BULAWAYO, Zimbábue, 7 de outubro de 2019 (IPS) – Como resultado das mudanças climáticas, a indústria de extração de recursos na África será impactada pelo encalhe de ativos, dizem pesquisadores. “Vários ativos naturais se tornarão inviáveis comercialmente em todo o mundo, como resultado das mudanças climáticas e da incapacidade dos países de explorá-los”, disse Vanessa Ushie, gerente da divisão de análise de políticas do Centro Africano de Recursos Naturais da África do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), que ajuda os países africanos a alavancar seus recursos naturais para o desenvolvimento sustentável.

Ushie explicou à IPS que esse encalhe é uma questão política cada vez mais importante que os países africanos devem considerar, porque são altamente dependentes dos recursos naturais, com uma média de 70% de suas exportações sendo de minerais. Enquanto luta para alcançar seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – um conjunto de objetivos globais identificados pela Organização das Nações Unidas (ONU) para acabar com a pobreza e a desigualdade entre os Estados membros –, uma riqueza de recursos naturais que poderiam ser usados para o desenvolvimento da África permanece em grande parte inexplorada.

Cerca de 30% das reservas minerais do mundo – incluindo platina, ouro, diamantes e carvão – encontram-se na África, mas o continente ainda apresenta altos níveis de pobreza. Além disso, também possui 10% das reservas mundiais de petróleo e 8% das de gás natural, de acordo com o BAD. As mudanças climáticas estão ameaçando a exploração desses recursos e, mais importante, de fontes de energia não renováveis (carvão, petróleo e gás).

Mantê-los no chão

Como resultado do impacto das mudanças climáticas, a África tem opções difíceis quando se trata de seus recursos minerais, afirmam pesquisadores. Conseguiria manter os recursos no solo e arriscar a estagnação econômica ou encontrar rentabilidade em fontes de energia limpa?

“Estamos cientes do Acordo de Paris e do compromisso dos países africanos, assim como seus pares globais, de reduzir as emissões de carbono, a fim de atingir a meta de manter o aquecimento global abaixo de 2° Celsius”, observou Ushie. “Com esse objetivo, fica claro que certos minerais terão que ser deixados no solo, especialmente aqueles que emitem mais carbono”, pontuou.

O BAD diz que “ativos ociosos” atraíram muito interesse nos últimos anos, pois as mudanças climáticas justificam uma transição para o desenvolvimento de baixo carbono no setor de recursos naturais. Mais de 185 países concordaram em deixar dois terços dos combustíveis fósseis comprovados no solo para cumprir a meta climática do Acordo de Paris. Em 2017, a Agência Internacional de Energia alertou que ativos de petróleo e gás no valor de US$ 1,3 trilhão poderiam ser abandonados até 2050, se a indústria de combustíveis fósseis não se adaptar a políticas climáticas mais ecológicas.

Falando no final da Cúpula de Ação Climática da ONU, a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz e ex-presidente da Irlanda, Mary Robinson, assinalou que os líderes mundiais devem considerar a indignação de milhões de pessoas em todo o mundo que marcham contra as mudanças climáticas e pedem o fim do uso de combustíveis fósseis. “Instamos todas as nações a se comprometerem a alcançar a neutralidade do carbono antes de 2050, para encerrar imediatamente a construção e o investimento em energia de carvão e implementar uma transição verde que seja justa e equitativa”, destacou Robinson.

Ativos ociosos

Muitos países africanos estão extraindo carvão, gás e petróleo com novas descobertas, sinalizando fortunas futuras que podem ser difíceis de perder. Em 2019, a empresa francesa de petróleo Total tornou pública sua descoberta de um grande condensado de gás (gás natural líquido) na África do Sul. O condensado de gás é mais valorizado que o petróleo bruto. No Quênia, a companhia britânica de petróleo Tullow Oil projetou 2024 como a provável data até a qual o país pode esperar ganhos com seu petróleo na região de Turkana. Também foram descobertas vastas reservas de petróleo em Uganda.

