Pemba, Zâmbia,  30 de agosto de 2018 (IPS) – Apenas ter melhor informação sobre quando e quanto tempo vai chover tem provado fazer a diferença entre sucesso e fracasso para os pequenos agricultores do sul de Zâmbia. Potencializando a informação sobre o clima no período 2017-2018, Fainess Muzyamba, 56 anos, do distrito de Pemba, trocou seu tradicional plantio de milho pelo de batatas doces.

“Devido ao relato do clima que recebemos todos os meses, eu decidi plantar batatas doces em vez de milho”, contou Muzyamba à IPS. O relatório mensal do clima a que ela se refere é uma parte de um programa integrado de intervenções sob a Iniciativa de Resiliência Rural (Rural Resilience Initiative), criada pelo Programa Mundial de Alimentos (World Food Programme, WFP).

A iniciativa integra seis estratégias de gestão, que incluem a transferência de riscos por meio do seguro de índice de chuvas, assumir riscos prudentes por meio de insumos e empréstimos em dinheiro, serviços e informações sobre clima, e gerenciamento e marketing pós-colheita.

“Esse serviço tem sido extremamente útil”, enfatizou Muzyamba. “Por meio dessa informação e com o conselho técnico dos oficiais do programa, eu fui capaz de prever que a chuva seria problemática. Então decidi plantar batatas doces, porque estas não requerem muita água para ir bem”, explicou. E a decisão compensou-a: colheu 60 sacas de 50 quilos de batata doce, que ela trocou por 40 sacas de 50 quilos de milho.

No preço atual de mercado, Muzyamba ganhou 2,8 mil Kwachas Zambianos (US$ 280) pelo milho, mais 1,2 mil (US$ 120) pela sua colheita de feijão rajado, que incluiu na sua diversificação pelo seu rendimento e valor nutricional. Ela acrescentou que “20 sacas de milho são para alimentar” os 11 membros da sua família, garantindo que dure até a próxima colheita.

 

Pequenos agricultores não estão protegidos contra choques climáticos

Em Zâmbia, 73% dos agricultores, ou 1,5 mil das 16 mil pessoas do país, são pequenos agricultores que cultivam menos de dois hectares de terra. A chuva irregular é um peso adicional para os desafios que podem encontrar, como a fragilidade da terra, o pobre acesso a insumos agrícolas, o mercado e a melhora nas práticas agrícolas.

Eles normalmente não têm acesso a gerenciamento de risco básico e, quando os choques climáticos atingem-nos, o bem-estar deles, a curto prazo, é comprometido. A longo prazo, esses choques têm consequências duradouras, incluindo pobreza, desnutrição e expectativa de vida curta.

“O problema com esses padrões irregulares do clima, e como vemos isso evoluindo, é uma preocupação e um problema maior que afeta pequenos agricultores não só em Zâmbia, como também em todo o sul da África”, comentou Lola Castro, diretora regional do WFP na África do Sul, durante sua visita a Zâmbia em março.

Castro disse à IPS que “é por este motivo que eles acreditam que a Iniciativa de Resiliência Rural, que estão implementando com seus colaboradores, precisa ser ampliada para ajudar pequenos agricultores a criarem resiliência e adaptação ao impacto causado pela mudança climática, desencorajando o monocultivo de milho e promovendo a diversificação”.

Em parceria com o Departamento Meteorológico de Zâmbia, o WFP “instalou dois Centros Automáticos de Clima para melhorar a distribuição e utilização de serviços com informação agrícola”, contou à IPS Allan Mulando do WFP Zâmbia. “O WFP também instalou 20 medidores de chuva manuais geridos por agricultores locais treinados, que são usados pela comunidade para tomar decisões oportunas sobre plantio”.

Agricultores tomam e depois compartilham as leituras desses medidores com o centro meteorológico, o projeto de campo, oficiais de extensão do governo, e outros agricultores para propósitos de planejamento. No clube de agricultores, líderes agrícolas reúnem-se para discutir parâmetros, como qual a umidade correta da terra para cultivar. Comparando a informação obtida localmente com a ampla base nacional e a previsão do tempo regional, esses agricultores são capazes de fazer projeções sobre o que deve ser esperado, ajudando-os a decidir o que e quando plantar.

 

O sucesso em uma temporada de desastres

Quando compara a média de rendimento de outros agricultores na área, Muzyamba acredita que sua história é excepcional, pois mostra uma reviravolta notável em uma temporada que foi desastrosa em grande parte do tempo para a maioria dos pequenos agricultores por causa da pouca chuva.

