IPS em português http://www.ipsnoticias.net/portuguese Jornalismo e comunicação para transformar o mundo Thu, 26 Feb 2015 13:55:15 +0000 en-US hourly 1 http://wordpress.org/?v=4.1.1 Variação climática alimenta febre chikungunya no Caribe http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/variacao-climatica-alimenta-febre-chikungunya-no-caribe/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/variacao-climatica-alimenta-febre-chikungunya-no-caribe/#comments Thu, 26 Feb 2015 13:55:15 +0000 juliana http://envolverde.com.br/?p=129883   Porto Espanha, Trinidad e Tobago, 26/2/2015 – Quando Jenny Gittens foi dormir em sua casa na capital de Trinidad e Tobago estava bem. Mas uma hora depois acordou com “câimbra e rigidez” atrás do joelho. Rapidamente a dor se espalhou e os dois joelhos doíam, e depois já não conseguia se movimentar, sentiu uma […]

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A epidemia de chikungunya no Caribe é atribuída, em parte, ao descarte indiscriminado de lixo, como nessa rua em Curepe, Trinidad. Isso gera as condições propícias para a reprodução do mosquito vetor da enfermidade. Foto: Jewel Fraser/IPS

A epidemia de chikungunya no Caribe é atribuída, em parte, ao descarte indiscriminado de lixo, como nessa rua em Curepe, Trinidad. Isso gera as condições propícias para a reprodução do mosquito vetor da enfermidade. Foto: Jewel Fraser/IPS

 

Porto Espanha, Trinidad e Tobago, 26/2/2015 – Quando Jenny Gittens foi dormir em sua casa na capital de Trinidad e Tobago estava bem. Mas uma hora depois acordou com “câimbra e rigidez” atrás do joelho. Rapidamente a dor se espalhou e os dois joelhos doíam, e depois já não conseguia se movimentar, sentiu uma rigidez nos dedos, dores no peito e teve febre.

Duas semanas de dor atroz, foi assim que Gittens descreveu sua experiência com a febre chikungunya. “Se tivesse que escolher entre isso e o parto, escolheria o parto”, contou à IPS esta mulher de 61 anos, mãe de dois filhos. Em poucos dias surgiu uma brotoeja que durou vários dias e dores na clavícula que a deixaram dobrada. “Não podia me endireitar. Não podia virar. Foi uma dor insuportável”, acrescentou.

Não está confirmado que seu caso tenha sido chikungunya, mas os sintomas parecem com os dessa doença viral, transmitida ao ser humano por um mosquito infectado e cujo nome procede de uma língua africana e significa “dobrado de dor”.

Segundo a Agência de Saúde Pública do Caribe (Carpha), até o dia 7 deste mês, foram registrados 4.485 casos confirmados e prováveis de chikungunya e cerca de 87 mil suspeitos nos 24 Estados membros desse organismo. Em todo o continente americano, salvo nos Estados Unidos, houve mais de 800 mil casos suspeitos. Também, foram registrados 21 mil casos prováveis e confirmados, aqui incluindo o país norte-americano.

A enfermidade pode ser transmitida por dois mosquitos, e no Caribe o contágio ocorre por meio do Aedes aegypti, afirmou o médico Dave Chadee, entomologista e professor de saúde ambiental da Universidade das Índias Ocidentais, em San Augustine, Trinidad. Esse mal é conhecido há tempos na Ásia e na África, mas sua chegada ao Caribe ocorreu nos últimos 15 meses e se converteu em um problema grave de saúde, tanto na área insular quanto na continental. Presume-se que foi trazida à região por um visitante asiático.

O professor Chadee explicou à IPS que, quando o mosquito chupa o sangue de uma pessoa infectada, ingere o vírus que se multiplica em seu sistema digestivo, vai para o sistema circulatório e da glândula salivar passa para a próxima pessoa picada. Numerosos fatores contribuíram para a rápida transmissão do vírus no Caribe, afirmou o especialista.

A variação climática contribuiu para as altas temperaturas, bem como as fortes chuvas e as inundações em várias partes da região. As últimas foram as do Natal de dezembro de 2013, no Caribe oriental. Ocorre aumento do vírus na estação úmida “porque há recipientes com água e mais vetores, e as pessoas cuidam menos do ambiente por causa do clima”, disse Chadee.

“No Caribe há poucas áreas onde não existem mosquitos”, pontuou Christian Hendrickson, entomologista e consultor de doenças transmitidas por vetores da Carpha. “O Aedes aegypti está muito domesticado e se reproduz onde houver pessoas que criem as condições propícias”, ressaltou. “Em geral, as temperaturas mais altas favorecem o desenvolvimento do mosquito, e a chuva facilita sua reprodução. As fortes precipitações provavelmente gerem mais mosquitos”, afirmou à IPS. A propagação da doença na região foi “bastante rápida”, acrescentou.

Entretanto, “a transmissão da febre chikungunya chegou ao seu nível mais baixo na estação de maior propagação devido à redução das chuvas, mas pode mudar quando estas voltarem, entre maio e junho, pois as condições se tornarão favoráveis ao vetor”, explicou o consultor.

Para mitigar a propagação do vírus “o que se pode, e se deve fazer, é manter os mosquitos em sua menor expressão para reduzir de forma drástica a possibilidade de transmissão da febre chikungunya e da dengue”, ressaltou Hendrickson. Os programas nacionais para controle de vetores e as pessoas têm a possibilidade de reduzir e eliminar os locais de reprodução de mosquitos para evitar que ocorra uma epidemia como a do ano passado, acrescentou.

Por sua vez, Chadee disse que, “como aceitamos que há uma grande variabilidade climática e sabemos que depois da estação úmida se segue uma seca, o controle do vetor pode ser feito de forma intensiva no período de transmissão”. A estratégia de tratamento pré-estacional requer matar os ovos antes que a larva se multiplique rapidamente, em geral, nas duas semanas imediatamente após o início da estação chuvosa.

“Assim, a população de mosquitos se mantém baixa e se quebra o intenso período de transmissão”, resumiu Chadee, que contou ter trabalhado com a febre chikungunya em ilhas do Oceano Índico, onde essa estratégia teve sucesso.

Hendrickson alertou que “muitos programas dependem do uso de inseticida para matar a larva e o mosquito adulto, mas seu uso prolongado acabou diminuindo sua efetividade”. Ele é mais favorável a eliminar os locais de reprodução do mosquito, como forma de mitigar a propagação do vírus.

Quanto à possibilidade de a doença se tornar endêmica no Caribe, Chadee afirmou que “é cedo para afirmar isso. Temos somente um ano de experiência com a febre chikungunya. Teremos que esperar muitos anos mais antes de estabelecer um padrão epidemiológico”. Envolverde/IPS

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Um banco suíço, a corrupção e a desigualdade na África http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/um-banco-suico-a-corrupcao-e-a-desigualdade-na-africa/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/um-banco-suico-a-corrupcao-e-a-desigualdade-na-africa/#comments Thu, 26 Feb 2015 12:25:11 +0000 juliana http://envolverde.com.br/?p=129887   Harare, Zimbábue, 26/2/2015 – A revelação do dinheiro ilícito de origem africana escondido em um banco suíço confirmou que a corrupção é a raiz de grande parte da desigualdade na renda que afeta o continente. Afirma-se que as contas secretas no banco privado HSBC, reveladas pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, contêm mais […]

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Os vendedores ambulantes da África refletem a desigualdade de renda que impera no continente, em grande parte devido à corrupção. Foto: Jeffrey Moyo/IPS

Os vendedores ambulantes da África refletem a desigualdade de renda que impera no continente, em grande parte devido à corrupção. Foto: Jeffrey Moyo/IPS

 

Harare, Zimbábue, 26/2/2015 – A revelação do dinheiro ilícito de origem africana escondido em um banco suíço confirmou que a corrupção é a raiz de grande parte da desigualdade na renda que afeta o continente. Afirma-se que as contas secretas no banco privado HSBC, reveladas pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, contêm mais de US$ 100 bilhões, parte deles procedentes da África, onde se encontram alguns dos países mais pobres do mundo.

Por exemplo, 57 clientes ugandenses do HSBC tinham pelo menos US$ 159 milhões. O Banco Mundial calcula que Uganda perde anualmente mais de US$ 174,5 milhões com a corrupção. Não é crime os africanos terem contas bancárias na Suíça. Mas os órgãos fiscais começam a perguntar se foram pagos os impostos correspondentes às quantias depositadas.

Na África do Sul, o diretor do Serviço de Impostos, Vlok Symington, informou que seu escritório está canalizando a informação. “Os primeiros indícios são de que alguns desses titulares de contas podem ter usado suas contas do HSBC para evitar obrigações fiscais locais ou internacionais”, afirmou o funcionário ao jornal South Africa Sunday Times.

“A desigualdade de renda começa com nossos líderes políticos e empresários ricos corruptos que, com grande frequência, são os proprietários ilegais dos recursos do continente”, afirmou Claris Mdhuku, diretor da Plataforma para o Desenvolvimento da Juventude, uma organização independente do Zimbábue.

Os diamantes, por exemplo, que são a fonte de riqueza de muitos comerciantes, costumam ser extraídos pelos mais pobres dos pobres, tratados como escravos em países africanos assolados pela guerra, apesar do Sistema de Certificação do Processo de Kimberley, que foi adotado em 2003 para impedir o comércio dessas pedras preciosas procedentes de países em guerra.

