Enquanto obtêm seus mestrados ou doutorados, 80 jovens acadêmicos africanos estão lidando com os negócios da agricultura por meio da inovação e do frescor que acompanham a juventude.

BULAWAYO, Zimbábue, 30 de abril de 2020 (IPS) – Em Ruanda, Benimana Uwera Gilberthe, uma especialista produtora de pimenta, experimenta os desafios de ingressar no agronegócio. Na Nigéria, Ayoola Adewale tenta entender se a criação de ovos de aves de capoeira será uma oportunidade de negócio lucrativa e viável para os jovens da nação mais populosa do continente. Também na Nigéria, Esther Alleluyanatha estuda o vínculo entre jovens que deixam suas aldeias, seguindo para cidades maiores, e as remessas enviadas para casa e suas implicações nos meios de subsistência rural e na produtividade da agricultura.

Entendendo isso, esses três jovens pesquisadores estão de fato respondendo perguntas maiores sobre a agricultura no continente:

    • O que será necessário para atrair mais jovens africanos para a agricultura, um setor que o Banco Mundial afirma que pode valer US$ 1 trilhão nos próximos dez anos?
    • Que políticas e investimentos de apoio são necessários para desenvolver esse setor?

Adewale, Alleluyanatha e Gilberthe são apenas três dos 80 jovens estudiosos africanos que estão lidando com os negócios da agricultura por meio da inovação e do frescor que acompanham a juventude, enquanto obtêm seus mestrados ou doutorados. Eles são premiados com o reforço do programa Melhoria da Capacidade de Aplicação de Evidências de Pesquisa (Care), um projeto de três anos lançado em 2018 pelo Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA), com financiamento do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida).

O projeto tem o objetivo de “construir uma compreensão da redução da pobreza, do impacto no emprego e fatores que influenciam o envolvimento dos jovens no agronegócio e nas economias rurais agrícolas e não agrícolas”, de acordo com o diretor-geral do IITA, Nteranya Sanginga. Os beneficiários recebem treinamento em metodologia de pesquisa, gerenciamento de dados, redação científica e produção de evidências de pesquisa para elaboração de políticas. Eles são orientados por cientistas e especialistas do IITA em um tópico de pesquisa de sua escolha e produzem artigos científicos e resumos de políticas sobre seu trabalho”, explicou.

Sanginga defende há muito a ideia de que o desenvolvimento da agricultura é fundamental para enfrentar os desafios urgentes da insegurança alimentar, da pobreza e do desemprego de jovens no continente.

    De fato, a agricultura faz sentido para os negócios porque possui altos retornos por dólar investido, de acordo com o estudo do Fida
    The Economics Advantage: Assessing the value of climate change actions in agriculture, que afirma que, para cada dólar investido em um de seus programas de pequenos produtores, os agricultores poderiam ganhar entre US$ 1,40 e US$ 2,60 em um período de 20 anos, aplicando práticas de adaptação às mudanças climáticas.

“A juventude traz energia e inovação, mas essas qualidades podem ser melhor canalizadas pelos próprios jovens africanos, por meio da realização de pesquisas baseadas em resultados no agronegócio e no desenvolvimento rural direcionado a eles. O envolvimento deles é fundamental”, destacou Sanginga.

Jovens bolsistas africanos colhem ideias sobre negócios da agricultura

Os jovens agricultores e irmãos Prosper e Prince Chikwara estão usando técnicas de agricultura de precisão em sua fazenda de horticultura, nos arredores de Bulawayo, Zimbábue. Foto: Busani Bafana/IPS

A agricultura comercial é a resposta para o desemprego juvenil?

Adewale, doutoranda na Universidade de Ibadan, trabalha como assistente técnica na Unidade de Coordenação de Operações Federais para Emprego e Operação Social de Jovens (Focu-Yesso), em Abuja. A Yesso tem a tarefa de fornecer acesso a oportunidades de trabalho para jovens pobres e vulneráveis da Nigéria. Esse país, que tem uma população de mais de 180 milhões de habitantes, teve 19,58% de desemprego jovem em 2019, segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

“A agricultura comercial possui um imenso potencial como saída da pobreza”, apontou Adewale à IPS. A Nigéria também é um importador de alimentos, gastando uma média de US$ 22 bilhões anualmente. O país importa arroz, peixe, trigo, produtos avícolas, leite e pasta de tomate, responsáveis por mais de US$ 1,4 bilhão na conta de importação de alimentos.

