IPS em português http://www.ipsnoticias.net/portuguese Jornalismo e comunicação para transformar o mundo Fri, 15 Mar 2019 21:48:52 +0000 en-US hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.2.23 “Pessoas afetadas pela hanseníase sofrem múltiplas discriminações” http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2019/03/ultimas-noticias/pessoas-afetadas-pela-hanseniase-sofrem-multiplas-discriminacoes/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2019/03/ultimas-noticias/pessoas-afetadas-pela-hanseniase-sofrem-multiplas-discriminacoes/#comments Fri, 15 Mar 2019 21:44:13 +0000 Fabiana Frayssinet http://www.ipsnoticias.net/portuguese/?p=22486 RIO DE JANEIRO,  (IPS) – “Existem mais de 50 países com leis discriminatórias contra as pessoas afetadas pela hanseníase, e há muita discriminação também na administração do Estado e na sociedade”, disse em entrevista à IPS Alice Cruz, relatora especial das Nações Unidas para a eliminação da discriminação contra as pessoas afetadas pela hanseníase e [...]

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RIO DE JANEIRO,  (IPS) – “Existem mais de 50 países com leis discriminatórias contra as pessoas afetadas pela hanseníase, e há muita discriminação também na administração do Estado e na sociedade”, disse em entrevista à IPS Alice Cruz, relatora especial das Nações Unidas para a eliminação da discriminação contra as pessoas afetadas pela hanseníase e suas famílias.

A relatora especial, de origem portuguesa, foi uma das participantes especiais do I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades de Pessoas Afetadas pela Doença de Hansen, também conhecida como lepra, realizado entre os dias 12 e 14 de março, na cidade brasileira do Rio de Janeiro.

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Afetados pela hanseníase na América Latina se unem por direitos e voz http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2019/03/america-latina/afetados-pela-hanseniase-na-america-latina-se-unem-por-direitos-e-voz/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2019/03/america-latina/afetados-pela-hanseniase-na-america-latina-se-unem-por-direitos-e-voz/#comments Fri, 15 Mar 2019 21:19:02 +0000 Mario Osava http://www.ipsnoticias.net/portuguese/?p=22480 RIO DE JANEIRO, 14 de março de 2019 (IPS) – Com a decisão de fundar uma coalizão regional para promover direitos e maior participação em fóruns e decisões nacionais e internacionais, concluiu-se o I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades de Pessoas Afetadas pela Hanseníase, popularmente conhecida e estigmatizada como lepra.

A sessão final do [...]

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RIO DE JANEIRO, 14 de março de 2019 (IPS) – Com a decisão de fundar uma coalizão regional para promover direitos e maior participação em fóruns e decisões nacionais e internacionais, concluiu-se o I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades de Pessoas Afetadas pela Hanseníase, popularmente conhecida e estigmatizada como lepra.

A sessão final do encontro, no dia 14, aprovou 40 das 58 propostas apresentadas em três dias de debates pelos 111 participantes, na sede da Fundação Oswaldo Cruz, renomado centro de pesquisas científicas, médicas e epidemiológicas da cidade brasileira do Rio de Janeiro.

José Picanço, de 46 anos, separado de sua família e entregue recém-nascido a um orfanato porque seus pais foram diagnosticados com a doença em 1972, é uma das pessoas cujos direitos a uma reparação ainda não foram cumpridos, assim como de seus três irmãos.

Quando a família conseguiu se encontrar novamente, oito anos depois, o pai rejeitou os filhos. A mãe acolheu-os, mas morreu pouco depois. “Eu só vivi cinco meses com ela, uma santa”, lembrou Picanço, mal contendo as lágrimas durante seu depoimento no encontro.

“Humilhados como filhos de leprosos, sofrendo assédio escolar e sexual, muitos dos meus companheiros de orfanato entraram na droga, alcoolismo. Foi um holocausto”, disse Picanço. “Eu acertei meu irmão na cabeça, sem saber que ele era meu irmão”, lamentou.

“Das 15 mil a 20 mil crianças separadas de suas famílias, mais de 80% sofrem de depressão”, informou Picanço em entrevista à IPS, detalhando parte dos danos causados pela antiga regra de segregar os chamados leprosos.

O isolamento obrigatório foi generalizado no mundo, durante diferentes períodos históricos, e continua em alguns países, mesmo depois de se saber que a doença tem cura e deixa de ser contagiosa pouco depois de se iniciar o tratamento.

Oficialmente, o Brasil aboliu essa prática em 1976, mas de fato ela permaneceu por mais dez anos. Suas vítimas diretas foram compensadas a partir de 2007, mas não seus filhos. Estimular políticas de reparação para crianças separadas, propuseram os ativistas reunidos no Rio de Janeiro.

Suas reivindicações e propostas serão levadas em setembro ao Congresso Mundial das associações de pessoas afetadas, a ser realizado em Manila, nas Filipinas, que também vai acolher as contribuições da África e da Ásia, aprovadas em encontros semelhantes realizados anteriormente.

“O objetivo é formar uma grande rede de ativistas, para fortalecer o movimento” pela erradicação da doença e os cuidados para as pessoas afetadas, destacou Kiyomi Takahashi, da Fundação Nippon, que promove o processo internacional de debates e cooperação.

A reunião no Rio de Janeiro levou a um “diálogo de alto nível, resultado da longa história de atividades do Morhan e da Felehansen”, admitiu a especialista japonesa à IPS, referindo-se ao Movimento de Reintegração das Pessoas Afetadas pela Hanseníase, do Brasil, e a Federación de Entidades de Personas Afectadas por la Lepra, da Colômbia, os dois organizadores do encontro regional.

 

Afetados pela hanseníase na América Latina se unem por direitos e voz

Os brasileiros José Picanço (em primeiro plano) e Evelyne Leandro deram seu testemunho sobre a maneira diferente como foram afetados pela doença de Hansen, durante um encontro latino-americano e caribenho sobre o assunto, na cidade brasileira do Rio de Janeiro. Picanço foi separado de seus pais, que tinham lepra, ao nascer, em 1972, e só pôde estar com eles oito anos depois, pouco antes de sua mãe morrer. Leandro escreveu um livro sobre as dificuldades de ser diagnosticado com a doença na Alemanha, onde mora. Crédito: Mario Osava/IPS

 

“O Morhan é meu porto seguro para propagar que crianças separadas devem ser ouvidas e ter oportunidades”, pontuou Picanço, lembrando que ingressou no movimento em 1992. Hoje ele dá palestras sobre os efeitos diretos e indiretos do estigma que ainda hoje a doença acarreta para os afetados e seus familiares.

 

Uma benção

A doença “foi uma bênção para mim”, testemunhou à IPS Isaías Dussan Weck, vice-presidente da colombiana Felehansen, de 50 anos. O diagnóstico, em 2006, derrubou-o, contou. Ele perdeu o desejo de trabalhar ou sair, deixou falir seu negócio de fornecimento de produtos de limpeza, e até pensou em suicídio. Ele ignorou as manchas em seu corpo que não o impediam de trabalhar e viajar, até que se espalharam para o rosto, e ele notou partes insensíveis.

Foi tratado e curado, deixando apenas uma certa insensibilidade no braço e dores na perna esquerda. Mas tudo foi mal até que foi convidado para reuniões com outros pacientes ou portadores de sequelas. “Comecei a entender, ouvindo seus testemunhos e prantos, porque uma garota negra com deficiências severas disse que a lepra foi uma bênção para ela”, explicou Dussan.