“É um caso de cobiça e corrupção”, afirmou Ernst Mudzengi, analista político do Zimbábue. “A África tem políticos parasitas que se preocupam principalmente com o poder político e o beneficio econômico para si mesmos, enquanto os africanos a pé permanecem na periferia da pobreza”, destacou à IPS.

Os especialistas em desenvolvimento atribuem as desigualdades da renda à flexibilidade das leis contra a corrupção no continente. “Os países africanos não têm leis anticorrupção sólidas, e os políticos e os ricos acumulam demasiado poder, que excede inclusive os poderes da polícia, dando-lhes a liberdade de acumular riqueza de um dia para outro, por qualquer meio, sem serem interrogados”, explicou Nadege Kabuga, especialista em desenvolvimento de Ruanda, de sua capital, Kigali.

“Escandaliza a forma como grandes bancos como o HSBC criaram um sistema de lucro à custa das pessoas comuns empobrecidas, que fica ainda pior pela assistência dada a numerosos milionários da África, em particular, para evitar o pagamento de impostos”, afirmou Zenzele Manzini, economista independente de Mbabane, capital da Suazilândia.

“Muito frequentemente, os diretores públicos, os ministros e seus secretários são os portadores do governo, concedendo a si mesmos enormes benefícios, enquanto os empregados de menor escalão permanecem presos na periferia, sem benefícios adicionais além dos magros salários que recebem mensalmente”, declarou à IPS um alto funcionário do Ministério do Trabalho do Zimbábue, que pediu para ficar no anonimato.

“Como podemos evitar isso, em primeiro lugar?”, questionou Koen Roovers, da Coalizão pela Transparência Financeira, uma aliança mundial entre organizações da sociedade civil e governos. Para deter a fraude é preciso melhorar a capacidade do Sul em desenvolvimento, ressaltou. “A magnitude do problema é importante. A organização humanitária britânica Christian Aid calcula que a África subsaariana necessitaria cerca de 650 mil funcionários fiscais para alcançar a média mundial”, acrescentou.

Os Estados ricos prometeram ajuda aos países pobres para gerar a capacidade que necessitam, mas ainda não cumpriram seus compromissos. Investigadores da Integridade Financeira Mundial, uma organização sem fins lucrativos com sede nos Estados Unidos, disseram que os países em desenvolvimento perderam quase US$ 1 trilhão pelos canais ilícitos. Sem medidas claramente definidas para frear as desigualdades na renda, os economistas dizem que a África poderia caminhar para um grau de pobreza ainda maior de suas populações pobres.

“A África enfrentaria a pobreza perpétua em meio à crescente desigualdade na renda porque os governos aqui não têm as instituições nem o conhecimento para identificar e deter a lavagem de dinheiro por parte das pessoas e dos políticos corruptos que evadem impostos”, afirmou Kingston Nyakurukwa, economista independente do Zimbábue.

Os “delinquentes e os que os habilitam são criativos, por isso a única forma de evitar escândalos no futuro é lançando uma luz sobre aquilo que os delinquentes e os que fogem do fisco tentam ocultar. Por isso são necessários os registros online, e os bens de todas as pessoas e entidades jurídicas deveriam ser públicos”, afirmou Nyakurukwa. “Se fizermos vista grossa a essas lacunas legais, o desenvolvimento econômico para todos continuará sendo minado pelos atores ilegais que buscam tirar proveito delas”, acrescentou. Envolverde/IPS

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Familiares de desaparecidos no México assumem as buscas http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/familiares-de-desaparecidos-no-mexico-assumem-as-buscas/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/familiares-de-desaparecidos-no-mexico-assumem-as-buscas/#comments Thu, 26 Feb 2015 12:15:27 +0000 juliana http://envolverde.com.br/?p=129879   Cidade do México, México, 26/2/2015 – Carlos Trujillo continua sem se entregar, depois de anos percorrendo o México sem esmorecer, em busca de seus quatro irmãos desaparecidos. Esse comerciante não deixa nenhuma pista sem investigar nem pedra sem levantar, desde que seus irmãos Jesús, Raúl, Luís e Gustavo sumiram, os dois primeiros em 28 […]

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“Desaparecimento forçado, estratégia de terror”, diz um cartaz feito à mão, com a bandeira do México, em um ato, no dia 19 deste mês, pelos 15 anos da organização Hijos, uma das primeiras criadas por familiares de desaparecidos para buscá-los e lutar por justiça para eles. Foto: Emilio Godoy/IPS

“Desaparecimento forçado, estratégia de terror”, diz um cartaz feito à mão, com a bandeira do México, em um ato, no dia 19 deste mês, pelos 15 anos da organização Hijos, uma das primeiras criadas por familiares de desaparecidos para buscá-los e lutar por justiça para eles. Foto: Emilio Godoy/IPS

 

Cidade do México, México, 26/2/2015 – Carlos Trujillo continua sem se entregar, depois de anos percorrendo o México sem esmorecer, em busca de seus quatro irmãos desaparecidos. Esse comerciante não deixa nenhuma pista sem investigar nem pedra sem levantar, desde que seus irmãos Jesús, Raúl, Luís e Gustavo sumiram, os dois primeiros em 28 de agosto de 2008 no Estado de Guerrero, e os outros dois em 22 de setembro de 2010 em uma estrada que liga os Estados de Puebla e Veracruz, todos no sul do país.

“O caso não avançou, foram designados quatro agentes, mas ainda não há nada de concreto. Por isso, continuo e continuarei até encontrá-los”, afirmou Trujillo à IPS. Junto com outros familiares de desaparecidos, Trujillo fundou a organização Familiares en Búsqueda María Herrera, nome de sua mãe, em um dos crescentes esforços dos atormentados parentes de desaparecidos para institucionalizar as investigações que fazem por conta própria.

“Queremos criar uma rede de organizações de familiares de vítimas. Uma das prioridades é fortalecer os vínculos para ter clareza dos processos de busca, compartilhar ferramentas. A finalidade é que as próprias famílias conduzam os processos”, explicou o ativista.

Esses familiares investigam o desaparecimento forçado de 18 pessoas e já localizaram seis pessoas vivas, nos últimos dois anos. Com determinação e valentia, percorrem morgues, hospitais, delegacias, prisões, juizados, cemitérios e fossas clandestinas na ânsia de encontrar seus familiares desaparecidos, ou alguma pista que os aproxime deles.

A semente dessas organizações surgiu com o Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade, que em 2011 aglutinou afetados pela violência e percorreu o país, inclusive parte dos Estados Unidos, para também denunciar a política antidrogas de Washington.

O fenômeno do desaparecimento forçado explodiu desde que o governo do conservador Felipe Calderón (2006-2012) declarou “guerra total contra o narcotráfico”, em uma situação que seu sucessor, o também conservador Enrique Peña Nieto, não resolveu e que se converteu em uma das piores tragédias latino-americanas na história recente.

Mas só ganhou notoriedade internacional devido ao desaparecimento de 43 estudantes de magistério de Ayotzinapa, que levantou a tampa de um coquetel de cumplicidade e corrupção da polícia e do prefeito do município de Iguala com a violenta máfia do tráfico de drogas que opera em Guerrero. Ao completar cinco meses de seu desaparecimento, no dia 26, os familiares mantêm uma incessante atividade para que os estudantes apareçam, embora a Promotoria Geral da República tenha concluído há um mês que foi um massacre coletivo.

A crise humanitária levou o Comitê Contra os Desaparecimentos Forçados, da Organização das Nações Unidas (ONU), a pedir, no dia 13 deste mês, que o México legisle, registre, investigue, repare e dê justiça às vítimas deste crime.

A Subpromotoria de Direitos Humanos, Prevenção do Crime e Serviços à Comunidade informou que nesse país, de 120 milhões de habitantes, há registros de 23.271 desaparecidos, extraviados ou não localizados entre 2007 e outubro de 2014, em um dado que não determina o número dos desaparecimentos forçados. Organizações humanitárias delimitam esse número em 22.600 nesse período.

A maioria dos desaparecimentos forçados é atribuída a cartéis do narcotráfico, que lutam pelas rotas de distribuição para o lucrativo mercado norte-americano, em alguns casos com participação de policiais locais ou nacionais. As vítimas são principalmente homens entre 20 e 36 anos, sem um perfil socioeconômico único.

“Cada um começou com seu caso particular. Não entendíamos o que era o desaparecimento, tivemos que nos capacitar, não sabíamos que tínhamos direito de exigir. A busca começou com deficiências, ninguém sabia trabalhar coletivamente, fomos desenhando tudo”, contou à IPS a mãe de um desaparecido, Diana García.

Seu filho, Daniel Cantú, desapareceu no dia 21 de fevereiro de 2007 na cidade de Ramos Arizpe, no Estado de Coahuila, ao norte do país. García, mãe de outros dois filhos e integrante da agrupação Forças Unidas por Nossos Desaparecidos em Coahuila, está convencida de que somente de forma coletiva se pode pressionar o governo para que busque seus familiares.

