COTONOU, Benin,  30 de Abril de 2019 (IPS) –  Théophile Houssou, um agricultor de milho de Cotonou, passou noites sem dormir, deitado e preocupando-se com os vários desastres que poderiam acontecer com qualquer agricultor, frequentemente pensando: “o que vai acontecer se chover forte e toda minha plantação for levada embora?”, ou “o que aconteceria se minha fazenda fosse invadida por lagartas, que acabassem comendo toda a minha plantação e não me deixassem nada?”.

A colheita de milho em Benin, como também no mínimo em 28 países da África, está sendo ameaçada pela lagarta de outono, uma praga invasiva que ataca 80 espécies diferentes de cultivos. Houssou é grato por não ter acontecido uma infestação. E agradece a “Deus por uma boa temporada, mas não foi fácil”, contou à IPS.

A produção de milho em Benin atingiu um recorde de 1,6 milhões de toneladas durante a temporada 2017-2018, comparada com 1,2 milhão de toneladas de dois anos atrás, de acordo com os dados do Ministério de Agricultura.

No centro da cidade de Cotonou, a capital comercial do país, cinco homens estão ocupados carregando abacaxis em um caminhão de dez toneladas, enquanto cinco veículos mais pesados aguardam para também serem carregados. A produção será levada para vários países da região, incluindo a Nigéria, que recebe 80% de todas as exportações de Benin.

Benin é o quarto maior país da África na exportação de abacaxi, produzindo entre 400 mil e 450 mil toneladas anualmente. As exportações para a União Europeia (UE) aumentaram de 500 toneladas para quatro mil toneladas entre 2000 e 2014, de acordo com dados oficiais.

Mais longe, o famoso mercado Dantokpa está inundado de produtos agrícolas, incluindo tomate, quiabo, soja, feijões, manga, laranja, pimentão verde, limão e todos os tipos de verduras e frutas. A competição é feroz e os preços de venda são muito baixos, mesmo em uma excelente temporada agrícola.

 

Espaço para melhorias

Apesar de o setor agrícola parecer animado, ele ostenta várias falhas. Mesmo sendo, na maioria das vezes, de subsistência, a agricultura contribui com aproximadamente 34% para o Produto Interno Bruto (PIB) das nações da África ocidental. Mais ou menos 80% das 11,2 milhões de pessoas em Benin obtêm sua renda da agricultura, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). A FAO acrescenta que os agricultores do país encontram desafios como infraestrutura precária e inundações, que podem destruir cultivos e estoques de sementes.

Nos documentos Plano Estratégico para o Desenvolvimento do Setor Agrícola (PSDSA) 2025 e Plano Nacional para Investimentos na Agricultura e Segurança Alimentar e Nutrição (PNIASAN) 2017-2021, o governo de Benin admitiu que a renda e a produtividade no setor está baixa, e que a força de trabalho só é recompensada parcialmente, fazendo que os produtos agrícolas sejam menos competitivos.

“A maioria dos agricultores utiliza muito pouco insumos melhorados e envolvem-se em práticas de mineração que acentuam a degradação dos recursos naturais”, aponta o documento.

“Podemos fazer melhor que isso”, opinou à IPS Marthe Dossou, um pequeno agricultor que supervisionava o descarregamento de milhares de caixas de tomates de um caminhão em condições precárias. Esses tomates vão ser exportados para a Nigéria, mas ele sente que, considerando a alta qualidade da colheita, Benin pode produzir mais para exportar. “Isso se pudermos receber ajuda, como mais recursos, incluindo empréstimos, novas técnicas de agricultura e domínio das técnicas de consumo de água”, disse.

Tamo Manuele, representante de Benin no Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA), destacou à IPS que a inovação agrícola “é fundamental para erradicar a pobreza, a fome e a má nutrição, principalmente nas áreas rurais, onde a maioria da população mais pobre do mundo vive”.

“Inovação pode, primeiro de tudo, aumentar a produtividade e a renda de pequenos agricultores e, em segundo lugar, diversificar a renda de agricultores por meio do desenvolvimento da cadeia de valor. E, por último, criar mais e melhores oportunidades de diminuir a pobreza rural”, ressaltou Manuele.

 

A Agricultura de Benin teve uma boa temporada, mas não foi fácil

O IITA lançou o projeto de biocombustível à base de jatrofa em 2015, em Benin, envolvendo o desenvolvimento de uma cadeia de biocombustíveis para criar pequenos negócios lucrativos e viáveis. Essas mulheres fazem sabão da árvore de jatrofa. Cortesia: International Institute for Tropical Agriculture (IITA)

 

“Agricultores, ou no mínimo atores na cadeia de valor agrícola, precisam de suporte para a conservação e o tratamento das commodities agrícolas. Com a e-agricultura, produtores podem manejar melhor a sua produção e, especialmente, estar informados sobre as oportunidades do mercado. Inovações como o sistema de garantias (um sistema de crédito de estoque no qual os agricultores, em vez de vender seus produtos, usam-nos como garantia para obter crédito do banco) e a venda em grupo podem também resolver esse problema. ONGs e outros especialistas em agricultura têm a força e apoiam de perto os agricultores”, enfatizou Manuele.

