IPS em português http://www.ipsnoticias.net/portuguese Jornalismo e comunicação para transformar o mundo Fri, 20 Jan 2017 12:46:11 +0000 en-US hourly 1 http://wordpress.org/?v=4.2.11 Um ano de energia limpa na Costa Rica http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/um-ano-de-energia-limpa-na-costa-rica/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/um-ano-de-energia-limpa-na-costa-rica/#comments Fri, 20 Jan 2017 12:46:11 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=218140 Por Diego Arguedas Ortiz, da IPS –  São José, Costa Rica, 20/1/2017 – Na vertente caribenha da Costa Rica, 100 quilômetros a nordeste da capital do país, a cinza silhueta de uma grande barragem corta o rio Reventazón e forma a represa que alimenta a maior usina hidrelétrica da América Central. O Projeto Hidrelétrico Reventazón, que […]

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Por Diego Arguedas Ortiz, da IPS – 

São José, Costa Rica, 20/1/2017 – Na vertente caribenha da Costa Rica, 100 quilômetros a nordeste da capital do país, a cinza silhueta de uma grande barragem corta o rio Reventazón e forma a represa que alimenta a maior usina hidrelétrica da América Central. O Projeto Hidrelétrico Reventazón, que custou US$ 1,4 bilhão e entrou em operação em setembro de 2016, representa, com sua capacidade instalada de 305,5 megawatts, o novo padrão de uma meta da qual se orgulham as autoridades do setor e do país: eletricidade verde para todos.

A maior usina da América Central, o Projeto Hidrelétrico Reventazón, com capacidade de 305,5 megawatts, contribuiu, desde sua inauguração, em setembro, para que em 2016 a Costa Rica ficasse 250 dias sem queimar hidrocarbonos para gerar eletricidade. Foto: Diego Arguedas Ortiz/IPS

 

Embora tenha diminuído em 49 dias em relação ao ano anterior, em 2016 a Costa Rica registrou 250 dias sem queimar hidrocarbonos para gerar eletricidade, valendo-se para isso dessa grande central e de outras represas, usinas geotérmicas e uma crescente flotilha eólica. Porém, há setores não muito claros na meta para que esse país de 4,7 milhões de pessoas seja majoritariamente verde.

“Duzentos dias de eletricidade limpa nos mostram bem que temos muito a resolver a respeito”, afirmou à IPS o engenheiro costarriquenho, José Daniel Lara. O especialista dispara perguntas a título de reflexão, inclusive para si mesmo: quais serão as fontes de energia do futuro? O país empregará biomassa, sol, gás natural local ou petróleo importado? Como vamos consumir essa energia nos domicílios e para nos mover?

Graças precisamente ao transporte, três quartos do consumo de energia provêm de derivados de petróleo, que o país tem que importar em sua totalidade. Mas, pelas ruas e estradas do país, circulam quase 1,5 milhão de veículos. Tampouco é perfeita a matriz elétrica: a instalação solar chega a apenas 1% do total geral, e há uma dependência quase total do comportamento dos rios e das chuvas

Apesar disso, o marco costarriquenho não é pouca coisa, reconhece Lara. Menos de um quarto da eletricidade do planeta procede de fontes renováveis, mas, na Costa Rica, esse índice, há dois anos seguidos, está acima dos 98%. Entretanto, nem sempre o verde foi o argumento atraente que é agora nesse país de 51.100 quilômetros quadrados.

Participação mundial das fontes renováveis na geração de eletricidade no final de 2015. Foto: REN21 2015

 

Na segunda metade do século 20, a Costa Rica compreendeu que tinha um enorme recurso hídrico e apostou na geração hidrelétrica como um assunto de segurança energética, amparado na direção de uma grande empresa estatal, o Instituto Costarriquenho de Eletricidade (ICE). Assim, o sistema do país está dominado por meia centena de centrais hidrelétricas, entre públicas e privadas, que fornecem 70% da geração e têm por desvantagem exigir longas linhas de transmissão para levar a energia elétrica às cidades.

Em 2016, a Costa Rica gerou 10.778 gigawatts/hora (GWh), segundo dados preliminares do ICE. Cursando doutorado na Universidade da Califórnia-Berkeley, nos Estados Unidos, Lara estuda como podem ser integradas novas e melhores práticas de energia renovável em redes elétricas, e aponta que a Costa Rica mudou pouco o seu modelo nas últimas décadas. “O fizemos muito bem no passado, e ainda estamos obtendo vantagens nessa história, mas não sabemos o que acontecerá no futuro”, pontuou.

O desafio que a Costa Rica enfrenta é manter sua liderança em geração elétrica, buscar novas fontes e modelos de consumo, e estender o manto verde para o transporte, explicou o engenheiro. Embora a hídrica domine, não é a única fonte limpa presente. A primeira usina eólica da América Latina foi construída em solo costarriquenho e novas plantas, a maioria em mãos de operadores privados que vendem sua energia ao ICE, elevam a participação dessa fonte para 10% da geração interna total.

Por sua vez, a geotérmica há décadas fornece entre 10% e 15% da produção elétrica. Mas a falta de novos poços de vapor quente para instalar usinas geotérmicas e com represas na maioria dos rios “viáveis” para a geração, novas opções para gerar eletricidade são urgentes. O próprio presidente, Luis Guillermo Solís, destacou a necessidade de se diversificar a matriz elétrica do país durante sua visita aos Emirados Árabes Unidos, nos dias 16 e 17 deste mês, para participar como orador principal do Encontro Mundial de Energia do Futuro.

“Procuramos diversificar a matriz e incluir mais usinas geotérmicas, solares, eólicas e de biomassa, para, se perdermos água no futuro, ser possível manejar da melhor forma”, declarou ao jornal emiratense The National. Uma dependência maior de usinas de combustíveis fósseis parece fora da equação, já que a Costa Rica instaurou uma moratória para a exploração petroleira até 2021. Uma alternativa pode vir do setor agrícola, que historicamente teve papel dominante na economia local e agora poderia dar uma ajuda à matriz energética.

O engenheiro Esteban Bermúdez há anos estuda as opções para gerar eletricidade a partir de resíduos de propriedades produtoras de abacaxi. Ele disse à IPS estar convencido de que os resíduos dessa indústria podem seguir o caminho do bagaço da cana, que atualmente é o insumo para gerar eletricidade em duas usinas em engenhos de açúcar.

Entretanto, tanto como as fontes do futuro, os especialistas consultados se intrigam com o outro lado da moeda: as práticas dos consumidores de energia no futuro. “O problema é que só pensamos na oferta e deixamos a demanda de lado”, destacou Bermúdez, sócio da empresa Escoia, dedicada à assessoria na área da energia, e consultor no campo. Para ele, esse é um tema que exige espaços para novos atores que possam revitalizar o campo.

Bermúdez dá como exemplo o boom de empresas privadas dedicadas a instalar painéis solares, que se valeram de uma “regulamentação-piloto” que o ICE desenhou para estudar o impacto da geração distribuída no país. Esse modelo de geração distribuída tenta vencer as distâncias entre as usinas geradoras e os consumidores ao juntá-los: fábricas que coloquem pequenas turbinas eólicas ou residências que instalem painéis solares para aquecer água ou alimentar os eletrodomésticos.

Precisamente esses atores erguem agora a voz para exigir que o Estado abra espaço no modelo elétrico, onde o ICE ainda é o grande protagonista. “Não muitas vezes são os consumidores que causam alvoroço”, indicou Bermúdez. O engenheiro afirma que durante anos o ICE planejou seus investimentos futuros projetando aumento anual de 5% a 6% na demanda elétrica, e assim justificou o estabelecimento de centrais hidrelétricas, mas, nos últimos anos, o aumento da demanda foi de 3%.

Um elemento para a demanda de eletricidade será o futuro do transporte. Vários projetos de lei, para reduzir o consumo de hidrocarbonos por parte do parque automotivo, navegam as águas da Assembleia Legislativa costarriquenha, incluindo um que proibiria importar veículos que utilizem derivados de petróleo, a partir de 2030. Este tem apoio de 27 dos 57 deputados. Dados da Refinadora Costarriquenha de Petróleo indicam que o país importou 20,2 milhões de barris em 2016, dos quais cerca de 80% foram destinados ao transporte. Envolverde/IPS

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A islamofobia em tempos de Trump http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/a-islamofobia-em-tempos-de-trump/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/a-islamofobia-em-tempos-de-trump/#comments Fri, 20 Jan 2017 12:23:25 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=218137 Por Andy Hazel, da IPS –  Nações Unidas, 20/1/2017 – O aumento de ações contra a comunidade muçulmana motivou uma reunião urgente na Organização das Nações Unidas (ONU), poucos dias antes da posse do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cujas declarações políticas propiciaram sentimentos antimuçulmanos. Um exemplo é a iniciativa #No2Hatred, impulsionada nas redes […]

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Por Andy Hazel, da IPS – 

Nações Unidas, 20/1/2017 – O aumento de ações contra a comunidade muçulmana motivou uma reunião urgente na Organização das Nações Unidas (ONU), poucos dias antes da posse do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cujas declarações políticas propiciaram sentimentos antimuçulmanos. Um exemplo é a iniciativa #No2Hatred, impulsionada nas redes sociais, que foi mal-interpretada, cooptada e desviada por pessoas nefastas e que depois derivou em inflamados discursos políticos.