Com apoio do Centro Diocesano para os Direitos Humanos Fray Juan de Larios, um grupo de familiares se uniu e fundou a Forças Unidas, em 2009, que busca um total de 344 pessoas. Além disso, conseguiu a Lei Local para a Declaração de Ausência por Desaparecimento de Pessoas, vigente desde maio de 2014, e a tipificação desse crime em seu Estado.

O drama dos desaparecidos levou ao surgimento de outras organizações de apoio, como a Ciência Forense Cidadã, criada em setembro para proporcionar uma base de dados forenses e um biobanco de dados de DNA. A iniciativa “objetiva uma busca maciça de identificação, para isso é necessário um registro de desaparecidos, uma base de dados genéticos e outra do que é encontrado em fossas clandestinas”, explicou à IPS uma das fundadoras da organização, Sara López.

O projeto pretende cobrir 450 famílias prejudicadas e 1.500 amostras coletadas. Até agora, recopilou cerca de 550 registros e já tem representantes, que são parentes de desaparecidos, em dez dos 33 Estados do país. A Ciência Forense conseguiu, no dia 16 deste mês, a identificação de Brenda González, desaparecida em 31 de julho de 2011 em Santa Catarina, no Estado de Nuevo León, norte do México, mediante uma peritagem independente realizada pela Equipe Peruana de Antropologia Forense.

“Com a organização que criamos, também tentamos gerar uma radiografia do tema dos desaparecidos”, pontuou Trujillo. Até o caso dos estudantes de Ayotzinapa, organizações defensoras dos direitos humanos concordam que as autoridades fizeram muito pouco para combater o flagelo, descumprindo inclusive sentenças para que fossem tomadas medidas proferidas pela Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Os familiares vivem como na canção Desaparecido, do francês Manu Chao, que, em uma letra dedicada aos milhares de desaparecidos latino-americanos, diz: “Levo no corpo uma dor que não me deixa respirar, levo no corpo uma condenação que sempre me faz caminhar”. E acabam deixando suas vidas paradas para viverem entre registros, trâmites, repartições públicas e inumeráveis riscos e gastos em busca dos seus e de outros em igual condição.

No momento “não me interessa justiça, nem reparação do dano. Quero é saber a verdade, o que aconteceu, onde está. Procuro por ele com vida, mas sei que no contexto em que vivemos pode ser outro o resultado. Provavelmente demore muitos anos e é desesperador, mas continuo lutando”, afirmou García.

Sua organização, a Forças Unidas, elaborou um plano de busca que inclui análise de mapas sobre crimes, registro genético, campanhas de sensibilização, sanção de responsáveis por crimes e investigações mal feitas, que as autoridades não adotaram. “Os familiares conhecem melhor do que ninguém a situação, sabem o que é preciso fazer. O problema é que se dá importância para o que acontece no México”, destacou a ativista López. Envolverde/IPS

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Brasil não é país para os sem terra em tempos de Dilma http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/brasil-nao-e-pais-para-os-sem-terra-em-tempos-de-dilma/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/brasil-nao-e-pais-para-os-sem-terra-em-tempos-de-dilma/#comments Wed, 25 Feb 2015 14:11:47 +0000 Fabíola Ortiz http://envolverde.com.br/?p=129818   Rio de Janeiro, Brasil, 25/2/2015 – O Brasil se mantém como um dos países do mundo com maior concentração de terras e cerca de 200 mil camponeses continuam sem ter uma área para cultivar, em um problema que o primeiro governo da presidente Dilma Rousseff fez muito pouco para aliviar. A Comissão Pastoral da […]

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Camponeses do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra reclamam contra concentração de terras no Brasil, durante ato de apoio à ocupação parcial da Agropecuária Santa Mônica, a 150 quilômetros de Brasília, no dia 21. Foto: Cortesia do MST

Camponeses do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra reclamam contra concentração de terras no Brasil, durante ato de apoio à ocupação parcial da Agropecuária Santa Mônica, a 150 quilômetros de Brasília, no dia 21. Foto: Cortesia do MST

 

Rio de Janeiro, Brasil, 25/2/2015 – O Brasil se mantém como um dos países do mundo com maior concentração de terras e cerca de 200 mil camponeses continuam sem ter uma área para cultivar, em um problema que o primeiro governo da presidente Dilma Rousseff fez muito pouco para aliviar.

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) realizou um balanço dos fatos ocorridos no período 2011-2014, que mostra que nesse quadriênio aconteceram os piores indicadores em matéria de reforma agrária dos últimos 20 anos, disse à IPS Isolete Wichinieski, uma de suas coordenadoras. “Historicamente, existe alta concentração de terras no Brasil”, afirmou, mas o preocupante é que, durante o primeiro mandato de Dilma, “a terra se concentrou ainda mais”.

“Houve uma redução dos números de novos assentamentos rurais ou de titulação de territórios indígenas e de quilombos (comunidades de descendentes de escravos africanos), sendo que, por outro lado, aumentou o investimento no agronegócio”, assegurou Wichnieski.

Os movimentos sociais alimentavam a esperança de que Dilma, do esquerdista Partido dos Trabalhadores, como seu antecessor, Luis Inácio Lula da Silva (2003-2011), tomasse a democratização da terra como bandeira. Mas a política econômica de seu governo se voltou para os incentivos à agroindústria, à mineração e a grandes projetos de infraestrutura.

Segundo o documento da CPT, no primeiro mandato de Dilma foram assentadas 103.746 famílias, o que resulta um dado enganoso, porque 73% delas correspondem a processos que já estavam em andamento antes e haviam sido quantificadas em anos anteriores. Se forem computadas apenas as novas famílias assentadas em novas áreas, o número cai para 28 mil. Em particular, durante 2014, o governo reconhece ter regularizado apenas 6.289 famílias, um número considerado insignificante pela CPT.

A partir de 1995 foi dado um renovado impulso à reforma agrária, com um Ministério especial vinculado à Presidência e outros instrumentos legais, em grande parte forjados por pressão em todo o país do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Como resultado, no mandato de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) foram assentadas 540.704 famílias, número que subiu para 614.088 nos dois mandatos de Lula, segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que afirma que neste século foram criados 9.128 assentamentos rurais.

Parte do acampamento Dom Tomás Balduíno, com suas barracas na margem do rio que atravessa a Agropecuária Santa Mônica e os primeiros cultivos semeados nos 400 hectares ocupados por camponeses brasileiros sem terra. Foto: Cortesia do MST

Parte do acampamento Dom Tomás Balduíno, com suas barracas na margem do rio que atravessa a Agropecuária Santa Mônica e os primeiros cultivos semeados nos 400 hectares ocupados por camponeses brasileiros sem terra. Foto: Cortesia do MST

 

Para que a reforma agrária seja efetiva, argumenta a CPT, é preciso criar novos assentamentos e reduzir a concentração da propriedade rural nesse país de 202 milhões de pessoas. Mas não se acredita que Dilma avançará nessa direção, admitiu Wichinieski.

A questão da reforma agrária não fez parte da campanha eleitoral que levou a presidente à reeleição em outubro e a nova composição do governo inclui nomes da bancada ruralista do Congresso, como são definidos os parlamentares vinculados ao poderoso setor do agronegócio. A ministra da Agricultura é a senadora e presidente da Confederação Nacional da Agricultura, Kátia Abreu. Em uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, no dia 5 deste mês, surpreendeu ao assegurar que já não há latifúndios no Brasil.

“Kátia Abreu tem visões retrógradas sobre a agricultura, nega a existência do trabalho forçado no campo, não se preocupa pela preservação do ambiente e argumenta a favor do uso intensivo de agroquímicos na produção de alimentos”, criticou Wichinieski.

O conflito pela terra se intensifica, de acordo com a CPT, ao vincular-se com a expansão da pecuária e das monoculturas, como soja, cana-de-açúcar, milho e algodão, e onde há um alto componente especulativo no manejo dos grandes latifúndios, com fortes ligações com os políticos.

Esse parece ser o caso da fazenda Agropecuária Santa Mônica, de mais de 20 mil hectares, a 150 quilômetros de Brasília, no Estado de Goiás e ocupada parcialmente pelo MST. A propriedade, qualificada pelas autoridades como produtiva, pertence ao senador Eunício Oliveira, o político com maior número de bens registrados no Brasil, entre os que aspiraram governar algum Estado nas últimas eleições.

No Senado, Oliveira lidera o PMDB, principal aliado legislativo de Dilma. Também foi ministro das Comunicações de Lula no biênio 2004-2005 e no ano passado perdeu as eleições para governador do Estado do Ceará.

Os ocupantes de 400 hectares do latifúndio de Santa Mônica vendem seus produtos agroecológicos nos municípios vizinhos. Com eles promovem a agricultura familiar e sem pesticidas. Foto: Cortesia do MST

Os ocupantes de 400 hectares do latifúndio de Santa Mônica vendem seus produtos agroecológicos nos municípios vizinhos. Com eles promovem a agricultura familiar e sem pesticidas. Foto: Cortesia do MST

Valdir Misnerovicz, um dos dirigentes do MST, afirmou à IPS que essa fazenda é improdutiva e sua finalidade é a especulação. Localizada estrategicamente entre os municípios de Alexânia, Abadiânia e Corumbá, a Santa Mônica representa a maior ocupação de terra promovida pelo MST nos últimos 15 anos. Tudo começou em 31 de agosto de 2014, quando três mil famílias rumaram a pé e em 1.800 veículos para a fazenda e a ocuparam por várias horas.

