DISTRITO DE CHIRADZULU / BLANTYRE, Malauí, 12 de agosto de 2020 (IPS) – Enquanto as famílias no distrito de Chiradzulu, no sul do Malauí, começam a preparar suas fazendas para a próxima temporada de cultivo de milho, Frederick Yohane, 24, é um jovem ocupado. Todas as manhãs, ele trabalha com seus dois irmãos no campo da família, onde cultivam milho e feijão guandu. À tarde, ele lavra fazendas de outras pessoas, para arrecadar dinheiro para suas necessidades e sustentar sua família.

Duas vezes por semana, ele vai de bicicleta aos mercados próximos para vender as galinhas que compra nas aldeias vizinhas. Essa tem sido sua vida desde os 16 anos, quando seu pai sofreu um derrame que paralisou sua perna e braço esquerdos. Yohane terminou o ensino médio em 2014, dois anos depois que seu pai adoeceu. Mas ele não passou nos exames finais.

Sem um certificado de conclusão da escola, ele seguiu a rota de muitos jovens neste distrito rural, que viajam para Blantyre, a capital comercial de Malauí, em busca de empregos, principalmente, como assistentes em lojas asiáticas ou como vendedores ambulantes. “Por meio de um amigo, encontrei trabalho em uma loja de ferragens de um indiano. Mas o dinheiro não era bom em comparação com o que eu ganhava na aldeia. Então, só trabalhei dois meses e voltei”, contou à IPS.

Yohane não planeja voltar à cidade para procurar emprego. Ele acredita que pode ganhar mais dinheiro na aldeia se trabalhar mais. “Além disso, eu sou o filho mais velho. Meu pai não pode mais trabalhar. Minha mãe passa muito tempo cuidando de nosso pai. Somos nós três, eu e meus irmãos, trabalhando no campo”, explicou.

A família de Yohane é uma das milhões no Malauí que depende da mão de obra familiar para suas fazendas. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) afirma, em seu folheto informativo sobre pequenas fazendas familiares no Malauí, que os agricultores representam 80% da população total de 17,5 milhões do país. Dessa população de agricultores, cerca de 75% são de pequenas propriedades familiares, que dependem da mão de obra familiar.

No entanto, como o resto da África, o Malauí sofre uma alta taxa de migração rural, principalmente por jovens que buscam uma vida melhor nas cidades. Quando os jovens, que constituem a maioria da população do país, migram para os centros urbanos, a produtividade da agricultura familiar diminui, de acordo com os resultados de um estudo encomendado pelo Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA) no Malauí, em 2018, no âmbito do seu programa Melhoria da Capacidade de Aplicação de Evidências de Pesquisa (Care), da Política de Participação Juvenil no Agronegócio e Atividades Econômicas Rurais na África.

No âmbito do programa Care, o IITA está trabalhando com jovens pesquisadores na África, para promover a compreensão do impacto da redução da pobreza, e os fatores que influenciam o envolvimento dos jovens no agronegócio e na economia rural e não agrícola, disse à IPS Timilehin Osunde, oficial de comunicações do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida) para o Projeto Care na Nigéria.

No estudo Care do Malauí, o investigador Emmanuel Tolani entrevistou agregados familiares nos distritos de Zomba e Lilongwe, ambos conhecidos por sua alta produção de milho, a cultura básica do país. O estudo centrou-se nos lares onde os jovens migraram para os centros urbanos, em comparação com aqueles onde os jovens não se mudaram.

De acordo com o Resumo de Política resultante, intitulado Juventude em Movimento: Efeitos do Bem-Estar nas Famílias de Origem, a pesquisa descobriu que as famílias com jovens que migraram para os centros urbanos estavam produzindo cada uma 13 sacas de 50 quilos a menos do que poderiam colher se os jovens não tivessem migrado.

“Isso pode ser atribuído ao fato de que a migração de jovens membros da família estava levando à perda de produção agrícola, porque a mão de obra deles não era compensada pela contratação de trabalhadores com as remessas recebidas”, aponta o comunicado.