“O ódio contra os muçulmanos não surge do nada”, afirmou o embaixador extraordinário dos Estados Unidos para a Liberdade Religiosa Internacional, David Saperstein, no Fórum de Alto Nível para Combater o Ódio e a Discriminação contra os Muçulmanos, realizado no dia 17, na sede da ONU, em Nova York. “A crescente xenofobia que existe no mundo apresenta desafios que chamam nossa atenção e os dados não deixam dúvidas de que é assim”, acrescentou.

Saperstein citou estudos que mostram uma enorme violência e discursos antimuçulmanos. A França registrou 223% mais casos de ataques contra essa comunidade entre 2014 e 2015. A organização Tell Mama contou 326 casos de abuso e ataques públicos na Grã-Bretanha no mesmo período. Outra investigação mostra que, em 2016, 72% dos húngaros pesquisados para o estudo reconheceram ter opiniões negativas sobre os muçulmanos.

“A falta de registros é um problema estrutural muito grave, que deixa os dados obscuros. O efeito silenciador é enorme e devemos nos propor a enfrentá-lo”, destacou Saperstein. “Sinceramente, lamento a necessidade dessas deliberações”, declarou Richard Arbeiter, diretor-geral do Escritório de Direitos Humanos, Liberdades e Inclusão, de Assuntos Globais do Canadá. “A maioria dos crimes de ódio contra os muçulmanos se dirige contra as mulheres. Gostaria de convidar todos a pensarem na dimensão de gênero que essa violência tem”, ressaltou.

O debate no Fórum se concentrou na melhor forma de os governos combaterem a discriminação contra os muçulmanos e em como promover narrativas positivas para propiciar a inclusão. Vários temas foram recorrentes no encontro, como qual a melhor forma de envolver atores políticos e organizações de diferentes âmbitos, bem como a melhor maneira de combater a informação falsa que circula na internet e nas redes sociais.

A islamofobia se concentra especialmente nas mulheres. Foto: Tobin Jones/ONU

 

O diretor de relações muçulmanas-judias do Comitê Judeu Norte-Americano, Robert Silverman, destacou a ideia de enviar mensagens positivas mediante a criação de alianças e compartilhando prioridades com organizações pouco habituais. Ele argumentou que “é muito comum as pessoas acabarem falando entre si, dentro de bolhas. Em um país como os Estados Unidos, ou em um lugar como a Europa, precisamos sair da bolha e nos aproximarmos de sócios pouco prováveis e pouco ortodoxos”. E acrescentou que “é preciso se concentrar nos pontos em comum. Não se trata de apresentar um tema como a mudança climática. Apenas de se concentrar nos pontos comuns”.

Por sua vez, o coordenador da Comissão Europa para combater o ódio contra os muçulmanos, David Friggieri, se referiu à reunião que teve com diretores do Facebook, Twitter, Microsoft e Google, como “conversações abertas e francas”, que levaram ao fortalecimento da liberdade de expressão na União Europeia (UE), em um esforço para combater a islamofobia. A “linha vermelha” acordada entre as companhias e a legislação europeia foi uma incitação, ressaltou.

Segundo Friggieri, “temos uma lei que proíbe a incitação à violência e ao ódio por questão de raça, religião, origem étnica ou nacionalidade. Estamos monitorando a situação com eles a cada poucos meses. Tivemos nossos primeiros resultados e houve melhoras, mas esperamos que se registrem mais”.

“Quanto aos discursos de ódio realmente negativos como a incitação à violência, observamos como os retiram, quanto tempo passa até conseguirem, quais respostas foram oferecidas pelas companhias às empresas que notificam e aos sinalizadores confiáveis. Definitivamente, o objetivo é eliminar o pior tipo de incitação à violência”, explicou Friggieri.

Por sua vez, o secretário-geral da Organização para a Cooperação Islâmica (OCI), Moiz Bokhari, se referiu ao Centro para o Diálogo, a Paz e o Entendimento, um novo site que oferece argumentos para desconstruir narrativas perigosas. O site aponta contra os crimes e a radicalização, bem como contra “todo tipo de discurso radical extremista, a fim de deslegitimar atos violentos e manipuladores cometidos em nome da religião, da ideologia ou com argumentos de superioridade cultural”, detalhou.

O Fórum de Alto Nível se concentrou em como mudar os sentimentos negativos e divulgar uma mensagem de tolerância e inclusão. O secretário-geral da ONU, António Guterres, reafirmou o valor da iniciativa Juntos: Respeito, Segurança e Dignidade para Todos, surgida da Reunião de Alto Nível sobre Refugiados e Migrantes, realizada em setembro em Nova York, pensada para fortalecer os vínculos entre migrantes, comunidades e países anfitriões.

Os oradores relataram histórias de êxitos interconfessionais, como o povoado canadense que juntou dinheiro para reconstruir uma mesquita, incendiada após os atentados terroristas de Paris, em novembro de 2015, ou uma mesquita norueguesa protegida de ataques pela comunidade judia de Oslo. Também mencionou o poder de histórias positivas protagonizadas por muçulmanos no noticiário e na cultura popular, como o êxito de Sadiq Jan, que superou uma campanha de ódio e se converteu no primeiro prefeito muçulmano de Londres.

“A política está contra nós, mas não tanto a política local”, apontou Catherine Orsborn, diretora da campanha interconfessional contra a islamofobia da organização Shoulder to Shoulder. Muitos oradores também mencionaram a importância de ter relações com as forças de segurança, bem como com as autoridades políticas locais, para poder combater efetivamente todo futuro ato de islamofobia.

“O ambiente político está muito viciado, mas cabe aos dirigentes vender e ter confiança de que vendem uma sólida narrativa sobre inclusão e diversidade”, enfatizou o diretor de Europa e Geopolítica da organização Amigos da Europa, Alfiaz Vaiya. “Creio que os jovens são a chave para continuar avançando: vemos como votam, vemos como seguem tendências progressistas e devemos incentivar mais os jovens a participar desse tipo de debate”, ressaltou. Envolverde/IPS

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Hidrelétricas desterram ribeirinhos http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/hidreletricas-desterram-ribeirinhos/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/hidreletricas-desterram-ribeirinhos/#comments Thu, 19 Jan 2017 13:30:20 +0000 Mario Osava http://www.envolverde.com.br/?p=218112 Por Mario Osava, da IPS –    Sento Sé, Brasil, 19/1/2017 – “Hoje temos internet, televisão. Antes não tínhamos eletricidade, mas era melhor”, afirmou Lourival de Barros, um desterrado das centrais hidrelétricas que se multiplicaram pela geografia do Brasil, principalmente a partir dos anos 1970. Ele foi expulso de sua casa em Sento Sé no final […]

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Por Mario Osava, da IPS – 

 

Sento Sé, Brasil, 19/1/2017 – “Hoje temos internet, televisão. Antes não tínhamos eletricidade, mas era melhor”, afirmou Lourival de Barros, um desterrado das centrais hidrelétricas que se multiplicaram pela geografia do Brasil, principalmente a partir dos anos 1970. Ele foi expulso de sua casa em Sento Sé no final de 1976. A cidade, de aproximadamente sete mil habitantes, ficou submersa pela represa de Sobradinho, pouco mais de um ano depois.

Um barco sendo reparado nas margem da represa de Sobradinho, com baixo nível de água devido aos cinco anos da seca que atormenta o interior semiárido do Nordeste brasileiro. Pode-se ver arbustos submersos pelas águas represadas do rio São Francisco desde a década de 1970. Foto: Mario Osava/IPS

 

Outras três cidades, Casa Nova, Pilão Arcado e Remanso, também desapareceram sob as águas, junto com dezenas de povoados ribeirinhos, no norte do Estado da Bahia. No total foram deslocadas 72 mil pessoas, segundo organizações sociais, ou 59.265, de acordo com a empresa responsável pelo projeto, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf).

O sacrifício se fez em nome das necessidades energéticas do país e do desenvolvimento de uma região “irrelevante”, parada no analfabetismo e com uma economia “de subsistência”, com gente “primitiva” em isolamento, que teme a mudança, segundo afirmavam os governantes da época, em plena ditadura militar (1964-1985).

Para reassentar a população de Sento Sé, foi construída uma nova cidade com o mesmo nome, melhores moradias, incluindo banheiros internos e serviços como eletricidade e esgoto público, mas “perdemos muito mais”, contou Barros, pescador de 70 anos, aposentado como trabalhador rural, com oito filhos, nove netos e três bisnetos. “Tínhamos muito pescado no rio. Na represa, inicialmente se podia pescar cem quilos por dia, mas os peixes diminuíram nos últimos 10 a 15 anos, e agora é difícil conseguir dez quilos, o que só dá para alimentar a família”, acrescentou à IPS.

“Éramos dois mil pescadores e todos viviam da pesca. Hoje, se há 50 que conseguem isso, é muito”, embora no sindicato estejam inscritos quase nove mil, muitos para receber o seguro do período de proibição de pesca para proteger a reprodução dos peixes, afirmou Barros, acrescentando que “precisam disso”.