Desde então, mais de dois mil homens, mulheres, crianças e idosos controlam 400 hectares da propriedade e resistem em um precário acampamento, decididos a conseguir um pedaço de terra para cultivar. Essa é uma da estratégias do MST, ressaltou Misnerovicz. “Ocupamos grandes áreas improdutivas. No acampamento produzimos alimentos diversificados como hortaliças, mandioca, milho arroz, feijão e abóbora. Todas as famílias plantam alimentos saudáveis em hortas comunitárias agroecológicas e sem químicos”, acrescentou.

As barracas do acampamento Dom Tomás Balduíno se amontoam na margem do rio que atravessa a propriedade, que engloba 90 parcelas de terra que foram adquiridas ao longo de duas décadas pelo senador. “No dia em que entramos, tentaram nos impedir, mas éramos milhares de pessoas. Nunca vamos armados. Nossa força é o número de camponeses que nos acompanham”, ressaltou Misnerovicz.

Em novembro, um tribunal decidiu a favor do direito de recuperação por Oliveira da propriedade, que até agora está em suspenso. O dirigente confia que, apesar do risco de despejo dos camponeses, se consiga que a fazenda Santa Mônica seja expropriada para fins de reforma agrária. Misnerovicz assegurou que o próprio governo incentiva os camponeses ocupantes a prosseguirem com as negociações.

“Ali seria possível, ao final de um ano, realizar o maior assentamento dos últimos tempos no Brasil. Em janeiro estivemos com a presidente Dilma, que manifestou o compromisso de um plano de metas de assentamento para famílias acampadas em todo o país”, contou Misnerovicz. O Incra evita se pronunciar sobre o caso específico, mas recordou que, por lei, “todos os bens ocupados estão impedidos de serem inspecionados para sua avaliação com vistas a destinação à reforma agrária”.

O administrador da Santa Mônica, Ricardo Augusto, assegurou à IPS que a área invadida é uma propriedade agrícola onde se cultiva soja, milho e feijão. “A compra da propriedade foi registrada em cartório. O MST falta com a verdade. Defendemos uma solução negociada e pacífica. Terras produtivas e invadidas não podem ser expropriadas, e não há interesse em vender a propriedade”, destacou.

Porém, João Pedro, dono de uma parcela em um município vizinho à Santa Mônica, vê de modo diferente a situação. Durante um ato em favor da ocupação, no dia 21 deste mês, nas imediações do acampamento, o camponês afirmou que as famílias acampadas buscam cumprir o que dizem as leis brasileiras: “a terra tem uma função social, e é só isso que queremos, que seja aplicada a Constituição”. Envolverde/IPS

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Indígenas têm a chave para uma alimentação de qualidade http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/indigenas-tem-a-chave-para-uma-alimentacao-de-qualidade/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/indigenas-tem-a-chave-para-uma-alimentacao-de-qualidade/#comments Wed, 25 Feb 2015 14:00:41 +0000 Valentina Gasbarri http://envolverde.com.br/?p=129810   Roma, Itália, 25/2/2015 – Erradicar a fome e a má nutrição no século 21 já não se limita a melhorar a disponibilidade de alimentos, mas também sua qualidade. Apesar dos êxitos do sistema de alimentação mundial, cerca de 805 milhões de pessoas passam fome de forma crônica, e aproximadamente dois bilhões carecem de um […]

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A segurança alimentar e uma dieta balanceada para todos deve combinar com o conhecimento do sistema alimentar e do modo de vida dos povos indígenas como forma de contribuir para o desenvolvimento sustentável. Foto: Fida  

A segurança alimentar e uma dieta balanceada para todos deve combinar com o conhecimento do sistema alimentar e do modo de vida dos povos indígenas como forma de contribuir para o desenvolvimento sustentável. Foto: Fida
 

 

Roma, Itália, 25/2/2015 – Erradicar a fome e a má nutrição no século 21 já não se limita a melhorar a disponibilidade de alimentos, mas também sua qualidade. Apesar dos êxitos do sistema de alimentação mundial, cerca de 805 milhões de pessoas passam fome de forma crônica, e aproximadamente dois bilhões carecem de um ou mais micronutrientes, ao mesmo tempo em que há 2,8 bilhões de obesos, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), divulgados em outubro.

O debate sobre como superar esse desafio se polarizou com a agricultura e o comércio global se enfrentando com os sistemas locais e o conhecimento ecológico tradicional, estilos de vida atados à terra, bem como uma relação holística de dependência mútua entre as comunidades e a terra. Esse, entre outros temas, atraiu a atenção na segunda Reunião Global do Fórum dos Povos Indígenas, realizada na sede romana do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida), nos dias 12 e 13 deste mês.

No encontro foram debatidas soluções que combinam a necessidade de garantir a segurança alimentar e uma dieta equilibrada para todos com o conhecimento dos sistemas alimentares e do sustento das comunidades originárias como contribuição ao desenvolvimento sustentável.

Segundo o presidente do Fida, Kanayo F. Nwanze, “os territórios indígenas estão entre os lugares mais diversos do ponto de vista biológico e ecológico da Terra. Só recentemente, no século 21, o resto do mundo começa a valorizar a biodiversidade, que é um valor central das sociedades originárias”. Ao ocupar quase 20% da superfície terrestre do planeta, os povos indígenas funcionam como guardiões da biodiversidade biológica.

Os participantes discutiram sobre as possibilidades de os sistemas de autossustento e as práticas das comunidades indígenas para contribuir e inspirar novos enfoques de transformação do desenvolvimento sustentável e sintetizar a cultura e a identidade, sempre com base nos direitos individuais e coletivos.

Também analisaram a quantidade de comunidades indígenas e ecossistemas em risco por falta de reconhecimento de seus direitos e de tratamento justo por parte de governos e corporações, pelo crescimento populacional, pela mudança climática, pelas migrações e pelos conflitos. Os participantes concordaram que a marginalização dos indígenas desvaloriza não só a importância de suas comunidades, mas também seu conhecimento agrícola e ecológico tradicional.

“De forma arrogante e insolente, a humanidade cultivou a ideia de um desenvolvimento e um processo considerando que os recursos do planeta são infinitos e que a dominação humana da natureza não tem limites”, destacou Carlo Petrini, fundador do movimento internacional Slow Food em um encontro paralelo dedicado à inter-relação entre nutrição, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável.

“O avanço nessa ideia de progresso deixou mulheres, jovens, idosos e povos indígenas no final da fila, sem ninguém que eleve sua voz”, denunciou Petrini. “Todo o drama da realidade moderna fica descoberto: a gloriosa marcha do progresso está à beira do precipício, a atual crise é o fruto da cobiça e da ignorância”, destacou o ativista.

Dirigindo-se em grande parte ao mundo rico, o Fórum se concentrou no grande número de boas práticas e na sabedoria empírica tradicional dos indígenas que merecem ser estudadas com atenção. Por exemplo, promover a agricultura e as economias locais, junto com o respeito pelas pequenas comunidades, é uma forma de reconciliar os seres humanos com a terra e a natureza. Além disso, numerosas comunidades originárias têm certos alimentos, como o milho, a inhame e o arroz silvestre, que consideram sagrados e que cultivam com práticas sustentáveis para o uso da terra e da água.

No Fórum também foi mencionada a importância do papel dos sistemas de alimentação dos povos indígenas nos projetos da FAO, que gerencia o Centro para o Ambiente e a Nutrição dos Povos Indígenas (Cine), da Universidade McGill, na cidade canadense de Montreal.

“Anos de trabalho documentaram os sistemas tradicionais de alimentação dos povos indígenas e seus hábitos alimentares para compreender o matriarcado e o papel das mulheres na segurança alimentar e na paz no Canadá”, destacou Harriet V. Kuhnlein, professora emérita de nutrição humana e diretora-fundadora do Cine.

A especialista também compartilhou detalhes de uma das iniciativas do Cine, o Projeto Kahnawake de Prevenção do Diabetes Escolar, de três anos, e centrado em um programa de prevenção primária para os que sofrem de diabetes mellitus não insulinodependente, na comunidade mohawk, vizinha a Montreal.

Entre outros objetivos, o projeto organiza atividades na comunidade, onde promove estilos de vida saudáveis, e demonstrou que “um programa de prevenção de diabetes em uma comunidade nativa é possível mediante uma pesquisa participativa que incorpore a experiência local e a cultura indígena”, explicou Kuhnlein.

Os participantes do Fórum concordaram que a reintrodução de alimentos locais é essencial para alimentar o planeta. “Aqui vemos um verdadeira democracia em ação”, destacou um orador, acrescentando que é preciso um grande esforço para evitar práticas que exacerbem as consequências negativas que a produção de alimentos e o consumo têm no clima, na água e nos ecossistemas.

Também foi pedido que a agenda de desenvolvimento pós-2015 garanta um ambiente saudável como um direito humano internacional garantido, e que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que substituirão os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) no final deste ano, incentivem os governos a trabalharem para políticas agrícolas que sejam compatíveis com a sustentabilidade ambiental, e que as normas comerciais sejam consistentes com a segurança alimentar.

Houve consenso quanto a não serem metas fáceis de implantar e que será necessário um contexto de responsabilidade forte e de vontade de cumpri-lo, inclusive mediante o reconhecimento da responsabilidade corporativa no setor privado.

