PEMBA, Zâmbia, 26 de abril de 2019 (IPS) –  São pouco mais de três da tarde em uma quarta-feira quente no distrito de Chipata, Zâmbia Oriental, e um grupo de mulheres chega para uma reunião. Está na hora de Elizabeth Tembo ir na frente de outras mães como ela e compartilhar lições importantes sobre nutrição.

Essa é uma matéria que Tembo aprendeu no projeto implementado pelo Instituto Internacional de Agricultura Tropical (International Institute of Tropical Agriculture – IITA) e seus parceiros.

“Com o projeto, aprendi muitas práticas melhores de agricultura para produzir uma colheita com altos nutrientes, como ervilhas e soja, das quais minha família se beneficiou grandemente”, contou Tembo a uma reportagem do IITA. “E agora estou feliz de ajudar outras mulheres também. Assim, juntas, podemos reduzir a alta prevalência de desnutrição e evitar que cresça entre as crianças da nossa comunidade”, acrescentou a mãe amamentando.

O projeto Aumentando a Nutrição (The Scaling Up Nutrition – SUN), do Programa dos Mil Dias Mais Críticos, foi implementado entre 2014 e 2017 pela colaboração do IITA com a Development Aid from People to People (DAPP), e financiado pela Irish Aid, a UK Aid Direct e a Agência Internacional de Desenvolvimento Sueco (Swedish International Development Agency – SIDA). O objetivo era alcançar grávidas e mães amamentando crianças com no máximo 24 meses de idade.

“O projeto focou em promover produção, processamento e utilização de cultivos ricos em nutrientes, como hortaliças e árvores frutíferas, além de soja, ervilha, feijões, milho, laranja, batata-doce de polpa alaranjada e mamão. E o nosso papel era providenciar capacitação para treinadores baseados na comunidade, sobre produção, processamento e utilização dessas colheitas promovidas em nível comunitário”, explicou à IPS Theresa Gondwe, especialista em disseminação tecnológica do IITA no Southern Africa Research and Administration Hub (SARAH).

Em tempos recentes, especialistas reconheceram a função especial que o setor agrícola tem em mitigar a desnutrição de mães e crianças em grupos vulneráveis, por meio do aumento da disponibilidade de dietas diversificadas.

“Agora na África, governos e comunidades estão adotando inovações que estão melhorando a vida de milhões, com a produção agrícola diversificada como um caminho para melhorar a variedade de dietas em lares de pequenos agricultores pobres que produzem o que consomem”, apontou à IPS Emmanuel Alamu Oladeji, do IITA SARAH.

Isso vem de especialistas que estão mais e mais de acordo com que a disponibilidade e o acesso a alimentos, sozinhos, não são o suficiente sem um nível necessário de nutrientes. Por sua parte, o IITA desempenhou um papel fundamental no Ano Internacional dos Pulses (sementes secas), em 2016, que promoveu cultivos tradicionais com alto valor proteico, como ervilha, feijões, lentilha, grão de bico e fava.

De acordo com um artigo publicado pelo IITA, os pulses podem parecer pequenos, mas eles são um grande desafio, pois nutricionistas constatam consistentemente que seus baixos perfis glicêmicos e alto conteúdo de fibras ajudam a prevenir e gerenciar as chamadas doenças da riqueza, como obesidade e diabetes.

Também acredita-se que, por causa da proteína que possuem, podem ajudar o mundo a administrar suas práticas pecuárias de maneira mais sustentável. Desse modo, mais pessoas podem desfrutar de dietas de renda média melhores e mais variadas, sem sobrecarregar os recursos naturais.

Com a chegada da mudança climática, que já tem colocado uma grande pressão no sistema alimentar, a necessidade de abordagens mais sustentáveis na agricultura e a integração de dietas diversificadas para uma melhor nutrição tem ganhado um significado extra.

De acordo com a Organização das Nações Unidas, até 2050, o aumento da população e a mudança de dieta vão elevar a necessidade de alimentos em 60%. Todavia, como a mudança climática já está colocando pressão no sistema alimentar e nos meios de subsistência rurais por causa de secas, inundações e furacões, acidificação dos oceanos e a elevação do nível do mar e das temperaturas, são necessárias abordagens mais amigáveis com o ambiente e o clima.

Adaptação, portanto, é um componente indispensável para acabar com a equação da fome, especialmente para pequenos agricultores, que já estão lutando com os caprichos da mudança do clima.

O Fundo Mundial para a Natureza (World Wide Fund for Nature – WWF) Zâmbia tem um projeto de adaptação à mudança climática para pequenos agricultores no sudoeste do país. “Estamos apoiando pequenos agricultores na construção da resiliência climática”, ressaltou à IPS Nachilala Nkombo, diretora do WWF Zâmbia. “Providenciamos treinamento direto sobre abordagens inteligentes para a produção de alimentos e trabalhando com os sistemas de extensão do governo, bem como com uma rede de agricultores, para propagar conhecimento entre os agricultores”, detalhou.

Nkombo acredita que as políticas agrícolas africanas têm que integrar a mudança do clima em todos os níveis para lidar com o crescimento da população e a crescente pressão nos sistema de produção de alimentos. “Precisamos de um equilíbrio adequado. Não podemos simplesmente abrir novas terras porque a população está crescendo, mas também buscar métodos para desempenhar um papel no reflorestamento em larga escala”, observou.

De volta ao projeto SUN, Gondwe está convencida do impacto positivo da intervenção. “O projeto enfatizou a diversificação de cultivos para melhorar a nutrição e tem exemplos de sucesso em Luapula e nas províncias Leste e Norte, onde o projeto foi implementado. E a maioria dos agricultores envolvidos no projeto viu uma mudança positiva no seu modo de vida”, disse.

Lyness Zimba, do distrito de Lundazi, no leste de Zâmbia, deu seu depoimento sobre o que aprendeu. “Eu levei a sério as aulas semanais, dadas por especialistas em agricultura e saúde”, testemunhou para uma reportagem do IITA.

“Fomos ensinados sobre uma variedade de tópicos, como a importância de alimentar as nossas crianças com comidas saudáveis e como cultivar e utilizar a variedade de culturas altamente nutritivas para obter o máximo de benefícios nutricionais. As receitas facilitaram a preparação de refeições nutritivas para as nossas crianças; nós não somos mais os mesmos”, concluiu Zimba.

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