O pescador lamenta que os peixes próprios da área tenham desaparecido e se tenha introduzido no lago artificial outras espécies amazônicas, inclusive o tucunaré (Cichla ocellaris), que come os demais. Barros também se queixa de que sua família dispunha de cinco terrenos para plantar e ele mesmo tinha uma moenda para fazer farinha de mandioca, pelos quais não receberam nenhuma indenização. “Perdemos tudo”, enfatizou.

O pescador e agricultor aposentado Lourival de Barros, em sua casa na cidade de Sento Sé, que recebeu como compensação pela perda de sua boa casa e outros bens na antiga cidade, submersa pela represa de Sobradinho, há quatro décadas, que tem sepultada sob águas uma saudosa forma de vida. Foto: Mario Osava/IPS

 

Até agora, não foram compensados muitos bens e propriedades inundados, afirmou Adzamara Amaral, autora do livro-reportagem Memórias de Uma Cidade Submersa, elaborado em 2012 como trabalho final de seu curso de jornalismo na Universidade do Estado da Bahia. Sua própria família ainda reclama na justiça indenização por 15 mil hectares registrados como propriedade de seu avô, uma herança familiar de três séculos, com três casas e áreas de pomar.

A nova cidade construída para acolher os deslocados foi privada da alma fluvial, como ocorreu com outras cidades “reconstruídas”. Além dos peixes, perdeu-se a agricultura típica do lamaçal, que aproveitava as terras ribeirinhas alargadas na época de estiagem e fertilizadas pelos sedimentos trazidos pelo rio nas cheias. Ali se plantava muito milho e feijão entre abril e outubro. Por isso, o rio São Francisco é chamado de “Nilo brasileiro”, explicou Amaral.

Com a represa, a água avançou para áreas rochosas ou da Caatinga (bioma exclusivo do Nordeste brasileiro), e o ciclo de baixas e cheias do rio foi alterado, extinguindo a agricultura típica do período decrescente das águas. O traslado para a nova Sento Sé, com população atual de 41 mil pessoas, acentuou o isolamento de sua população, porque, entre outras razões, duplicou a distância em relação a Juazeiro, município de 220 mil habitantes que é o polo econômico e educativo do norte baiano.

Gildalio da Gama (esquerda), até dezembro secretário de Ambiente do município, e o reparador de embarcações João Reis, em Sento Sé, cidade onde foram assentados, quase sem compensação, os moradores da antiga cidade, deslocados pela hidrelétrica de Sobradinho, no rio São Francisco, no Nordeste do país. Foto: Mario Osava/IPS

 

Agora são 196 quilômetros, 50 deles por uma estrada de terra cheia de buracos, o que dificulta o transporte. Por isso, a empresa Frutimag, de agricultura irrigada, que empregava 1.800 trabalhadores, interrompeu suas atividades em Sento Sé. O sacolejar dos caminhões estragava as uvas, justificou a companhia. “Pavimentar a estrada é fundamental para o desenvolvimento do município, bem como oferecer ensino técnico e cursos universitários, o que evitaria o êxodo de jovens que vem reduzindo a população local nos últimos anos”, pontuou Amaral.

A nova localização da cidade buscou mantê-la perto da margem do lago mesmo durante as secas, segundo a explicação dada na ocasião. Mas muitos acreditam que o então prefeito tomou essa decisão para que ficasse perto de sua fazenda. Agora, a margem da represa de Sobradinho se afastou cerca de 600 metros de Sento Sé, após cinco anos de seca na bacia.

“Há lugares em que o refluxo chega a dez quilômetros, como Quixaba, um povoado próximo”, disse João Reis, ex-metalúrgico de São Paulo de 65 anos, que trabalhou muito tempo na Chesf. Ele vive há 33 anos em Sento Sé, terra de seus pais, e atualmente conserta embarcações no rio São Francisco e diz que, com sua terra fértil e as jazidas de mármore e pedras preciosas, o município tem “grande potencial para prosperar”.

Um parque eólico ao lado de Sento Sé, onde há no total oito deles, devido aos bons ventos das mesetas do entorno dessa cidade do Nordeste do Brasil, que, paradoxalmente, foi deslocada, nos anos 1970, para a construção em sua antiga localização da maior central hidrelétrica da região. Foto: Mario Osava/IPS

 

Para superar o isolamento, seu colega Djalma Vitorino, especialista em barcos, propõe implantar uma linha de balsas entre Sento Sé e Remanso, outra cidade reassentada do lado oposto da represa. Cerca de 25 quilômetros, “ou hora e meia de navegação”, separam as duas cidades. “Ali há um bom hospital para onde levar nossos doentes”, como alternativa a Juazeiro, que exige mais de três horas de carro, argumentou à IPS.

Construída entre 1973 e 1979, no meio do rio São Francisco, a hidrelétrica de Sobradinho tem capacidade para gerar 1.050 megawatts, graças à represa de 34 bilhões de metros cúbicos em uma área de 4.214 quilômetros quadrados, a maior em superfície e a terceira em volume de água no Brasil.

Além da geração elétrica, acumular tanta água lhe agrega as funções de regular o caudal, otimizando a operação de outras sete hidrelétricas construídas rio abaixo, e abastecer a agricultura irrigada em seus arredores. Seus impactos sociais se destacaram por inundar uma área muito povoada na década de 1970, quando reinava a ditatura militar e a legislação ambiental começava a se desenvolver. Além disso, os movimentos sociais eram fracos ou estavam ausentes.

Para inundar tanta terra, Sobradinho exigiu a expropriação de 26 mil propriedades. A Chesf pagou poucas indenizações e de valores muito baixos, em boa parte porque os “ribeirinhos não tinham títulos de propriedade ou ignoravam o valor de suas propriedades”, segundo Gildalio da Gama, de 47 anos, que até dezembro foi secretário do Ambiente de Sento Sé.

“Qualquer dinheiro era muito para os que sempre tiveram pouco”, ressaltou Gama, agora professor primário em uma ilha onde vivem seus pais, a 150 quilômetros da cidade. Seu avô não foi indenizado por suas terras porque a Chesf não reconheceu a documentação apresentada, acrescentou à IPS.

Novas hidrelétricas, como Itaparica, inaugurada em 1988 águas abaixo do São Francisco, cumprem melhor as regras, também pela pressão de ambientalistas e organizações sociais. Mas os deslocamentos forçados continuam, gerando conflitos mais ruidosos do que no passado. As mobilizações cresceram ainda mais contra as hidrelétricas amazônicas, especialmente a de Belo Monte, gigantesca central com potência de 11.233 megawatts inaugurada em maio de 2016. Envolverde/IPS

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Trump, os bancos e as bombas http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/trump-os-bancos-e-as-bombas/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/trump-os-bancos-e-as-bombas/#comments Thu, 19 Jan 2017 13:08:03 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=218108 Por Baher Kamal, da IPS –  Roma, Itália, 19/1/2017 – Os Estados membros da Organização das Nações Unidas (ONU) se reunirão em março para reiniciar as negociações sobre “um instrumento legalmente vinculante que proíba as armas nucleares a fim de avançar para sua total eliminação”. As conversações prosseguirão em junho e julho. A ONU adotou, no […]

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Por Baher Kamal, da IPS – 

Roma, Itália, 19/1/2017 – Os Estados membros da Organização das Nações Unidas (ONU) se reunirão em março para reiniciar as negociações sobre “um instrumento legalmente vinculante que proíba as armas nucleares a fim de avançar para sua total eliminação”. As conversações prosseguirão em junho e julho. A ONU adotou, no dia 27 de outubro de 2016, uma resolução que relança as negociações para um tratado que ponha fim a duas décadas de paralisação dos esforços de desarmamento.

Em uma reunião do Primeiro Comitê da Assembleia Geral da ONU, dedicado ao desarmamento e à segurança internacional, 123 nações votaram a favor da resolução, 38 contra e 16 se abstiveram. A Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares (Ican), com sede em Genebra e presente em 80 países, aplaudiu a iniciativa porque é um grande avanço para “uma mudança fundamental na forma como o mundo enfrenta essa ameaça gigante”.

“Há sede décadas a ONU alerta para os perigos das armas nucleares, e em todo o mundo as pessoas defendem sua abolição”, disse a diretora executiva da Ican, Beatrice Fihn. “Atualmente, a maioria dos Estados decidiu proibi-las”, destacou. A resolução da ONU foi adotada, apesar da pressão dos Estados nucleares. Cerca de 57 países, encabeçados por África do Sul, Áustria, Brasil, Irlanda, México e Nigéria, apoiaram o documento.

A resolução foi aprovada horas depois de o Parlamento Europeu adotar um documento sobre o mesmo assunto, com 415 votos a favor, 124 contra e 74 abstenções, que convida os integrantes da União Europeia a “participarem de forma construtiva” das negociações deste ano, recordou a Ican. As armas nucleares são as únicas de destruição em massa que ainda não estão proibidas de forma universal, apesar das consequências humanitárias e ambientais estarem bem documentadas, segundo a organização.