Quando o mundo se prepara para a agenda de desenvolvimento pós-2015, o Fórum dos Povos Indígenas ressaltou a importância de incorporar a segurança alimentar, questões ambientais, redução da pobreza e os direitos dos povos indígenas aos novos objetivos de desenvolvimento sustentável que envolvem os cidadãos, governos, instituições acadêmicas, empresas privadas e organizações internacionais. Envolverde/IPS

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Pode-se deter a violência em Honduras? http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/pode-se-deter-a-violencia-em-honduras/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/pode-se-deter-a-violencia-em-honduras/#comments Wed, 25 Feb 2015 13:02:02 +0000 William Hartung http://envolverde.com.br/?p=129814 Washington, Estados Unidos, 25/2/2015 – Honduras é um dos países mais violentos do mundo. A situação na segunda maior cidade do país, San Pedro Sula, demonstra a magnitude do problema. Pelo quarto ano consecutivo, a cidade foi um dos lugares mais perigosos do planeta fora de uma zona de guerra. Em 2014, teve taxa de […]

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Pelo quarto ano consecutivo, San Pedro Sula foi um dos lugares mais perigosos do planeta fora de uma zona de guerra. Foto: Daviditzi/Flickr

Pelo quarto ano consecutivo, San Pedro Sula foi um dos lugares mais perigosos do planeta fora de uma zona de guerra. Foto: Daviditzi/Flickr

Washington, Estados Unidos, 25/2/2015 – Honduras é um dos países mais violentos do mundo. A situação na segunda maior cidade do país, San Pedro Sula, demonstra a magnitude do problema. Pelo quarto ano consecutivo, a cidade foi um dos lugares mais perigosos do planeta fora de uma zona de guerra. Em 2014, teve taxa de assassinatos de 171 para cada cem mil habitantes. Presa no fogo cruzado de bandos criminosos, é a principal origem das 18 mil crianças hondurenhas que fugiram para os Estados Unidos nos últimos anos.

A grande maioria dos assassinatos em Honduras é cometida com impunidade. Por exemplo, 97% dos registrados em San Pedro Sula seguem sem solução. A corrupção e os abusos da polícia civil prejudicam sua efetividade. Uma nova e controvertida força de segurança interna, a Polícia Militar da Ordem Pública (PMOP), não realiza as investigações necessárias para dissuadir a criminalidade e enfrenta várias denúncias de abusos no breve período de sua existência.

Atualmente, há três mil soldados da PMOP em todo o país, mas está previsto que esse número suba para cinco mil este ano. A polícia nacional sente que o governo está lhe tirando fundos para substituí-la pela nova força. A ascensão da PMOP é parte de uma tendência maior rumo à militarização do governo e da sociedade civil. Os militares controlam a maior parte da segurança pública em Honduras. Mas os sinais de militarização estão em todas as partes.

Por exemplo, todos os sábados, 25 mil crianças recebem treinamento militar como parte do programa Guardiões da Pátria, que, segundo o governo, busca manter crianças e jovens entre cinco e 23 anos afastados das gangues de rua que controlam áreas inteiras das cidades mais violentas. Mas é pouco provável que a incorporação de mais armas na rua freie de forma sustentável a onda de violência. O que na verdade teria efeito seria o fim do clima de impunidade que permite aos assassinos matar pessoas sem medo das consequências.

“Esse país precisa fortalecer sua capacidade e vontade para realizar investigações criminais. Esta é a chave de tudo”, afirmou um especialista que passou anos trabalhando nos órgãos de justiça hondurenhos e que falou à IPS com a condição de permanecer no anonimato.

O governo tem três desafios fundamentais. Deve reformar a força policial corrupta e abusiva, fortalecer as investigações penais e garantir a imparcialidade e independência do poder judicial. A reforma da polícia parece estar parada. Alguma esperança foi gerada pela grande pressão após os assassinatos, em 2011, do filho da reitora da Universidade Nacional Autônoma de Honduras e um amigo.

A Comissão de Reforma da Segurança Pública elaborou uma série de propostas, entre elas recomendações para melhoria da formação policial, dos procedimentos disciplinares e da estrutura das instituições de segurança pública. Lamentavelmente, o Congresso dissolveu a Comissão em janeiro de 2014, pouco antes de o presidente Juan Orlando Hernández assumir o cargo. Poucas de suas recomendações foram aplicadas.

“Poderiam ter purgado e capacitado a polícia nesse tempo. Ao invés disso, puseram cinco mil policiais militares nas ruas que não sabem o que é uma cadeia de custódia”, lamentou o especialista em violência.

O governo hondurenho afirma que mais de dois mil policiais foram destituídos desde maio de 2012, mas há pouca informação pública que permita uma avaliação independente dos motivos das exonerações. Embora sejam afastados da polícia, os ex-agentes não são processados. Alguns inclusive têm permissão para voltar à força. Essa não é maneira de inculcar responsabilidade.

Enquanto isso, a independência do poder judicial está sob ataque. Desde novembro de 2013, o Conselho de Justiça demitiu 29 juízes e suspendeu outros 28 sem o devido processo, segundo um membro da Associação de Juízes pela Democracia. “Isso significa que os juízes se sentem intimidados. Sentem que se decidirem contra pessoas com boas ligações, contra os políticos, podem ser demitidos”, acrescentou.

Na tentativa de melhorar o trabalho judiciário foram criadas unidades especiais para investigar determinados tipos de crimes. Por exemplo, com fundos dos Estados Unidos, em 2011 criou-se o Grupo de Trabalho para Vítimas Especiais, para tratar dos crimes contra grupos vulneráveis, como jornalistas, defensores dos direitos humanos e pessoas lésbicas, gays, bissexuais e trans. Essa iniciativa é promissora, mas sem resultados claros até agora. Tampouco se sabe se esses esforços especializados podem gerar uma melhoria mais ampla do sistema judiciário.

A segurança dos agentes judiciais é um problema particularmente grave. Entre 2010 e 2014, foram assassinados 86 profissionais do direito, segundo informação recebida pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CDHI). Embora o Estado dê alguma proteção, os fundos destinados para esse fim são insuficientes. Em “um país com os maiores níveis de violência e impunidade da região, se requer por parte do Estado um dever especial de proteção para que seus operadores de justiça possam realizar seus trabalhos de luta contra a impunidade sem se converterem em vítimas dos próprios casos que investigam ou resolvem”, destacou a CIDH.

Para atender os problemas que impulsionam a violência endêmica, o governo de Honduras, junto com os de El Salvador e Guatemala, apresentou o plano Aliança para a Prosperidade, a fim de aumentar o investimento em infraestrutura e fomentar o investimento estrangeiro. O governo norte-americano anunciou que solicitará ao Congresso US$ 1 bilhão para ajudar a financiar a iniciativa, mas pouco se sabe sobre a estratégia de segurança.

Quanto a San Pedro Sula, falta uma mudança drástica na vontade política para que uma iniciativa desse tipo prospere. Os doadores internacionais não deveriam apoiar uma estratégia de segurança militarizada, o que exacerbará os abusos e não dará uma segurança sustentável.

O financiamento de programas comunitários de prevenção da violência seria útil, mas só se o governo estivesse disposto a reformar a polícia, defender a justiça e investir em educação, emprego, prevenção da violência, saúde, proteção da infância e programas de desenvolvimento comunitário para proteger seus cidadãos mais pobres. Envolverde/IPS

* Lisa Haugaard é diretora-executiva da Latin America Working Group (LAWG). Sarah Kinosian é a investigadora principal para a América Latina da Security Assistance Monitor (SAM), do Center for International Policy (CIP). William D. Hartung é assessor principal da SAM. Este artigo se baseia em um novo informe conjunto da LAWG e do CIP intitulado Honduras: Um Governo Que Não Protege Seu Povo.

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Ucrânia, na mira das corporações ocidentais http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/ucrania-na-mira-das-corporacoes-ocidentais/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/ucrania-na-mira-das-corporacoes-ocidentais/#comments Wed, 25 Feb 2015 12:46:55 +0000 Frederic Mousseau http://envolverde.com.br/?p=129800   Oakland, Estados Unidos, fevereiro/2015 – O novo governo da Ucrânia, iniciado no dia 2 de dezembro, tem o mais firme apoio das potências ocidentais e é o único no mundo: três de seus mais importantes ministros nasceram no estrangeiro e receberam a cidadania ucraniana horas antes de assumirem seus cargos. A ministra de Finanças […]

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Prédio da administração presidencial ucraniana em Kiev. Foto: http://pt.wikipedia.org/

Prédio da administração presidencial ucraniana em Kiev. Foto: http://pt.wikipedia.org/

 

Oakland, Estados Unidos, fevereiro/2015 – O novo governo da Ucrânia, iniciado no dia 2 de dezembro, tem o mais firme apoio das potências ocidentais e é o único no mundo: três de seus mais importantes ministros nasceram no estrangeiro e receberam a cidadania ucraniana horas antes de assumirem seus cargos.

A ministra de Finanças é Natalie Jaresko, uma empresária nascida nos Estados Unidos, que reside na Ucrânia desde meados da década de 1990 e administra o Horizon Capital, um fundo de investimentos de capitais ocidentais.

