IPS em português http://www.ipsnoticias.net/portuguese Jornalismo e comunicação para transformar o mundo Fri, 30 Jan 2015 11:32:17 +0000 en-US hourly 1 http://wordpress.org/?v=4.1 Êxodo de refugiados põe em risco metas de desenvolvimento na Índia http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/exodo-de-refugiados-poe-em-risco-metas-de-desenvolvimento-na-india/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/exodo-de-refugiados-poe-em-risco-metas-de-desenvolvimento-na-india/#comments Fri, 30 Jan 2015 11:32:17 +0000 juliana http://envolverde.com.br/?p=128592 A violência interrompeu a educação de centenas de crianças refugiadas. Foto: Priyanka Borpujari/IPS   Kokrajar, Índia, 30/1/2015 – A lona, estirada e atada a postes de bambu, tem a dimensão de uma caminhonete grande. Entretanto, cerca de 25 mulheres, meninas e meninos dormem ao abrigo desses refúgios improvisados em vários acampamentos de refugiados nessa localidade […]

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refug 629x472 Êxodo de refugiados põe em risco metas de desenvolvimento na Índia

No acampamento de refugiados Serfanguri, em Kokrajar, as barracas não são suficientes para abrigar as duas mil pessoas que chegaram no dia 23 de dezembro. A da foto abriga 25 mulheres e crianças. Foto: Priyanka Borpujari/IPS

A violência interrompeu a educação de centenas de crianças refugiadas. Foto: Priyanka Borpujari/IPS

 

Kokrajar, Índia, 30/1/2015 – A lona, estirada e atada a postes de bambu, tem a dimensão de uma caminhonete grande. Entretanto, cerca de 25 mulheres, meninas e meninos dormem ao abrigo desses refúgios improvisados em vários acampamentos de refugiados nessa localidade do Estado de Assa, no nordeste da Índia. Os cerca de 240 mil refugiados em 118 acampamentos, dispersos em três distritos de Assam, fugiram de suas casas depois que um ataque matou 81 pessoas.

Trata-se de uma crise humanitária de grandes proporções, denuncia o Centro Asiático para os Direitos Humanos, já que constitui um dos maiores deslocamentos em razão de conflitos armados nesse país. A situação reflete a incapacidade do país em alcançar este ano os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e sugere que a violência que o afeta será um obstáculo para satisfazer as necessidades básicas de seus mais de 1,2 bilhão de habitantes.

No dia 23 de dezembro, a facção armada da Frente Democrática Nacional de Bodoland, Songbijit, que luta pela independência do povo bodo em Assam, atacou vários povoados habitados pela comunidade adivasi. Os ataques aconteceram em áreas delimitadas como Distritos da Autoridade Territorial de Bodoland, regidos pelo Conselho Territorial de Bodoland.

A comunidade adivasi que reside aqui está integrada por vários grupos indígenas que chegaram da Índia central a Assam, no ano 150 de nossa era, e centenas mais que foram levados à força pelos colonos britânicos para trabalhar nas plantações de chá.

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Este menino, residente no acampamento Serfanguri, sofre uma infecção na pele. Sua mãe diz que ainda não recebeu medicamentos da Missão Nacional de Saúde Rural. Foto: Priyanka Borpujari/IPS

 

Os enfrentamentos entre as comunidades adivasi e bodo em 1996 e 1998, na qual teriam morrido entre 100 e 200 pessoas, ainda causam pesadelos aos sobreviventes. Isso explica porque a maioria dos refugiados nos 118 acampamentos se nega a voltar para casa.

Apesar de as barracas parecerem a opção mais segura no curto prazo, as condições de vida aqui são deploráveis e o governo pretende realocar os refugiados em um local mais permanente. O acampamento na aldeia Serfanguri, em Kokrajar, carece de todos os serviços básicos de água e saneamento necessários para a sobrevivência. Cada uma das barracas chega a abrigar 25 mulheres e crianças.

“Os homens dormem em outra barraca ou ficam acordados à noite para nos proteger. Só mesmo por causa do frio conseguimos, de alguma maneira, passar toda a noite em um espaço tão lotado”, disse Maino Soren, do povoado de Ulghutu, onde os habitantes fugiram logo depois de um ataque que resultou em quatro casas queimadas. Agora há uma grave escassez de artigos de primeira necessidade, como cobertas, para ajudar a enfrentar o inverno, contou à IPS.

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Este menino, residente no acampamento Serfanguri, sofre uma infecção na pele. Sua mãe diz que ainda não recebeu medicamentos da Missão Nacional de Saúde Rural. Foto: Priyanka Borpujari/IPS

 

Neste país com 17% da população mundial, a violência recorrente e o posterior deslocamento geram uma enorme pressão nos cofres do Estado. Uma e outra vez, os governos devem lidar com populações de refugiados, o que representa grandes lacunas na história de desenvolvimento da Índia.

Fora de suas barracas em Kokrajar, crianças com baixo peso e visivelmente desnutridas trocam bolachas por bolas de açúcar de palma e arroz. Meninas de apenas sete anos carregam panelas com água sobre suas cabeças dos poços até o acampamento, cambaleando sob o peso dos recipientes. Outras ajudam suas mães a lavar a louça.

É pouco provável que a Índia alcance o ODM que a obriga a reduzir em 26% a quantidade de crianças com baixo peso até este ano. Segundo as últimas estatísticas, do período 2005-2006, a cifra real chega a 40% da população infantil.

Do mesmo modo, quando os dados do Sistema de Informação sobre Educação nos Distritos mostram que o país alcançou quase 100% do ensino primário para suas meninas e seus meninos de seis a dez anos, fatos como os de Assam impedem que muitas crianças continuem sua formação, embora possam estar matriculados.

“As crianças dos acampamentos estão autorizadas a serem admitidas nas escolas públicas próximas, mas não existe nenhuma disposição para alimentar as bocas adicionais durante as refeições do meio-dia. Assim, as crianças abandonam as aulas e sua educação fica prejudicada”, disse Anjuman Ara Begum, uma ativista social que estudou a situação de campos de refugiados por todo o país e contribuiu com os informes do oficial Centro de Monitoramento do Deslocamento Interno.

Além disso, nas localidades de Balagaon e Jolaisuri, onde foram instalados acampamentos para alojar os adivasi e os bodo, respectivamente, informou-se de vários casos de mortes de bebês. Muitos atribuem essas mortes ao frio, mas após a visita aos campos ficou evidente que estes não ofereciam atenção nutricional especial às mães lactantes nem às grávidas.

Esse cenário não é exclusivo de Assam. Em toda Índia, a violência e os conflitos armados comprometem seriamente a saúde materno-infantil, algo que também os ODM priorizam. Somente no centro e no leste do país, cerca de 22 milhões de mulheres vivem em áreas propensas a conflitos, onde o acesso aos centros de saúde é limitado pela presença de grupos armados e do pessoal de segurança.

Isso, por sua vez, complica os esforços da Índia para reduzir a taxa de mortalidade materna de 230 para cem mortes em cada cem mil nascidos vivos. Também significa, com toda probabilidade, que o país não poderá cumprir este ano o objetivo de reduzir a taxa de mortalidade dos bebês em 13%, e a da taxa de mortalidade dos menores de cinco anos em 5%. Envolverde/IPS

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Ignorância sobre câncer de mama custa vidas nas Ilhas Salomão http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/ignorancia-sobre-cancer-de-mama-custa-vidas-nas-ilhas-salomao/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/ignorancia-sobre-cancer-de-mama-custa-vidas-nas-ilhas-salomao/#comments Fri, 30 Jan 2015 11:27:35 +0000 juliana http://envolverde.com.br/?p=128584   Sydney, Austrália, 30/1/2015 – Agora as mulheres terão melhores possibilidades de sobreviver ao câncer de mama nas Ilhas Salomão, pois este Estado insular em desenvolvimento do sudoeste do Oceano Pacífico adquiriu há pouco o primeiro aparelho para realizar mamografia. Quando se aproxima o Dia Mundial de Luta Contra o Câncer, no dia 4 de […]

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salomon 629x472 Ignorância sobre câncer de mama custa vidas nas Ilhas Salomão

A organização não governamental de mulheres Vois Blong Mere (Voz de Mulheres) em plena campanha pelos direitos das mulheres nas Ilhas Salomão. Foto: Catherine Wilson/IPS

 

Sydney, Austrália, 30/1/2015 – Agora as mulheres terão melhores possibilidades de sobreviver ao câncer de mama nas Ilhas Salomão, pois este Estado insular em desenvolvimento do sudoeste do Oceano Pacífico adquiriu há pouco o primeiro aparelho para realizar mamografia.