“Um tratado contra as armas nucleares fortaleceria a norma global contra seu uso e sua posse, preenchendo um dos maiores vazios do direito internacional e exortando a adotar as demoradas medidas em matéria de desarmamento”, destacou Fihn. As armas biológicas e químicas, as minas antipessoais e as bombas de fragmentação estão explicitamente proibidas pelo direito internacional, mas no tocante às armas atômicas só existem proibições parciais.

Teste com bomba atômica no atol de Bikini em 1946. Foto: Departamento de Defesa dos Estados Unidos via Wikimedia Commons

 

A Ican também recordou que o desarmamento nuclear é um tema prioritário para a ONU desde sua criação, em 1945. “Os esforços para concretizar esse objetivo estão parados nos últimos anos, quando as nações nucleares realizaram grandes investimentos na modernização de seus arsenais”, destacou a organização.

Outras entidades que defendem o desarmamento nuclear também aplaudiram a resolução da ONU. Entre elas se destacam a PAX, uma associação entre o IKV (Conselho Intereclesiástico para a Paz) e a Pax Christi, a Soda Gakai International (SGI), organização budista em favor da paz, da cultura e da educação em torno do respeito à dignidade da vida, e a Associação Internacional de Médicos para a Prevenção de uma Guerra Nuclear (AIMPGN).

Quando, em outubro, as organizações da sociedade civil aplaudiram a nova resolução da ONU, que fixa para este ano o início das negociações nucleares, não esperavam que pouco depois seria eleito nos Estados Unidos o empresário Donald Trump, que no dia 20 assumirá como 45º presidente desse país. E muito menos imaginaram que anunciaria seu interesse em aumentar o poder nuclear de seu país.

“Os Estados Unidos devem fortalecer muito e ampliar suas capacidades nucleares até que o mundo recupere a cordura em matéria de armas nucleares”, escreveu Trump no Twitter @realDonaldTrump, no dia 22 de dezembro de 2016. Se isso se concretizar, será um dos grandes desafios para o movimento a favor da abolição.

A campanha internacional para impedir que bancos e instituições financeiras destinem fundos à produção e modernização de armas nucleares conseguiu alguns avanços. “Os governos decidiram negociar um tratado de proibição de armas nucleares em 2017, e é hora de as seguradoras e os fundos de pensão se disporem a acabar com sua relação com empresas envolvidas na fabricação de armas atômicas”, ressaltou Susi Snyder, da PAX e autora do informe Hall of Fame.

“Cerca de 400 bancos privados, fundos de pensão e seguradoras continuam financiando, com dinheiro de seus clientes, a produção de armas nucleares”, detalhou Snyder. Segundo o estudo, 18 bancos, que controlam mais de US$ 1,82 trilhão, estão prontos para cortar os fundos para as bombas atômicas, com políticas que proíbem de forma rígida todo investimento, de qualquer tipo e em qualquer forma, em companhias que fabriquem armas nucleares.

As 18 instituições, descritas o Hall of Fame da edição 2016 do informe Don’t Bank on The Bomb (Não Invista em Armas Nucleares), publicado pela Ican no dia 7 de dezembro, têm sede na Austrália, Dinamarca, Grã-Bretanha, Holanda, Itália, Noruega e Suécia. O relatório também menciona outras 36 instituições financeiras que expressam especificamente sua preocupação pelas armas nucleares e que, de alguma forma, restringem seus investimentos.

“Mesmo que essas políticas tenham vazios legais, ainda demonstram que há um estigma associado aos investimentos em armas nucleares. A PAX exorta essas instituições a fortalecerem suas políticas e o informe Don’t Bank on the Bomb oferece recomendações personalizadas para cada instituição financeira”, diz o documento. “Financiar e investir são decisões ativas, baseadas em avaliações da companhia e seus planos. As instituições que impõem limites aos investimentos em armas nucleares respondem ao crescente estigma em torno desse armamento, desenhado para matar de forma indiscriminada”, diz o documento.

Todos os países nucleares modernizam seus arsenais e o Don’t Bank on the Bomb oferece detalhes das 27 empresas privadas que fabricam componentes essenciais para a produção de armas, bem como dos 390 bancos, companhias de seguros e fundos de pensão que ainda investem nelas, pontua o informe.

“Na medida em que se aproximam as negociações para proibir as armas nucleares este ano, os países devem proibir o financiamento como incentivo para que o setor financeiro exclua de seu universo de investimento as empresas associadas às armas nucleares e exponha o custo econômico de sua instalação, modernização e seu armazenamento”, destaca o documento. Envolverde/IPS

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Oito homens concentram riqueza do mundo http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/oito-homens-concentram-riqueza-do-mundo/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/oito-homens-concentram-riqueza-do-mundo/#comments Wed, 18 Jan 2017 12:16:16 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=218032 Por Baher Kamal, da IPS –  Roma, Itália, 18/1/2017 – Oito homens concentram a mesma riqueza que os 3,6 bilhões de pessoas que fazem parte da metade mais pobre da humanidade, segundo estudo elaborado pela Oxfam, organização que reúne 19 entidades que trabalham em mais de 90 países. O informe Uma Economia Para os 99%, apresentado […]

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Por Baher Kamal, da IPS – 

Roma, Itália, 18/1/2017 – Oito homens concentram a mesma riqueza que os 3,6 bilhões de pessoas que fazem parte da metade mais pobre da humanidade, segundo estudo elaborado pela Oxfam, organização que reúne 19 entidades que trabalham em mais de 90 países. O informe Uma Economia Para os 99%, apresentado no dia 16 pela Oxfam Internacional, conclui que a brecha entre ricos e pobres é “muito maior do que nunca”.

Segundo o estudo, “os ricos acumulam riqueza a um ritmo tão surpreendente que em 25 anos poderão aparecer os primeiros trilionários. Para se ter uma perspectiva dessa quantia, seria preciso usar um milhão de dólares por dia nos próximos 2.738 anos para gastar um trilhão de dólares”.

O documento também detalha a forma como as grandes companhias e os super-ricos avivam a crise de desigualdade ao fugirem do pagamento de impostos, o que faz baixar os salários, e ao utilizarem seu poder econômico para incidir em assuntos políticos. “Novos e melhores dados sobre a distribuição da riqueza global, em particular na Índia e na China, indicam que os mais pobres do mundo têm menos riqueza do que se pensava”, destaca a Oxfam.

Os novos dados retificam a estimativa feita pela organização sobre a relação entre ricos e pobres, pois seriam nove os bilionários que concentram a mesma riqueza que os 50% mais pobres da humanidade, e não 62%, com havia calculado no ano passado.

“É obsceno que haja tanta riqueza concentrada em mãos de uns poucos, quando uma em cada dez pessoas sobrevive com menos de US$ 2 por dia”, opinou Winnie Byanyima, diretora executiva da Oxfam Internacional. “A desigualdade deixa centenas de milhões de pessoas presas na pobreza, racha nossas sociedades e socava a democracia. No mundo há mais gente que fica para trás”, acrescentou.

A evasão fiscal das empresas transnacionais custaria à África milhares de milhões de dólares ao ano, denunciou a Oxfam. Foto: Marianela Jarroud/IPS

 

Segundo Byanyima, “enquanto seus salários ficam estagnados, seus chefes levam os bônus de milhões de dólares para casa, os serviços de educação e saúde sofrem cortes, enquanto as corporações e os super-ricos evadem o pagamento de impostos, e seus governos dançam no ritmo das grandes corporações e da elite rica”.

O informe mostra “como nossa economia quebrada volta a riqueza para a elite rica às custas dos mais pobres da sociedade, a maioria deles mulheres”. A evasão fiscal custa aos países pobres pelo menos US$ 100 bilhões ao ano. Com esse dinheiro seria possível oferecer “educação aos 124 milhões de crianças que não têm escolaridade e financiar intervenções sanitárias que poderiam evitar a morte de pelo menos seis milhões de meninos e meninas ao ano”, pontua o estudo.

O documento detalha como os super-ricos utilizam uma rede de paraísos fiscais para não pagar os impostos correspondentes, bem como um exército de ricos gerentes que garantem a rentabilidade de seus investimentos, o que não está disponível para os simples mortais poupadores.

Ao contrário da crença popular, muitas das pessoas ricas não se fizeram de baixo para cima. A Oxfam revela que mais da metade dos bilionários herdou a riqueza ou a acumulou por intermédio de indústrias propensas à corrupção e ao nepotismo. Também indica como as grandes corporações e as pessoas super-ricas utilizam seu dinheiro e seus vínculos sociais para garantir que as políticas governamentais sirvam aos seus interesses.

“Os governos não estão indefesos diante do avanço tecnológico e das forças o mercado. Se os dirigentes políticos deixarem de se obcecarem com o PIB (produto interno bruto) e se concentrarem em prover a toda a cidadania, e não apenas a uns poucos ricos, é possível conseguir um futuro melhor para todos”, afirma a Oxfam. A proposta da coalizão para conseguir uma economia mais humana se concentra em uma série de medidas que deveriam ser adotadas pelos governos para acabar com a extrema concentração da riqueza e acabar com a pobreza.

