IBADAN, Nigéria, 9 de janeiro de 2020 (IPS) – A África passará fome ou sobreviverá com importações caras de alimentos, porque não está cultivando novos agricultores, mostra uma pesquisa. E o desafio de atrair os jovens africanos para a agricultura permanece entre pesquisadores, formuladores de políticas, e atores do setor público e privado, em um continente onde um número crescente de pessoas vai dormir com fome todas as noites.

O Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA), um instituição de pesquisa global que gera inovações agrícolas para enfrentar os desafios mais prementes da África, como fome, desnutrição e pobreza, promove há muito tempo vários programas para atrair e manter os jovens na agricultura.

Entretanto, tem sido uma tarefa difícil convencer os jovens de que a agricultura é a chave para a criação de empregos na África, disse à IPS a diretora-geral do IITA Nteranya Sanginga. “Eu pedi que os jovens definissem o que é a agricultura. Para eles, agricultura é dor, penúria e pobreza. Precisamos transformar essa mentalidade e fazê-los entender que a agricultura pode ser uma fonte de riqueza, negócios e prazer”, destacou

Em 2012, a instituição lançou o IITA Youth Agripreneur, um programa que inscreve, a cada ano, 60 jovens para treinamento prático em agricultura e empreendedorismo em 24 centros da África. Sanginga enfatizou que, a menos que a África promova novos agricultores inovadores, o continente estará à mercê de outras regiões por sua segurança alimentar.

    • A África tem 257 milhões de pessoas famintas, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).
    • Embora a África conte com 65% das terras aráveis e não cultivadas do mundo e recursos hídricos adequados, o continente gasta mais de US$ 35 bilhões anualmente importando alimentos – uma projeção do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) indica que pode atingir US$ 110 bilhões em 2025.
    • Cerca de 237 milhões de pessoas na África Subsaariana estão com desnutrição crônica, o que inviabiliza os ganhos já alcançados na erradicação da fome e da pobreza, constata a FAO no relatório conjunto de 2019, Visão Regional da África sobre Segurança e Nutrição Alimentar.
    • O relatório destaca a necessidade de se acelerar as ações para atingir a meta de desenvolvimento sustentável da ONU de alcançar a fome zero e as metas nutricionais globais em meio aos desafios do desemprego dos jovens e das mudanças climáticas.
    • “A agricultura e o setor rural devem desempenhar um papel fundamental na criação de empregos decentes para os 10 a 12 milhões de jovens que ingressam no mercado de trabalho a cada ano”, afirma a FAO.
    • No cerne do desafio alimentar está a diminuição da mão de obra. Os pequenos agricultores mantêm a África alimentada. A agricultura contribui com cerca de 30% para o PIB do continente, mas o setor é prejudicado pela baixa produtividade e pouco investimento, e a idade média de um pequeno agricultor na África é de 60 anos. No entanto, jovens agricultores não estão sendo formados com rapidez suficiente para diminuir a brecha de trabalho na produção agrícola.
    • A agricultura tem uma imagem negativa, de não ser atraente o suficiente para os jovens mais ambiciosos e experientes em tecnologia, que preferem se apertar nas áreas urbanas do que se tornar agricultores.
    • “Quando projetamos a agricultura como uma oportunidade econômica viável para jovens, devemos dizer a eles que é um processo e que é necessário sujar as mãos”, aponta Lawrence Afere (35), fundador da Springboard, uma rede online de produtores rurais no estado de Ondo, na Nigéria. O Springboard está trabalhando com mais de três mil membros em seis estados da Nigéria, plantando banana, feijão e arroz. A rede fornece insumos e treinamento para os agricultores e compra de volta os produtos para processar e agregar valor.
O futuro da alimentação na África realmente está com os jovens agricultores?

Tem sido uma tarefa difícil convencer os jovens de que a agricultura é fundamental para criar empregos na África, declarou à IPS a diretora-geral do IITA, Nteranya Sanginga. Crédito: Busani Bafana/IPS

As soluções para combater o desemprego juvenil na África são variadas, mas uma solução fundamental é vender a agricultura como empresa, argumentou Sanginga, que iniciou o Programa Start Them Early (STEP), que promove estudos do agronegócio junto a estudantes de escolas primárias e secundárias por meio da participação em clubes, trabalhos durante o curso e aprendizagem experimental. Além disso, o IITA adotou uma abordagem de pesquisa para atrair os mais jovens para a agricultura.