Essa incomum presença de estrangeiros no governo de Kiev é coerente com o predomínio que os interesses ocidentais adquiriram sobre a economia ucraniana.

O Oakland Institute documentou essa transformação em dois recentes informes, o primeiro sobre a presença do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial no conflito da Ucrânia (Walking on the West Side: The World Bank and the IMF in the Ukraine Conflict) e o mais recente sobre a penetração das corporações ocidentais na agricultura ucraniana (The Corporate Takeover of Ukrainian Agriculture).

O principal fator da crise que desencadeou uma onda de protestos e forçou a renúncia do presidente Viktor Yanukovich, em fevereiro de 2014, foi sua rejeição a um acordo de associação com a União Europeia (UE), concebido para expandir o comércio bilateral e integrar a economia da Ucrânia a esse bloco. O acordo estava vinculado com crédito de US$ 17 bilhões do FMI.

Após o afastamento de Yanukovich e a instalação de um governo pró-ocidental, o FMI iniciou um programa de reformas voltado a incentivar os investimentos privados no país. O pacote de medidas incluía a privatização do fornecimento de água e energia e dava enorme importância ao que o Banco Mundial identificava como “as raízes estruturais” da atual crise econômica ucraniana, em primeiro lugar os elevados custos das empresas privadas.

A agricultura foi o objetivo principal dos investimentos estrangeiros na Ucrânia e é considerada pelo FMI e pelo Banco Mundial como o setor prioritário do programa de reformas.

As duas instituições exaltam a rapidez com que o governo seguiu seus conselhos. Por exemplo, o programa de reformas receitado à Ucrânia incluía a facilitação da aquisição de terras agrícolas, a eliminação de controles e regulamentações sobre a produção de alimentos e a redução de impostos e de direitos aduaneiros.

Bastam poucos dados para descrever a magnitude da agricultura ucraniana: é o terceiro exportador mundial de milho, quinto exportador mundial de trigo, e tem 32 milhões de hectares de terra cultiváveis, equivalentes a um terço do total da terra produtiva da UE. O controle do sistema agrícola ucraniano é um fator fundamental na luta que aconteceu no último ano no contexto do maior conflito Leste-Oeste desde o fim da Guerra Fria.

A presença das corporações estrangeiras na agricultura da Ucrânia se estendeu rapidamente, já que nestes últimos anos compraram 1,6 milhão de hectares.

Embora empresas como as norte-americanas Monsanto, Cargill e DuPont estejam na Ucrânia há muito tempo, seus investimentos no país cresceram recentemente.

A Cargill produz pesticidas, sementes, fertilizantes, ampliou seus investimentos em armazenamento de grãos e nutrição animal, e adquiriu participação na UkrLandFarming, a maior companhia agroindustrial do país.

Por sua vez, a Monsanto duplicou seu pessoal no país nos últimos três anos e, em março de 2014, semanas antes da saída de Yanukovich, investiu US$ 140 milhões na construção de uma nova unidade de sementes.

A expansão da DuPont também inclui uma fábrica de sementes.

O desejo das corporações ocidentais não se detém no controle de algumas rentáveis atividades agrícolas, aspira a integração vertical do setor da agricultura, e já se estendeu ao transporte e à infraestrutura.

Por exemplo, a Cargill agora possui quatro elevadores de grãos e duas unidades processadoras de óleo de girassol, e, em dezembro de 2013, adquiriu 25% de um terminal no porto de Novorossiysk, no Mar Negro, com capacidade para processar 3,5 milhões de toneladas anuais de grãos.

Em todas as fases da cadeia agrícola, desde a produção de sementes até o transporte das exportações, está aumentando o controle por parte das corporações ocidentais.

Embora a Ucrânia não permita a produção de alimentos geneticamente modificados (GM), o acordo entre Kiev e UE inclui uma cláusula que compromete as duas partes a cooperarem para “estender o uso de biotecnologias” no país.

Essa cláusula chama a atenção por implicar uma abertura para a importação de alimentos GM na Europa, que é o maior objetivo das corporações produtoras de sementes, como a Monsanto, mas que são rejeitados pela grande maioria dos consumidores europeus.

No entanto, não se vê como essa mudança poderia beneficiar os ucranianos, como tampouco o que pode significar a onda de investimentos estrangeiros para os sete milhões de agricultores locais.

Quando finalmente terminar o conflito no “pró-russo” setor oriental, os ucranianos se perguntarão o que restou da capacidade de seu país para controlar seu fornecimento de alimentos e administrar sua economia segundo seus próprios interesses.

É de se esperar que europeus e norte-americanos por fim deixem de ouvir a ensurdecedora retórica sobre agressões russas e direitos humanos e comecem a questionar a ingerência de seus países no conflito ucraniano. Envolverde/IPS

* Frédéric Mousseau é diretor de Política do Oakland Institute.

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2015 será um ano decisivo para o desenvolvimento? A ONU diz que sim http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/2015-sera-um-ano-decisivo-para-o-desenvolvimento-a-onu-diz-que-sim/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/2015-sera-um-ano-decisivo-para-o-desenvolvimento-a-onu-diz-que-sim/#comments Tue, 24 Feb 2015 13:16:11 +0000 Thalif Deen http://envolverde.com.br/?p=129725   Nações Unidas, 24/2/2015 – A Organização das Nações Unidas (ONU) não deixa de promover 2015 como um ano decisivo em vários setores fundamentais, como os fundos para o Sul em desenvolvimento, a mudança climática, o desenvolvimento sustentável, a redução do risco de desastres naturais e a proliferação nuclear. Ao mesmo tempo este ano o […]

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O secretário-geral Ban Ki-moon no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, em 23 de janeiro. Foto: Mark Garten/ONU

O secretário-geral Ban Ki-moon no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, em 23 de janeiro. Foto: Mark Garten/ONU

 

Nações Unidas, 24/2/2015 – A Organização das Nações Unidas (ONU) não deixa de promover 2015 como um ano decisivo em vários setores fundamentais, como os fundos para o Sul em desenvolvimento, a mudança climática, o desenvolvimento sustentável, a redução do risco de desastres naturais e a proliferação nuclear. Ao mesmo tempo este ano o fórum mundial comemora 70 anos, o vigésimo da histórica Conferência de Pequim sobre a Mulher.

Em um documento intitulado O Caminho Para a Dignidade em 2030: O Fim da Pobreza, a Transformação de Todas as Vidas e a Proteção do Planeta, divulgado em dezembro, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, declarou que 2015 é “o momento para a ação mundial”.

Entre as próximas reuniões estão a terceira conferência mundial sobre Redução do Risco de Desastres, em março, em Sendai, no Japão, o exame quinquenal do tratado de Não Proliferação Nuclear, em abril e maio, em Nova York, e a terceira conferência internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento, em julho, em Adis Abeba.

Ban destacou três prioridades em declarações aos meios de comunicação este mês. “Temos de fazer o máximo esforço para alcançar as metas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM)”, cujo prazo vence no final deste ano, afirmou. Os Estados membros trabalham com afinco para dar forma à agenda de desenvolvimento pós-2015 antes de setembro, acrescentou.

A ONU será sede de uma cúpula de governantes de todo o mundo, entre 25 e 27 de setembro, na qual está previsto que os líderes “adotem e declarem como sua visão para o mundo, apontando para 2030, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)”, disse Ban Ki-moon.

Em dezembro deste ano “devemos contar com um acordo sobre mudança climática que seja universal e significativo”, que será adotado em Paris durante a 21ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, acrescentou o secretário-geral.

Em cada um desses “marcos vamos ser ambiciosos para acabar com a pobreza, reduzir a desigualdade e aproveitar as oportunidades que acompanham o desafio da mudança climática”, afirmou Ban. Quanto aos 70 anos da ONU, o aniversário será “um momento importante para refletir seriamente sobre nossos êxitos e retrocessos”, reconheceu.

Entretanto, Jim Paul, diretor do Global Policy Forum, uma organização independente cuja sede fica em Nova York, que analisa as políticas das Nações Unidas, disse à IPS desconfiar do espalhafato político que existe em torno das próximas conferências. A ONU “apregoa os encontros mundiais de 2015 como eventos revolucionários, mas as expectativas do mundo real estão atrasadas diante do discurso do secretário-geral e de sua equipe”, afirmou.

Segundo Paul, há vários temas a serem considerados. Enquanto as cúpulas da ONU abordam alguns dos problemas mais urgentes do mundo, países poderosos, como os Estados Unidos, em geral tentam enfraquecer essas reuniões e impedir que tenham consequências de peso. Essa tendência já era visível nos anos 1990, a década dourada das cúpulas da ONU, quando Washington começou a insistir que as mesmas eram muito “caras” e tratavam de tudo, acrescentou.

“Essa política atingiu sua forma mais extrema no período anterior à cúpula de 2005, quando os Estados Unidos insistiram em uma reformulação total e de última hora do texto acordado, mas pode-se encontrar em muitos outros casos, antes e depois, afirmou Paul, acrescentando que os Estados poderosos, tendo os Estados Unidos na primeira fila, não gostam que as decisões da ONU os limitem.

Em segundo lugar, existe o problema da falta de obrigatoriedade das decisões adotadas nessas reuniões internacionais, disse Paul. As declarações finais das mesmas costumam incluir grandiosas aspirações, e em algumas ocasiões usa-se a palavra “vinculante”, mas todos os participantes sabem que o resultado continuará sendo um desejo e não uma política obrigatória, acrescentou.