Quando se aproxima o Dia Mundial de Luta Contra o Câncer, no dia 4 de fevereiro, muitos especialistas destacam que os benefícios de dispor de tecnologia médica avançada, em um país onde morrem 59% das mulheres diagnosticadas com a doença, dependem de melhorar a grave falta de informação que caracteriza as Ilhas Salomão.

“O câncer de mama é um problema de saúde que preocupa as mulheres das Ilhas Salomão e, no entanto, não se dá prioridade à geração de consciência adequada entre elas”, lamentou à IPS Bernadette Usua, da organização não governamental Vois Blong Mere (Voz de Mulheres), com sede na capital Honiara.

Rachel, de 24 anos, que vivia em um povoado com seus dois filhos, um de três e outro de cinco anos, não sabia o que era câncer de mama quando detectou um nódulo em um de seus seios em agosto de 2013. Vários meses depois, o nódulo cresceu e ela teve que ir até Honiara para uma consulta médica.

“Dirigiu-se ao hospital central, onde a aconselharam a retirar a mama esquerda, mas por falta de conhecimento dela e do marido sobre a doença, ambos ficaram com medo da cirurgia”, contou Usua, prima de Rachel. “Então, simplesmente abandonaram o hospital sem medicamento nem assistência e voltaram para casa”, continuou.

Rachel usou medicina tradicional em seu povoado, mas o câncer e a dor ficaram mais agressivos. Usua recorda ver sua prima em julho do ano passado. “Ficava sentada na cama o dia todo, com uma dor insuportável, sem poder deitar nem dormir. Mas foi valente porque se alimentava, se lavava e cozinhava para os filhos. Chorou e rezou até que faleceu em setembro”, acrescentou.

O câncer de mama é um dos mais comuns entre as mulheres de todo o mundo. Nas Ilhas Salomão, com 609.680 habitantes, representou 92% dos mais de 200 casos diagnosticados em mulheres em 2012, mas sua incidência aumenta com rapidez nos países do Sul em desenvolvimento, onde são detectados 50% dos casos e ocorrem 58% dos falecimentos.

A baixa taxa de sobrevivência, de aproximadamente 40% nos países de baixa renda, comparado com mais de 80% na América do Norte, se deve principalmente à detecção tardia da doença e aos limitados diagnósticos e tratamentos oferecidos nos centros de saúde, carentes de recursos.

Os Anais de Saúde Global revelaram, em 2014, que dos 281 casos de câncer diagnosticados, em 2012, em mulheres nas Ilhas Salomão, 165 não sobreviverem, enquanto em Papua Nova Guiné, dos 4.457 casos, morreram 2.889, e em Fiji 418 dos 795. A falta de informação pública sobre a enfermidade é um problema em toda a região.

“A educação em saúde pública se concentra atualmente em doenças não transmissíveis (ENT) em geral”, disse Sylvia Defensor, radiologista do Ministério de Saúde e Serviços Médicos de Fiji, com 800 mil habitantes. “O câncer está na lista de ENT, mas são destinados poucos recursos e atenção específicos para as mulheres e para conscientizar sobre o câncer de mama”, ressaltou.

Nas Ilhas Salomão, as mamografias serão gratuitas para todas as mulheres, que representam cerca de 49% dos mais de 550 mil habitantes. Isso começará a vigorar a partir da instalação do mamógrafo, financiado pela Organização Benemérita da Primeira Dama, no Hospital Nacional de Referência, em Honiara.

Douglas Pikacha, cirurgião-geral do hospital, explicou que as mamografias são fundamentais para a detecção precoce do câncer e para salvar a vida das pacientes mediante um tratamento em tempo, seja uma cirurgia ou quimioterapia.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a mamografia é a forma mais efetiva para detectar o câncer de mama. A evidência mostra que reduz a mortalidade em 20%, especialmente em mulheres com idades entre 50 e 70 anos.

Para Josephine Teakeni, presidente da Vois Blong Mere, a preocupação é o destino de muitas mulheres que moram longe dos centros de saúde nesse país com mais de 80% da população distribuída em zonas rurais e em 900 ilhas. Cerca de 73% dos médicos e especialistas do país trabalham no Hospital Nacional de Referência.

Teakeni afirmou que é urgente contar com mamógrafos e possibilidades de diagnóstico nos hospitais provinciais para reduzir a mortalidade. A maioria das pacientes tem de se deslocar cerca de 240 quilômetros para chegar ao Hospital Nacional, em geral de balsa ou em lanchas a motor, devido aos preços proibitivos dos voos internos.

Também há uma escassez crítica de pessoal da área da saúde no país, com 0,21 médico para cada mil pessoas. Teakeni destacou que, “enquanto se espera a cirurgia, a doença pode avançar e até causar a morte”.

Há outro desafio: quase metade das pacientes com câncer de mama rejeita a mastectomia, que implica na remoção parcial ou total das mamas, embora isso possa significar sua salvação, diz um informe do Ministério da Saúde. “Muitas preferem tratamentos tradicionais à mastectomia, por acreditarem que é mais feminino ter os dois seios”, explicou Pikacha.

O alto risco de morrer de câncer é outro fator que impacta na desigualdade de gênero nos Estados insulares do Pacífico, onde os arraigados costumes culturais e a generalizada violência de gênero, que sofrem 64% das mulheres e meninas, atenta contra a melhoria de seu status social e econômico.

Teakeni acredita que é prioritário melhorar de forma drástica “a consciência entre as mulheres sobre os sintomas e sinais do câncer de mama e até do que elas mesmas podem fazer, como o autoexame em busca de nódulos durante o banho”, bem como sobre a importância e o impacto do tratamento médico. De todo modo, o novo mamógrafo oferece às mulheres de Ilhas Salomão um motivo, por pequeno que seja, para comemorar. Envolverde/IPS

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Guerra na Ucrânia agrava situação sanitária de setores marginalizados http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/guerra-na-ucrania-agrava-situacao-sanitaria-de-setores-marginalizados/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/guerra-na-ucrania-agrava-situacao-sanitaria-de-setores-marginalizados/#comments Fri, 30 Jan 2015 11:24:45 +0000 juliana http://envolverde.com.br/?p=128588   Kiev, Ucrânia, 30/1/2015 – O conflito armado que mantém o leste da Ucrânia à beira de uma catástrofe humanitária, segundo organizações internacionais, inclusive limita ainda mais o acesso aos serviços de saúde pública pelas pessoas viciadas em drogas, a população cigana e os que vivem com HIV/aids. O conflito, que começou em abril de […]

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adicto 629x419 Guerra na Ucrânia agrava situação sanitária de setores marginalizados

Um assistente social no apartamento de um viciado em drogas, em Donetsk. Foto: Natalia Kravchuk/International HIV/aids Alliance Ucrania©

 

Kiev, Ucrânia, 30/1/2015 – O conflito armado que mantém o leste da Ucrânia à beira de uma catástrofe humanitária, segundo organizações internacionais, inclusive limita ainda mais o acesso aos serviços de saúde pública pelas pessoas viciadas em drogas, a população cigana e os que vivem com HIV/aids.

O conflito, que começou em abril de 2014 entre os separatistas pró-russos e as forças ucranianas, afetou mais de cinco milhões dos 45 milhões de habitantes do país. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e organismos de direitos humanos alertaram que cerca de 1,4 milhão de pessoas são “altamente vulneráveis” devido ao deslocamento, à falta de renda e pela deterioração dos serviços essenciais, como no caso da atenção à saúde.

Os combates e as medidas impostas pelos dois lados interromperam ou cortaram totalmente o fornecimento de suprimentos médicos. Alguns hospitais foram destruídos e outros sofrem constantes cortes de energia e água, além da escassez do pessoal médico que foge do conflito.

A falta absoluta de vacinas ameaça desatar focos de doenças como poliomielite e sarampo. A escassez de medicamentos vitais e a impossibilidade de fazer um acompanhamento dos pacientes faz temer pela sorte das pessoas que vivem com o vírus HIV ou sofrem de aids ou tuberculose.

Os últimos dados da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que o conflito já deslocou mais de 700 mil pessoas dentro do país, e a esse número se acrescentariam até outras 100 mil por semana. Eles vivem em condições desesperadas, o que agrava o risco sanitário e a possibilidade de propagação de enfermidades infecciosas, como a tuberculose. E alguns setores da população enfrentam obstáculos adicionais para terem acesso à atenção à saúde.

A Ucrânia tem uma das piores epidemias de HIV/aids no mundo, principalmente pelo uso de drogas injetáveis. Mas, ao contrário de muitos Estados da Europa oriental, o país aplica há mais de uma década uma elogiada política de redução de danos que manteve sob controle a doença. Os usuários de drogas podem recorrer à terapia de substituição de opiáceos (TSO) em todo o país, o que é importante no leste da Ucrânia porque a maioria dos viciados em drogas injetáveis é oriunda das regiões de Luhansk e Donetsk, no leste do país.