O ativismo em benefício dos afetados, contra os estigmas e os danos causados pela doença, na associação do departamento de Huila, no sudoeste da Colômbia, permitiu a ele “ganhar novo sentido para a vida, conhecer e praticar o verdadeiro amor ao próximo”.

“Ajudar e ver melhorar a vida de um paciente é uma emoção maravilhosa, levar vontade de viver para outras pessoas”, concluiu. Essa nova paixão levou-o à Felehansen e a assumir funções de liderança na federação.

Uma experiência semelhante foi experimentada por sua compatriota Irma Romero, 42 anos, presidente da Fundação Nuevo Amanecer, de Barranquilla, na costa norte da Colômbia. Sua longa odisseia, até o diagnóstico de um especialista há cinco anos, revela a incapacidade do sistema médico de atender a chamada hanseníase, doença ainda encarada como “um castigo divino”.

Romero parou de trabalhar na indústria têxtil devido a uma deficiência e à depressão. “Eu nem podia andar”, lembrou. “Até reneguei a Deus”, confessou à IPS. Um tratamento com plantas medicinais, automedicação, a rejeição de familiares, tentativas de separá-la dos dois filhos e o abandono do marido compuseram seu martírio, que não terminou com o tratamento e a cura.

Fisicamente só restou insensibilidade nas mãos e nos pés, bem como dores no nervo ciático, mas a discriminação continuou. “Minha vida mudou ao entrar na associação das pessoas afetadas”, há quatro anos. “Lá encontrei afinidades, despertou-me um amor pelo meu próximo que não sentia antes”, disse a ativista, que chegou à presidência da fundação no ano seguinte e reconciliou-se com Deus.

 

Afetados pela hanseníase na América Latina se unem por direitos e voz

A colombiana Irma Romero, natural da cidade de Barranquilla, no ônibus que serviu de transporte para os participantes do I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades de Pessoas Afetadas pela Hanseníase, realizado entre os dias 12 e 14 de março na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil. Crédito: Mario Osava / IPS

 

Sua fundação possui 60 associados, com adesões e abandonos frequentes. Em Barranquilla, ela estima que há “cerca de 200 afetados, mas muitos mais ocultos”. Esta é uma das dez associações que compõem a Felehansen, das quais oito abordam a enfermidade como hanseníase ou doença de Hansen, uma fala lepra e outra deficientes, mas que de fato limita-se àqueles que têm diagnóstico tardio.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a lepra, como a denomina, como uma doença infecciosa e crônica, que “não é muito contagiosa” e “é transmitida por meio de gotículas nasais e orais durante contato próximo e frequente com casos não tratados”. Seus últimos registros indicam que, em 2017, houve 211.009 novos casos globais, segundo dados oficiais de 159 países. Isso corresponde a 0,3 casos por dez mil habitantes, o que o torna “eliminado”, segundo o critério da OMS.

 

Mudança de denominação, outra proposta

Propor a hanseníase como denominação oficial é uma das propostas do encontro latino-americano, liderado pelo Brasil que já a adotou, proibindo inclusive a menção a lepra no sistema de saúde desde 1995.

São conceitos diferentes, porque lepra e leproso têm conotações muito negativas, de “sujeira, praga, impurezas e punição divina”, reforçadas por numerosas menções com essa carga moral na Bíblia, argumentou Faustino Pinto, um dos coordenadores nacionais do Morhan.

Os colombianos, no entanto, não estão convencidos dessa mudança. “As pessoas só conhecem a lepra, não sabem o que é hanseníase. Para levar e explicar a questão para a população, é preciso dizer lepra”, argumentou Romero.

“Teremos que educar as novas gerações com o conceito de Hansen”, ressaltou o médico norueguês Gerhard Hansen, que descobriu o bacilo causador da doença, porque os adultos dificilmente esquecerão o estigma. “É mais difícil desaprender do que aprender”, opinou Dussan.

Outra proposta do Encontro é ampliar o atual Comitê de Assistência ao Imigrante Brasileiro Afetado pela Hanseníase a todos os latino-americanos e caribenhos, além de estendê-lo a outras regiões. A referência dessa questão é Evelyne Leandro, uma brasileira de 37 anos que vive na Alemanha há nove anos e teve muitas dificuldades para ser diagnosticada com a doença em um país onde é muito rara e quase não há médicos que a conhecem.

Ela foi ajudada pela suspeita da mãe, informada no Brasil por uma campanha de divulgação sobre a doença, e pela existência de institutos de medicina tropical na Alemanha. Seu caso e o de outros imigrantes na Europa estão relacionados em seu livro Hanseníase, a Luta Contra uma Doença há Muito Esquecida.

Edição: Estrella Gutiérrez

 

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Na América Latina permanece um fardo simbólico e bíblico contra a lepra http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2019/03/ultimas-noticias/na-america-latina-permanece-um-fardo-simbolico-e-biblico-contra-a-lepra/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2019/03/ultimas-noticias/na-america-latina-permanece-um-fardo-simbolico-e-biblico-contra-a-lepra/#comments Thu, 14 Mar 2019 12:26:36 +0000 Correspondentes da IPS http://www.ipsnoticias.net/portuguese/?p=22388 RIO DE JANEIRO, 13 de março de 2019 (IPS) – Cientificamente conhecida como doença de Hansen, a hanseníase carrega uma carga simbólica do passado, que hoje os afetados e especialistas no assunto da América Latina buscam derrubar, inclusive no uso da linguagem.

O debate ocorreu no âmbito do I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades [...]

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RIO DE JANEIRO, 13 de março de 2019 (IPS) – Cientificamente conhecida como doença de Hansen, a hanseníase carrega uma carga simbólica do passado, que hoje os afetados e especialistas no assunto da América Latina buscam derrubar, inclusive no uso da linguagem.

O debate ocorreu no âmbito do I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades de Pessoas Afetadas pela Doença de Hansen, realizado na cidade brasileira do Rio de Janeiro, entre os dias 12 e 14 de março, em um painel chamado Hanseaníase versus Lepra.

“As pessoas ainda usam o termo lepra como um forte instrumento de preconceito e discriminação, o que faz com que os afetados tenham medo e não busquem atenção médica e tratamento precoce”, explicou à IPS Francisco Faustino, um brasileiro tratado e curado da doença.

O ativista faz parte do Movimento de Reintegração de Pessoas Afetadas pela Hanseníase (Morhan), que organizou o Encontro junto com a Federación de Entidades de Personas Afectadas por la Lepra, da Colômbia.

O evento reúne instituições internacionais e representantes de sete países da América Latina, juntamente com outros do Norte industrial e conta com o apoio especial do Ministério da Saúde brasileiro e da Fundação Nippon, que acompanha o processo de encontros regionais para um Congresso Mundial sobre a doença, a ser realizado nas Filipinas, em setembro.

O Brasil é o único país que substituiu a palavra lepra em suas campanhas de saúde. Doença de Hansen ou hanseníase é normalmente utilizada como terminologia oficial na maioria dos países, juntamente com a de lepra, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) usa doença de Hansen como segunda denominação, mas ainda privilegiando o nome mais tradicional.