Sediado em Ibadan, na Nigéria, o IITA tem estado presente em Benin desde 1985 e apoia a pesquisa nacional em agricultura e a extensão desses serviços. “Pesquisa é uma das principais ligações que levam à inovação. Vários estudos reportam que comunidades localizadas perto de centros de pesquisas são mais informadas, expostas a inovações e mais supervisionadas por cientistas. Portanto, a vontade deles para adotar inovações é extremamente significante. Assim, o IITA Benin está mais presente no campo, com várias inovações que estão sendo testadas e gerenciadas por cientistas”, acrescentou Manuele.

Alguns agricultores dizem que estão conscientes das tecnologias agrárias, mas reclamam sobre a falta de promoção dessas inovações nas áreas em que operam. Koffi Akpovi Justin, um agricultor de temporada, foi introduzido ao método 4R, no qual quatro princípios científicos são usados para garantir que a terra esteja no nível certo de nutrientes para plantar.

“Todos vangloriam-se de que a terra na África é fértil… Eu estava frustrado e quase desisti da agricultura porque acreditava fortemente nos modos naturais de fazer as coisas. Eu só arava a terra, plantava sementes (muitas delas), começava o processo doloroso de molhá-las e, no fim, obtinha poucos resultados. Agora não mais”, comemorou Justin.

Todavia, a África subsaariana é o mercado de fertilizantes mais caros do mundo, onde pequenos agricultores compõem mais ou menos 70% da população. “Se você os usa, deve usar com cuidado, porque, se não praticar o método dos 4R, pode derramar tudo sobre os campos, poluir recursos de água que estão por perto e lençóis freáticos. Eu vivi isso muitos anos atrás, mas agora sou mais esperto”, declarou Justin.

Justin acrescentou que vários agricultores que vivem nas áreas longínquas não conseguem ter acesso a informações sobre inovações agrícolas. “Vários deles, a maioria em lugares muito remotos, sempre dizem: ‘sabemos que essas coisas existem e gostaríamos de usá-las, mas onde podemos encontrá-las?’. Talvez as organizações internacionais, como a ONU e o IITA, possam fazer mais para garantir que mais agricultores possam ter acesso a inovações agrícolas para impulsionar a produção de alimentos e lutar contra a fome”, destacou.

Monique Soton é uma dessas agricultoras. Ela mora no noroeste de Benin, mais ou menos a 500 quilômetros de Cotonou. “Nós estamos em áreas remotas e lá nossas vidas são concentradas em apenas sair para trabalhar na nossa plantação de manhã e voltar à tarde. Não tem rádio, não tem tevê, não tem eletricidade. Nós podemos perder informações importantes sobre os novos métodos de agricultura ou desenvolvimentos que estão acontecendo no setor, como por exemplo se um censo é feito para determinar o número de agricultores que precisam de ajuda financeira. Isso é triste”, observou à IPS essa agricultora de tomate.

Outro obstáculo importante que pequenos agricultores enfrentam em Benin é a falta de mercados. “O único mercado local que eu usava para vender meus produtos é em Dantokpa, em Cotonou. Imagina a distância da nossa área (mais ou menos 500 quilômetros)!”, enfatizou Soton, indicando que não existem estradas ou veículos para levar os produtos até lá. “Várias vezes o veículo precário que usamos para transportar nossos produtos quebra no meio de um terreno sem dono, à noite, e isso é muito assustador”, disse.

 

Inovação agrícola

O IITA tem feito contato com várias comunidades. Em Benin, em 2015, lançou um projeto de produção de biocombustível a partir de jatrofa (arbusto também chamado de pinhão manso, do mesmo gênero da mamona), que incluiu o desenvolvimento de uma cadeia de biocombustíveis para criar pequenos negócios lucrativos e viáveis.

“Especialmente, está consolidando a rentabilidade e a sustentabilidade da cadeia de valor da jatrofa, por meio da abordagem de parceria público-privada que cria trabalho para pessoas jovens, mulheres e homens. O projeto é configurado de acordo com a cadeia de valor, incluindo produção de jatrofa, extração do seu óleo, produção de sabão, moagem de grãos, eletrificação rural e outras”, explicou Manuele.

Desde o começo do projeto, 2.050 produtores, incluindo 538 mulheres, têm sido beneficiados. À parte do projeto jatrofa, o IITA informou que implementou vários outros projetos que contribuem com a segurança alimentar e a nutrição, e também melhoram a renda de vários lares rurais.

 

Solução mágica?

Embora as inovações na agricultura tenham sido bem-sucedidas, Jeroen Huising, um cientista do solo da Nigéria, advertiu que essa não é a “solução mágica” para Benin. “Eu não acredito em soluções mágicas e agricultura (inovação) certamente não é mágica. A questão sobre a pobreza rural tem pouco a ver com a inovação agrícola. Existem fatores econômicos que determinam isto”, pontuou à IPS.

“Além disso, se as inovações podem aumentar a produção de pequenos agricultores, isso não resolveria os problemas deles. A produção tem a ver, principalmente, com o uso de insumos e, mesmo assim, os preços são frequentemente muito baixos para se ter uma vida decente”, enfatizou Huising.

Soton concorda que fatores econômicos têm um enorme papel no sucesso de um pequeno agricultor, explicando que “a falta de apoio financeiro é um problema grave”. Ela ressaltou que bancos não consideram pequenos agricultores para empréstimos, “porque não preenchemos nenhum dos critérios necessários para que nos emprestem dinheiro. Então, a gente usa o dinheiro que ganhamos do tontines (um plano de investimento) e da venda de algumas das nossas propriedades. Nós temos a terra, mas falta tudo, desde sementes até fertilizantes, e o dinheiro que é preciso para contratar trabalhadores”.

Tags:
 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>