As organizações que trabalham com os consumidores de drogas dizem que o conflito poderia complicar e até suspender o acesso ao tratamento nessas regiões em questão de semanas, na medida em que se esgotam as reservas de metadona e buprenorfina utilizadas no tratamento. A Aliança Internacional de HIV/aids da Ucrânia, que dirige muitos centros TSO e outros programas de redução de danos, alertou que os medicamentos antirretrovirais e para as terapias substitutivas estarão esgotados já no mês de fevereiro.

Mais de 300 pacientes em TSO em Donetsk e Luhansk deixaram de receber o tratamento desde o começo do conflito, e outros 550 pacientes correm esse risco se não for renovado imediatamente o fornecimento de metadona. Funcionários da ONU e médicos em Donetsk confirmaram à IPS que as clínicas só têm metadona para mais algumas semanas.

“Há graves problemas com o fornecimento de medicamentos. Os últimos envios foram em setembro, e alguns pacientes tiveram que abandonar o tratamento. Muitos o seguiam há dez anos e nesse período forjaram uma nova vida e deixaram para trás seu passado, às vezes criminoso. Foi absolutamente trágico para eles quando deixaram o tratamento”, afirmou um médico que pediu para não ser identificado.

A fonte acrescentou que 60% dos pacientes que recebem TSO são soropositivos e que muitos recorrem a drogas ilícitas e compartilham seringas, e como agora o tratamento está suspenso existe o temor de propagação da doença, que ,junto com a hepatite C, está generalizada entre os viciados, bem como a tuberculose.

Andriy Klinemko, um paciente em TSO, teve que fugir com sua mulher, de Donetsk para Dnipropetrovsk, no centro da Ucrânia, quando um bombardeio destruiu sua casa no último verão boreal. “Os pacientes do leste em TSO são obrigados a se mudar, mas nem todos podem e inclusive os que o fazem podem não conseguir continuar o tratamento porque não há dinheiro para os programas. A situação é ruim e no momento não vejo como melhorar”, lamentou.

A comunidade cigana no país também tem problemas de acesso à assistência sanitária. Historicamente, seus aproximadamente 400 mil integrantes, como acontece em outros países, sofrem uma discriminação generalizada, que inclui o emprego e a educação. Além disso, muitos ciganos não têm documentos de identidade oficial o que é um obstáculo para conseguir atenção à saúde, enquanto sua pobreza generalizada também impede que tenham acesso aos serviços pagos, bem como seu isolamento, já que muitas de suas comunidades estão longe dos centros de saúde.

“Mesmo antes do conflito os ciganos na Ucrânia tinham acesso limitado aos serviços de saúde preventiva e curativa. Como resultado, as crianças têm uma cobertura muito baixa de vacinação. Além disso, as taxas de tuberculose e outras doenças são mais altas” nessa população, pontuou a médica Dorit Nitzan, chefe da OMS na Ucrânia. A discriminação também agrava o problema, segundo Zola Kondur, do grupo de direitos dos ciganos Chiricli. “Quanto à saúde, os ciganos estão entre os mais vulneráveis do país. São tratados mal por causa de sua origem étnica”, afirmou.

Mas algumas organizações denunciam que, desde que os grupos separatistas tomaram o controle da região, os ciganos sofreram uma repressão violenta, sistemática e, às vezes, fatal.

Um informe publicado este mês pelo Grupo de Proteção dos Direitos Humanos Kharkiv, após uma missão internacional para analisar a situação na Ucrânia, diz que os ciganos das regiões sob controle dos separatistas “foram submetidos a agressão aberta por parte dos combatentes, que realizaram uma autêntica limpeza étnica” contra a comunidade. Muitos fugiram e se converteram em refugiados internos.

“Como em todas as crises, sem atenção especial os grupos marginalizados e vulneráveis correm maior risco. Na Ucrânia, muitos ciganos carecem de documentação civil e, portanto, não podem se registrar com refugiados internos e não estão incluídos na prestação de nenhum serviço de saúde”, ressaltou Nitzan. Envolverde/IPS

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Dez países destacados por sua luta contra a contaminação tóxica http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/dez-paises-destacados-por-sua-luta-contra-a-contaminacao-toxica/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/dez-paises-destacados-por-sua-luta-contra-a-contaminacao-toxica/#comments Thu, 29 Jan 2015 12:23:36 +0000 IPS http://envolverde.com.br/?p=128534     Nova York, Estados Unidos, 29/1/2015 – A aldeia de Dong Mai, no coração agrícola do Vietnã, tinha um problema grave. Para aumentar sua escassa renda, seus moradores, artesãos que antes elaboravam e vendiam moldes em bronze, se dedicaram a fundir manualmente no quintal de suas casas baterias de chumbo ácido retiradas de carros […]

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Limpeza em uma das casas mais contaminadas de Dong Mai, no Vietnã. Foto: Instituto Blacksmith Para Uma Terra Pura

 

 

Nova York, Estados Unidos, 29/1/2015 – A aldeia de Dong Mai, no coração agrícola do Vietnã, tinha um problema grave. Para aumentar sua escassa renda, seus moradores, artesãos que antes elaboravam e vendiam moldes em bronze, se dedicaram a fundir manualmente no quintal de suas casas baterias de chumbo ácido retiradas de carros e caminhões velhos. Em consequência, 2.600 pessoas da área tinham altos níveis de chumbo no sangue.

A água e a terra de Dong Mai ficaram extremamente contaminadas, de 32 a 36 vezes mais do que os limites aceitáveis. As pessoas adoeciam, incluindo as crianças. Uma casa analisada com um equipamento de fluorescência de raio X registrou níveis de chumbo 50 vezes maiores do que a norma fixada pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos.

O governo conhecia o problema, mas o custo da reparação, calculado em milhões de dólares, era esmagador. Então, em colaboração com o não governamental Instituto Blacksmith Para Uma Terra Pura, dos Estados Unidos, encontrou a forma de enfrentar o problema por apenas US$ 20 por pessoa. Após seis meses de um importante trabalho de recuperação, em fevereiro de 2014 o nível de chumbo na população havia baixado quase um terço.

“A vontade política precisa de tempo para ser gerada”, disse à IPS o presidente do instituto, Rich Fuller. “Os governos precisam de dados sólidos sobre o alcance dos problemas e de como resolvê-los. A maioria apenas começa a formar sua equipe e as ONG que prestam apoio, em lugar de críticas, têm sido de grande ajuda”, acrescentou.

Junto com a Cruz Verde Suíça e a Aliança Mundial Sobre Saúde e Contaminação (GAHP), o Instituto Blacksmith publicou, no dia 27, um informe com dez casos de países onde a limpeza ambiental teve sucesso, como o de Dong Mai. Os outros casos destacados no documento aconteceram em Gana, Senegal, Peru, Uruguai, México, Indonésia, Filipinas, região de Tomsk na antiga União Soviética e Quirguistão.

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Estas mulheres do Senegal não sabiam que seu trabalho as intoxicava, e às suas famílias. Foto: Instituto Blacksmith Para Uma Terra Pura

 

O informe assinala que a contaminação tóxica mata mais de 8,9 milhões de pessoas em todo o mundo a cada ano, a maioria delas meninos e meninas, e a grande maioria, 8,4 milhões, em países de rendas baixa e média. Para melhor compreender esses números, isso equivale a 35% mais do que as mortes causadas pelo tabagismo, quase três vezes mais do que as vítimas da malária e 14 vezes mais do que as provocadas pelo HIV/aids.

“Contrariando a crença popular, muitos dos piores problemas de contaminação não têm sua origem nas empresas transnacionais, mas em atividades menores mal reguladas, como a mineração artesanal, pequenos polígonos industriais ou fábricas abandonadas”, explicou Stephan Robinson, da Cruz Verde Suíça. “No entanto, as nações de alta renda contribuem indiretamente com sua demanda por matéria-prima e bens de consumo. Assim, apoiam muitas dessas indústrias menores, o que agrava os problemas de contaminação nos países de baixa renda”, afirmou.

O chumbo, o culpado em Dong Mai, é especialmente devastador para as crianças. Pode danificar o cérebro e o sistema nervoso, causar atraso no desenvolvimento e até provocar a morte. As crianças também tendem a ter maior exposição porque brincam na terra e levam as mãos e outros objetos à boca.

Os contaminantes têm custo entre 6% e 12% do produto interno bruto nos países de rendas baixa e média. O informe do Instituto Blacksmith deste ano prioriza as soluções práticas e replicáveis que não exigem grande quantidade de dinheiro para sua aplicação. “Só uns poucos países seguiram esse caminho. Queremos dar-lhes crédito, foram exemplos para ampliar o trabalho sobre a contaminação em outros países”, destacou Fuller.