Isso gera a desconfiança dos diplomatas e especialmente das pessoas comuns. Os governos costumam culpar a ONU por sua conduta supostamente irresponsável, algo do que eles mesmos costumam ser responsáveis, destacou Paul.

Em uma entrevista coletiva no dia 15 de janeiro, o presidente da Assembleia Geral da ONU, o ugandense Sam Kutesa, disse que, 70 anos depois da criação da ONU, “temos a oportunidade verdadeiramente histórica de acordar um programa inspirador que possa energizar a comunidade internacional, os governos de todas as partes e os cidadãos do mundo”.

Chee Yoke Ling, diretora de programas da Rede do Terceiro Mundo, com sede em Penang, na Malásia, disse à IPS que a incorporação dos ODS é uma parte importante da agenda de desenvolvimento pós-2015. Mas “devemos colocar a agenda econômica como uma prioridade na Cúpula de desenvolvimento”, ressaltou. A instabilidade financeira “continuou pendente diante de nós, enquanto os grandes países desenvolvidos impõem cada vez mais normas comerciais contra as pessoas e contra o desenvolvimento nos acordos bilaterais e plurilaterais, como o Acordo de Associação Transpacífico”, afirmou Ling.

Segundo a ativista, as demandas judiciais “por investidores transnacionais contra governos nacionais por centenas de milhões de dólares em virtude de acordos bilaterais de investimento provocou protestos em muitos países, e alguns governos de nações em desenvolvimento modificaram e inclusive cancelaram esses tratados manifestamente injustos”.

A conferência de Adis Abeba é crucial para abordar várias questões financeiras e econômicas fundamentais, afirmou Chee. Sem reformas estruturais que respeitem o espaço normativo nacional e garantam a estabilidade, o desenvolvimento sustentável continuará sendo difícil de alcançar, ressaltou.

Para Paul, os Estados Unidos, por serem o país maior e mais rico, tem a inclinação mais pronunciada de trabalhar segundo seus próprios interesses e não em um processo de consulta amplo. A criação de uma ordem econômica justa e estável regida pelos ODS parece quase impossível em uma economia mundial com tropeços e cada vez maior desigualdade. Paul se pergunta se os oligarcas do mundo cederão seu poder e sua renda.

Isso significa que as cúpulas da ONU em 2015 serão inúteis? Não necessariamente. “Saber que não podemos esperar um milagre talvez seja uma maneira de pensar mais realista sobre o que se pode e o que não se pode conseguir”, explicou Paul. “Acima de tudo, há uma recordação de que os Estados do mundo atuam, como de costume, de maneira irresponsável. E que precisamos de um mundo que funcione muito melhor se temos que sobreviver às ameaças e aos desafios do século 21”, concluiu Paul. Envolverde/IPS

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Projeto comunitário vence a mudança climática em Trinidad http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/projeto-comunitario-vence-a-mudanca-climatica-em-trinidad/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/projeto-comunitario-vence-a-mudanca-climatica-em-trinidad/#comments Tue, 24 Feb 2015 13:08:52 +0000 Desmond Brown http://envolverde.com.br/?p=129721   Fondes Amandes, Trinidad e Tobago, 24/2/2015 – A comunidade de Fondes Amandes, na ilha de Trinidad, se uniu desde 1982 para lutar contra a mudança climática no vale de Saint Ann, na cordilheira Setentrional desse país insular do Caribe. Durante anos, os incêndios florestais reduziram as florestas dos arredores de Fondes Armandes a erva […]

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Trabalhador de Fondes Armandes mostra a construção de um indicador de fogo. Foto: Desmond Brown/IPS

Trabalhador de Fondes Armandes mostra a construção de um indicador de fogo. Foto: Desmond Brown/IPS

 

Fondes Amandes, Trinidad e Tobago, 24/2/2015 – A comunidade de Fondes Amandes, na ilha de Trinidad, se uniu desde 1982 para lutar contra a mudança climática no vale de Saint Ann, na cordilheira Setentrional desse país insular do Caribe. Durante anos, os incêndios florestais reduziram as florestas dos arredores de Fondes Armandes a erva queimada e tocos de árvores carbonizados. A população local testemunhou o aumento das chuvas na área e como a estação chuvosa se estendeu sobre a seca.

Akilah Jaramogi, que iniciou o Projeto de Reflorestamento da Comunidade de Fondes Amandes há 32 anos junto com seu marido, agora falecido, disse à IPS que conseguiram recuperar e reviver a floresta e o rio. “Cheguei a Fondes Amandes no começo dos anos 1980, muito contente por estar aqui, mas isso foi só na estação chuvosa, quando o lugar era muito verde e bonito, porque no período de seca era outra história”, contou.

“Tudo ficava marrom, daí passava para cinza e depois a incêndios brilhantes na noite. Os montes queimavam. A tendência em Fondes Amandes era de incêndios florestais na estação seca e inundações na bacia na época chuvosa. Para mim, vinda de uma comunidade rural do sul de Trinidad, era muito estranho. Era doloroso”, recordou Jaramogi.

O Projeto de Reflorestamento da Comunidade de Fondes Amandes transformou a ladeira poeirenta e estéril em uma área na qual cresceram árvores, as frutíferas prosperaram ao lado de plantas em flor, e a cada ano chegava mais vida silvestre. E, desde 1997, nenhum incêndio florestal rompeu o sistema de indicadores de fogo nem a rápida ação comunitária criada para proteger a bacia.

A mudança climática é uma realidade para a comunidade, explicou Jaramogi, e as variações afetaram a qualidade e a produção das árvores frutíferas. Ela identificou seu impacto nos cítricos, nas mangas e nos abacates. “Com os anos, notei mudanças drásticas no clima. Já não temos uma estação seca e outra úmida. Nos últimos tempos, sofremos condições climáticas extremamente secas. Este ano ela foi realmente longa e causou tremendos incêndios florestais em Trinidad e Tobago”, afirmou.

Segundo Jaramogi, o êxito e a duração do projeto se devem à participação da comunidade. “A maioria dos membros é daqui e há um sentido de propriedade e de orgulho por nosso ambiente natural. Isso também é o que faz com que nossos patrocinadores mantenham a relação com Fondes Amandes. Com ou sem fundos, fazem o que deve ser feito”, afirmou.

Sua filha, Kemba Jaramogi, também colabora no projeto. É uma bombeira capacitada e protetora dedicada da floresta. Embora os incêndios comecem fora da área reflorestada do projeto, isso não impede que os voluntários o apaguem, ainda que isso implique caminhar duas horas pela mata até o foco do fogo, explicou Kemba, detalhando coisas simples que podem ser feitas para deter a propagação e evitar que o fogo fuja das mãos.

“Primeiro, deve haver melhor coordenação entre as unidades de bombeiros da Divisão Florestal, os grupos de Reflorestamento Nacional e as organizações não governamentais. Segundo, esses grupos precisam de equipamentos melhores”, apontou Kemba. “O projeto, por exemplo, carece de equipamento para combater incêndios florestais como extintores de mochila. São bombas de água com uma mangueira que se carrega nas costas”, acrescentou.

“Em terceiro lugar, os helicópteros da Segurança Nacional estão apagando incêndios do ar, com Bambi Buckets (baldes especiais com água e suspensos pela aeronave por um cabo), mas esses são usados quando o fogo está fora de controle”, explicou Kemba. “Um uso mais efetivo da capacidade aérea seria equipar os helicópteros para poderem levar os bombeiros até as áreas de difícil acesso, quando o fogo ainda é controlável, bem semelhante às equipes de bombeiros paraquedistas”, acrescentou. Mas, nem sempre são enviados bombeiros paraquedistas para zonas muito afastadas.

“Uma quarta solução seria capacitar e empregar o Regimento T&T para combater o fogo na estação com maior incidência de incêndios”, acrescentou Kemba. Em Trinidad e Tobago é ilegal acender fogo ao ar livre durante a estação seca, entre novembro e maio.

Kemba Jaramogi disse que, apesar de sua riqueza petroleira, esse país não tem um plano de ação nacional para combater incêndios florestais, com pessoal capacitado, equipado e protegido, bem como um salário adequado e com seguro, por ser um trabalho de risco. Ela propõe que as autoridades explorem opções para adotar um plano de ação florestal e de incêndios florestais, pois “não podemos esperar até que os montes se degradem durante a estação seca e sofram erosão na chuvosa para nos darmos conta da importância de nossa floresta”.

O Projeto de Reflorestamento da Comunidade de Fondes Amandes conta com recursos do governo nacional por intermédio de seu Fundo Verde. Entre os sócios há várias agências estatais, como a Autoridade de Água e Saneamento, a Divisão Florestal do Ministério de Ambiente e Habitação e o Escritório para Gestão e Preparação de Desastres. Também tem apoio do Instituto de Recursos Naturais do Caribe (Canari) e da Global Water Partnership-Caribbean (GWP-C). “Desde que nos associamos, não só estamos ativos, mas pudemos colaborar com eles de diferentes formas”, disse à IPS a oficial de comunicações da GWP-C, Gabrielle Lee Look.

Lee Look citou, como exemplo, “um sistema para coletar água de chuva que está neste complexo que apoia o projeto. É um orgulho quando têm pouca água e continuaremos apoiando Fondes Amandes em termos de atividade”.