Para o continente africano, um retardatário do boom dos combustíveis fósseis, argumentos a favor da perda de ativos podem influenciar os ganhos de desenvolvimento e também interromper o crescimento econômico. Ushie apontou que alguns ativos serão perdidos devido a alterações nos mercados e fluxos de investimento, à medida que empresas extrativistas e investidores globais ajustam suas carteiras para atender às novas regulamentações de baixo carbono. Outros ativos estão em risco devido à transformação da demanda dos consumidores, como o crescente uso de energia solar e veículos elétricos nos países desenvolvidos.

Uma oportunidade ou obstáculo?

“Com a expansão das mudanças climáticas e a consequente transição para o baixo carbono, o setor de mineração da África enfrenta sérios riscos e algumas oportunidades”, argumentou Ushie à IPS, observando que os países africanos precisam entender e responder ao novo normal. O BAD está promovendo uma abordagem diversificada para o fornecimento de energia e o gerenciamento integrado de recursos naturais. A solução reside no investimento em energia localizada e com eficiência de recursos, como projetos solares, eólicos e de biomassa locais descentralizados, de propriedade da comunidade.

Até 2020, o Banco Mundial terá contribuído com US$ 17 bilhões para o financiamento climático para a África, por meio de seu Plano de Ação para Mudanças Climáticas. Além disso, o NDC África do Banco Mundial apoiou os países africanos a implementar suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) sob o Acordo de Paris e ajuda os países a atrair oportunidades de financiamento para a sustentabilidade, como títulos verdes, para apoiar a adaptação às mudanças climáticas em países de alto risco.

Evidências de pesquisa para políticas de baixo carbono

“Queremos modelar cenários sob os quais ocorram encalhes para vários minerais e combustíveis fósseis e fornecer conselhos políticos aos governos sobre como eles podem responder a esse risco”, afirmou Ushie. “Deveria haver um debate público robusto sobre ativos e recursos minerais ociosos, e é por isso que o BAD está envolvido em plataformas políticas, como o Fórum Intergovernamental sobre Mineração, Metais e Desenvolvimento Sustentável”, acrescentou.

O Fórum Intergovernamental sobre Mineração, Minerais, Metais e Desenvolvimento Sustentável, a ser realizado em Genebra entre 7 e 11 de outubro, tem o tema Mineração em um Clima em Mudança, indicando que, mesmo em nível global, há um reconhecimento de que a extração de recursos está sendo impactada pelas mudanças climáticas. O Fórum é uma boa oportunidade para o Centro Africano de Recursos Naturais e o BAD se engajarem em um diálogo político global sobre o futuro da mineração, que é um setor crítico na África, destacou.

Fatima Denton, diretora do Instituto de Recursos Naturais da Universidade das Nações Unidas, disse à IPS que a mudança global com relação aos combustíveis fósseis e aos custos da tecnologia das energias renováveis são uma oportunidade para o continente africano aumentar o investimento em fontes de energia verde. Com a rápida urbanização da maioria das economias africanas, juntamente com a crescente demanda por eletricidade, os países africanos começaram a aproveitar essa oportunidade para aumentar o investimento em energias renováveis, ressaltou.

Um estudo de 2018 da Bloomberg Finance indica que os países em desenvolvimento estão começando a liderar a transição global para a energia limpa. Uma capacidade total de energia de 114 Gigawatts (GW) com zero carbono foi adicionada nos países em desenvolvimento em 2017, em comparação com os 63 GW adicionados nos países mais ricos.

Com a queda nos preços globais do gás, mais países africanos estavam se concentrando no crescimento dessa exploração. Mas as energias renováveis têm maior necessidade de metais e materiais, criando oportunidades para os países africanos com reservas desses recursos essenciais para a construção de transmissão eólica, solar e elétrica.

“Apesar das oportunidades mencionadas, há o desafio de quando as economias africanas realmente esgotarão seus ativos de combustíveis fósseis e a falta de financiamento para investir em oportunidades de crescimento verde, conforme declarado em suas NDCs”, pontuou Denton. A segurança energética em um futuro de baixo carbono implica a transição para fontes renováveis limpas, não como um fim em si, mas como um meio para alcançar o desenvolvimento sustentável em setores críticos como agricultura, mineração, saúde e educação, indicou.

 

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