Além de sua denominação, o Brasil é o único país das Américas que, de acordo com dados oficiais, não eliminou a doença e concentra 95% dos cerca de 30 mil novos diagnósticos por ano no continente. Entidades como a Sociedade Brasileira de Hansenologia consideram que pode haver quatro ou cinco vezes mais novos casos por ano sem registro, enquanto a OMS considera erradicada a doença quando detectado menos de um caso por dez mil habitantes.

Faustino atribui isto, em grande medida, ao “preconceito que ainda existe nesse termo”. “Esperamos que a comunidade de saúde mude sua posição e que comece a tratar a doença como uma patologia que tem diagnóstico, tem tratamento, tem cura”, incentivou. A pessoa continua sofrendo os estigmas e discriminações, mesmo quando está curada. “Ainda se pensa que é uma doença contagiosa apenas com o contato, pela aproximação”, destacou a título de exemplo.

Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPS), essa doença “não é muito contagiosa” e “é transmitida pelas gotículas nasais e orais em contatos próximos e frequentes com casos não tratados”. A OMS e a OPS explicam em fascículos informativos conjuntos que a lepra é causada pela bactéria Mycobacterium lepra, também conhecida como bacilo de Hansen, é infecciosa e crônica, evolui lentamente, com um tempo médio de incubação de cinco anos e sintomas que podem aparecer até 20 anos depois.

 

Na América Latina permanece um fardo simbólico e bíblico contra a lepra

O brasileiro Francisco Faustino, que tinha lepra e curou-se completamente, é um ativista para substituir esse termo por hanseníase, por causa da carga simbólica do nome tradicional, como propôs durante um painel especial no I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades de Pessoas Afetadas pela Doença de Hansen, realizado na cidade brasileira do Rio de Janeiro. Crédito: Fabiana Frayssinet/IPS

 

A doença afeta principalmente a pele, os nervos periféricos, a mucosa das vias respiratórias e os olhos, podendo causar lesões progressivas e permanentes nessas áreas se não for tratada. Artur Custódio, coordenador da brasileira Morhan, lembrou que, na antiguidade, era considerada como lepra um conjunto de doenças como sífilis, elefantíase, vitiligo e a hoje chamada hanseníase.

“A lepra bíblica refere-se à escamação, sujeira, pecado, e a hanseníase não é nada disso. Temos que dar um novo significado a essa doença para enfrentar e combater o estigma. A palavra tem força”, argumentou Custódio em diálogo com a IPS. “Nós não vamos mudar os conceitos dos filmes de Hollywood sobre leprosos, ou as histórias bíblicas. O que temos que mudar também são as atitudes. É como se tivéssemos que criar um novo conceito, trabalhar um novo produto. Nenhum banco seria chamado de ‘banco falido sociedade anônima’ porque todos estariam com medo de colocar dinheiro nesse banco”, comparou.

Para Custódio, essa discussão sobre o nome e o ônus de seu significado também ocorre em países como a Colômbia, o Japão ou os Estados Unidos. “Este é um movimento importante. As palavras trazem estigma. O nome é uma estratégia”, resumiu.

O também brasileiro Luciano Curi, do governamental Instituto Federal do Triângulo Mineiro, fez uma pesquisa para seu doutorado sobre a história da lepra – antiga, medieval e moderna – que o levou a estar “convencido” de que essa imagem não se refere à hanseníase atual.

“Essa abordagem como sinônimo, além de não ter um fundamento histórico e científico, é muito perigosa. A lepra do mundo antigo e medieval era pensada a partir de uma matriz religiosa. Correspondia ao impuro. E hanseníase foi pensada a partir do pensamento médico. As primeiras obras médicas datam do século 19, quando a doença começou a ser compreendida cientificamente”, explicou Curi à IPS.

Uma imagem, lembrou Curi, existia em várias populações antigas da região mesopotâmica, no Egito e também entre os hebreus, atribuindo “algum tipo de contaminação espiritual” e designando um padre para expulsá-la.

No Brasil e em outros países da América Latina, essa definição levou-os da exclusão ao isolamento em leprosários, separados de todos, inclusive de suas famílias, até meados do século 20.

Segundo Curi, a “mudança de terminologia é urgente e necessária”. Nesse sentido, apontou que o Brasil foi pioneiro ao mudar outras terminologias. “Não dizemos mais loucura, dizemos doença mental, não dizemos mais peste. Esse esforço em todo o mundo é importante. O nome não é uma questão menor”, resumiu.

Jorge Domínguez, representante do Ministério da Saúde do Peru, também opinou à IPS que o nome “lepra” não contribui para a ida espontânea dos pacientes aos postos de saúde. Em seu trabalho de dez anos como coordenador regional de hanseníase, na província de Alto Amazonas, na fronteira com o Equador, ele testemunhou inúmeros casos de pessoas “escondendo-se” das autoridades de saúde por medo de serem enviadas para os “leprosários”, como eram chamadas essas instituições já abolidas em alguns países latino-americanos.

“A mesma coisa foi vivida nos tempos de Cristo, quando os leprosos eram banidos e isolados. O mesmo aconteceu na selva. Quando fui trabalhar, uma vez fiz uma visita e havia uma pessoa que tinha lepra e sua família a discriminava. Havia sido feito um quarto e passavam a comida por baixo da porta”, contou Domínguez, que é enfermeiro.

“A falta de conhecimento das pessoas com relação à doença era muito grande”, apontou Domínguez, acrescentando que, em sua rede de saúde, começaram a trabalhar “essa questão do estigma e da rejeição”, treinando em primeiro lugar médicos e enfermeiros, “porque havia alguns que, quando viam um paciente com lepra, escondiam-se”.

Essa campanha diminuiu a ocorrência de hanseníase registrada em sua região, de 35 a 45 no ano passado, para entre oito e dez novos casos hoje. “Por mais que tenhamos divulgado por meio da mídia, muitas pessoas ainda se assustam. Mudar a terminologia ajudaria as pessoas a não serem mais discriminadas”, disse Domínguez.

Porém, além da linguagem, Domínguez acredita que a pesquisa sobre essa doença, da qual sabe-se muito pouco, deve ser reforçada. “Por que afeta algumas pessoas mais do que outras? Por que no Brasil há tantos casos e são tão poucos no Peru e não se contagiam mesmo estando em lugares da fronteira comum?”, questionou.

“Também é importante fortalecer a comunicação, a informação para a população. A hanseníase tem tratamento gratuito de seis meses a um ano, tem cura e até pessoas que chegam com sequelas podem amenizá-las”, concluiu Custódio.

 

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Estigma persegue portadores de hanseníase na América Latina http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2019/03/america-latina/estigma-persegue-portadores-de-hanseniase-na-america-latina/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2019/03/america-latina/estigma-persegue-portadores-de-hanseniase-na-america-latina/#comments Thu, 14 Mar 2019 09:01:38 +0000 Mario Osava http://www.ipsnoticias.net/portuguese/?p=22383 RIO DE JANEIRO, 12 de março de 2019 (IPS) – O estigma e a discriminação são feridas sociais que se busca exorcizar no I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Pessoas Afetadas pela Doença de Hansen, também conhecida como lepra, um termo já abandonado pelos especialistas no Brasil, onde o evento reúne centenas de ativistas.

Os [...]