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O Parque Bicentenário ocupa o terreno de uma antiga refinaria de petróleo em Azcapotzalco, no México. Foto: Vladimix/Creative Commons

 

No caso de Dong Mai, em lugar de retirar o solo contaminado e levá-lo para um depósito, os quintais das casas foram tapados com areia, uma camada de geotêxteis, 20 centímetros de solo compactado limpo, tijolos e, finalmente, concreto na parte superior para selar o chumbo. Após uma campanha educativa, 50 moradores repararam seus próprios quintais dessa maneira. O que poderia ter custado cerca de US$ 10 milhões foi realizado com apenas US$ 60 mil.

“É frequente o sucesso em um país se refletir em um projeto em outro. Isso ocorreu com o caso de envenenamento por chumbo e lixo eletrônico. O modelo da GAHP é de colaboração entre os organismos internacionais e entre os países, que se ajudam entre si para resolver esses problemas terríveis”, detalhou Fuller.

Em Thiaroye Sur Mer, no Senegal, a reciclagem das baterias de chumbo foi substituída por jardins hidropônicos. Na Cidade do México, uma refinaria de petróleo contaminada se transformou no parque urbano Bicentenário, que recebe um milhão de visitantes por ano. Em Agbogbloshie, em Gana, a reciclagem informal de lixo eletrônico mediante a queima que libera toxinas agora acontece de maneira segura por meio de máquinas.

“Trabalhamos muito para encontrar soluções que funcionem para os recicladores locais”, ressaltou no informe Kira Traore, a diretora de programas do Instituto Blacksmith na África. “A proibição da queima não os ajudaria a obter uma renda. Em troca, poderiam levar a prática para outros lugares, o que ampliaria a contaminação e o número de pessoas afetadas”, acrescentou.

Os especialistas afirmam que fontes locais de contaminação, em particular metais pesados como mercúrio e arsênico, costumam ser muito móveis e causar problemas de saúde a milhares de quilômetros de distância. “O mercúrio da extração artesanal do ouro e das usinas de carvão viaja pelo mundo e é encontrado no pescado que, por exemplo, se come como sushi em Londres”, afirmou Robinson.

“O DDT (dicloro difenil tricloroetano) é encontrado na gordura corporal dos habitantes da Groenlândia, embora nunca tenha havido agricultora ali”, pontuou Robinson. “O ar contaminado da China e de outros lugares pode ser medido em outros países. Os radionuclídeos dos desastres nucleares, como o de Chernobyl, alcançaram outros países na maior parte da Europa”, destacou.

Em essência, os países ricos não só têm uma obrigação moral mas também um grande interesse em ajudar as nações mais pobres frente a contaminação, insistiu Robinson. “As nações ocidentais tiveram êxito na limpeza de sua contaminação tóxica dos últimos 40 anos e podem transferir tecnologia e conhecimentos aos países de baixa e média rendas. Concretamente, sabemos como mudar a situação porque já o fizemos”, assegurou. Envolverde/IPS

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Mulheres da África devem participar de manejo hídrico http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/mulheres-da-africa-devem-participar-de-manejo-hidrico/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/mulheres-da-africa-devem-participar-de-manejo-hidrico/#comments Thu, 29 Jan 2015 12:17:17 +0000 Miriam Gathigah http://envolverde.com.br/?p=128529   Nairóbi, Quênia, 29/1/2015 – As vozes femininas se fazem ouvir cada vez mais em plataformas internacionais que buscam acordar a agenda hídrica pós-2015, mas isso não acontece no âmbito local. A exclusão das mulheres das áreas rurais gera falências que já causam impacto em países como o Quênia, alertam especialistas. Na Conferência Internacional da […]

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agua 640 629x472 Mulheres da África devem participar de manejo hídrico

As mulheres da África devem ser incorporadas à agenda hídrica pós-2015. Foto: Miriam Gathigah/IPS

 

Nairóbi, Quênia, 29/1/2015 – As vozes femininas se fazem ouvir cada vez mais em plataformas internacionais que buscam acordar a agenda hídrica pós-2015, mas isso não acontece no âmbito local. A exclusão das mulheres das áreas rurais gera falências que já causam impacto em países como o Quênia, alertam especialistas.

Na Conferência Internacional da Água, realizada entre 15 e 17 deste mês na cidade espanhola de Zaragoza, “foram adotadas certas posições, mas os que cuidam de implantá-las, que frequentemente são mulheres das áreas rurais, ainda estão na obscuridade”, apontou à IPS o especialista ambiental Dismas Wangai. Como exemplo, citou as cinco represas construídas no rio Tana, o maior do Quênia.

Segundo Wangai, as represas não funcionam de maneira ótima devido ao mau manejo agrário, pois os agricultores continuam cultivando excessivamente perto desses locais. “Essa é uma importante causa de preocupação, porque aproximadamente 80% da água potável do país procede dessas represas, bem como entre 60% e 70% da energia hidrelétrica”, acrescentou.

O especialista destacou que há uma ampla erosão do solo originada na agricultura extensiva que é praticada em torno das represas e, em consequência, “boa parte do solo se assenta nelas. Se isso continuar, as represas produzirão cada vez menos água e energia”.

Mary Rusimbi, diretora-executiva do não governamental fundo de Mulheres da Tanzânia e oradora na conferência de Zaragoza, disse à IPS que as mulheres devem participar do manejo da água em todos os níveis. É muito importante que os movimentos comunitários de mulheres “tenham ingerência no manejo da água, porque elas são as mais afetadas pelas tensões hídricas, e são as melhor posicionadas para implantar melhores práticas”, afirmou.

Segundo Rusimbi, as mulheres constituem pelo menos 80% da mão de obra agrícola na África. “Isso significa que, se não lhes forem ensinadas práticas de cultivo, isso terá sérias implicações para o manejo da água”, acrescentou.

Alice Bouman, presidente fundadora honorária da Associação de Mulheres para a Água, disse à IPS que o déficit para atender necessidades básicas afeta a população feminina em particular, ou seja, “elas estão melhor situadas para fornecer informação valiosa sobre os desafios que enfrentam para ter acesso à água”. Portanto, acrescentou, “elas têm mais probabilidades de abraçar soluções para o mau manejo da água, porque são as que sofrem as tensões hídricas em um nível mais imediato”.

Segundo Bouman, é hora de os sócios hídricos mundiais começarem a incluir as mulheres locais como sócias e não meramente como grupos vulneráveis aos caprichos da mudança climática. Ela afirmou que as ações em torno da água devem aproveitar o capital social das mulheres, porque elas “estabelecem conexões e redes fortes de maneira muito fácil, e estas redes podem se tornar veículos para criar consciência sobre o manejo hídrico”.

Bouman também pediu o desenvolvimento de um enfoque mais exaustivo do manejo hídrico que inclua a perspectiva de gênero. Por sua vez, Rusimbi ressaltou que, embora para as mulheres talvez seja mais difícil se fazerem ouvidas nas conferências internacionais sobre a água, podem consegui-lo por meio de organizações da sociedade civil.

Rusimbi também pediu que se “envolva as mulheres das áreas rurais nesses debates desde o momento de desenhar essas intervenções. Elas têm mais para dizer do que o resto de nós, porque interagem com a água em níveis muito diferentes, que são cruciais para um manejo sustentável”, destacou.

Wangai enfatizou que as mulheres das áreas rurais, que passam muitas horas procurando água, costumam ser associadas apenas às necessidades domésticas da água. “Frequentemente, a gente diz que elas passam horas caminhando em busca de água e, portanto, precisam que sejam cavados poços mais perto de onde moram”, mas o debate sobre a água deve ser ampliado e abordar de modo proativo e consciente a necessidade de incluir as mulheres das áreas rurais na abordagem dos desafios hídricos que ainda enfrentamos, acrescentou. Envolverde/IPS

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Caso de 43 estudantes evidencia (também) racismo mexicano http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/caso-de-43-estudantes-evidencia-tambem-racismo-mexicano/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/caso-de-43-estudantes-evidencia-tambem-racismo-mexicano/#comments Thu, 29 Jan 2015 12:09:39 +0000 Emilio Godoy http://envolverde.com.br/?p=128524   Cidade do México, México, 29/1/2015 – A primeira língua do indígena Celso García, de 51 anos, é o mixteco. Em sua infância, este pai de um dos 43 estudantes desaparecidos há quatro meses, teve que aprender espanhol para se desenvolver entre mestiços, a maioria dominante no México. Com quatro filhos, ele tem uma pequena […]

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chica mexico 1 629x472 Caso de 43 estudantes evidencia (também) racismo mexicano

A náhuatl Metonia Carrillo segura um cartaz com a foto de seu filho Luís Ángel Abarca, um dos 43 estudantes desaparecidos no dia 26 de setembro em Iguala, enquanto descansa na escadaria do Auditório Nacional durante um protesto de familiares na capital mexicana, ao completar quatro meses de seu sequestro. Foto: Emilio Godoy/IPS

 

Cidade do México, México, 29/1/2015 – A primeira língua do indígena Celso García, de 51 anos, é o mixteco. Em sua infância, este pai de um dos 43 estudantes desaparecidos há quatro meses, teve que aprender espanhol para se desenvolver entre mestiços, a maioria dominante no México. Com quatro filhos, ele tem uma pequena propriedade onde planta milho, feijão, flor de Jamaica e abóbora, na localidade de Tecuantepec, município de Tecoanapa, 380 quilômetros ao sul da Cidade do México, no Estado de Guerrero.