O Projeto de Reflorestamento obteve vários prêmios, entre eles a Medalha Colibri em 2007, em reconhecimento à sua contribuição para a conservação ambiental. Também recebeu o prêmio Hoja Verde, a mais alta honraria ambiental de Trinidad e Tobago, e foi designado pelo Canari como modelo para a comunidade florestal em todo o Caribe. Envolverde/IPS

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Cuba precisa atualizar a luta contra novas formas de racismo http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/cuba-precisa-atualizar-a-luta-contra-novas-formas-de-racismo/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/02/ultimas-noticias/cuba-precisa-atualizar-a-luta-contra-novas-formas-de-racismo/#comments Tue, 24 Feb 2015 12:45:48 +0000 IPS http://envolverde.com.br/?p=129715   Havana, Cuba, 24/2/2015 – O ativismo contra o racismo em Cuba se consolida e traça estratégias de trabalho diante do florescimento de desigualdades por gênero e cor da pele após as transformações sociais em razão da reforma econômica lançada em 2008 pelo presidente Raúl Castro. Segundo a acadêmica Daysi Rubiera, líder dessa luta no […]

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A escritora e ativista Daysi Rubiera, fundadora e líder do grupo Afrocubanas, durante a reunião literária Reyita, no dia 20 deste mês, que acontece trimestralmente em Havana e que nesta ocasião foi dedicada aos estereótipos racistas da família. Foto: Jorge Luis Baños/IPS

A escritora e ativista Daysi Rubiera, fundadora e líder do grupo Afrocubanas, durante a reunião literária Reyita, no dia 20 deste mês, que acontece trimestralmente em Havana e que nesta ocasião foi dedicada aos estereótipos racistas da família. Foto: Jorge Luis Baños/IPS

 

Havana, Cuba, 24/2/2015 – O ativismo contra o racismo em Cuba se consolida e traça estratégias de trabalho diante do florescimento de desigualdades por gênero e cor da pele após as transformações sociais em razão da reforma econômica lançada em 2008 pelo presidente Raúl Castro.

Segundo a acadêmica Daysi Rubiera, líder dessa luta no país, a mobilização comunitária e a obtenção de políticas públicas para reduzir desvantagens de populações negras e mestiças deveriam representar o foco dos grupos da sociedade civil que lutam contra o racismo, durante a Década Internacional dos Afrodescendentes, que começou este ano.

“As discriminações por gênero e raça estão se manifestando em todos os espaços da sociedade cubana, não apenas no acesso ao emprego e aos recursos ou no interior do lar, mas no comportamento social de homens e mulheres”, afirmou em entrevista à IPS a historiadora de 76 anos, fundadora do grupo feminista Afrocubanas.

Este é um dos assuntos não resolvidos pela Revolução de 1959, que, apesar de decretar constitucionalmente a não discriminação e oferecer oportunidades iguais de estudo e trabalho às pessoas negras e mestiças, não conseguiu frear o racismo histórico de um país onde a escravidão foi abolida em 1886.

Ocultado durante décadas, o problema racial foi sendo tratado pelo discurso estatal nos últimos anos, enquanto cresciam os grupos antirracistas não governamentais, que têm entre os mais ativos a Confraria da Negritude, a Comissão José Antonio Aponte, da União de Escritores e Artistas de Cuba, o capítulo cubano da Articulação Regional Afrodescendente (Arac) e a Rede Bairrista Afrodescendente (RBA).

Para Rubiera, a Década promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU) dá visibilidade a um conflito de séculos e fortalece a cooperação regional e internacional para garantir os direitos humanos das pessoas afrodescendentes. Ela acredita que em Cuba já se progrediu muito em matéria de reconhecimento cidadão e acesso igualitário a saúde, educação e emprego. “Sabemos quais são nossos problemas, o que precisamos é começar a resolvê-los”, ressaltou.

Três afrocubanas, avó, mãe e neta, na sacada de sua moradia em Havana. As mulheres negras sofrem dupla discriminação em Cuba. Foto: Jorge Luis Baños/IPS

Três afrocubanas, avó, mãe e neta, na sacada de sua moradia em Havana. As mulheres negras sofrem dupla discriminação em Cuba. Foto: Jorge Luis Baños/IPS

 

Neste país de 11,2 milhões de habitantes, 9,3% da população tem pele negra e 26,6% é mestiça, e os dois grupos concentram precariedades causadas pelas desigualdades históricas. Não são muitas as estatísticas para detalhar a situação de cada grupo racial, mas vários estudos sociológicos indicam que a população afrodescendente tem menor renda, vive em piores moradias e tem menor presença na educação superior, em cargos de direção e setores emergentes da economia, como turismo e empresas com capital estrangeiro.

O auge do trabalho por conta própria nesse país de governo socialista e economia centralizada, por meio da ampliação das atividades liberadas à lei da oferta e da procura, dentro das reformas econômicas, tornou mais visível a segregação trabalhista em razão da cor da pele, sem medidas específicas para controlar esse tendência, afirmou Rubiera.

Para enfrentar a prolongada crise econômica, iniciada nos anos 1990, e atualizar o modelo econômico, desde 2008 são implantadas medidas que flexibilizam a atividade independente, há abertura ao investimento estrangeiro e se reduziu as subvenções públicas, entre outros pontos.

A redução dos quadros do Estado levou o setor autônomo a ocupar 473 mil pessoas em 188 atividades ao final de 2014. “Por serem negócios privados, se reservam o direito de contratação e, quanto maior nível alcançam, mais seus empregados são pessoas brancas. As de pele escura ficam para aqueles espaços onde não se atende o público e nos quais se paga menos”, descreveu Rubiera.

Dados de uma recente pesquisa, conhecida nos encontros literários trimestrais da Afrocubanas, revelam que apenas 9% da população universitária em Havana é negra ou mestiça. Também preocupa o crescimento das famílias a cargo de mulheres afrodescendentes sozinhas, com menos recursos para a subsistência.

“Seus filhos devem buscar um ofício para ganhar dinheiro rápido e ajudar nos gastos familiares, o que as coloca em uma posição de desvantagem para estudar em nível superior”, explicou a ativista, autora do testemunho Reyita, Simplesmente, que narra a história de uma mulher escrava, contada por sua filha.

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O grupo Afrocubanas realiza trimestralmente o encontro literário Reyita. Na do dia 20 deste mês as integrantes da organização feminista debateram com representantes da Rede de Mulheres Cristãs sobre a reprodução dos estereótipos racistas na família. Foto: Jorge Luis Baños/IPS

 

Os meios audiovisuais cubanos contribuem para os estereótipos racistas ao apresentarem os afrodescendentes em condição subalterna e em papéis negativos, tendência que repetem a música popular e o humor cênico. Quanto às mulheres negras e mestiças, continuam menos presentes nos meios de comunicação e expostas ao modelo dominante de beleza ocidental entronizado pelas indústrias culturais.

“Existem apresentadoras negras apenas para programas de televisão. Se o padrão branco se converte em uma necessidade para a ascensão profissional e social, existe uma violência simbólica muito forte em relação a elas”, apontou a líder dos direitos das pessoas afrodescendentes.

Documentos programáticos do governo cubano começam a colocar o tema racial como um conflito social urgente, entre eles o informe da Conferência Nacional do Partido Comunista de Cuba, que em janeiro de 2012 propôs “enfrentar os preconceitos e as condutas administrativas pela cor da pele, pois são contrários à Constituição e às leis”.

O presidente Castro também o mencionou em seus discursos e se propôs a promover pessoas afrodescendentes nos cargos públicos, e em seguida a Assembleia Nacional eleita em 2013 passou a contar com 37% de integrantes não brancos, em equilíbrio com as porcentagens demográficas.

Na sociedade civil também se vê um movimento para levar o tema ao discurso público, como a realização em dezembro da Primeira Jornada Contra a Discriminação Racial, na qual a Arac organizou encontros, painéis e apresentações culturais sobre tema.

Mas, segundo Rubiera, é necessária uma atuação mais enérgica. “Independente das tentativas de erradicar o racismo na Revolução, a mentalidade da maior parte dos dirigentes não mudou”, destacou a ativista e feminista. Falar sem hipocrisia sobre as desigualdades seria, a seu ver, o ponto de partida para uma transformação real. “Enquanto não entrarmos nas escolas primárias e educarmos de outra maneira, não resolveremos o problema”, acrescentou.

Como outros ativistas, Rubiera propõe criar um corpo legal específico para sancionar as manifestações discriminatórias que sofrem pessoas não brancas, especialmente por parte de organizações institucionais como a polícia. Também pede maior unidade entre os que defendem a causa racial devido à fragmentação e às diferenças desses grupos. “Se não nos colocarmos em acordo e trabalharmos juntos para propor soluções, sem protagonismos, tampouco ajudaremos”, ressaltou a promotora da RBA.

As aspirações futuras da líder incluem uma associação de afrodescendentes que permita compartilhar as fortalezas de sua identidade racial e concretizar um programa de demandas comuns entre vários coletivos. “O país deve traçar suas políticas sociais incluindo essas problemáticas e socializar estatísticas pela cor da pele e por gênero, para visualizar avanços e desafios”, concluiu Rubiera. Envolverde/IPS

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