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RIO DE JANEIRO, 12 de março de 2019 (IPS) – O estigma e a discriminação são feridas sociais que se busca exorcizar no I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Pessoas Afetadas pela Doença de Hansen, também conhecida como lepra, um termo já abandonado pelos especialistas no Brasil, onde o evento reúne centenas de ativistas.

Os direitos e a integração dessas pessoas em todos os aspectos da Estratégia Mundial para a Hanseníase 2016-2020, da Organização Mundial de Saúde (OMS), são os temas do encontro, realizado na cidade brasileira do Rio de Janeiro, entre os dias 12 e 14 de março. Nesta reunião serão estabelecidas as estratégias da região, assim como em outros encontros que já aconteceram nas últimas semanas na Ásia e na África.

O objetivo é que todas as experiências e propostas se alinhem para o Congresso Mundial sobre a doença, a ser realizado nas Filipinas em setembro, destacou durante a sessão de abertura Kiyomi Takahashi, da Fundação Nippon, que dá um suporte especial ao encontro.

O Brasil ocupa uma posição de destaque nesse debate, pois é considerado o único país que ainda não eliminou a doença e registra a maior incidência no mundo, com 25 mil a 30 mil novos casos por ano, 95% do total das Américas, de acordo com dados oficiais.

É um número inaceitável de “uma doença que tem cura e é tratada no sistema de saúde pública”, destacou Artur Custódio, coordenador do brasileiro Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), que organizou a reunião latino-americana junto com a Federación de Entidades de Personas Afectadas por la Lepra, da Colômbia.

Além disso, o Brasil destaca-se por abolir a palavra lepra, que carrega uma alta carga acumulada de preconceitos. Desde 1995, a lepra passou a ser referida como hanseníase, ou doença de Hansen, no país, embora a Organização Mundial de Saúde e a Organização das Nações Unidas geralmente usem ainda o termo lepra para designar a doença.

 

Estigma persegue portadores de hanseníase na América Latina

Vista parcial dos participantes do I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades de Pessoas Afetadas pela Doença de Hansen, de sete países da região e organizações internacionais. É a primeira vez que ativistas regionais se reúnem para propor políticas em defesa da dignidade das pessoas afetadas pela hanseníase. Crédito: Mario Osava/IPS

 

Claudio Salgado, presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia, considera adequado que o Brasil não esteja entre os países que classificam a doença como eliminada, uma vez que o critério é de menos de um caso para cada dez mil habitantes.

As estatísticas mascaram a realidade de uma doença que permanece oculta. Elas apontam que, de 5,3 milhões de casos em 1980, houve uma queda para 597 mil em 2001, mas não atingiram a meta de eliminação prevista pela OMS até o ano 2000.

Os dados oficiais indicam que, de 2003 a 2005, os casos recuaram quase 65% no mundo, caindo para 169.709, um resultado considerado “impossível em epidemiologia”, explicou Salgado à IPS. Para ele, quando o combate a uma doença como a hanseníase é adequado, sua incidência cai de forma constante, mas de forma lenta e regular, não abruptamente ou em saltos, detalhou.

Os números nem sempre dão uma real dimensão da realidade. Como exemplo Salgado mostrou os dados da cidade de Palmas, capital do Estado do Tocantins, onde um esforço para o diagnóstico precoce apontou um aumento entre 2013 e 2016, de 41,9 casos para 219 casos por dez mil habitantes. Isso significa, segundo ele, que, quando se decide tratar a doença seriamente, o número de pessoas afetadas aumenta.

Outro indicador do Brasil mostra um problema adicional: há 39% de “demanda espontânea” por tratamento, o que aponta para a falta de informação e assistência. Isso ocorre porque as consultas espontâneas ocorrem em “casos avançados de sequelas já aparentes”, difíceis de tratar e por vezes incapacitantes, ressaltou Salgado.

“A meta de eliminação em 2000 teve um efeito positivo, ampliando iniciativas e programas de informação e assistência. Mas declarar que a meta foi alcançada gerou o efeito colateral de abandono do compromisso”, lamentou Salgado, que atua como professor da Universidade Federal do Pará, na Amazônia brasileira. Para ele, essa situação está levando à perda de conhecimentos, com redução da pesquisa em universidades e dos serviços de prevenção e tratamento. Somando-se a isso o estigma da doença, a tendência é que o número de casos volte a crescer.

Faltam pesquisas para explicar porque a doença afeta tantas pessoas no Brasil e tem baixa incidência do outro lado das fronteiras, disse Jorge Dominguez Sobrino, do Ministério da Saúde do Peru, que trabalha na prevenção e tratamento da hanseníase na província de Alto Amazonas, na fronteira com o Equador. “Talvez diferenças genéticas sejam uma causa”, ponderou à IPS.

No Peru, o número de novos casos indica a “eliminação”, mas há alta predominância em algumas províncias, especialmente em cidades pequenas. “Há uma grande prevalência oculta”, reconheceu Sobrino.

 

Estigma persegue portadores de hanseníase na América Latina

Norah Salcedo (D), da Bolívia, e Silvia Uieacu, do Peru, participantes da primeira
reunião de pessoas afetadas pela hanseníase, a lepra, queixaram-se da precariedade da
assistência em seus países para pessoas que têm a doença. Crédito: Mario Osava/IPS

 

O diagnóstico precoce é um direito primário em relação à hanseníase, concordaram Salgado e Custódio. Será necessário rever e mudar algumas bases das estratégias para eliminar a doença. Uma preocupação dos especialistas é a identificação de muitos casos em crianças, indicando contágio por parentes ou pessoas próximas não diagnosticadas.

Uma contradição nos dados oficiais é exatamente que muitos países, que declararam ter baixado a hanseníase a uma taxa inferior a um caso por dez mil habitantes, apontam um número preocupante de crianças afetadas.

Além disso, onde há menos casos registrados, como no sul do Brasil e em outros países latino-americanos, são mais sérios os danos nos afetados, devido ao diagnóstico tardio, quando os efeitos já estão instalados, como perda de nervos periféricos, dedos ou membros inteiros.

A hanseníase, presente na humanidade desde tempos imemoriais, é uma doença infecciosa e crônica, causada pelo bacilo Mycobacterium leprae, como definido pela OMS, que afeta principalmente a pele, os nervos periféricos, a mucosa das vias aéreas superiores, os olhos e outras estruturas.

Norah Salcedo, da cidade de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, é uma das pessoas que sofreram danos irreversíveis nos membros e precisa de muletas. “Não há tratamento adequado no meu país, os pacientes continuam a perecer sem assistência”, queixou-se à IPS.

 

 

A Bolívia é um país que “eliminou” a hanseníase, de acordo com dados oficiais. A ignorância sobre a doença é grande, reconheceu Salcedo, assim como a peruana Silvia Uieacu.

Sete países latino-americanos estão representados nesta primeira reunião regional dos afetados, que reúne autoridades de saúde e representantes de organizações internacionais, como a Organização Pan-Americana de Saúde, e instituições japonesas, especialmente a Fundação Nippon, além de especialistas da Alemanha e Estados Unidos.

O Brasil também atrai a atenção internacional por conta da compensação para as vítimas do sistema de segregação nos chamados leprosários, onde os doentes eram isolados. Essa prática foi mantida por lei no país até 1986, embora já se soubesse sobre a possibilidade de cura desde 1941 e que o tratamento interrompe a infecção.

