Com a crescente demanda doméstica e regional por alimentos diversificados e processados, há uma grande oportunidade de desenvolvimento para os negócios agroalimentares na África, bem como a necessidade de se criar oportunidades para fomentar o empreendedorismo agrícola entre as crescentes fileiras de jovens desempregados do continente.

IBADAN, Nigéria, 18 de março de 2020 (IPS) – “Não é fácil estar na agricultura, mas é preciso ter perseverança e paixão por ela”, contou à IPS Ngozi Okeke (30), diretora de operações da Frotchery Farms, durante uma visita à fábrica da empresa em Ibadan, Nigéria. Para ela, paixão e paciência são fundamentais para o sucesso nos negócios, mas também reconhece a necessidade de se criar oportunidades para fomentar o agronegócio entre as crescentes fileiras de jovens africanos desempregados.

A empresa processa cerca de 1.500 toneladas de peixe-gato vivo, peixe congelado e defumado, salgadinhos, filés e pó de peixe em sua fábrica em Ogidi Estate, Akobo, Ibadan. Os produtos são então embalados com a marca da empresa e vendidos nos mercados de todo o país. “Quando começamos, a nossa primeira produção de peixe defumado ficou toda queimada, perdemos nosso dinheiro e perdemos tudo. Mas sabíamos o que queríamos para nós mesmos e não desanimamos. Foi apenas um retrocesso e continuamos”, destacou Okeke.

Yusuf Babatunde (30), diretor de marketing, detalhou que a empresa começou com economias pessoais que os parceiros investiram na compra de peixe dos fazendeiros, antes de iniciar sua própria produção de peixe. “Acreditamos em alta qualidade quando se trata de produção de peixes e nossas diferentes habilidades ajudam a inovar e expandir nossa marca. E isso está valendo a pena”, enfatizou.

    • A África tem mais de 200 milhões de jovens entre 15 e 34 anos, de acordo com o Banco de Desenvolvimento da África (BAD). A agricultura é um fator econômico essencial em muitos países do continente, o que a União Africana há muito identificou como uma força para o crescimento social e econômico, em seu Programa Abrangente de Desenvolvimento da Agricultura na África (CAADP), de 2003.

    Mas os jovens têm percepções negativas sobre a agricultura, entre elas a de ser intensiva em trabalho e oferecer pouco ganho. “Muitos jovens não são pacientes, mas os que entram na agricultura precisam ser pacientes e perseverar em servir para ter sucesso”, opinou Okeke.

    A Frotchery Farms foi fundada em 2015 por Okeke, Babatunde e seu outro parceiro, Oni Hammed (31), depois de formados no Programa de Agronegócios de Jovens do Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA). O programa forneceu recursos técnicos e materiais para lançar a empresa.

    • O diretor-geral do IITA, Nteranya Sanginga, estabeleceu o Programa de Jovens Empreendedores em 2012, com o objetivo de mudar a percepção dos jovens africanos sobre a agricultura, para vê-la como um negócio interessante e lucrativo. O Programa inscreve 60 jovens de 24 centros em toda a África para treinamento prático em agricultura e empreendedorismo.

Fique forte

O agronegócio é lucrativo, mas exige talento empreendedor e uma atitude de nunca morrer, algo que escapa aos jovens, apontou Hammed, diretor administrativo que também é responsável pela produção da Frotchery Farms. “Na maioria das vezes, os jovens sentem que são os idosos que podem trabalhar na agricultura e estamos tentando mudar essa mentalidade. É possível, pois os jovens são inovadores e podem criar algo e mudar a maneira como a agricultura é vista”, acrescentou à IPS.

Paixão sim, mas habilidades melhores

As habilidades em empreendedorismo agrícola são críticas para o emprego dos jovens, especialmente nas áreas rurais. Pesquisas da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que os jovens estão se afastando da agricultura e mudando para as cidades para trabalhar como mão de obra pouco qualificada, enquanto aspiram empregos altamente qualificados, apesar do baixo nível de escolaridade.

“A incompatibilidade de habilidades é um grande problema e os jovens precisam ser treinados e treinados novamente em empregos ao longo da cadeia de valor agroalimentar, além da agricultura”, explicou à IPS Ji-Yeun Rim, gerente de projetos do Centro de Desenvolvimento da OCDE em Paris, França. Ele está coordenando um projeto de apoio a governos em nove países africanos e asiáticos para melhorar as políticas voltadas para a juventude, especialmente na cadeia de valor agroalimentar.

Com a crescente demanda doméstica e regional por alimentos diversificados e processados, há uma grande oportunidade de desenvolvimento dos negócios agroalimentares na África, afirmou Rim. “Muitos programas de emprego para jovens concentram-se no empreendedorismo, mas nossa pesquisa constata que este não é para todos e a maioria dos jovens não tem sucesso como empreendedores e geralmente permanece apenas em atividades de subsistência”, observou.

“O empreendedorismo é uma falsa panaceia para o problema do emprego dos jovens. Os jovens precisam ser treinados em vários tipos de trabalhos ao longo da cadeia de valor agroalimentar, da agricultura ao processamento, serviços e marketing, para que também possam encontrar cargos assalariados”.

Evidências de pesquisas para o desenvolvimento de políticas

Enquanto isso, o IITA aponta que mais jovens estão aproveitando a pesquisa agrícola e as novas tecnologias projetadas para os sistemas agrícolas na África, a fim de fazer uma carreira lucrativa na agricultura. O Instituto observa, porém, que os sistemas agrícolas precisam de transformação e fortalecimento para ajudar a alcançar emprego para os jovens, segurança alimentar, fome zero e alívio da pobreza.

Para esse fim, o IITA lançou a Melhoria da Capacidade de Aplicação de Evidências de Pesquisa (Care) na Política de Participação Juvenil no Agronegócio e nas Atividades Econômicas Rurais da África, um projeto de três anos financiado pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida).

A Care busca aumentar a compreensão da redução da pobreza, impacto no emprego e fatores que influenciam o envolvimento dos jovens no agronegócio, na economia rural e não agrícola. Oferece bolsas para jovens acadêmicos africanos que pretendem estudar para um mestrado ou doutorado. Os pesquisadores recebem ajuda para desenvolver capacidade para gerar e disseminar resultados baseados em evidências, e influenciar políticas e práticas no apoio ao crescimento econômico e no cumprimento das metas dos ODS na África. Em 2020, 30 bolsistas receberam doações da Care.

Um dos primeiros beneficiados pelo projeto em 2019, Dolapo Adeyanju, estudante de mestrado da Nigéria, pesquisou o impacto de programas agrícolas no desempenho do empreendedorismo jovem nesse país da África Ocidental. Ela descobriu que muitos jovens aceitam o agronegócio como uma opção de carreira sustentável e lucrativa. “Mesmo assim, pode-se dizer que ainda há muito a ser implementado em termos de criação de um ambiente propício para jovens proprietários de agronegócios, sob a forma de políticas e intervenções que possam ajudar jovens empresários e futuros proprietários”, ressaltou.

 

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