KIGALI, 26 de novembro de 2019 (IPS) – Quando Kristine Ngiriye, empresária nascida em Ruanda e criada no Senegal, tinha 18 anos, teve uma ideia brilhante que queria traduzir em um negócio. No entanto, quando foi ao banco local pedir um empréstimo, disseram que ela se casasse, porque “uma mulher deve casar-se em vez de aventurar-se nos negócios”, contou à IPS.

Embora isso tenha acontecido há mais de duas décadas, as mulheres na África são claramente discriminadas com frequência quando se trata de ter acesso a investimentos e capital. Essa questão foi um dos principais pontos de discussão na Cúpula Global de Gênero, organizada pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), que acontece de 25 a 27 de novembro na capital de Ruanda, Kigali.

Com a presença de cerca de 300 mulheres de negócios, formuladores de políticas e líderes políticos, incluindo a presidente da Etiópia, Sahle-Work Zewde – a única mulher presidente no continente –, as participantes aprenderam que, embora as mulheres africanas contribuam não apenas para melhorar suas vidas, mas também as de suas famílias, cerca de 70% delas são financeiramente excluídas. Muitas mulheres são rejeitadas, mesmo quando economizam e oferecem garantias para um empréstimo, e, nos raros casos em que recebem crédito, este é considerado de “alto risco”.

Akinwumi Adesina, presidente do BAD, lembrou aos presentes, no painel de discussão intitulado Desfazendo Restrições à Igualdade de Gênero, que os formuladores de políticas e até os banqueiros deveriam prestar contas às mulheres. “Vamos ser inteligentes e sábios: as mulheres são os melhores investimentos que qualquer sociedade pode fazer. Quando ganham, gastam 90% de sua renda com suas famílias, inclusive com os maridos”, destacou.

Ngiriye é um exemplo disso. Sua mãe esforçou-se para ser sua garantia e, no final, sua jornada de negócios levou-a a fundar a Entreprenarium em 2014. “Meu negócio está hoje aqui depois que uma mulher, minha mãe, comprometeu-se em ser minha garantia. Com todo o apoio que recebi ao longo da jornada, decidi ajudar outras mulheres empreendedoras a construir seus negócios e a crescer”, declarou Ngiriye à IPS.

A lista de sucessos de Ngiriye é longa e seu impacto é abrangente. A Entreprenarium é descrita, em sua página no Facebook, como “a primeira aceleradora filantrópica pan-africana, que ajuda empreendedores a iniciar e sustentar negócios inovadores para impulsionar a prosperidade da África”. Desde que a aceleradora foi fundada, cerca de dois mil empreendedores foram treinados em toda a África – a Entreprenarium possui escritórios em Libreville, Kigali, Dakar, Abidjan e Bruxelas –, com US$ 2,1 milhões investidos em assistência técnica e no financiamento de 52 projetos.

Quando as mulheres africanas são financeiramente incluídas, todo um continente ganha

Kristine Ngiriye tinha 18 anos e teve uma ideia brilhante que queria traduzir em um negócio. Mas os banqueiros disseram-lhe para se casar. Agora, CEO de uma consultoria que oferece serviços especializados para governos e empresas, e fundadora da Entreprenarium, uma aceleradora para mulheres africanas empreendedoras, ela causou um enorme impacto nos negócios de todo o continente. Foto: Cortesia da Entreprenarium

Além disso, Ngiriye é chief executive officer (CEO) da KN & Partners, uma consultoria que oferece serviços especializados a governos e empresas, que incluem marketing político e desenvolvimento de negócios internacionais. Ngiriye ainda acredita que, embora as mulheres de negócios tenham percorrido um longo caminho desde que ela começou, a percepção dos homens sobre a capacidade de uma mulher realizar seus sonhos não mudou.

“O que está acontecendo atualmente com essas mulheres é exatamente o que vivi, que é a falta de acesso a financiamento e assistência técnica. Posso dizer que, após os últimos 27 anos, nada mudou. Talvez tenham um pouco mais de sorte do que eu em ter um continente cheio de possibilidades”, ponderou Ngiriye.

Em uma tentativa de mudar o status quo das mulheres e o financiamento, o BAD lançou, em 2016, a Ação de Finanças Afirmativas para Mulheres na África (Afawa), com o objetivo de mobilizar US$ 3 bilhões em novos empréstimos de bancos e instituições financeiras para mulheres africanas. Durante a cúpula do G7, em agosto deste ano, os líderes aprovaram um pacote totalizando US$ 251 milhões em apoio à Afawa.

    • Em 2018, o BAD fez parceria com a Entreprenarium para treinar mil mulheres empresárias no desenvolvimento de negócios e em gestão financeira em todo o continente.

Kennedy Uzoka, diretor administrativo do Grupo United Bank of Africa (UBA Group) ecoou as observações de Adesina, afirmando à IPS que as mulheres não devem ser retidas por não possuírem propriedades. “O acesso a financiamento é um problema para todos, mas é pior para as mulheres. Os bancos comerciais, na maioria das jurisdições, querem garantias e, desde o início, as mulheres estão em desvantagem porque não têm ativos”, apontou.

    • O continente tem uma lacuna de financiamento de US$ 42 bilhões entre homens e mulheres.
    • Prevê-se que eliminar a diferença de gênero na África aumentará a economia global em US$ 28 trilhões até 2025.

Josephine Anan-Ankomah, executiva de operações bancárias comerciais do grupo Ecobank, acredita que a tecnologia pode ajudar a diminuir a divisão financeira entre homens e mulheres. O banco possui um sistema de pagamento digital chamado EcobankPay, que também concede empréstimos a mulheres que usam esse serviço, mesmo que seu fluxo de caixa seja inconsistente. “Precisamos inovar e emprestar à mulher contra o fluxo de caixa que elas estão trazendo”, opinou à IPS.

A primeira-dama de Ruanda, Jeannette Kagame, defendeu que se tenha consciência de gênero. Ela ressaltou aos participantes que mulheres em desvantagem deve ser uma coisa do passado, acrescentando que os formuladores de políticas devem ser deliberados na colocação de mulheres e meninas no centro de estratégias e decisões transformadoras.

“Isso exige que cada um de nós desempenhe nosso papel: mulheres e meninas – precisamos nos organizar e sermos guardiãs umas das outras. Juventude – você deve ser proativa em tomar sua vida com suas próprias mãos e apontar a desigualdade onde quer que seja percebida. Você tem o que é preciso para prosperar neste mundo em rápida mudança”, enfatizou Kagame.

    • Ruanda já tem a maior proporção do mundo de representação feminina no parlamento: 61% de seus parlamentares são mulheres.

Kagame pediu, ainda, aos parceiros e partes interessadas, que sejam inovadores e implacáveis em seus compromissos de investir em mulheres e meninas e nivelar o campo para todos.

Durante a cúpula, os participantes uniram-se ao resto do mundo para homenagear os 16 dias de ativismo contra a violência baseada em gênero. Os 16 dias começam em 25 de novembro de cada ano, que marca o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, e dura até 10 de dezembro.

A presidente da Etiópia disse que não haverá progresso no continente se as meninas forem deixadas para trás. “É hora de passar da retórica à ação, das palavras às atitudes. Temos que ter a humildade de descer a escada para fazer a diferença”, enfatizou Zewde.

* Com Nalisha Adams, de Joanesburgo

 

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