“O envolvimento dos jovens na agricultura comercial está crescendo e parece ser a saída para a atual taxa de desemprego. No entanto, é necessário o apoio do governo e do setor privado para que os jovens compitam favoravelmente, prosperem de maneira sustentável e aumentem a geração seguinte de empreendedores da agricultura comercial”, ressaltou Adewale.

Para o seu tópico de pesquisa, ela quer entender se a produção de ovos de aves de capoeira é um empreendimento rentável e tecnicamente eficiente para os jovens agricultores, avaliando especificamente o impacto do Projeto de Desenvolvimento da Agricultura Comercial (CADP). O CADP é um programa assistido pelo Banco Mundial, destinado a fortalecer os sistemas de produção agrícola e facilitar o acesso ao mercado para cadeias de valor direcionadas, entre pequenos e médios agricultores comerciais nos estados de Cross River, Enugu, Lagos, Kaduna e Kano.

“A agricultura comercial, em todas as cadeias de valor, tem potencial para aumentar a produtividade, a lucratividade e o crescimento econômico da Nigéria, e mesmo da África”, afirmou Adewale. “O estudo fornecerá informações sobre como os programas de agricultura comercial são sustentáveis, além de fornecer orientações sobre como esta pode ser aproveitada pela agricultura africana”.

Dinheiro na agricultura

Alleluyanatha, também da Nigéria, está preocupada com a alta taxa de desemprego entre os jovens, principalmente nas áreas urbanas. “É necessário, portanto, desencorajar o êxodo de jovens das áreas rurais para as urbanas e incentivá-los a entrar na agricultura, que é conhecida por ser a principal fonte de subsistência nas áreas rurais”, opinou. Ela está pesquisando sobre migração dos jovens, suas remessas e as implicações na subsistência rural e na produtividade agrícola da África, comparando famílias com jovens migrantes e aquelas sem.

Em Ruanda, Gilberthe e seus colegas de graduação começaram a cultivar pimenta para exportação depois de firmar um contrato com o Conselho Nacional de Desenvolvimento das Exportações Agrícolas do país. “O empreendimento foi bem-sucedido e demos aos jovens a ideia de como o agronegócio pode ser um trabalho decente se você o fizer profissionalmente e investir nele”, explicou à IPS. “Eu costumava ter pelo menos US$ 210 cada vez que vendíamos nosso produto”.

Jovens com idade entre 14 e 35 anos representam 39% da população de Ruanda, mas, segundo Gilberthe, muitos não participam do agronegócio devido a habilidades limitadas sobre o setor, falta de capital inicial, acesso limitado a terras e a informações sobre oportunidades do agronegócio.

Na verdade, é uma questão em todo o continente. A Aliança para uma Revolução Verde na África (Agra) observa que a África precisa de intervenções direcionadas focadas em tornar a agricultura uma opção de emprego viável para os jovens africanos que são impedidos de se unir a ela por falta de terra, crédito, insumos agrícolas de qualidade, máquinas e habilidades.

Gilberthe está pesquisando como a participação em esquemas de financiamento afeta a renda dos jovens empresários. Ele acredita que as políticas para o envolvimento dos jovens no agronegócio também devem incluir treinamentos sobre como administrar esses negócios. Além disso, considera que essas políticas também devem prever mais programas de financiamento ao agronegócio.

“Em Ruanda, os jovens envolvidos no agronegócio têm o problema de não possuírem terras e a maioria deles usa a terra dos pais, mas sua renda é limitada e eles precisam de acesso a crédito”, apontou Gilberthe.

    • Ruanda, um dos menores países da África por quilômetro quadrado, tem um território de pouco menos de 27 mil quilômetros quadrados. Cerca de 69% da terra é usada para agricultura, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação.

“Penso diferente sobre a agricultura agora”, contou Gilberthe. “Como jovem pesquisador, descobri as oportunidades e barreiras para os jovens envolvidos no agronegócio e essa pesquisa está me dando uma chance de contribuir para a formulação de políticas sobre o envolvimento dos jovens no agronegócio. Com minhas descobertas, poderei provar que os jovens estão errados ao considerar a agricultura como um trabalho para idosos e para os que vivem no meio rural, ou outras pessoas que ainda pensam que a agricultura não pode melhorar sua renda”.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>