Por Margot Walström, da IPS – 

Estocolmo, Suécia, 8/3/2017 – Nos últimos tempos o mundo se apresenta com tons cada vez mais escuros. Em muitos lugares se questiona a democracia, coloca-se em risco os direitos das mulheres e se enfraquece o sistema multilateral, que levou décadas para ser construído. Nenhuma sociedade é imune a reações políticas negativas, especialmente em matéria de gênero. Há uma contínua necessidade de se estar alerta e promover de forma permanente o gozo dos direitos humanos por parte de mulheres e meninas.

Por isso, quando assumi como ministra de Relações Exteriores, há dois anos, anunciei que a Suécia perseguiria uma política externa feminista, que atualmente é mais necessária do que nunca. O mundo está dividido por conflitos que talvez sejam os mais complexos e mais difíceis de resolver. Quase metade deles se repete a cada cinco anos. E mais de 1,5 bilhão de pessoas vivem em países frágeis e em zonas de conflito.

A fim de responder a esses desafios globais, temos que unir os pontos e analisar o que leva à paz. É necessário mudar nossas políticas para que deixem de ser reativas e sejam proativas, e se concentrem em prevenir mais do que em responder. E a prevenção nunca conseguirá seu objetivo sem uma análise completa de como certas situações afetam de maneira diferente homens, mulheres, meninos e meninas.

Para avançar será crucial aplicar a análise de gênero, fortalecer a coleta de dados separados por gênero, melhorar a responsabilidade e incluir as mulheres nas negociações e nos processos para consolidar a paz.

Numerosos estudos concluem que as análises de conflitos se mostram mais eficientes quando incluem uma perspectiva de gênero e as experiências das mulheres. O aumento da violência sexual e de gênero, por exemplo, pode ser um indicador precoce de conflito. Também devemos considerar as pesquisas que mostram a correlação entre as sociedades com igualdade de gênero e a paz.

A igualdade de gênero é fundamental para os direitos humanos, a democracia e a justiça social. E a esmagadora evidência disponível mostra que também é uma condição para o crescimento sustentável, o bem-estar, a paz e a segurança. A crescente igualdade de gênero tem efeitos positivos na segurança alimentar, no tocante ao extremismo, à saúde, à educação e a muitos outros problemas globais importantes.

Margot Wallström, ministra das Relações Exteriores da Suécia. Foto: Cortesia

Com a política externa feminista da Suécia, ativamos nossos instrumentos a favor da igualdade de gênero e aplicamos uma sistemática perspectiva de gênero em tudo o que fazemos. Trata-se de uma ferramenta analítica para tomar decisões informadas. E é uma agenda para a mudança, que procura aumentar os direitos, a representação e os recursos para todas as mulheres e meninas em função de sua realidade cotidiana.

A representação é o eixo dessa política, pois é um poderoso veiculo para o gozo dos direitos e o acesso aos recursos. Trate-se de política externa ou local, seja na Suécia ou em qualquer outro lugar do mundo, ainda vemos que as mulheres não estão bem representadas nos cargos de decisão de diferentes setores da sociedade.

A tomada de decisões não representativa tem mais probabilidades de ter resultados que sejam discriminatórios e não sejam ótimos. Sentem-se as mulheres desde o começo à mesa e verão como saem à luz mais assuntos e mais perspectivas.

Em um contexto em que a política internacional é desanimadora, é importante recordar que a mudança é possível. A política externa feminista da Suécia marca uma diferença tangível. Todos os dias as embaixadas, agências e os departamentos implantam políticas baseadas no contexto e no conhecimento em todo o mundo. E cada vez mais países se dão conta de que a igualdade de gênero tem sentido.

Como exemplo de nosso trabalho, a Suécia colaborou enormemente com a participação de mulheres no processo de paz colombiano, assegurando a inclusão de perspectivas significativas no acordo. Também criamos uma rede sueca de mediadoras de paz, participamos da criação de uma entidade nórdica equivalente e contatamos outros países e outras regiões para que criem suas próprias redes.

Junto com o Tribunal Penal Internacional e outros Estados, combatemos a impunidade que gira em torno da violência sexual e de gênero nos conflitos. Também asseguramos que os atores humanitários só recebam fundos se seu trabalho se basear em dados separados por gênero.

Além disso, o governo sueco deu pautas à Agência de Cooperação para o Desenvolvimento Internacional da Suécia para que a igualdade de gênero seja o principal objetivo de uma série crescente de assuntos específicos vinculados ao HIV/aids.

Esses são alguns exemplos de como nossa política exterior feminista acontece na prática e faz uma diferença na vida de mulheres e meninas de todo o mundo. O feminismo é um componente de uma visão moderna da política global, e não uma ramificação idealista dela. Trata-se de políticas inteligentes que incluem populações inteiras, utilizam todo seu potencial e não deixam ninguém pelo caminho. A mudança é possível, necessária há muito tempo. Envolverde/IPS

* Este artigo de Margot Wallström, ministra de Relações Exteriores da Suécia, integra a cobertura especial da IPS por ocasião do Dia Internacional da mulher.

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