Mas seus cultivos estão abandonados desde a noite de 26 de setembro, quando seu filho Abel, de 21 anos e aluno da primeira série do curso de magistério rural, desapareceu junto com outros 42 companheiros da Escola Normal Rural de Ayotzinapa, em uma ação de policiais municipais e sicários do grupo criminoso Guerreiros Unidos, conforme a investigação das autoridades nacionais e o testemunho de participantes que confessaram o fato.

“Queremos que os rapazes apareçam. Assim deixaremos de perder tempo, estamos sem trabalhar”, disse García à IPS, envolto em uma longa camisa xadrez, calças dançando ao vento e sandálias que mal protegem seus pés calejados de andar por caminhos abertos no mato.

Na noite de 26 de setembro, policiais locais de Iguala, município que fica 191 quilômetros ao sul da capital, atacaram os estudantes de Ayotzinapa quando estavam em um ônibus, fato que causou seis mortes e 25 feridos. Além disso, os policiais detiveram 43 normalistas – como são chamados aqui quem estuda para ser professor rural nas escolas especializadas – e os entregaram a membros da Guerreiros Unidos, uma das máfias do tráfico de drogas mais violentas da área, segundo a Procuradoria Geral da República (PGR).

De acordo com essa investigação, os 43 jovens foram queimados no lixão de Colula, localidade perto de Iguala, com produtos altamente inflamáveis, e, uma vez eliminados os restos, jogaram as supostas cinzas e outros vestígios em um rio próximo, uma versão reiterada quando, no dia 26, completou quatro meses do alegado massacre.

O procurador-geral, Jesús Murillo, afirmou – com o apoio de vídeos com a reconstrução dos fatos realizada com detidos pelo caso – que “a verdade histórica” é que os 43 estudantes foram assassinados de forma coletiva na mesma noite de seu sequestro, incinerados e jogados ao rio. E acrescentou que a investigação continua aberta. Mas pais e familiares das vítimas continuam repudiando a conclusão de que todos seus parentes estão mortos, tal como disseram à IPS.

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Manifestantes e familiares dos 43 estudantes de Ayotzinapa, no Paseo de la Reforma, na capital mexicana, no dia 26 deste mês, ao completar quatro meses de seu massacre, segundo a investigação oficial, uma conclusão rechaçada pelos parentes. Foto: Emilio Godoy/IPS

 

Só foi possível identificar com base no DNA os restos encontrados de um dos estudantes, segundo informou em 7 de dezembro a PGR. Os especialistas do Instituto para Medicina Legal da Universidade Médica de Innsbruck, na Áustria, encarregados do procedimento, notificaram que é impossível obter DNA dos demais despojos devido ao seu estado de ignição.

Camponeses, pobres e indígenas. Estas são as características dos estudantes desaparecidos e de seus parentes que os buscam incansavelmente. A intenção dos futuros professores era romper e ajudar suas comunidades a combater a pobreza, a fome, a marginalização e a discriminação, dívidas seculares do Estado com as comunidades rurais indígenas.

Pelo menos metade dos 43 estudantes tem ascendência indígena relacionada aos povos me’phaa, náhuatl e mixteco. E, como dizem os familiares das vítimas e especialistas, quando um indígena morre como eles, se extinguem uma esperança, uma língua e uma cultura. Para milhares de jovens como eles, a única opção educacional é o acesso às escolas para professores rurais para que, após se formarem, ensinem nessas áreas.

Metodia Carrillo, de 54 anos, compartilha raízes com a maioria dos pais dos desaparecidos. Sua língua nativa é o náhuatl e ela reside na comunidade de San Antonio, município de Cuautepec, em Guerrero. É a mãe de Luis Ángel Abarca, outro estudante da primeira série, de 18 anos. Até 26 de setembro, sua vida era sua casa e a plantação de milho, a base alimentar mexicana.

“Queria ser professor para ajudar a família. Não são criminosos nem traficantes para terem sofrido isso. Por isso sentimos muita coragem e dor”, explicou Carrillo, com seus nove filhos, dos quais Ángel é, ou era, o mais jovem.

Neste país vivem 120 milhões de pessoas, das quais cerca de 11 milhões são indígenas, divididos em pelo menos 54 povos originários. Mas esse dado do Instituto Nacional de Estatística e Geografia registra como moradores originários somente pessoas com mais de cinco anos que falem uma língua ancestral.

Os Estados de Guerrero, Oaxaca e Chiapas, no sul, concentram a maioria da população indígena e figuram entre os mais pobres do México. Em Guerrero habitam os amuzgo, mixteco, náhuatl e me’phaa, e segundo dados oficiais a população indígena é de aproximadamente 600 mil pessoas.

“Sempre houve discriminação, na educação, por exemplo. Além disso, não há justiça. Esses direitos são violados”, disse à IPS outro pai de um dos desaparecidos, Melitón Ortega, cujo filho Mauricio tem 17 anos, segundo insiste em que se fale no presente. Para Ortega, com seis filhos e cultivador de milho e café, o racismo se reflete no desemprego existente na região ou na falta de moradia e de serviços adequados.

O governamental Programa Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação 2014-2018 (Pronaind) indica que 76% da população indígena vive na pobreza, um bloco “historicamente discriminado”. Indígenas, afrodescendentes e a população rural são mais pobres, menos educados, com menores rendas, menos proteção social e acesso restrito à justiça e à política, assegura o Programa.

“Há indícios de discriminação. Os indígenas são vistos como cidadãos de terceira. Na questão educacional e de acesso à justiça, a igualdade não existe”, afirmou à IPS o ativista Maurilio Santiago, presidente do Centro de Direitos Humanos e Assessoria a Povos Indígenas, que opera em Oaxaca. Os flagelos persistem, apesar de o orçamento destinado à população originária estar aumentando desde 2002. Para este ano, o valor supera os US$ 4,7 bilhões.

Para os pais dos estudantes causa engasgo falar de racismo, embora reconheçam terem sofrido esse problema. “Senti, claro, como não?”, disse secamente Celso García, enquanto mantinha erguido o cartaz no qual se lia: “Abel, temos a esperança de que estejas vivo. E não descansaremos até encontrá-lo, volte logo. Temos saudades”.  “Se nos entregarem nossos filhos, nos acalmaremos. Vamos lutar até encontrá-los, exigimos sua presença”, afirmou Carrilo depois do pronunciamento do procurador.

Ortega propõe que as comunidades manejem os recursos. “Há um discurso, mas não se vê nada de concreto. Há orçamento, mas o problema é a corrupção e o tráfico de influências. Isso faz com que as obras não sejam executadas”, afirmou. Mas o Pronaind prevê uma redução na carência indígena de acesso aos serviços de saúde de 24% em 2012 para 5% em 2018. Também espera uma contração na percepção da discriminação nos grupos prejudicados. Envolverde/IPS

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Empresas indígenas contribuem para uma mudança positiva na Austrália http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/empresas-indigenas-contribuem-para-uma-mudanca-positiva-na-australia/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/empresas-indigenas-contribuem-para-uma-mudanca-positiva-na-australia/#comments Wed, 28 Jan 2015 12:45:54 +0000 Neena Bhandari http://envolverde.com.br/?p=128450   Mossman, Austrália, 28/1/2015 – Roy Roger Gibson, um idoso kuku yalanji, observava os milhares de turistas e veículos que pisoteavam sua terra virgem enquanto trabalhava nos canaviais do norte do Estado australiano de Queensland. Seu povo sofria, sua cultura se deteriorava e a fauna autóctone estava desaparecendo. Demorou 20 anos para mudar essa situação, […]

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quebrada 629x472 Empresas indígenas contribuem para uma mudança positiva na Austrália

Roy Roger Gibson, um idoso kuku yalanji, teve que esperar 20 anos para realizar seu sonho de fazer parte de uma empresa de ecoturismo sustentável de propriedade indígena. Foto: Neena Bhandari/IPS

 

Mossman, Austrália, 28/1/2015 – Roy Roger Gibson, um idoso kuku yalanji, observava os milhares de turistas e veículos que pisoteavam sua terra virgem enquanto trabalhava nos canaviais do norte do Estado australiano de Queensland. Seu povo sofria, sua cultura se deteriorava e a fauna autóctone estava desaparecendo. Demorou 20 anos para mudar essa situação, mas hoje o Centro da Quebrada Mossman é uma  próspera empresa de ecoturismo indígena no Parque Nacional de Daintree, um sítio declarado patrimônio mundial em Queensland.