Algumas das sugestões incluem o aumento de impostos para os mais ricos e as pessoas de maiores rendas, para garantir um campo de jogo mais parelho e gerar os fundos necessários para investir em saúde, educação e emprego, bem como colaborar para que os trabalhadores recebam um salário decente, frear a evasão fiscal e a espiral descendente dos tributos corporativos.

As medidas propostas pela Oxfam também preveem o apoio às empresas que oferecem benefícios aos seus trabalhadores, e não somente aos seus acionistas. Além disso, os governos deveriam garantir que a economia funcione para as mulheres, e contribuir param eliminar as barreiras para o progresso econômico da população feminina, como melhorando o acesso a educação e a injusta carga de trabalho de cuidados não remunerado.

Tanto os governos nacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU), a União Europeia e as grandes organizações da sociedade civil estão conscientes da obscena desigualdade atual. Como pode ser que não se faça nada de efetivo para evitá-la ou pelo menos reduzi-la?”, questiona a Oxfam. A esse respeito, Anna Ratcliff, responsável por mídia, desigualdade e pela campanha Even it Up (Acabemos com a Desigualdade Extrema) da Oxfam, ressaltou à IPS que “enfrentar a desigualdade como se deve significaria romper com o modelo econômico que temos há 30 anos”.

“Também significaria fazer frente e superar os poderosos interesses dos super-ricos e das corporações que se beneficiam do status quo. Portanto, não surpreende que, apesar da indignação global pela crise de desigualdade, nada tenha mudado”, acrescentou Ratcliff.

Porém, alguns governos se movimentam para reduzir a desigualdade, para ouvir as reclamações da maioria, e não da minoria, observou Ratcliff, que citou a Namíbia, onde foram aumentados os impostos para as pessoas mais ricas e esta arrecadação foi destinada à consolidação de uma educação secundária gratuita e para ajudar a reduzir a brecha entre ricos e pobres.

Países como esse “mostram que outro mundo é possível se pudermos rejeitar este modelo econômico roto e frear a indevida influência dos ricos”, enfatizou Ratcliff.

Os oito homens mais ricos do mundo

  1. Bill Gates, dos Estados Unidos, fundador da Microsoft, tem patrimônio líquido de US$ 75 bilhões.
  2. Amancio Ortega, da Espanha, fundador da Inditex, dono da cadeia de vestuário Zara, tem patrimônio líquido de US$ 67 bilhões.
  3. Warren Buffett, dos Estados Unidos, diretor executivo e maior acionista da Berkshire Hathaway, tem patrimônio líquido de US$ 60,8 bilhões.
  4. Carlos Slim Helu, do México, dono do Grupo Carso, tem patrimônio líquido de US$ 50 bilhões.
  5. Jeff Bezos, dos Estados Unidos, fundador, presidente e diretor executivo da Amazon, tem patrimônio líquido de US$ 45,2 bilhões.
  6. Mark Zuckerberg, dos Estados Unidos, presidente, diretor executivo e um dos fundadores do Facebook, tem patrimônio líquido de US$ 44,6 bilhões.
  7. Larry Ellison, dos Estados Unidos, um dos fundadores e diretor executivo da Oracle, tem patrimônio líquido de US$ 43,6 bilhões.
  8. Michael Bloomberg, dos Estados Unidos, proprietário e diretor executivo da Bloomberg LP, tem patrimônio líquido de US$ 40 bilhões.

O cálculo da Oxfam se baseia nos dados sobre a distribuição da riqueza global, de 2016, fornecidos pelo Crédit Suisse. Envolverde/IPS

* Este é o primeiro de três artigos sobre o alarmante aprofundamento da desigualdade no mundo.

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Fábricas de cigarro enganam países pobres http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/fabricas-de-cigarro-enganam-paises-pobres/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/fabricas-de-cigarro-enganam-paises-pobres/#comments Wed, 18 Jan 2017 12:10:44 +0000 Lyndal Rowlands http://www.envolverde.com.br/?p=218028 Por Lyndal Rowlands, da IPS –  Nações Unidas, 18/1/2017 – O mercado do tabaco é menos regulado nos países de baixa e média rendas do que nas nações ricas, o que faz o Sul em desenvolvimento pagar o preço com maiores consequências para a economia e a saúde da população. Mas, segundo uma nova pesquisa de […]

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Por Lyndal Rowlands, da IPS – 

Nações Unidas, 18/1/2017 – O mercado do tabaco é menos regulado nos países de baixa e média rendas do que nas nações ricas, o que faz o Sul em desenvolvimento pagar o preço com maiores consequências para a economia e a saúde da população. Mas, segundo uma nova pesquisa de amplo alcance publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), os fabricantes de cigarros enganam os governos ao dizerem que a regulamentação do setor prejudicará suas economias.

Vendedora em Manila oferece maços com 20 cigarros por menos de um dólar. Foto: Kara Santos/IPS

 

A investigação foi compilada em uma nova monografia intitulada A Economia do Tabaco e do Controle do Tabaco, publicada conjuntamente pela OMS e pelo Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos. O editor da monografia, Frank Chaloupka, afirmou à IPS que, quando os países de baixa e média rendas regulam o mercado do tabaco, geralmente obtêm uma recompensa maior.

“Apresentamos, na monografia, novas provas sobre as proibições da publicidade do tabaco, que mostram que têm um efeito maior nos países de rendas baixa e média do que nos de alta renda”, apontou Chaloupka, que também é professor de Economia e Saúde Pública na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos.

“Em parte, creio que se deve ao fato de que, em muitos países de rendas média e baixa, as pessoas não recebem a mesma informação sobre as consequências para a saúde do consumo de tabaco, sendo mais suscetíveis à imagem positiva que a indústria do setor passa”, pontuou. Como exemplo, disse que as imagens de advertência foram mais eficazes nos países de rendas média e baixa.

“As pessoas podem ver realmente o dano causado pelo cigarro por meio das advertências gráficas”, destacou Chaloupka, acrescentando que, para os que têm menos exposição a essa informação por outras fontes, as advertências têm um impacto ainda maior. Os impostos sobre tabaco nos países do Sul em desenvolvimento também têm impacto maior do que nos países de alta renda. “Como a renda das pessoas é menor, elas são mais receptivas às variações no preço”, afirmou.

Há várias razões para os países de média e baixa rendas regularem menos o mercado de tabaco do que os de alta renda, afirmou Chaloupka, mas uma causa problemática são os argumentos enganosos da indústria do setor. “Os argumentos das empresas sobre comércio ilegal, impacto no emprego e efeito econômico mais amplo sobre os pobres, sobre sua renda fiscal, contra o controle do tabaco, são enganosos. Falsos, em sua maior parte”, ressaltou.

Isso contribui para uma brecha maior entre as normas dos países de rendas baixa e média e as dos que têm renda alta. “Vemos que os governos se põem sérios e adotam fortes medidas de controle do tabaco, elevando os impostos, proibindo a publicidade de cigarro e que se fume em lugares públicos. Como resultado, o consumo de tabaco caiu, pelo menos durante algumas décadas, na maioria dos países de renda alta”, explicou o especialista.

Embora alguns países de rendas baixa e média não tenham capacidade para aplicar regulações complexas, Chaloupka observou que frequentemente medidas mais simples podem ser mais eficazes. “As Filipinas tinham um complicado sistema tributário, em que havia tarifas diferentes para diversas marcas. Com o tempo, avançaram para uma reforma mais significativa de seu sistema e estão no processo de passar a um único imposto uniforme, que é muito mais fácil de administrar e muito melhor para combater a evasão fiscal”, pontuou.

Entretanto, embora os chamados impostos especiais sobre os produtos derivados do tabaco possam atuar como um elemento de dissuasão em todo o mundo, ainda não ajudam os governos a recuperar os custos gerados pelo tabagismo às economias e à sociedade.

“O cálculo que temos do custo global é de aproximadamente US$ 1,4 trilhão, e menos de US$ 300 milhões são gerados com tributos”, ressaltou Chaloupka. Menos de US$ 1 milhão obtidos com arrecadação fiscal relacionada com o tabaco é utilizado para controlar o flagelo, acrescentou.

Chaloupka também citou a Turquia como exemplo de um país de renda média que conseguiu regular com êxito o consumo de tabaco. “Há poucas décadas, o governo turco costumava ser a indústria do tabaco na Turquia. Era um dos maiores produtores de folhas de tabaco do mundo e, com o tempo, tomou um rumo completamente contrário. Sua indústria do tabaco foi privatizada, sem nenhuma promessa às indústrias do setor que passaram para seus mercados. E então avançou com fortes políticas de controle do tabaco”. Envolverde/IPS

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Impacto positivo da transferência de dinheiro http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/impacto-positivo-da-transferencia-de-dinheiro/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/impacto-positivo-da-transferencia-de-dinheiro/#comments Tue, 17 Jan 2017 12:41:00 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=217973 Por Baher Kamal, da IPS –  Roma, Itália, 17/1/2017 – Os programas de transferência de dinheiro procuram reduzir a pobreza, promover estilos de vida sustentáveis e aumentar a produção nos países em desenvolvimento. Um em cada quatro países possui esse tipo de iniciativa. Porém, há dúvidas sobre sua efetividade. Em alguns deles, como o Brasil, considera-se […]

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Por Baher Kamal, da IPS – 

Roma, Itália, 17/1/2017 – Os programas de transferência de dinheiro procuram reduzir a pobreza, promover estilos de vida sustentáveis e aumentar a produção nos países em desenvolvimento. Um em cada quatro países possui esse tipo de iniciativa. Porém, há dúvidas sobre sua efetividade. Em alguns deles, como o Brasil, considera-se que o programa Bolsa Família foi um dos fatores fundamentais dos bons resultados sociais registrados no país nos últimos anos.