“Pagar as taxas da escola dos meus filhos não será um problema este ano. Eu estava particularmente preocupada com ter as taxas para o meu filho mais velho que está no último ano”, disse Muzyamba. E acrescentou que agora a situação será manejável, porque ela está envolvida em uma poupança com o clube de agricultores. Ela usa o produto dessa poupança para transportar os vasos de barro que produz para a capital turística de Zâmbia, Livingstone, onde os vende.

Essa é uma típica história de diversificação como estratégia de adaptação para os pequenos agricultores por causa da mudança climática. Contudo, talvez o que esteja faltando no decorrer dos anos seja uma integração concreta de métodos sustentáveis para incentivar pequenos agricultores.

“Eu penso que o que aprendemos até agora é que o único modo de lidar com alguns dos problemas é por uma abordagem integral, garantindo que atividades sejam incluídas em programas nacionais para evitar confusão e, no futuro, mesmo que não sejamos mais parceiros, esses programas continuem sendo implementados por departamentos governais relevantes”, contou à IPS Jennifer Bitonde, diretora do WFP em Zâmbia. A iniciativa, que começou em 2014, foi expandida para os distritos Monze, Gwembe, Namwala e Mazabuka, alcançando um total de 18.157 agricultores.

 

Mais pessoas precisam de mais comida

Até o ano de 2050, a previsão é que a população global crescerá dos sete bilhões atuais para aproximadamente nove bilhões, o que requer um crescimento dramático da produção agrícola. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), com o crescimento da população e a mudança da dieta, o mundo terá que produzir 49% mais alimentos até 2050, comparado com 2012.

A FAO acredita que fome, pobreza e mudança climática podem ser abordadas juntas pelo reconhecimento de ligações entre a pobreza rural, a agricultura sustentável e estratégias para impulsionar a utilização eficaz de recursos, conservando e restaurando a biodiversidade e os recursos naturais, além de combater os impactos da mudança climática.

Em nível global, um passo importante para concretizar essa estratégia foi a adoção do Programa de Trabalho Koronivia sobre Agricultura por meio da Convenção sobre Mudança Climática (UNFCCC) na Conferência das Partes de 2017 – o mais alto órgão de tomada de decisões sobre mudança climática e desenvolvimento.

Isso ocorreu depois de vários anos discutindo sobre agricultura como um tema secundário na mesa de negociações da UNFCCC. Todavia, a decisão de adotá-lo como um programa de trabalho dá esperança para os agricultores e processadores em economias em desenvolvimento, uma vez que serão adotadas ações significativas para combater os efeitos adversos da mudança climática na agricultura.

“Da nossa perspectiva como Zâmbia, o nosso interesse está de acordo com as expectativas do grupo africano que busca proteger os nossos pequenos agricultores – que são a maioria dos produtores – dos impactos negativos causados pela mudança climática, por meio de tecnologias amigáveis”, contou à IPS Morton Mwanza, oficial de ligação sobre agricultura com inteligência climática do Ministério de Agricultura de Zâmbia.

 

Adoção de tecnologia e enfoque em direitos humanos

Enquanto isso, George Wamukoya, um dos peritos em mudança climática e agricultura mais conhecidos na África, acredita que a adoção de tecnologias inovadoras é o próximo grande passo para que a agricultura africana se transforme.

“Eu acredito que seja um passo positivo, pois aproximou os problemas de implementação e da ciência, e isso é o que estamos lutando para conseguir. Precisamos de investimentos na agricultura, para tentar que a ciência informe qualquer coisa que estejamos fazendo na agricultura, e para ajudar a amenizar os desafios que nossos agricultores enfrentam”, opinou Wamukoya à IPS.

Contudo, grupos civis da sociedade são cautelosos com algumas abordagens. Mithika Mwenda, da Aliança Pan-Africana da Justiça Climática, argumentou por uma abordagem de direitos humanos. Ela apontou à IPS que agricultura não é mais um problema apenas da ciência, mas também de direitos humanos, acrescentando que a agricultura industrializada não foi o remédio certo para os pequenos agricultores e os desafios da mudança climática.

“O nosso interesse é promover resiliência na agricultura. O objetivo na África é ajudar os pequenos agricultores, aqueles pastores cujas vacas estão morrendo por causa da contínua seca. Então é importante que olhemos esse contexto e não as teorias de industrialização”, explicou Mwenda.

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