O turismo é uma fonte de preservação da cultura indígena, já que proporciona emprego, oportunidades de educação e formação e proteção do ambiente, especialmente em lugares remotos, como a quebrada Mossman, lar ancestral do povo kuku yalanji, no extremo sul do Parque Nacional Daintree. Roy e a comunidade aborígine da quebrada Mossman trabalharam em colaboração com a Corporação de Terras Indígenas (CDI) para construção do centro, onde 90% dos trabalhadores são indígenas, 61 deles empregados e 21 aprendizes.

Roberta Stanley, de 18 anos, começou como aprendiz. “A cada manhã, quando saio com o uniforme para trabalhar, não paro de sorrir. Me ajudou a reencontrar a história, as lendas, os idiomas, a música e nossas artes. Tenho uma sensação de imenso orgulho e a confiança para perseguir meu sonho de ser artista e bailarina”, afirmou. Isso era algo que os jovens não podiam fazer antes que o Centro começasse a oferecer cursos de turismo, hotelaria, comércio e administração. Os pais de Roberta e sua irmã trabalham no mesmo local.

Em 2011, havia cerca de 207.600 indígenas na força de trabalho da Austrália. Daqueles maiores de 15 anos, 42% tinham trabalho, em comparação com os 61% daqueles que não são indígenas. Com escassas oportunidades de emprego, perseguir seus sonhos não é algo que todos os indígenas australianos podem fazer.

Pamela Salt, de 41 anos, trabalhava como faxineira e em seu tempo livre pintava. Desde que começou a trabalhar no Centro da Quebrada Mossman, tem um senso de pertinência com o lugar. “Física, mental e emocionalmente, o Centro deu ao nosso povo a confiança de que podemos fazê-lo. Uma das minhas filhas também trabalha aqui”, contou esta pintora autoditada que hoje expõe sua obra na galeria do Centro, onde visitantes nacionais e estrangeiros podem comprá-las.

empleada Empresas indígenas contribuem para uma mudança positiva na Austrália

Roberta Stanley, de 18 anos, e quatro integrantes de sua família trabalham no Centro da Quebrada Mossman. Foto: Neena Bhandari/IPS

Desde julho de 2014, mais de 250 mil turistas, dos quais cerca de 40% estrangeiros, visitaram o Centro. “O turismo indígena está ganhando impulso. Acrescenta um aprofundamento cultural às experiências que os visitantes têm em seus sentidos. O povo kuku yalanji, como outras comunidades aborígines, cuidam do ambiente há milhares de anos. É seu supermercado e sua farmácia”, afirmou o gerente-geral do Centro da Quebrada Mossman, Greg Erwin.

Nos próximos dez a 15 anos, a propriedade da empresa será 100% aborígine. Essa realidade está muito distante do que viveu a chamada Geração Roubada, composta por dezenas de milhares de crianças que foram separadas à força de suas famílias, entre 1900 e 1970. As políticas de assimilação do governo australiano da época pretendiam erradicar o “sangue aborígine” e, supostamente, dar às crianças uma vida melhor.

Roy, de 58 anos e pertencente a essa Geração Roubada, não quer que seu povo volte a experimentar esse trauma psicológico. “Esse centro é um modelo a seguir para a geração mais jovem, que sonha com uma vida melhor”, acrescentou. Ele e outros guias indígenas levam os visitantes a fazerem “caminhadas de fantasia”, nas quais ressaltam os matizes da floresta tropical mais antiga do mundo, com histórias sobre sua criação, as fontes de alimentos, a flora e a fauna, as cavernas e Manjal Dimbi, uma montanha com significado espiritual para os povos autóctones.

“Agora somos capazes de proteger nosso ecossistema e, ao mesmo tempo, oferecer aos visitantes uma visão da vida, da cultura e das crenças das pessoas kuku yalanji e sua conexão com o entorno natural. Nossa ênfase está na sustentabilidade”, destacou Roy à IPS. Empresas indígenas sustentáveis como o Centro da Quebrada Mossman não só ajudam a proteger e preservar o ecossistema com tiram da pobreza setores vulneráveis da população, que sofrem abuso de álcool, violência de gênero, doenças crônicas, desemprego e altas taxas de suicídio.

Os adultos aborígines têm 15 vezes mais probabilidades de ir para a prisão do que os demais australianos. Cerca de metade dos jovens nos centros de detenção do país são indígenas. As mulheres indígenas são hospitalizadas por violência familiar 31 vezes mais do que o resto das australianas, segundo o informe anual oficial de 2014 sobre Justiça Social e Indígenas. Envolverde/IPS

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Jovens latino-americanos foco de estigmas e desigualdade http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/jovens-latino-americanos-foco-de-estigmas-e-desigualdade/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/jovens-latino-americanos-foco-de-estigmas-e-desigualdade/#comments Wed, 28 Jan 2015 12:30:31 +0000 Marianela Jarroud http://envolverde.com.br/?p=128445     Santiago, Chile, 28/1/2015 – Os jovens latino-americanos gozam de maior acesso e cobertura em educação, mas seu futuro fica obscuro pela queda de oportunidades enquanto são alvo da criminalidade em uma região onde 167 milhões de pessoas são pobres e 71 milhões sofrem de extrema pobreza. “Vemos com preocupação, inclusive com alarme”, a […]

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chica Cepal 629x417 Jovens latino americanos foco de estigmas e desigualdade

Jovens chilenos durante uma de suas numerosas e concorridas manifestações pedindo educação de qualidade, em Santiago, capital do país. Foto: Marianela Jarroud/IPS

 

Santiago, Chile, 28/1/2015 – Os jovens latino-americanos gozam de maior acesso e cobertura em educação, mas seu futuro fica obscuro pela queda de oportunidades enquanto são alvo da criminalidade em uma região onde 167 milhões de pessoas são pobres e 71 milhões sofrem de extrema pobreza.

“Vemos com preocupação, inclusive com alarme”, a situação dos jovens latino-americanos, afirmou à IPS a secretária-executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), Alicia Bárcena. “Acreditamos que a juventude deve ser tema central das próximas reuniões regionais, mas agora com uma visão distinta, não só com o olhar das drogas e da violência”, acrescentou.

Dados da Cepal mostram que um em cada quatro dos 600 milhões de habitantes da América Latina tem entre 15 e 29 anos. Apesar disso, o investimento em juventude é relativamente baixo, principalmente se comparado ao investimento público e privado em educação pós-secundária com a dos países emergentes do sudeste asiático, ou com países europeus.

O informe Panorama Social da América Latina 2014, apresentado no dia 26, na capital chilena, revela notáveis avanços na cobertura educacional dos jovens latino-americanos, mas reflete que eles continuam sofrendo maiores taxas de desemprego e menor proteção social do que os adultos. Além disso, estão entre as principais vítimas dos homicídios na região, onde ficam sete dos 14 países mais violentos do mundo.

O documento mostra que foi estancada a redução da pobreza, que continua afetando 28% da população regional, enquanto a indigência cresceu de 11,3% para 12%, com base nos 15 países com informação atualizada, embora, em contrapartida, tenha diminuído a desigualdade em quase todos eles.

Nesse contexto se encontra a situação da população jovem, próxima dos 160 milhões, que, apesar de a região ter iniciado um processo de envelhecimento, continuará sendo uma proporção muito significativa nas próximas décadas. Para essa população é necessário combater as persistentes brechas estruturais e as desigualdades no desenvolvimento de capacidades e no mundo do trabalho, destaca o informe.

Bárcena explicou que não se trata apenas de maior investimento social em educação, moradia ou saúde, mas de ir além, para matérias não tangíveis mas iguais em importância, como a participação dos jovens no desenho da política pública. “A transparência e a informação têm que ir além do que está acontecendo hoje”, ressaltou.