O Programa de Transferência de Dinheiro de Zâmbia, a cargo do Ministério de Desenvolvimento Comunitário, Saúde Materna e Infantil, funciona desde 2003. Até dezembro de 2014, havia chegado a 150 mil famílias e há planos concretos de ampliá-lo para todo o país em um futuro próximo. Foto: FAO

 

A inovadora iniciativa proporcionou apoio técnico e econômico aos setores menos favorecidos da população, de acordo com o Banco Mundial. O programa chega a 11 milhões  de famílias, mais de 46 milhões  de pessoas, o que representa uma grande proporção dos setores de menor renda do Brasil. O modelo, criado há mais de uma década, passou por alguns ajustes.

As famílias pobres com filhos recebem uma transferência direta em dinheiro em troca de se comprometerem a manter seus filhos na escola e levá-los a exames médicos regulares. O programa conseguiu resultados importantes, como ajudar a reduzir a pobreza e fazer as famílias investirem em seus filhos, dessa forma rompendo o círculo da pobreza intergerações e reduzindo a futura pobreza.

O Bolsa Família tem orçamento relativamente modesto em comparação com outras iniciativas sociais, como a Previdência Social, mas pode chegar a ser um dos de maior impacto na vida de milhões  de brasileiros de baixa renda, segundo o Banco Mundial.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) informou, no dia 4 deste mês, que, na década passada, cada vez mais governos da África subsaariana implantaram programas de transferência de dinheiro para os setores mais desfavorecidos, como agricultores de subsistência, pessoas com deficiências ou HIV/aids, bem como famílias que cuidam de idosos ou deficientes.

“As economias locais e numerosas famílias se beneficiam das medidas de proteção social, porém os críticos seguem com dúvidas”, aponta a FAO. A agência elaborou uma lista de mitos e verdades sobre o impacto dessas iniciativas na melhora da nutrição e da segurança alimentar e na redução da pobreza rural, com base em avaliação feita em sete países africanos – Etiópia, Gana, Quênia, Lesoto, Malawi, Zâmbia e Zimbábue –, e encontrou o seguinte:

As transferências monetárias para os setores mais vulneráveis registraram resultados positivos. Foto: FAO

 

Mito: O dinheiro é gasto com álcool e tabaco.

Realidade: Em seis dos países avaliados não se encontrou evidência de aumento desse tipo de gasto. Em Lesoto, por exemplo, os gastos com álcool diminuíram depois da introdução de programas de transferências monetárias.

Mito: As transferências não passam de “doações” e não contribuem para o desenvolvimento.

Realidade: Em Zâmbia, as transferências monetárias aumentaram as terras de cultivo em 36% e, com isso, o uso de sementes, fertilizantes e mão de obra contratada, o que proporcionou maior compromisso com o mercado e impulsionou o uso de mais insumos agrícolas. O país registrou aumento geral na produção, de 36%. Além disso, a maioria dos programas mostra alta significativa nas matrículas nos cursos secundários e no gasto com uniformes escolares e sapatos.

Mito: O dinheiro causa dependência e preguiça.

Realidade: Em vários dos países, entre eles Malawi e Zâmbia, a pesquisa mostra redução do trabalho assalariado ocasional e mudança para atividades mais produtivas e nas zonas rurais. De fato, na África subsaariana, as transferências de dinheiro produzem efeitos multiplicadores positivos nas economias locais e aumentam significativamente o crescimento e desenvolvimento nas zonas rurais. Portanto, o dinheiro não cria dependência, mas incentiva os beneficiários a investirem mais na agricultura e trabalhar mais.

Mito: As transferências geram inflação e perturbam as economias locais.

Realidade: Os sete países pesquisados fazem parte do projeto Proteção à Produção (PtoP), que analisa, entre outras coisas, os efeitos produtivos e econômicos dos programas de transferência de dinheiro na África subsaariana. Nenhum dos sete países estudados experimentou inflação. Os beneficiários representam apenas uma pequena parte da comunidade (de 15% a 20%), mas, por serem de famílias pobres e terem baixo poder aquisitivo, não compram o suficiente para afetar os preços de mercado, permitindo, assim, que as economias locais satisfaçam o aumento da demanda. Na Etiópia, para cada dólar transferido dentro do programa, gera-se cerca de US$ 1,5 para a economia local.

Mito: As ajudas centradas nas crianças aumentam a natalidade.

Realidade: Em Zâmbia, as transferências monetárias não mostraram nenhum impacto na natalidade. No Quênia, a gravidez adolescente inclusive diminuiu 34% e, na África do Sul, mais de 10%.

A FAO e seus sócios seguem apresentando provas dos efeitos das intervenções de proteção social na redução da pobreza e da fome. A agência também utiliza os resultados da pesquisa para dar apoio ao desenvolvimento de políticas e capacidades para governos e outros atores internacionais para melhorar o desenho e a implantação de programas nacionais similares.

Os resultados mostram que a implantação desses programas leva a um maior consumo de alimentos, melhor nutrição, ao aumento das matrículas escolares, à redução do trabalho infantil, ao desenvolvimento econômico e à pesquisa agrícola, além de muitos outros benefícios.

Os programas de transferência de dinheiro se converteram em uma ferramenta cada vez mais importante para sair da pobreza e contribui para gerar um impacto no longo prazo na vida de muitas famílias. Mas no mundo ainda restam quase um bilhão de pessoas em situação de extrema pobreza, que sobrevivem com US$ 1,25 por dia, e 795 milhões sofrem fome de forma crônica, segundo a FAO.

O atraso em relação às mulheres é particularmente evidente: a população feminina representa quase metade dos trabalhadores rurais do mundo, e, em alguns países em desenvolvimento, esse índice chega a 60%, mas sempre esteve entre os mais pobres.

A FAO indica que seu principal objetivo é o crescimento econômico, mais do que o empoderamento econômico de seus beneficiários, que costumam ser os mais pobres, mas a evidência de seu impacto no desenvolvimento contribui para uma mudança na forma como os dirigentes percebem esses programas.

No tocante às mulheres, a agência diz que, em muitos países, a maioria dos beneficiários de transferências monetárias é de mulheres pobres e vulneráveis. Segundo a FAO, “atribuiu-se à transferência de dinheiro a capacidade de empoderar as mulheres, pois se entende que, enquanto receptoras da transferência, conseguem ter o controle dos recursos econômicos”.

Entretanto, prossegue a agência, “a evidência disponível em matéria de empoderamento está longe de ser definitiva, em particular no tocante à possibilidade real de haver melhora na capacidade de negociação e decisão das mulheres dentro de suas casas”. Envolverde/IPS

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Acordo para limpar vazamentos de petróleo http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/acordo-para-limpar-vazamentos-de-petroleo/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/acordo-para-limpar-vazamentos-de-petroleo/#comments Tue, 17 Jan 2017 12:37:37 +0000 Patricia Grogg http://www.envolverde.com.br/?p=217970 Por Patricia Grogg, da IPS –  Havana, Cuba, 17/1/2017 – Quando Barack Obama conta as horas para deixar a Presidência dos Estados Unidos, este país e Cuba assinaram em Havana um acordo para prevenir, conter e limpar de forma conjunta os vazamentos de petróleo e outras substâncias tóxicas no golfo do México e no estreito da […]

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Por Patricia Grogg, da IPS – 

Havana, Cuba, 17/1/2017 – Quando Barack Obama conta as horas para deixar a Presidência dos Estados Unidos, este país e Cuba assinaram em Havana um acordo para prevenir, conter e limpar de forma conjunta os vazamentos de petróleo e outras substâncias tóxicas no golfo do México e no estreito da Flórida.

Assinado pelo vice-ministro de Desenvolvimento do Ministério dos Transportes de Cuba, Eduardo Rodríguez, e o encarregado de negócios da embaixada dos Estados Unidos, Jeffrey de Laurentis, o instrumento bilateral e juridicamente vinculante é mais um passo, agora ambiental, no processo de normalização bilateral iniciado há dois anos.

O convênio está destinado a melhorar a preparação e a resposta à contaminação causada por vazamentos de hidrocarbonos nas águas entre os dois países. Segundo Laurentis, o documento, assinado no dia 9 deste mês, é mais um passo à frente no esforço comum de proteger o ambiente marinho no estreito e no golfo.

“Estabelecer um marco mútuo, que inclua os elementos diplomáticos, legais e técnicos para preparo e resposta diante de vazamentos de hidrocarbonos no ambiente marinho é particularmente importante para os vizinhos que se encontram a 90 milhas náuticas”, disse o representante norte-americano.

