BULAWAYO, Zimbabwe, 11 de fevereiro de 2019 (IPS) – Seis anos atrás, enquanto pensava em como melhor usar suas técnicas de engenharia, Rose Funja, empreendedora em tecnologia de informação e comunicação (TIC) tanzaniana, decidiu entrar em uma competição de inovação. Anos depois, ela transformou uma ideia digital em um negócio viável para ajudar pequenos agricultores a terem acesso a crédito nas nações do leste africano.

Na Tanzânia, agricultores lutam para conseguir crédito, porque vários não têm ativos financeiros ou um registro de desempenho para oferecer como garantia. Todavia, Funja teve uma ideia para ajudar agricultores, particularmente mulheres, a provar a posse de terras que possam usar como garantia para obter créditos.

Foi uma solução inteligente: usar tecnologia de sistema de informação geográfica (GIS) para gerar informação útil para os agricultores. “Um agricultor pode ter uma grande área de terra, mas se não tem a posse legal do terreno, não pode usá-lo produtivamente”, explicou Funja à IPS.

Em 2013, Funja entrou no Programa AgriHack de Talento para o Leste da África (AgriHack Talent Programme for East Africa), uma competição organizada pelo Centro Técnico de Agricultura e Cooperação Rural (Technical Centre for Agricultural and Rural Cooperation – CTA), sediado na Holanda.

A ideia de Funja ganhou segundo lugar na competição e o seu prêmio foi dinheiro e a mentoria do Centro de Inovação Buni (Buni Innovation Hub), na Tanzânia. Em 2015, com um parceiro e alunos da Universidade de Bagamoyo, na Tanzânia, ela desenvolveu o AgrInfo, mas somente um ano depois começou a trabalhar em tempo integral no negócio.

Agora o AgrInfo cria perfis para agricultores, com o tamanho e localização das suas fazendas, e as colheitas que nelas produzem. Esses dados então são colocados em uma plataforma online, à qual instituições financeiras podem ter acesso para avaliar a credibilidade desses agricultores e sua qualificação para empréstimos.

“Informação disponível em tempo real é essencial para tomar decisões, especialmente em agricultura”, destacou Funja, que tem bacharelado em Engenharia da Computação e mestrado em Engenharia de Sistemas de Informação e Comunicação.

O Banco de Desenvolvimento Africano (African Development Bank) constatou que 12 milhões de jovens entram no mercado de trabalho ao longo do continente todo ano, enquanto apenas três milhões de empregos são criados, deixando vários desempregados. Contudo, o agronegócio oferece abordagens inovadoras para que a juventude desenvolva e implemente soluções inteligentes de TIC para pequenos agricultores.

“A TIC pode ser uma mudança para o desenvolvimento agrícola. A tecnologia está oferecendo benefícios econômicos para a juventude vender bens e serviços usando uma plataforma online”, apontou Funja à IPS. O AgrInfo tem sido capaz de ajudar, por uma pequena taxa, mais de 300 pequenos agricultores na capital da Tanzânia, Dodoma, a terem acesso a instituições financeiras após o mapeamento das suas fazendas.

“Temos ajudado agricultores a saberem o que eles têm e eles têm sido capazes de usar suas terras para obter crédito e comprar insumos”, detalhou Funja. O sucesso veio por meio de tentativa e erro, paixão e criação de valor, acrescentou. Planos estão sendo feitos para aumentar para um milhão o número de subscritos no serviço, e para estender o serviço a outros atores na cadeia de valor da agricultura, como serviços de extensão do governo.

Um começo voador

Quando Funja começou o negócio, usou o GIS e um GPS de mão como aparelhos para coletar dados. Em 2017, ela foi apresentada, por meio do CTA, ao uso aplicado de Sistemas Aéreos não Tripulados (Unmanned Aerial Systems – UAS) e foi treinada no aspecto comercial da operação de drones. Os UAS são baseados em tecnologia de drones e fornecem informação mais rápida e mais precisa. Funja tornou-se uma das pilotos pioneiras de drones na Tanzânia.