Apesar de contar com maior acesso à educação, os jovens da região continuam sendo um grande foco de iniquidades e desigualdade. Por exemplo, os jovens entre 15 e 29 anos, pertencentes aos três quintos de menor renda, apresentam taxas de desemprego entre 10% e 20%, enquanto naqueles com as maiores rendas oscila entre 5% e 7%. Além disso, somente 27,5% dos jovens dessa faixa etária têm acesso à previdência social, nível que chega a 67,7% no caso dos adultos entre 30 e 64 anos.

Jovenes desigualdad Cepal Jovens latino americanos foco de estigmas e desigualdade

A secretária-executiva da Cepal, Alicia Bárcena (centro), com outros funcionários do organismo durante a apresentação do Panorama Social da América Latina 2014, no dia 26, em Santiago, no Chile. Foto: Carlos Vera/Cepal

 

“A ideia é avançar em políticas sociais que contemplem o ciclo de vida completo e as diferentes prioridades que vão ocorrendo ao longo da trajetória de vida”, pontuou à IPS a oficial de Assuntos Sociais da Divisão de Desenvolvimento Social da Cepal, Daniela Trucco. E acrescentou que o diagnóstico e a análise sobre as políticas públicas na região devem ter um olhar territorial, porque a realidade é muito heterogênea.

Por exemplo, “os países do Cone Sul estão muito mais avançados, com juventude efetivamente muito mais educada, com problemas de desemprego, mas que se iguala ao desemprego entre adultos”, explicou Trucco. Em contraste, afirmou, “nos países centro-americanos a juventude não está nem mesmo terminando o secundário. A grande proporção de jovens e adolescentes está fora do sistema educacional e é aí onde temos os problemas de violência e de gangues muito mais fortes”.

Trucco afirmou que existem eixos fundamentais de trabalho em matéria de juventude, como o eixo educação-emprego. Mas, embora este seja o principal, não é o único. E explicou que “há uma proporção de jovens que não estão incorporados a esse eixo, mas isso não significa que nada fazem, mas que se dedicam, por exemplo, a empregos como cuidadores e trabalhodores domésticos, que é um tema muito importante para as mulheres jovens e adultas”.

O informe da Cepal indica que 22% dos jovens latino-americanos estão fora do eixo educação-emprego. Dessa proporção, mais de 50% correspondem a mulheres que se dedicam ao trabalho doméstico não remunerado. Outro eixo fundamental, além do acesso à saúde, é a participação, que busca que sejam os próprios jovens de cada país e localidade a ajudarem na melhor formulação de políticas públicas para eles.

“É preciso pensar de maneira moderna, atualizada, o tema de participação”, apontou Trucco. “Há muito interesse em participação política, mas não na política tradicional vinculada aos partidos políticos. É preciso considerar também o tema das redes sociais, a incorporação digital”, acrescentou.

Trucco destacou o trabalho da Cepal para combater dois estigmas sobre a juventude. O primeiro em relação àqueles jovens não incorporados ao eixo educação-emprego, e o segundo associado à violência juvenil. E, embora o maior índice de vítimas de homicídios esteja entre a população dos 15 aos 44 anos, o estigma sobre a violência juvenil distorce as opções de políticas públicas, indica o informe.

“Vemos que os jovens têm uma participação importante (na violência), mas também os adultos jovens”, disse Trucco. “Trata-se de jovens não incorporados em outros eixos de inclusão social, ou se estão, não com expectativas de outro tipo e que se veem imbuídos em contextos de violência ou de inclusão em outros grupos”, acrescentou.

De todo modo, a especialista pediu “uma mudança ao olhar o contexto da violência e com isso se supera como sociedade e como se dão alternativas de desenvolvimento e de oportunidades”. O olhar preconceituoso faz esquecer que os jovens são particulares vítimas da criminalidade, como evidencia o fato de, em média, 20% deles dizerem ter sido vítimas de fatos criminosos, quatro pontos mais do que os adultos.

Os cenários não são homogêneos, mas aumenta o número de vítimas jovens nos países onde há maior criminalidade, como ocorre nos sete que estão entre os 14 mais violentos do mundo: Honduras, Venezuela, Belize, El Salvador, Guatemala, Jamaica e Colômbia, nessa ordem. A lista de países de maior violência conta, ainda, com o México, destacou Bárcena em sua entrevista à IPS.

A secretária-executiva pediu “muita clareza” em relação à violência e a outros comportamentos dos jovens. “Os jovens não são necessariamente os mais violentos, é preciso tirar esse estigma. A juventude não pode estar identificada com a violência, com desapego às instituições. A juventude quer trabalhar, quer estudar, quer oportunidades, novas utopias e tem novas propostas”, ressaltou Bárcena. Envolverde/IPS

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Mulheres da tribo lambada lutam contra o tráfico infantil na Índia http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/mulheres-da-tribo-lambada-lutam-contra-o-trafico-infantil-na-india/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/mulheres-da-tribo-lambada-lutam-contra-o-trafico-infantil-na-india/#comments Wed, 28 Jan 2015 12:22:09 +0000 Stella Paul http://envolverde.com.br/?p=128441   Chandampet, Índia, 28/1/2015 – Aos 11 anos, Banawat Gangotri já tem quatro de experiência como trabalhadora agrícola. A menina, integrante da comunidade nômade dos lambada, do povoado de Bugga Thanda, no sul da Índia, colhia algodão e pimentas, das nove horas da manhã até as cinco da tarde, em troca de aproximadamente um dólar […]

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mulheresIndia Mulheres da tribo lambada lutam contra o tráfico infantil na Índia

As mulheres lambada, que nunca foram à escola, se esforçam para que suas filhas estudem. Quando uma menina se ausenta da escola por muito tempo, soa o alarme diante da possibilidade de trabalho ou tráfico infantil. Foto: Stella Paul/IPS

 

Chandampet, Índia, 28/1/2015 – Aos 11 anos, Banawat Gangotri já tem quatro de experiência como trabalhadora agrícola. A menina, integrante da comunidade nômade dos lambada, do povoado de Bugga Thanda, no sul da Índia, colhia algodão e pimentas, das nove horas da manhã até as cinco da tarde, em troca de aproximadamente um dólar por dia. A cada dia seu pai pegava o dinheiro e gastava com bebidas alcoólicas.

Mas, em meados deste mês, esse ciclo foi quebrado. Horas antes de seu pai levá-la a Guntur, distrito produtor de pimentas, a 168 quilômetros de distância, Gangotri foi resgatada e levada a uma escola internato na vizinha localidade de Devarakonda, onde agora cursa a quarta série.

Uma organização sem fins lucrativos, o Centro de Recursos Gramya para a Mulher, dirige a escola. Também mobiliza o povo lambada contra o tráfico de crianças, o abuso infantil e o infanticídio, práticas frequentes na comunidade do Estado de Telangana. A escola tem 65 crianças como Gangotri, resgatadas do trabalho infantil ou dos traficantes. “Gosto da escola. Quando crescer quero ser professora”, disse a menina à IPS.

O povoado de Gangotri é um dos apenas 40 em toda Índia a contar com um Comitê de Proteção Infantil, cujos 12 integrantes trabalham para prevenir o tráfico e o trabalho infantil escravo ou forçado. O Comitê, capacitado pelo Gramya nos direitos das crianças e das mulheres, vigia atentamente as meninas em idade escolar do lugar. Se uma delas deixa de ir à aula por duas semanas, soa o alarme: em geral, uma longa ausência significa que a menina foi destinada ao trabalho ou ao casamento.

Porém, a vigilância não consegue salvar todas. No mesmo dia do resgate de Gangotri, Banawat Nirosha, uma menina de 12 anos, desapareceu da aldeia de Mausanngadda. Seus pais, camponeses sem terra, a levaram com eles para trabalhar como colhedores de pimenta em Guntur. É provável que os pais voltem quando terminar a colheita em março, mas existe a possibilidade de acertarem o casamento por conveniência de sua filha em Guntur, segundo disseram à IPS vários aldeões.

Esses casos são comuns, mas o Comitê garante que as coisas melhoraram muito na aldeia, onde o infanticídio feminino e o tráfico de meninas eram generalizados há apenas 20 anos. Em março de 1999, após o resgate de 57 meninas lambada de uma rede de tráfico em Hyderabad, capital de Telangana, investigações policiais revelaram que, entre 1991 e 2000, cerca de 400 bebês da região foram vendidos e comprados em adoção, mas os ativistas temem que muitos tenham terminado como mão de obra escrava ou no comércio sexual da Índia.

Calcula-se que neste país três milhões de meninas “desaparecem” a cada ano devido aos abortos seletivos e ao infanticídio, e as meninas lambada correm um duplo risco. A fundadora do Gramya, em 1997, e ativista social de Hyderabad, Rukmini Rao, recorda alguns dos horrores que viu em seu trabalho, como ter impedido que uma família, que já lutava para manter quatro filhas, matasse duas gêmeas recém-nascidas em um povoado de Telangana.