    • O instituto lançou um programa de bolsas de estudos e pesquisa de três anos, chamada Enhancing Capacity to Apply Evidence Research (Care), uma política para o envolvimento dos jovens no agronegócio e nas atividades econômicas rurais na África.
    • A bolsa de estudos orientada para a ação tem como alvo jovens acadêmicos e profissionais e estudantes de pós-graduação na fase de pós-curso ou pesquisa de seus programas. É financiado pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida) e concedeu 30 dessas bolsas em 2019.
    • Oferece também oportunidades aos jovens, melhorando a disponibilidade e o uso de evidências para políticas inclusivas e “amigas dos jovens” sobre o envolvimento dos jovens no agronegócio e nas atividades econômicas rurais. A duração da pesquisa é de seis meses e os jovens são treinados na produção de evidências de pesquisa para a formulação de políticas.

O pesquisador universitário Akilimali Ephrem é um bolsista de 2019 no programa Care. Ele está pesquisando características de agricultores bem-sucedidos na República Democrática do Congo (RDC). “Identifiquei que os jovens não são atraídos pela agricultura e subestimam o valor dela, e isso tem a ver com a nossa cultura na RDC ”, ressaltou em entrevista à IPS.

“Os jovens estão lutando para conseguir emprego e estão concluindo seus estudos, e vi que esse projeto da Care é um caminho a seguir, porque examina a melhor maneira de envolver os jovens no agronegócio como uma alternativa de emprego”, pontuou Akilimali. O título da sua pesquisa é Normas Sociais Percebidas, Capital Psicológico e Intenção Empresarial dos Jovens na RDC.

“Todo mundo está dizendo que os jovens devem encontrar uma vida na agricultura e no agronegócio, mas ninguém nunca perguntou se esses jovens gostariam de fazê-lo ou desejam fazê-lo. Provavelmente deveríamos começar aumentando seu desejo de ingressar no agronegócio, caso contrário estaremos mirando nas pessoas erradas”, observou Akilimali, que identificou o capital psicológico – uma mentalidade positiva para o desenvolvimento – como um ingrediente essencial para qualquer empresário bem-sucedido no agronegócio.

    • Os jovens na África representarão 42% da população jovem global e 75% das pessoas com menos de 35 anos no continente, de acordo com a Folha de Dados da População Mundial de 2019, publicada pelo Population Reference Bureau, uma organização baseada nos Estados Unidos que informa sobre população, saúde e meio ambiente.
    • Na linguagem dos jovens, a agricultura não é “legal” por causa de sua associação com longas horas de trabalho árduo no campo, com pouco ganho.
    • O acesso limitado a crédito, financiamento, terra e tecnologia apropriada para aumentar a produtividade combinou-se para excluir os jovens do negócio da agricultura.

Os mercados de alimentos e bebidas da África devem atingir US$ 1 trilhão até 2030, segundo o BAD. Akinumwi Adesina, presidente do BAD, afirmou que tornar a agricultura lucrativa e “legal” para os jovens por meio do investimento é a solução para tirar milhões de africanos da pobreza e um modo de conter a maré da migração de jovens para a Europa em busca de uma vida melhor.

Mas o pesquisador de desenvolvimento Jim Sumberg, do Institute of Development Studies no Reino Unido, não está convencido de que a agricultura seja a bala de prata. Ele ponderou que a ideia de agricultura como um vasto domínio de oportunidades empresariais para jovens está sendo vendida em excesso, observando que existem oportunidades para alguns, mas para outros é um caso de trabalho árduo com pouca recompensa.

“Acredito que a ideia de que uma grande parte dos jovens esteja deixando áreas rurais e/ou a agricultura seja exagerada”, opinou Sumberg à IPS por e-mail. “Não há evidências reais. Além disso, por que alguém ia querer ‘atrair’ os jovens para um trabalho tedioso e mal remunerado? Isso não faz sentido! É verdade que uma agricultura modernizada fornecerá algumas oportunidades de emprego (para jovens e outros), mas duvido que sejam os milhões e milhões de empregos frequentemente prometidos”.

Sumberg declarou que tem pouca paciência com a ideia de mudar a mentalidade das pessoas, para que elas vejam “a agricultura como um negócio”. Só pode ser um negócio se houver potencial de lucro e, no momento, existem muitas situações em que o potencial não existe.

 

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