O CTA colaborou com a Parrot, uma fabricante francesa de drones, para apoiar empresas de tecnologia iniciantes no desenvolvimento da precisão necessária para a agricultura na África. Avançando dois anos, de 2017 até este ano, o objetivo do projeto do CTA é ajudar a estabelecer aproximadamente 30 empreendimentos que são operados principalmente por jovens nos países da África onde a legislação permite.

Os drones, uma tecnologia relativamente nova na África, oferecem novas oportunidades a jovens empreendedores em TIC, que ajudam agricultores a aumentar sua produtividade, sustentabilidade e rentabilidade. Ferramentas digitais contribuem para melhorar a posse da terra, avaliando colheitas, pragas e doenças, de acordo com pesquisa realizada pelo CTA.

“Considerando o fato de que, em 2017, os drones eram uma tecnologia nova para a África, o nosso projeto teve uma função importante para estabelecer um ambiente favorável”, avaliou à IPS Giacomo Rambaldi, coordenador sênior do AgriHack no CTA. “O projeto apoiou o Painel de Alto Nível sobre Tecnologias Emergentes da União Africana (UA) na seleção de drones para agricultura de precisão como uma das tecnologias mais promissoras que fomentariam o desenvolvimento da África”, destacou.

Em janeiro de 2018, o Conselho Executivo da UA recomendou que todos os membros utilizassem as oportunidades que os drones oferecem para a agricultura. A África deve priorizar a adoção, o desdobramento e o aumento de drones para a agricultura de precisão, por meio da capacitação, infraestrutura de apoio, fortalecimento regulatório, pesquisa, desenvolvimento e engajamento de interessados, afirmou uma reportagem publicada em 2018 pela Nepad (New Partnership for África’s Development), intitulada Drones no Horizonte: Transformando a Agricultura Africana.

A reportagem observa que a otimização do lucro agrícola, por meio do aumento da produtividade e da melhoria da produção, é resultado da aplicação de vários desenvolvimentos inovadores durante os anos, um deles o uso de drones.

“Enquanto certas intervenções, e a revolução verde em particular, têm beneficiado vários países em desenvolvimento, isto não tem sido o caso na África. Essa situação apela para uma revisão das regras e práticas agrícolas, e um entendimento explícito de que regras que possibilitem a promoção da tecnologia de drones devem ser formuladas”, recomenda a reportagem.

Drones para o desenvolvimento agrícola

Funja contou à IPS que as empresas digitais são atraentes, mas precisam de uma gestão inteligente, fundos e de comprometimento integral. “Uma aplicação digital é apenas uma ferramenta, mas o valor vende. Se não tiver valor, não tem negócio”, pontuou.

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (Food and Agriculture Organisation – FAO) declarou que a tecnologia de drones tem grande potencial para tratar de alguns dos problemas mais urgentes encarados pela agricultura para acessar dados de qualidade em tempo real. O setor da agricultura será o segundo maior usuário de drones no mundo nos próximos cinco anos, de acordo com uma pesquisa realizada pela Goldman Sachs.

Investimentos em TIC podem ter uma função importante de acelerar a transformação agrícola na África e podem aumentar a produtividade e a renda de pequenos agricultores, ressaltou a empresa de consultoria em desenvolvimento Dalberg Consuloria em Desenvolvimento Global.

“A África tem a maioria das terras aráveis do mundo que não são cultivadas. Porém, desbloquear o grande potencial agrícola requer um desenvolvimento estratégico das capacidades de TIC”, apontou à IPS Andres Johannes Enghild, consultor no escritório de Nova York da Dalberg. “Se as novas soluções de TIC são bem cuidadas, elas podem, por exemplo, melhorar o vínculo dos agricultores com o mercado e atrair investidores internacionais”, completou.

Apesar do potencial agrícola da África, a região continua sendo aquela com as mais altas taxas de insegurança alimentar e desnutrição no mundo. Hoje, agricultores têm acesso limitado para melhorar as práticas agrícolas, uma área em que a TIC pode fazer uma grande diferença. E Funja é uma das empreendedoras que faz isso possível.

Tags:
 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>