Desde 2007, o Estado brasileiro compensa as pessoas isoladas, mas agora a organização Morhan procura estender a reparação aos filhos que foram separadas de seus pais. Estima-se que cerca de 16 mil crianças sofreram essa separação forçada.

São políticas que interessam aos movimentos semelhantes em outros países da América Latina, explicaram os participantes durante os debates do primeiro dia.

Muitas pessoas segregadas nesses “leprosários” continuaram a viver neles depois da desativação, porque eles não têm chance de voltar para suas comunidades de origem ou de reconstruir suas vidas, destacaram os ativistas.

Edição: Estrella Gutiérrez

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América Latina e Caribe alinham ações para cumprir metas globais de educação http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2019/03/ultimas-noticias/america-latina-e-caribe-alinham-acoes-para-cumprir-metas-globais-de-educacao/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2019/03/ultimas-noticias/america-latina-e-caribe-alinham-acoes-para-cumprir-metas-globais-de-educacao/#comments Thu, 07 Mar 2019 21:50:10 +0000 IPS Correspondent http://envolverde.cartacapital.com.br/?p=235174 Garantir progresso regional para atingir as metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 4 — assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas e todos — foi o norte do 1º Encontro do Comitê Regional de Gestão do ODS-E2030 para a América Latina [...]

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Garantir progresso regional para atingir as metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 4 — assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas e todos — foi o norte do 1º Encontro do Comitê Regional de Gestão do ODS-E2030 para a América Latina e o Caribe, concluído no início de fevereiro em Santiago, no Chile.

A reunião apresentou avanços em relação aos mecanismos de monitoramento, acompanhamento e relato das metas do ODS 4 realizadas pelo Instituto de Estatística da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e pelo Laboratório Latino-Americano de Avaliação da Qualidade da Educação (LLECE).

Garantir progresso regional para atingir as metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 4 — assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas e todos — foi o norte do 1º Encontro do Comitê Regional de Gestão do ODS-E2030 para a América Latina e o Caribe, concluído no início de fevereiro em Santiago, no Chile.

Em dois dias de trabalho, os representantes dos países-membros desse comitê e das organizações envolvidas acompanharam o andamento dos compromissos assumidos na II Reunião Regional de Ministros da Educação da América Latina e do Caribe, realizada em Cochabamba em julho de 2018.

O comitê concordou em concentrar seu trabalho nas ações de equidade e inclusão durante os primeiros doze meses de trabalho. Em particular, os participantes concordaram em trabalhar para enfrentar os desafios educacionais que a migração intra-regional trouxe, como, por exemplo, medidas específicas para reconhecimento, certificação e acreditação de graus e competências, e iniciativas contra o abandono escolar.

Nesta reunião, foram definidas linhas de cooperação regional e foi elaborado um plano de ação para o período 2019-2021, à luz do roteiro para a implementação do ODS4-E2030 na América Latina e no Caribe.

Acordos foram tomados para iniciar as atividades dos quatro grupos de trabalho regionais com ações coordenadas e articuladas em políticas e estratégias; financiamento e governança; comunicação e conscientização; e revisão e monitoramento. Tudo isso à luz dos quatro temas priorizados pelos ministros da educação da região: aprendizagem ao longo da vida, igualdade e inclusão, professores e trabalhadores da educação e repensar a qualidade da educação.

A reunião apresentou avanços em relação aos mecanismos de monitoramento, acompanhamento e relato das metas do ODS 4 realizadas pelo Instituto de Estatística da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e pelo Laboratório Latino-Americano de Avaliação da Qualidade da Educação (LLECE).

Observou-se também o processo de coordenação regional da agenda de Educação 2030, após duas reuniões ministeriais, uma de alto nível técnico e duas reuniões de acompanhamento realizadas na região em 2017 e 2018.

(#Envolverde)

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Desertificação, Degradação do Solo e Mudança Climática andam de mãos dadas http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2019/01/ultimas-noticias/desertificacao-degradacao-do-solo-e-mudanca-climatica-andam-de-maos-dadas/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2019/01/ultimas-noticias/desertificacao-degradacao-do-solo-e-mudanca-climatica-andam-de-maos-dadas/#comments Tue, 29 Jan 2019 03:11:56 +0000 IPS http://envolverde.cartacapital.com.br/?p=234281 Por By Desmond Brown, IPS – 

GEORGETOWN, 28 de janeiro de 2019 (IPS) – A ligação entre a desertificação, a degradação da terra e mudanças climáticas está entre as várias questões que ocupam a atenção das 197 Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD) para [...]

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Por By Desmond Brown, IPS – 

GEORGETOWN, 28 de janeiro de 2019 (IPS) – A ligação entre a desertificação, a degradação da terra e mudanças climáticas está entre as várias questões que ocupam a atenção das 197 Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD) para os próximos três dias.

A Guiana, um país membro da Comunidade do Caribe (CARICOM), está organizando a 17ª Sessão do Comitê para a Revisão da Implementação da UNCCD (CRIC 17) de 28 a 30 de janeiro. É a primeira reunião de um órgão subsidiário da UNCCD a ser realizada no Caribe de língua inglesa.

Troy Torrington, diretor de assuntos multilaterais e globais do Ministério das Relações Exteriores da Guiana, disse que a reunião é importante para o Caribe, pois destacará o papel da terra no combate ao desafio climático.

“É fundamental colocar maior ênfase na terra se quisermos ter sucesso em enfrentar o desafio climático global”, disse Torrington à IPS.

“De fato, a terra tem várias contribuições importantes para o clima. Um dos principais deles é em termos do sequestro de carbono. O sequestro de carbono enriquece a terra. . . e com um bom planejamento, gerenciamento e práticas de uso da terra, você pode de fato avançar significativamente as soluções para o desafio climático global ”.

Troy Torrington, diretor de assuntos multilaterais e globais do Ministério das Relações Exteriores da Guiana, diz que para ter sucesso em enfrentar o desafio climático global, maior ênfase deve ser dada à terra. Crédito: Desmond Brown / IPS
Em 2009, a Guiana fez um acordo com a Noruega, onde o país nórdico concordou em pagar até US $250 milhões ao longo de cinco anos se a Guiana mantivesse sua baixa taxa de desmatamento. Foi a primeira vez que um país desenvolvido, consciente de suas próprias emissões de dióxido de carbono, pagou a um país em desenvolvimento para manter suas árvores no solo.

Sob a iniciativa, desenvolvida pelas Nações Unidas e chamada de REDD + (para Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), a Guiana conseguiu continuar explorando enquanto a biodiversidade estiver protegida.

Melchiade Bukuru, chefe do escritório de ligação da UNCCD em Nova York, concorda com Torrington sobre a questão do sequestro, observando que o carbono, que outrora pertenceu e serve como fertilizante no solo, é um poluidor no ar.

Ele disse que, para alcançar a Neutralidade da Degradação do Solo (LDN), cerca de 500 milhões de acres de terra degradada devem ser recuperados e tornados férteis novamente.

“A menos que aproveitemos a capacidade de nosso solo para sequestrar carbono, para trazer de volta o carbono aonde ele pertence, não seremos capazes de atingir nem mesmo a meta da UNFCCC de 2° C”, disse Bukuru. A UNFCCC ou a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima é um tratado global intergovernamental formado para tratar da mudança climática. A Conferência das Partes (COP), o mais alto órgão de decisão da Convenção, se reúne anualmente para discutir o progresso e adotar novas decisões no combate às mudanças climáticas.