Para Rodríguez, a assinatura do acordo constitui um ato de significativa importância porque busca preservar o ecossistema marinho e costeiro, ressaltando que esse passo levará à confecção do Plano de Coordenação para as ações de prevenção, preparação e resposta a casos de contaminação por vazamentos de hidrocarbonos e outras substâncias nocivas potencialmente perigosas que ocorram nessa zona geográfica.

O vice-ministro pontuou que a persistência do embargo contra seu país constitui um obstáculo em matéria de segurança das operações costa afora na zona econômica exclusiva de Cuba no golfo e uma limitação para a resposta efetiva a vazamentos de hidrocarbonos na área específica do acordo.

Jeffrey de Laurentis (esquerda), encarregado de negócios dos Estados Unidos em Havana, e Eduardo Rodríguez, vice-ministro de Desenvolvimento do Ministério dos Transportes de Cuba, trocam os originais do acordo recém-assinado, destinado a prevenir e limpar conjuntamente os vazamentos no estreito da Flórida. Foto: COLB-IPS

 

Para Lee Hunt, consultor de extração de petróleo e ex-presidente da Associação Internacional de Empreiteiros de Perfuração em Houston, “a capacidade de Cuba para proteger sua própria costa se vê afetada por sua impossibilidade de acesso a suprimentos ou equipamentos dos Estados Unidos”.

Hunt avalia que o governo cubano perfura 50 ou 60 milhas náuticas da costa do Estado da Flórida com equipamentos que não são da melhor qualidade. Se ocorrer um vazamento de petróleo, as restrições ao comércio, as fronteiras marítimas internacionais e a falta do equipamento adequado por parte de Cuba tornariam muito difícil resolver o problema, explicou à imprensa.

Hunt afirmou que, para evitar outra catástrofe como a do vazamento de 2010 – que exigiu a limpeza de 4,9 bilhões de barris, durante 87 dias, que vazaram na plataforma da BP Deepwater Horizon –, Cuba precisa ter acesso aos melhores recursos de limpeza de vazamentos de petróleo e isso implica a cooperação com os Estados Unidos. Segundo a imprensa, em 2015, Washington apresentou ao governo cubano proposta para criar um tratado conjunto de limpeza que permita atender problemas relacionados com qualquer vazamento de petróleo na zona marítima entre os dois países.

Estima-se que, dois anos antes de começar o degelo entre ambos, especialistas norte-americanos e cubanos tiveram reuniões entre si sobre possíveis respostas a vazamentos de petróleo no golfo que pudessem afetar tanto as costas de Cuba com as do sul dos Estados Unidos.

Após mais de 50 anos de hostilidades e mútuas recriminações, o presidente Obama e seu colega cubano, Raúl Castro, anunciaram, em 17 de dezembro de 2014, o histórico restabelecimento das relações. Em 20 de julho de 2015, as Seções de Interesses – abertas em 1979 por Fidel Castro e James Carter em Washington e Havana – se converteram em embaixadas.

Desde o restabelecimento das relações diplomáticas, Estados Unidos e Cuba assinaram mais de uma dezena de acordos de cooperação que incluem, entre outros temas, serviço postal, luta contra o narcotráfico e proteção da vida marinha. Além disso, negociam outros assuntos complexos, como compensação pelas nacionalizações em Cuba ou a extradição de presos, como parte do processo de normalização que agora espera pelo impacto da chegada, no dia 20, do republicano Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos. Envolverde/IPS

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O perigo de líderes populistas para os direitos humanos http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/o-perigo-de-lideres-populistas-para-os-direitos-humanos/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2017/01/ultimas-noticias/o-perigo-de-lideres-populistas-para-os-direitos-humanos/#comments Mon, 16 Jan 2017 12:03:55 +0000 Tharanga Yakupitiyage http://www.envolverde.com.br/?p=217890 Por Tharanga Yakupitiyage, da IPS –  Nações Unidas, 16/1/2017 – Os dirigentes políticos populistas representam uma perigosa ameaça para os direitos humanos, e avivam e justificam a intolerância e o abuso em todo o mundo, segundo o informe anual da organização Human Rights Watch (HRW). Entre os muitos desafios que o mundo deve enfrentar, em seu […]

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Por Tharanga Yakupitiyage, da IPS – 

Nações Unidas, 16/1/2017 – Os dirigentes políticos populistas representam uma perigosa ameaça para os direitos humanos, e avivam e justificam a intolerância e o abuso em todo o mundo, segundo o informe anual da organização Human Rights Watch (HRW). Entre os muitos desafios que o mundo deve enfrentar, em seu informe O Populismo Ameaça os Direitos Humanos, de 2017, a organização, com sede em Nova York, destaca o surgimento de líderes populistas que empregam uma retórica que afeta o sistema de direitos humanos.

“O crescimento do populismo supõe uma grande ameaça para os direitos humanos”, destacou o diretor executivo da HRW, Kenneth Roth. Os governantes populistas, que dizem falar “pelas pessoas”, consideram que os direitos são “impedimentos” o que faz com que minorias se convertam em bodes expiatórios, e esta seja sua forma de atender o descontentamento público e de resolver problemas domésticos graves.

O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, e vários dirigentes políticos da Europa buscam chegar ao poder apelando ao racismo, à xenofobia, à misoginia e ao nativismo. Também sustentam que o público aceita violações de direitos humanos como uma suposta opção necessária para garantir emprego e evitar mudanças culturais ou atentados terroristas, afirmou Roth.

A campanha eleitoral de Trump mostrou essa intolerância, ao atender as frustrações econômicas dos norte-americanos e seu medo em relação ao terrorismo, ao propor políticas como deportação de milhões  de imigrantes ilegais, criação de um registro muçulmano e uso da tortura. Se tais medidas forem aprovadas, seu governo não apenas corre o risco de violar os direitos humanos, mas também de atentar contra todo o sistema que os protege, alerta a HRW.

Alguns governantes europeus mostram um populismo similar ao ganhar apoio popular culpando a imigração pelos problemas econômicos, aponta a organização. O Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial, da Organização das Nações Unidas (ONU), observou que a campanha da Grã-Bretanha para sair da União Europeia, o chamado Brexit, empregou “uma retórica divisionista, anti-imigrantes e xenófoba”, e pediu às autoridades que condenassem esse tipo de discurso.

Na Grã-Bretanha houve algumas melhoras na recolocação de solicitantes de asilo, mas a primeira-ministra, Theresa May, mantém uma retórica contra os direitos humanos. Inclusive, denunciou que “advogados de direitos humanos ativistas de esquerda” processaram as forças armadas britânicas por violações no Iraque e Afeganistão, e declarou seu desejo de exonerar os efetivos militares que atentam contra eles no estrangeiro.

A HRW também criticou o fato de os líderes europeus rechaçarem os direitos de determinados setores da população para proteger outros, e disse que, uma vez que se atenta contra os direitos de uns poucos, se abre a porta para que sejam afetados em sua totalidade. “Você pode não gostar de seus vizinhos, mas se hoje sacrificar os direitos deles, coloca em risco os seus amanhã. Violar os direitos de uns é minar a própria estrutura que inevitavelmente os membros da suposta maioria necessitarão”, alertou Roth. “De fato, menosprezar os direitos humanos oferece um caminho provável para a tirania”, prosseguiu.

O crescimento do populismo ocidental e sua muda resposta às violações deram força a outros, legitimando o ataque de dirigentes políticos contra os direitos humanos no mundo, indica o documento da HRW.

Líderes europeus mostram um populismo que reúne apoio popular atribuindo os problemas econômicos à emigração. Foto: Nikos Pilos/IPS

 

O presidente da China, Xi Jimping, dirigiu uma das repressões mais duras contra a dissidência, restringindo a liberdade de expressão e controlando o acesso à informação. Por seu lado, o presidente turco, Recebp Tayyip Erdoğan, recorreu ao estado de emergência e a leis antiterroristas para sufocar a oposição política e os meios de comunicação.

O presidente do Burundi, Pierre Nkurunziza, que persegue brutalmente a oposição e ameaça a sociedade civil e a mídia, foi o primeiro de vários governantes africanos a anunciar sua intenção de se retirar do Tribunal Penal Internacional(TPI), um mecanismo essencial para proteger os direitos humanos.

Além disso, confiante de que os governos ocidentais não realizariam represálias, o presidente sírio, Bashar al Assad, e o príncipe herdeiro substituto da Arábia Saudita, Mohammad Bin Salman, continuam violando os direitos humanos, atacando indiscriminadamente civis na Síria e no Iêmen, respectivamente.

A diretora adjunta da HRW na ONU, Akshaya Kumar, também observou uma mudança na forma como os líderes populistas respondem à estratégia muito utilizada de “nomear e denunciar”, e pontuou que cada vez mais estes, em lugar de se afastarem, se voltam para a retórica contra os direitos ou outras atrocidades, e inclusive as empregam para obter mais apoio.

O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, empregou publicamente políticas e expressões islamofóbicas e contra os refugiados, desde afirmar que a “identidade europeia está arraigada na cristandade”, até processar solicitantes de asilo por ultrapassarem obstáculos de arame farpado. Apesar das críticas, Orbán reuniu apoio em nível local e também continental, para seu objetivo de fechar as fronteiras da Europa.