Um estudo que Rao realizou concluiu que na localidade havia 835 meninas para cada mil meninos. Atualmente, graças à sensibilização e à vigilância da comunidade, essa proporção subiu para 983 para mil, bem acima da média nacional de 941 para mil. Entretanto, resta muito por fazer. Neste país, onde 50% da população tribal vive na pobreza, com menos de um dólar por dia, evitar que as famílias lambada matem ou vendam suas filhas é uma batalha morro acima.

Suma Latha, uma coordenadora do Gramya, com 14 anos de experiência na formação de mulheres lambada como ativistas pelos direitos da infância, contou à IPS que as grávidas costumam viajar para Hyderabad, onde vendem seus bebês recém-nascidos por alguns poucos milhares de rúpias, e de volta ao povoado dizem que a criança morreu ao nascer. “A venda é sempre contra a vontade da mãe, acertada pelo pai ou pela sogra”, explicou. Quando Gangotri foi resgatada, seu pai havia oferecido “dar” a menina por 15 mil rúpias, ou cerca de US$ 250.

De pele clara e olhos castanhos, as crianças lambada são muito solicitadas por casais sem filhos, em sua maioria procedentes das cidades, que estão dispostos a pagar generosamente por um bebê. Alguns acabam em casas de família, mas outros quase certamente caem em mãos de criminosos com fins sexuais.

“Os intermediários que compram os bebês se movem por dinheiro, não pela moral”, afirmou Lynette Dumble, uma médica australiana que estuda o infanticídio feminino na Índia há mais de 20 anos. “Assim, se os criminosos oferecem mais, as meninas acabam sendo vendidas”, acrescentou.

Os dados coletados por numerosas organizações revelam que Hyderabad, a cidade mais próxima dos povoados lambada, é um centro crescente de tráfico sexual. Em 2013, a polícia deteve 778 criminosos que se dedicavam a traficar pessoas e resgatou 558 vítimas, incluídas menores de idade, disse B. Prasada Rao, diretor da polícia do Estado de Andhra Pradesh, na fronteira com Telangana.

Embora isso represente apenas uma pequena parte do tráfico sexual infantil, estimado em cerca de US$ 43 bilhões em todo o país, a situação preocupa muito os ativistas da região. As mulheres lambada acreditam que a solução está na educação, e exortam as famílias a aproveitarem o sistema escolar público e os subsídios estatais para aumentar o número de meninas matriculadas nas zonas rurais.

Entretanto, igualmente importante, segundo os investigadores, é dar alternativas às comunidades marginalizadas. Dados oficiais indicam que 90% da população tribal da Índia não tem terras. No distrito de Nalgonda, onde a família de Gangotri mal subsiste, 87% da população tribal não é dona da terra. Se a terra não produz o suficiente para a subsistência, as famílias, inevitavelmente, buscarão sustento em outra parte.

“Se não há nada para comer e não temos terra para plantar alimentos, quais opções temos a não ser enviar nossos filhos para ganharem o pão?”, questionou Khetawat Jamku, uma mulher lambada de 50 anos. Envolverde/IPS

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ONU dá luz verde a um tratado sobre águas de alto mar http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/onu-da-luz-verde-a-um-tratado-sobre-aguas-de-alto-mar/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/01/ultimas-noticias/onu-da-luz-verde-a-um-tratado-sobre-aguas-de-alto-mar/#comments Tue, 27 Jan 2015 12:48:56 +0000 Thalif Deen http://envolverde.com.br/?p=128336     Nações Unidas, 27/1/2015 – Depois de quatro dias de intensas negociações, precedidas por nove anos de idas e vindas, a Organização das Nações Unidas (ONU) acordou convocar uma conferência intergovernamental a fim de redigir um tratado juridicamente vinculante que conserve a vida marinha e regule as águas de alto mar que estão fora […]

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medusa 629x222 ONU dá luz verde a um tratado sobre águas de alto mar

Como um fantasma na noite, esta medusa se desloca perto do fundo marinho do cânion de Barkley, diante da costa ocidental do Canadá, a 892 metros de profundidade. Foto: CSSF/NEPTUNE Canadá/cc by 2.0

 

Nações Unidas, 27/1/2015 – Depois de quatro dias de intensas negociações, precedidas por nove anos de idas e vindas, a Organização das Nações Unidas (ONU) acordou convocar uma conferência intergovernamental a fim de redigir um tratado juridicamente vinculante que conserve a vida marinha e regule as águas de alto mar que estão fora de toda jurisdição nacional.

A decisão final foi tomada nas primeiras horas da manhã do sábado, dia 24, enquanto o restante da ONU já havia entrado no descanso de final de semana. O Grupo de Trabalho Especial que negociou o acordo começou a trabalhar em 2006. A Aliança de Alto Mar, uma coalizão de 27 organizações não governamentais, e a União Internacional para a Conservação da Natureza, tiveram muito a ver com o progresso das negociações do tratado proposto.

Karen Sack, diretora da organização humanitária The Pew Charitabel Trusts, uma integrante da coalizão, afirmou à IPS que um Comitê Preparatório, que compreende os 193 Estados membros da ONU, começará a trabalhar em 2016. Mas esclareceu que não houve consenso quanto a “um prazo final para completar o tratado”.

Segundo Sack, “as negociações sempre são difíceis, mas em quase uma década houve muitas conversações sobre as questões em análise e definitivamente há alguns assuntos nos quais se poderia avançar rapidamente”. O Comitê Preparatório apresentará em 2017 um informe da Assembleia Geral com recomendações substanciais sobre a convocação de uma conferência intergovernamental com o propósito de redigir um instrumento internacional juridicamente vinculante.

As conversações concluídas no dia 24 tiveram a resistência inicial de vários países, entre eles Canadá, Coreia do Sul, Estados Unidos, Japão e Rússia, e em certa medida Islândia, segundo relatou um dos participantes da reunião. Mas, com o tempo, esses países se somaram à grande maioria de Estados favoráveis à redação de um tratado que regule as águas internacionais ou de alto mar.

tiburon ONU dá luz verde a um tratado sobre águas de alto mar

Um tubarão touro em Shoal Bay, Nova Gales do Sul, Austrália. Foto: Klaus Stiefel/cc by 2.0

De todo modo, esses países resistiram à adoção de um processo de negociação com prazos determinados. “Com relação aos Estados Unidos, em particular, estamos muito contentes por ver que finalmente mostram flexibilidade e esperamos que, ao avançar, encontrem uma maneira de apoiar um cronograma mais ambicioso”, opinou à IPS Sofia Tsenikli, assessora do Greenpeace Internacional.

Em um comunicado divulgado no dia 24, a Aliança de Alto Mar afirma que o avanço aconteceu apesar da pressão de um pequeno grupo de governos que questionou a necessidade de um novo marco legal. “Essa minoria bloqueou um acordo sobre um calendário mais rápido que reflete o imperativo científico claro para a ação, mas todos os países concordaram com a necessidade de agir”, acrescentou. Os membros da Aliança elogiaram a decisão de seguir adiante com o tratado.

Lisa Speer, diretora de programa de oceanos internacionais do Conselho para a Defesa de Recursos Naturais, pontuou que muitos Estados realizaram grandes esforços para proteger a metade do planeta que constituem as águas internacionais. “Sabemos que estes Estados continuarão defendendo a necessidade urgente de uma proteção maior” neste processo, acrescentou.

Daniela Diz, do Fundo Mundial para a Natureza, considerou que a decisão foi um passo fundamental para a conservação dos oceanos. “Agora podemos olhar para um futuro no qual levaremos a conservação desses bens comuns globais para o beneficio de toda a humanidade”, afirmou. “Armados com novos conhecimentos, estamos dando os primeiros passos para proteger as águas de alto mar e manter o mundo seguro para nossos filhos”, afirmou Sylvia Earle, da organização ecológica Mission Blue.

O resultado da reunião terá que ser aprovado pela Assembleia Geral em setembro, algo que é considerado uma formalidade.

As águas de alto mar são os mares que estão além da zona econômica exclusiva dos países, que constituem 64% dos oceanos, e o fundo marinho que há fora da plataforma continental de um país, explica um informe divulgado pela Aliança de Alto Mar. Essas áreas representam quase 50% da superfície da Terra, e incluem alguns dos ecossistemas mais importantes, mais ameaçados e menos protegidos do planeta.

Somente um tratado internacional sobre a biodiversidade dos mares internacionais abordaria o atual contexto legal e institucional, insuficiente, fragmentado e mal implantado, que não protege os mares internacionais das numerosas ameaças que enfrentam no século 21. Envolverde/IPS

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