Na COP21, foi formado o Acordo de Paris, que se comprometeu a manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2° C, a prosseguir esforços para limitar o aumento a 1,5° C e a atingir zero de emissões líquidas na segunda metade deste século. .

Bukuru disse que a degradação da terra também continua a ser um grande desafio para os países, acrescentando que, a cada ano, o planeta está perdendo 12 milhões de hectares de terras privilegiadas devido à degradação.

Meteorologista do Instituto Caribenho de Meteorologia e Hidrologia (CIMH), com sede em Barbados Dr. Andrea Sealy (à direita), diz que episódios severos de poeira no Saara afetam significativamente a qualidade do ar, especialmente nos países do Caribe Oriental. Sealy aperta a mão de Melchiade Bukuru, chefe do escritório de ligação da UNCCD em Nova York (à esquerda). Crédito: Desmond Brown / IPS
Enquanto isso, a questão das tempestades de areia e poeira também será discutida. A Dra. Andrea Sealy, meteorologista do Instituto Caribenho de Meteorologia e Hidrologia (CIMH), com sede em Barbados, disse que os graves episódios de poeira do Saara afetam significativamente a qualidade do ar, especialmente nos países do Caribe Oriental.

“Se você tem muita poeira, isso também compromete os painéis solares. Uma vez que os painéis solares estão cobertos de poeira, a quantidade de radiação que absorvem diminui. Então essa é outra questão que precisaríamos olhar porque na região somos muito dependentes da energia solar e estaremos nos tornando mais dependentes também ”, disse Sealy à IPS.

“Há também problemas com os ecossistemas marinhos, com poeira afetando-os. É possível que a poeira esteja afetando os ecossistemas terrestres. Eu sei com certeza que estudos foram feitos na Amazônia, onde mostra um efeito positivo sobre o solo. Em termos dos ecossistemas marinhos, porém, existem efeitos negativos porque você obtém as flores de algas. ”

Com vários países passando por períodos de extrema seca nos últimos anos, o chefe da pesquisa e terras da Guiana, Trevor Benn, disse que terra e água estão intimamente ligadas.

Ele apontou para os vizinhos Barbados. Benn explicou que a nação insular está ficando sem água, mas acrescentou que algumas pessoas não conseguem ver a ligação entre o uso da terra e a escassez de água.

“Acredito que, se Barbados começar a olhar com mais seriedade o modo como eles utilizam a terra, que tipo de cultivo [eles fazem], que tipo de infraestrutura eles colocam onde, você verá que as questões relativas à água podem diminuir”, disse Benn.

“A importância da terra não pode ser exagerada. É o auge de tudo o que fazemos ”.

De acordo com a UNCCD, o CRIC 17 irá rever a primeira avaliação global da degradação da terra com base em dados de observação da Terra relatados pelos governos. A avaliação, que foi realizada por países que relatam usando uma abordagem harmonizada, mostra as tendências na degradação da terra entre 2000 e 2015 com base em dados fornecidos por 145 dos 197 países que são parte da Convenção.

Espera-se que a avaliação forneça uma linha de base para avaliar o progresso na redução ou reversão da degradação do solo globalmente, daqui para frente. Contribuirá também para os esforços dos países para alcançar a LDN, que é a meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 15.3.

O CRIC 17 também conduzirá diálogos interativos sobre três questões emergentes relacionadas – o plano de ação de gênero como uma ferramenta para melhorar as condições de vida das pessoas afetadas pela degradação da terra; fontes novas e inovadoras para financiar iniciativas de combate à degradação da terra; e o progresso em direção à meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável na neutralidade da degradação da terra, para a qual a Convenção desempenha um papel de liderança.

No final da sessão, o CRIC 17 proporá recomendações que serão consideradas pelo seu corpo diretivo, a COP.

O CRIC se reúne uma vez entre as sessões da COP para revisar os relatórios dos países submetidos em conformidade com as decisões da COP. (#Envolverde)





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Crescem as leis para proteger o meio ambiente, mas há falhas graves de implementação, afirma novo relatório da ONU http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2019/01/ultimas-noticias/crescem-as-leis-para-proteger-o-meio-ambiente-mas-ha-falhas-graves-de-implementacao-afirma-novo-relatorio-da-onu/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2019/01/ultimas-noticias/crescem-as-leis-para-proteger-o-meio-ambiente-mas-ha-falhas-graves-de-implementacao-afirma-novo-relatorio-da-onu/#comments Thu, 24 Jan 2019 20:52:38 +0000 IPS Correspondent http://envolverde.cartacapital.com.br/?p=234196 Nairóbi, 24 de janeiro de 2019 – A primeira avaliação global do Estado de Direito Ambiental, divulgada nessa quinta-feira (24), mostra que embora o número de leis e agências ambientais tenha aumentado de forma exponencial em todo o mundo nas últimas quatro décadas, a fraca aplicação das leis é uma tendência que está agravando os [...]

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Nairóbi, 24 de janeiro de 2019 – A primeira avaliação global do Estado de Direito Ambiental, divulgada nessa quinta-feira (24), mostra que embora o número de leis e agências ambientais tenha aumentado de forma exponencial em todo o mundo nas últimas quatro décadas, a fraca aplicação das leis é uma tendência que está agravando os problemas ambientais.

novo relatório da ONU Meio Ambiente aponta que apesar de um aumento de 38 vezes da legislação ambiental em vigor desde 1972, a incapacidade de implementar e de fazer cumprir essas leis é um dos maiores desafios para mitigar a mudança do clima, reduzir a poluição e evitar a perda generalizada de espécies e habitats, revelou o relatório da ONU Meio Ambiente.

O relatório está sendo publicado em um momento crucial, quando especialistas em clima e lideranças políticas e econômicas buscam enfrentar as devastadoras conclusões publicadas em outubro de 2018 pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, órgão das Nações Unidas, que instou ações urgentes para transformar a economia global a uma velocidade e escala “sem precedentes históricos”.

Para o Relator Especial da ONU sobre Direitos Humanos e Meio AmbienteDavid Boydesse novo e convincente relatório soluciona o mistério de entender por que problemas como a poluição, diminuição da biodiversidade e mudança do clima persistem apesar da proliferação de leis ambientais nas últimas décadas. A menos que o Estado de Direito Ambiental seja fortalecido, leis aparentemente rigorosas estão fadadas a falhar e o direito humano fundamental a um meio ambiente saudável não será usufruído”.

Embora a ajuda internacional tenha, de fato, auxiliado dezenas de países a assinar mais de 1.100 acordos ambientais desde 1972 e a elaborar muitos dispositivos legais na área ambiental, nem a ajuda nem os orçamentos nacionais levaram ao estabelecimento de agências e órgãos ambientais capazes de aplicar as leis e regulamentos de forma eficaz. Os autores identificam múltiplos fatores para a baixa implementação do Estado de Direito Ambiental, tais como a falta de coordenação entre as agências governamentais, a fraca capacidade institucional, a falta de acesso à informação, a corrupção e o sufocamento do engajamento civil.