Resumindo, Tolani recomendou a introdução de atividades geradoras de renda entre as famílias rurais, para reduzir a necessidade de buscarem outros meios de diversificar suas rendas, como estimular a migração de jovens. Osunde destacou que a falta de um ambiente adequado para o agronegócio, a busca por oportunidades educacionais e acesso a serviços e recursos estão entre os fatores para a tendência de jovens rurais deixarem suas casas e irem para os centros urbanos na África.

Ao longo dos anos, o Malauí elaborou e implementou programas destinados a melhorar as condições sociais e econômicas das áreas rurais, o que poderia reduzir a migração. No entanto, essa migração para as cidades não diminuiu. A Comissão Nacional de Planejamento do Malauí atribui isso ao que diz serem “inconsistências de implementação de políticas entre regimes políticos”.

Esse argumento teve grande destaque nas discussões sobre desenvolvimento no Malauí, de modo que motivou o estabelecimento da Comissão Nacional de Planejamento. Estabelecido por meio de uma Lei do Parlamento em 2017, o mandato da Comissão é garantir a continuidade das políticas de desenvolvimento nas administrações políticas.

Por outro lado, Osunde observou que muitos programas de desenvolvimento rural na África fracassaram porque são elaborados por formuladores de políticas sem a contribuição da juventude rural. “Muitas vezes são implementados com uma abordagem de cima para baixo, em vez de uma abordagem de baixo para cima”, opinou à IPS.

Para apoiar os governos africanos na contenção da onda de migração rural de jovens, o IITA está implementando uma série de programas específicos para a agricultura, além do Care. Por exemplo, o Programa Start Them Early (Step) tem o objetivo de mudar a mentalidade dos jovens nas escolas primárias e secundárias, fornecendo-lhes conhecimentos básicos em agricultura para direcioná-los para carreiras relacionadas com a agricultura, explicou Osunde.

O IITA também está implementando o projeto Enable Youth, que oferece oportunidades para jovens subempregados, motivando-os a estabelecer empresas agrícolas e melhorar suas habilidades no agronegócio. “O programa ajuda a criar um ambiente de negócios favorável, ao promover políticas lideradas por jovens, e oferece uma rede de comunicação que fornece informações agrícolas muito necessárias para jovens envolvidos no agronegócio”, detalhou Osunde.

Além disso, o IITA Youth Agripreneurs visa a mudar as percepções dos jovens africanos sobre a agricultura, para verem que ela pode ser excitante e economicamente compensadora.

“Com a agricultura na África em grande parte sofrendo de percepções negativas entre os jovens, devido ao trabalho enfadonho envolvido, ganhos financeiros insuficientes e uma escassez de infraestrutura básica, o programa de jovens implementado pelo IITA busca mudar a percepção entre os jovens na África, criando recursos que podem capacitá-los a começar como agroempresários no continente. São programas específicos para a agricultura que o Malauí pode adotar para atrair os jovens para o agronegócio”, ressaltou Osunde à IPS.

O diretor-geral da Comissão de Planejamento Nacional, Thomas Munthali, explicou que atualmente estão mapeando o país em zonas com potencial de investimento para projetos financiáveis, que podem levar à redução da migração de jovens.

“A ideia é criar cidades secundárias nessas zonas, com base no potencial de terras para agricultura, mineração e turismo. Essas serão transformados em centros industriais que oferecerão empregos decentes e sustentáveis e facilidades socioeconômicas, assim como nas cidades”, enfatizou Munthali.

Enquanto os jovens rurais no Malauí esperam por tais programas, Yohane já decidiu ficar na aldeia. E ele está sonhando grande. “Colhemos milho suficiente para a nossa alimentação. Mas precisamos ganhar dinheiro. Portanto, estamos planejando alugar outro terreno este ano, onde poderemos plantar mais milho para venda. Não precisamos de mão de obra contratada. No futuro, queremos ver se podemos comprar mais terras nas quais possamos fazer uma agricultura comercial séria”, revelou.

 

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