E o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, mantém sua popularidade apesar de suas políticas contra as normas internacionais de direitos humanos. De fato, pediu publicamente a execução extrajudicial de narcotraficantes e consumidores de drogas, e inclusive de ativistas pelos direitos humanos, em uma campanha contra as substâncias ilegais que já deixaram milhares de mortes nesse país da Ásia Pacífico. “Não me importam os direitos humanos”, afirmou pouco depois de chegar à Presidência, em junho de 2016.

Como esses governantes não parecem ter vergonha de violar os direitos fundamentais, Kumar destaca que é necessário enfrentar os “abusadores”, inclusive os que oferecem apoio econômico, bem como os fornecedores de armas. E apontou o governo canadense como um exemplo: em 2006, proibiu o financiamento da organização Tigres para a Libertação da Pátria Tâmil Ealam (LTTE), do Sri Lanka, após ficar sabendo da forma abusiva com que extraíam dinheiro da diáspora tâmil e de como o utilizavam para cometer outras violações.

Em novembro de 2016, o Departamento de Estado norte-americano suspendeu a venda de fuzis de assalto no valor de US$ 26 mil para a polícia das Filipinas, por medo de que servissem para violar os direitos humanos. Não há um enfoque único para enfrentar este problema, mas se concentrar nas crescentes redes que amparam destacados abusadores é uma forma importante de proteger e promover os direitos humanos, ressaltou Kumar à IPS.

A HRW também destaca a necessidade angustiante de que organizações da sociedade civil, meios de comunicação e governos defendam e reafirmem de forma enérgica os direitos humanos, especialmente porque alguns dirigentes “enterraram a cabeça na areia, com a esperança de que os ares do populismo se dissipem”. Mas, nos últimos tempos, a responsabilidade por enfrentar o crescimento do populismo e promover o respeito pelos direitos humanos recaiu na população.

“Os demagogos andam pela casuística, reunindo apoio popular tecendo explicações falsas e oferecendo soluções baratas para problemas genuínos o melhor antídoto é o público cobrar uma política baseada na verdade e nos valores sobre os quais se construiu a democracia respeitosa do direito”, destacou Roth. Envolverde/IPS

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Por Baher Kamal, da IPS – 

Roma, Itália, 13/1/2017 – Uma grande ameaça silenciosa, mas não menos daninha, coloca em risco tanto a saúde humana como a animal, e tem consequências para a segurança alimentar e o bem-estar econômico de milhões de famílias rurais: a resistência aos antimicrobianos. O uso indiscriminado e excessivo de produtos sintéticos para combater enfermidades nos sistemas alimentares e agrícolas gera resistência aos antimicrobianos (AMR), o que causa a morte de aproximadamente 700 mil pessoas por ano, número que pode subir para dez milhões.

Desde a introdução da penicilina, em 1928, os tratamentos antimicrobianos são usados não apenas na medicina humana, mas também em veterinária. Mas seu uso excessivo na produção animal contamina o ambiente e contribui para o aumento de microrganismos resistentes, o que é uma ameaça para a saúde humana, animal e para a segurança alimentar e o sustento das pessoas. Foto: FAO

 

A AMR é um fenômeno natural de microrganismos como bactérias, vírus, parasitas e fungos, que deixam de ser sensíveis aos efeitos de medicamentos, como antibióticos, que costumam ser efetivos no combate a infecções. Mas as práticas comerciais destinadas a aumentar os benefícios fazem com que, na prática, esses medicamentos sejam usados cada vez mais somente para promover o crescimento dos animais.

“O mundo está diante de um tipo diferente de emergência em saúde pública, que é tão dramático quanto pouco visível”, alertam em um artigo conjunto os diretores de três organizações internacionais dedicadas a proteger a saúde humana e a animal, publicado pelo jornal The Huffington Post. “À exceção das superbactérias, as AMR não causam grande alarme público”, explicam Monique Elolt, diretora-geral da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), Margareth Chan, diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), e José Graziano da Silva, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

“A AMR poderia matar cerca de dez milhões de pessoas ao ano e, segundo uma análise realizada no Reino Unido, com o custo para a economia mundial podendo chegar a US$ 100 trilhões anuais”, afirmam os diretores dos três organismos. Se o problema não for atendido, a AMR poderá representar um risco até para a quimioterapia e as intervenções dentárias e cirúrgicas comuns, pois seria difícil ou impossível tratar as infecções. As melhorias em saúde pública e o prolongamento da vida alcançados no século 20 poderão estar em risco, acrescentaram.

Além do número crescente de mortes atribuídas às infecções relacionadas à AMR, esta também supõe um risco para a segurança alimentar, os modos de vida, a saúde animal e o desenvolvimento agrícola e econômico mundiais, segundo as três agências especializadas das Nações Unidas. O uso global de produtos sintéticos para matar bactérias, vírus, parasitas e fungos nos sistemas de produção agrícola e alimentar requer um esforço concertado para mapear, compreender e mitigar os riscos da AMR, ressalta a FAO.

A resistência aos antimicrobianos foi descrita pela primeira vez em 1940, mas a compressão dos diferentes caminhos pelos quais essa resistência aparece e se propaga está engatinhando, indica o estudo Drivers, Dynamics and Epidemiology of Antimicrobial Resistance in Animal Production (Fatores, Dinâmicas e Epidemiologia da Resistência aos Antimicrobianos na Produção Animal).

Granja de aves do Egito. Manter uma boa higiene nesses locais evitaria depender tanto dos antimicrobianos e ajudaria a frear o aumento de microrganismos resistentes. Foto: FAO

“Como é frequente encontrar no mundo alimentos contaminados com bactérias resistentes, como a E. Coli e a Salmonella, é muito provável que as medidas que promovam um uso prudente dos antimicrobianos sejam extremamente úteis para reduzir a emergência e a propagação da AMR”, destaca o documento da FAO. Diante desse grande desafio, FAO, OMS e OIE lançaram, em novembro de 2016, a Semana Mundial de Conscientização sobre os Antibióticos.

O estudo resume a magnitude da AMR nos alimentos e, em especial, na produção pecuária, que, se prevê, representará dois terços do futuro aumento no uso de antimicrobianos, e recomenda apoiar e fomentar mais pesquisas, como a sequência molecular e a análise epidemiológica, para determinar os fatores que incidem em como e por que um agente resistente se incorpora nos microbiomas intestinais de humanos e animais, e também aponta a necessidade de se criar protocolos e bases de dados para construir modelos de avaliação de riscos.

O uso de antimicrobianos com a única finalidade de fomentar o crescimento animal deveria ser proibido de forma paulatina, destaca a FAO. E se deveria insistir em alternativas que garantam a saúde animal, como melhores programas de vacinação. Os resíduos antimicrobianos no ambiente, em especial nas fontes de água, deveriam ser rastreados do mesmo modo como se busca por substâncias perigosas, acrescenta.

“Devido ao nosso limitado conhecimento sobre os modos de transmissão, as formas de mitigar a propagação global da AMR inclui controlar sua emergência em vários ambientes e minimizar as oportunidades de sua propagação no que poderiam ser as vias mais importantes”, diz o informe. Os autores do estudo, especialistas do Colégio Veterinário de Londres e da FAO, dirigidos por Juan Lubroth, são cautelosos em relação ao que falta conhecer, mas destacam que a evidência sobre a dimensão do perigo é convincente.

Por exemplo, as abelhas norte-americanas possuem bactérias intestinais diferentes das que se encontram em outros lugares, o que reflete o uso dos antibióticos tetraciclina nas colmeias desde a década de 1950. As fazendas piscícolas do Mar Báltico têm menos genes resistentes do que as dos sistemas aquícolas da China, que agora são reservatórios de genes resistentes às quinolonas, um grupo de medicamentos muito importantes para os humanos, cujo uso aumentou pela crescente resistência a antimicrobianos anteriores, como a tetraciclina.

A última descoberta em muitos países de resistência à colistina, considerado o último antibiótico em medicina humana, também destaca a necessidade de se controlar a produção de animais, pois é usado há décadas na criação de porcos, aves, ovelhas, vacas e peixes. O informe da FAO se concentra no gado porque se especula que a demanda por proteínas animais vai acelerar a produção intensiva, e o maior contato em lugares fechados aumenta a incidência de patógenos resistentes.

As aves, principal fonte de proteína animal, seguidas do porco, são importantes veículos para a transmissão da resistência aos humanos. Os últimos casos detectados na Tanzânia e no Paquistão também demonstram o risco da AMR nos sistemas aquícolas que usam dejetos da criação de animais para a produção de peixes. Como os animais só metabolizam uma pequena proporção dos agentes antimicrobianos que ingerem, a propagação destes a partir dos dejetos animais se tornou um importante motivo de preocupação, segundo o documento.

Por outro lado, os pequenos produtores poderiam usar menos antimicrobianos, mas costumam comprar medicamentos de venda livre sem consultar um veterinário, e o uso inadequado de doses subletais gera uma variabilidade genética e fenotípica nas bactérias que sobrevivem. Por último, o informe enfatiza que a colaboração entre todos os setores e sobre todos os aspectos da produção de alimentos, do campo até à mesa, permitirá uma contribuição fundamental para se conseguir um enfoque efetivo contra a AMR. Envolverde/IPS

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