“Temos um conjunto de leis, regulamentos e agências para governar nosso meio ambiente de forma sustentável”, declarou Joyce Msuya, Diretora Executiva Interina da ONU Meio Ambiente. “Agora é essencial que haja vontade política para assegurar que nossas leis trabalhem pelo planeta. Essa primeira avaliação global sobre o Estado de Direito Ambiental ressalta o trabalho daqueles que ficaram do lado certo da história — e de quantas nações se tornaram mais fortalecidas e seguras”, complementou.

O relatório apresenta várias conquistas do direito ambiental desde 1972, inclusive a adoção do direito constitucional a um meio ambiente saudável por 88 países, sendo que outras 65 nações incorporaram a proteção ambiental em suas constituições. Além disso, mais de 350 cortes ambientais foram criadas em mais de 50 países e mais de 60 países contam com dispositivos legais sobre o direito dos cidadãos à informação ambiental.

De acordo com Carl Bruch, Diretor de Programas Internacionais do Instituto de Direito Ambiental (Environmental Law Institute) “a comunidade internacional pode fazer mais. Com frequência, o apoio de doadores se concentra em áreas específicas, o que resulta em programas sólidos em algumas áreas ambientais e outras com nenhum financiamento ou atenção. Essa abordagem fragmentada pode minar o Estado de Direito Ambiental ao não fornecer consistência na implementação e aplicação das leis e ao enviar mensagens conflitantes à comunidade regulamentada e ao público.  Muitas dessas leis ainda têm que se enraizar na sociedade e, na maioria dos casos, a cultura de conformidade ambiental é fraca ou inexistente.”

 O relatório dedica atenção especial a uma tendência particularmente preocupante: a crescente resistência às leis ambientais, que tem sido mais evidenciada nos casos de assédio, ameaças, prisões arbitrárias e assassinatos de defensores ambientais. Entre 2002 e 2013, 908 pessoas — incluindo agentes florestais, inspetores governamentais e ativistas locais — foram mortos em 35 países e, só em 2017, 197 defensores ambientais foram assassinados.

“A criminalização e os crescentes ataques aos defensores ambientais constituem claras violações ao Estado de Direito Ambiental e uma afronta aos direitos, papeis e contribuições dos povos indígenas e da sociedade civil na proteção do meio ambiente.  Esse relatório capta a falta de responsabilização, de uma governança ambiental forte e do respeito aos direitos humanos para a sustentabilidade do nosso meio ambiente,” afirmou Joan Carling, ativista de direitos indígenas e defensora ambiental das Filipinas.

O engajamento de uma sociedade civil informada leva à melhor tomada de decisões pelo governo, a ações ambientais mais responsáveis por parte das empresas e a um direito ambiental mais eficaz. A produção periódica de relatórios sobre a qualidade ambiental dos países, inclusive sobre a qualidade do ar e da água, também pode ajudar a atingir essas metas. Infelizmente, de acordo com o Índice de Democracia Ambiental, apenas 20 dos 70 países avaliados, ou seja, 28%, são classificados como sendo “bom” ou “muito bom” na produção de relatórios periódicos, abrangentes e atuais do “Estado do Meio Ambiente”. Na Índia, Tailândia e Uganda, por exemplo, os dados sobre a poluição gerada por instalações industriais só podem ser obtidos por meio de contatos pessoais.

O relatório ainda oferece diversos exemplos de boas práticas, inclusive inovações aplicadas em países em desenvolvimento que muitas vezes enfrentam os mesmos desafios dos países desenvolvidos, mas com menos recursos. A diversidade geográfica desses esforços e inovações reforça dois pontos-chave desse relatório: O desenvolvimento e a promoção do Estado de Direito Ambiental é um desafio para todos os países; é também uma prioridade crescente. Para que as metas de centenas de leis, regulamentos e políticas nacionais que regem o meio ambiente em todo o mundo sejam alcançadas — inclusive a saúde e o bem-estar públicos, economias sólidas e sociedades pacíficas — é preciso atribuir prioridade máxima ao fortalecimento do Estado de Direito Ambiental.

Sobre o Programa de Governança Ambiental na ONU Meio Ambiente

Na ONU Meio Ambiente, trabalhamos junto com os países para promover uma governança ambiental inclusiva e eficaz, sustentada por leis e políticas, bem como instituições informadas e fortalecidas. Baseamos esses esforços no Estado de Direito, promovendo uma abordagem baseada em direitos para a gestão ambiental e fortalecendo as capacidades de fazer cumprir a legislação e combater infrações. Também promovemos respostas globais coordenadas e coesivas para questões ambientais urgentes.

(#Envolverde)

 

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A retirada das tropas dos EUA da Síria: do vazio da superpotência para o conflito regional por influência? http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2019/01/ultimas-noticias/a-retirada-das-tropas-dos-eua-da-siria-do-vazio-da-superpotencia-para-o-conflito-regional-por-influencia/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2019/01/ultimas-noticias/a-retirada-das-tropas-dos-eua-da-siria-do-vazio-da-superpotencia-para-o-conflito-regional-por-influencia/#comments Mon, 21 Jan 2019 13:17:34 +0000 Correspondentes da IPS http://envolverde.cartacapital.com.br/?p=234092 Por Pedro Guedes, Augusto Colório e Bruno lima Rocha*, do Jornal GGN – 

Nos últimos três anos, a Guerra Civil síria, que até o momento caracterizava-se por um conflito regionalmente contido, no que se refere ao envolvimento dos vizinhos Estados nas hostilidades, tornou-se um conflito com a intervenção direta das principais potências do Sistema Internacional. [...]

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Por Pedro Guedes, Augusto Colório e Bruno lima Rocha*, do Jornal GGN – 

Nos últimos três anos, a Guerra Civil síria, que até o momento caracterizava-se por um conflito regionalmente contido, no que se refere ao envolvimento dos vizinhos Estados nas hostilidades, tornou-se um conflito com a intervenção direta das principais potências do Sistema Internacional. Isso ocorreu com a intervenção de Rússia (e sua força expedicionária) e Estados Unidos (Cerca de 2000 Marines, em apoio à coalizão Curdo-Árabe contra o Estado Islâmico, DAESH, ISIS ou ISIL) no conflito, em que mesmo em lado a princípio, opostos, não chegaram a combater diretamente um contra o outro com suas forças regulares. A eleição de Donald Trump, em 2017, iniciou um novo prognóstico no conflito, já que os Estados Unidos, sob seu comando, mostravam-se cada vez mais inclinados a uma menor participação no conflito. Com a perda de território por parte do DAESH e o enfraquecimento do grupo (acrônimo de Estado Islâmico), Trump pressionava cada vez mais a cúpula militar do seu país (o Pentágono e seu Estado-Maior) para retirar os cerca de dois mil fuzileiros navais do país levantino. Como se sabe, a presença de soldados profissionais estadunidenses em terra é vista como presa, sendo a captura ou morte destes militares, um trunfo para as organizações inimigas e um custo político alto para a administração que os enviou.

