantou um sistema de circulação periférica de água aquecida por energia solar, em volta dos tanques de azeite para eliminar esse gasto energético. Também isolou termicamente uma sala para manter a temperatura dos tanques. Isso evitou a utilização para todo o recinto de um equipamento de ar-condicionado, que consumia dez mil quilocalorias/hora.

“Se o azeite baixa sua temperatura para menos de 14 ou 15 graus Celsius acaba congelando e não pode ser filtrado. O que implica que durante o inverno devo continuar esquentando todo o recinto até o calor de setembro e outubro para só então começar a engarrafar o azeite”, explicou ao Terramérica o encarregado da unidade, Sebastián Correas.

A Argentina não é dos principais emissores em nível global. Ocupa a posição 22 no ranking, em que os 28 países da União Europeia são contados como um só bloco, produzindo 0,88% dos gases-estufa emitidos na atmosfera. Porém, o cientista Villalba acredita que tanto para a Argentina quanto para Mendoza também cabe assumir seu papel. “Teremos que nos preparar para isso para, por exemplo, continuarmos sendo líderes em nível mundial na produção de malbec”, enfatizou. Envolverde/Terramérica

* O autor é correspondente da IPS.

 

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Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

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