BRASÍLIA, 8 de julho de 2019 (IPS) – Quando no Brasil os casos de hanseníase, mais conhecida como doença de Hansen, aumentam, a falta de assistência de serviços médicos não deve ser responsabilizada, mas sim deve ser reconhecida sua eficiência no diagnóstico das pessoas infectadas, ao contrário do que pode acontecer em outros países.

Essa singularidade da doença foi destacada na visita do presidente da Fundação Nippon, Yohei Sasakawa, aos estados do Pará e Maranhão, no Norte e Nordeste do Brasil, entre os dias 2 e 7 de julho, para conhecer e incentivar os esforços para reduzir a incidência da doença, que não se limita à infecção pelo bacilo Mycobacterium leprae.

Sasakawa continua, a partir do dia 8, sua visita a este país latino-americano, em Brasília, na etapa mais institucional da viagem, para se reunir com o presidente Jair Bolsonaro e outras autoridades dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, antes de retornar ao Japão, no dia 10. A Fundação Nippon financia vários projetos no Brasil, um dos quais facilita as comunicações por telefone e internet para expandir e melhorar a informação sobre essa doença crônica e combater o preconceito, o estigma e a discriminação associados a ela.

O diagnóstico precoce é uma das recomendações destacadas nas reuniões de Sasakawa com autoridades do Estado do amazônico do Pará, de acordo com Claudio Salgado, presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia e professor na Universidade Federal do Pará. “A hanseníase (como é chamada a doença no Brasil) não se manifesta em fases agudas de febre, calafrios e confusão mental, como a malária”, explicou à IPS, em Belém, capital do Estado.

Seus sintomas, como manchas insensíveis na pele, geralmente levam anos para se manifestar, quando já são sequelas irreversíveis, como a perda de dedos e movimentos das mãos ou membros inteiros. Além disso, os casos são dispersos, dificultando ainda mais a identificação dos pacientes, embora já existam meios de diagnóstico precoce, como os chamados exames de contato.

Estima-se que cerca de 95% das pessoas têm uma resistência natural ao contágio, que não ocorre tão facilmente como muitos acreditam, por mitos espalhados sobre o mal. É necessária uma convivência muito próxima e a possibilidade desaparece com pouco tempo de tratamento regular do paciente.

Por tudo isso, pode se tornar uma armadilha a fixação de metas quantitativas, como estabeleceu a Organização Mundial da Saúde (OMS) para “eliminar” a lepra até o ano 2000, advertiu Salgado. A eliminação é considerada uma meta alcançada quando os novos casos anuais não atingem um por dez mil habitantes.

A batalha contra essa doença infecciosa ganhou um aliado fundamental em 1982, quando se tornou disponível o tratamento multimedicamentoso, cuja eficácia permitiu a cura de mais de 16 milhões de infectados desde então, segundo a OMS. O Brasil é o único país do mundo que não atingiu formalmente o objetivo. Em 2017, houve 26.875 novos casos em uma população que, então, totalizou 200 milhões de habitantes. Isso resultou em 1,35 por dez mil pessoas, de acordo com o relatório da OMS.

Salgado duvida das estatísticas que apontam para uma redução em saltos, que são uma impossibilidade em epidemiologia, e que o Brasil seja o país que concentra 92% dos novos casos nas Américas, como reconhece o Ministério da Saúde em sua Estratégia Nacional para Enfrentar a Hanseníase 2019-2022.

 

Ajuda japonesa para a complexa eliminação da lepra no Brasil

Jantar em que o governador do Maranhão, Flávio Dino, recebeu a delegação da Fundação Nippon, que financia projetos em benefício de pessoas afetadas pela hanseníase em várias cidades desse Estado do Nordeste brasileiro. A visita e as reuniões com autoridades de saúde encorajaram novos esforços na luta contra a doença e suas consequências, como deficiências, estigmas e discriminação. Foto: Artur Custódio/IPS.

 

Seria admitir realidades muito diferentes em relação à lepra, entre o Brasil e seus vizinhos, apesar das semelhanças nas condições econômicas, sociais e ambientais. Um aparente paradoxo é gerado. Um país que diminui sua atenção à doença terá estatísticas favoráveis, em contraste com a provável expansão da hanseníase. Haverá menos casos diagnosticados, enquanto a realidade piora.

No Maranhão, o segundo estado brasileiro visitado por Sasakawa, o índice é alto, 4,4 novos casos por ano por dez mil habitantes. “Detectamos 3.125 casos por ano em média”, disse Lea Terto, superintendente de Epidemiologia e Controle de Doenças da Secretaria de Saúde. Preocupa o fato de que o Maranhão é o estado em que mais crianças e adolescentes menores de 15 anos são infectados, refletindo a sua convivência com adultos sem tratamento, destacou à IPS, em São Luís, capital do Estado.

A presença de Sasakawa despertou entusiasmo entre os profissionais de saúde em clínicas, antigas colônias de leprosos e cidades visitadas, respondendo aos benefícios dos projetos financiados pela Fundação Nippon. O Maranhão foi o estado mais beneficiado por um projeto, implementado desde 2017, que visa a reforçar a atenção para a doença de Hansen em 20 dos municípios com maior incidência no Brasil, disse à IPS, também de São Luís, Artur Custódio, coordenador nacional do Movimento de Reintegração dos Afetados pela Hanseníase (Morhan).

A visita foi “muito positiva” para fortalecer a vontade dos envolvidos e renovar o compromisso do governo local com a redução da doença e problemas que dificultam a sua prevenção, avaliou Terto, enfermeira há 37 anos. Ela ficou impressionada com a declaração de um visitante de que estão doentes as pessoas mais preconceituosas. “Pesquisa ativa e exames de contato” são as prioridades desse trabalho, para “reduzir a incidência de maneira concreta e responsável”, o que significa uma redução lenta, de cerca de 2% dos novos casos por ano, apontou. Mas se mais casos do que o esperado aparecem, melhor, porque significa que novos pacientes foram identificados sem tratamento, observou Terto.

Além das dificuldades de se tirar a lepra da invisibilidade, também é uma preocupação o abandono no meio do tratamento, que pode durar de seis meses a mais de um ano, dependendo da gravidade, até o bacilo deixar o corpo. Garantir a adesão do paciente até o final, nos casos mais complexos, exige esforços, por suas condições de vida.

Para estimular os infectados a persistirem no tratamento, a Fundação Nippon financia a distribuição de cestas básicas para as famílias afetadas em Marabá, cidade do interior do Estado do Pará, visitada por Sasakawa em 3 de julho. Uma melhor nutrição também ajuda na cura, que é eficaz se a pessoa infectada fizer o tratamento pelo tempo prescrito.

Sasakawa iniciou sua turnê no norte do Brasil, visitando a clínica Marcello Candia, Unidade de Referência Especializada em Dermatologia, em Marituba, cidade de 108 mil habitantes no Pará. Existia ali um leprosário que marca a história da cidade e a de José Picanço, coordenador do Morhan no Pará, que, como seus dois irmãos, viveu separado dos pais infectados com o mal, que foram detidos e isolados no recinto, em 1972. Na prática, ele e seus irmãos também foram tratados como “leprosos”.

As crianças foram separadas dos pais e mantidas em orfanatos. Estima-se que de 15 mil a 20 mil sofreram no Brasil, e ainda sofrem, as consequências sociais e psicológicas da lepra, por causa da antiga lei de segregação dos doentes. Seus pais, que sobreviveram até 2007, pelo menos conseguiram o direito a uma indenização pela violência do Estado contra eles. Mas seus filhos ainda estão lutando por tal direito como vítimas.

“Há estados, como Minas Gerais e Ceará, que, por decreto governamental ou projetos em trâmite parlamentar, tratam de reconhecer esse direito. Mas, como o drama resultou de uma política nacional, a indenização depende do governo federal”, explicou Picanço à IPS, de Belém. Na sua avaliação, a visita de Sasakawa reforçou as várias lutas para o diagnóstico precoce da doença, os direitos das pessoas afetadas e a necessidade de mais divulgação sobre a hanseníase pelos meios de comunicação, que atualmente está limitado a uma campanha anual em janeiro.

Edição: Estrella Gutiérrez

Tradução para o português: Nanci Vieira

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