Em 19 de dezembro de 2018, os Estados Unidos anunciam a retirada de suas forças da Síria, em um movimento que chocou aliados e colocou uma série de pontos de interrogação sobre o conflito. Nesse breve artigo, gostaríamos de avaliar as consequências da ação dos EUA para os atores envolvidos e para o futuro da Guerra na Síria. Em um primeiro momento, a partir desse movimento, entendemos que os EUA perdem influência nos rumos do conflito, com Washington se colocando à margem das negociações políticas (como nas negociações de Astana, capital do Cazaquistão, que envolvem Rússia, Irã e Turquia apenas), e no desenvolvimento das ações em campo de combate, com apenas Rússia, Irã e Turquia (novamente), além de uma presença lateral de Arábia Saudita e Qatar, com forças regulares a aliados nativos agindo no país. Dessa forma, pode-se ponderar quais podem ser os efeitos da estratégia norte-americana para os atores envolvidos[1].

Entendemos que de todos os grupos implicados, quem fica mais vulnerável são as forças de autodefesa do Curdistão sírio[2] (também conhecida como Rojava), que com o apoio dos EUA, juntaram-se em coalizão com tribos árabes do Norte da Síria e demais grupos étnicos minoritários (como turcomenos, alevis, siríacos, caldeus e yázidis)  para formar as Forças Democráticas Sírias (SDF em inglês) e combater o DAESH, coisa que os grupos de autodefesa curdos YPG (Unidades de Proteção Popular) e YPJ ( Unidades de Proteção das Mulheres) faziam sozinhos desde 2014. Essa vulnerabilidade ocorre dado o fato de que o apoio dos EUA protegia os territórios curdos, (mais notadamente os cantões de Kobane, Jazira e as áreas adjacentes retomadas do DAESH ao longo dos últimos 4 anos, compondo a região ao Norte do Rio Eufrates) de uma possível agressão turca em larga escala.

Essa proteção ocorre a partir da legitimação política que o apoio dos EUA aos grupos curdos a partir do bom desempenho na luta contra o DAESH. Também há o fato de que efetivos das forças especiais estadunidenses operam sob as mesmas bandeiras que as forças da SDF. Assim, em caso de ataque turco, Ancara correria o risco de atingir forças estadunidenses, o que causaria constrangimento internacional. Um possível ataque turco ocorreria dado o fato do governo turco considerar as forças e administração curda como uma extensão do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, que Ancara considera como grupo terrorista, e, contraditoriamente, Washington também.

Para tentar se proteger de uma possível (e já anunciada) operação militar expandida da Turquia, as lideranças políticas de Rojava já anunciaram tratativas de negociação com as autoridades legalistas em Damasco[3]. Há um evidente conflito de interesses nessa aproximação e também um choque de versões. Em um primeiro momento, as forças curdas da SDF dividiriam com Damasco o controle do tráfego de estradas e movimentos nos territórios e acessos às cidades sob controle da Federação Democrática do Norte da Síria (DFNS da sigla em inglês). Assad em troca garantiria proteção ante uma agressão turca. Ainda que um possível acordo proteja as populações curdas e de deslocados internos que vivem em Rojava, o projeto de Confederalismo Democrático implementado pelos órgãos políticos curdos nos últimos anos seria soterrado pela centralidade baathista de Assad. Isso se o acordo for de fato, nos termos de Damasco. Se a DFNS fazer valer o pré-acordo diplomático e estabelecido como diretriz na constituição de Rojava, o controle territorial passa a ser regional, reconhecendo um status de região autônoma para a Federação.

Outro ator que, em teoria, pode perder com a retirada das forças dos Estados Unidos é Israel. Isso acontece pelo fato de Tel Aviv entender que o vácuo deixado pelos EUA seria aproveitado pelo Irã para aumentar suas capacidades de projeção na região do Oriente Médio, o que colocaria as forças regulares iraquianas e seus proxies, mais notadamente o Hezbollah libanês, perto das Colinas de Golã (fronteira siríaca-israelense), o que seria uma grande ameaça à segurança de Israel. Como outro resultado, Tel Aviv perderia ainda mais a liberdade de ação que tem nos céus sírios, o que limitaria a capacidade de sabotar a transferência de armas e tecnologia de Teerã para o Hezbollah libanês.

No entanto, devido à influência dos interesses de Israel dentro do Governo Trump, causa estranheza a política de retirada das tropas da Síria. Como se sabe, Tel Aviv procura, via lobby (ver aipac.org), influenciar Washington a tomar uma posição mais hostil em relação ao Irã e seu projeto de liderança regional para o Oriente Médio. O próprio secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, é um entusiasta das relações entre EUA e Israel e um dos arquitetos da retirada dos EUA do acordo nuclear com o Irã. Pode-se supor que para agradar Israel, o caminho escolhido por Washington seja de aumentar as sanções contra Teerã para enfraquecer a economia persa.

Se a retirada das tropas americanas prejudica os Curdos e Israel, ela acaba por favorecer outros atores na região. Além do próprio governo Assad, a Rússia e a Turquia são favorecidos com a decisão do Governo Trump. Ainda que a Ancara não seja oficialmente aliada de Moscou ou Assad, não teria mais o desconforto de ver o membro mais importante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) apoiando e protegendo os grupos que consideram como terroristas. Por outro lado, a Turquia não se mostra disposta em entrar em  conflito com as forças regulares sírias e a Força Aérea russa em caso de acordo entre a SDF e Assad. Para evitar isso, o presidente turco, Recep Erdogan já fez questão de se alinhar politicamente com o eixo Damasco-Teerã-Bagdá para tentar isolar a SDF. Simultaneamente, as forças militares da Turquia ameaçam manobras e avançam sobre território soberano sírio, a exemplo do que fizeram na ofensiva militar contra Afrin (um dos três cantões de Rojava), invadido em março de 2018.

Outro Estado que vê com bons olhos a retração dos Estados Unidos é a Rússia. Isso ocorre principalmente pelo fato de que sem os EUA, Moscou consegue se impor como o principal agente conciliatório do conflito, com toda a negociação entre as partes beligerantes passando quase que obrigatoriamente pelas suas mãos. Conseguindo essa posição no conflito sem ter que tomar nenhuma decisão arriscada após três anos de intervenção aeronaval, com cerca de cinco mil soldados e algumas dezenas de aeronaves é um ganho considerável para manter as ambições de Moscou em ser reconhecida como uma grande potência no Sistema Internacional. O único ponto de preocupação é projetar como países como o Irã e a Turquia – além da sempre presente Arábia Saudita, e seu rival Qatar – agirão nesse vácuo criado por Washington. Por mais habilidosa que seja, a chancelaria russa não consegue controlar toda a mesa de discussões. Logo se não houver consenso entre os beligerantes (o que é quase impossível), Putin e Lavrov terão dificuldades em obter um denominador que agrade a todos[4], ou que ao menos seja aceito por todos.

Pelo fato da China não ter participado do conflito na Síria, a retirada das tropas norte-americanas do Oriente Médio é uma boa notícia para Pequim. Como pode ser visto em outros casos (Venezuela, Rússia, Irã), a política externa chinesa se aproveita das linhas de menor resistência para servir como uma alternativa ao papel dos EUA. Não estranha, portanto, a função que Pequim deverá exercer como responsável pela reconstrução da Síria. É importante ressaltar que a Síria faz parte da Nova Rota da Seda, e com a redução do papel norte-americano no Oriente Médio, Pequim apresenta-se como um parceiro viável e com grandes interesses estratégicos na região. Em 2018, por exemplo, a China apresentou o “Plano de Reconstrução da Síria” que compreende um fundo de dois bilhões de dólares para a construção de uma área industrial capaz de hospedar mais de 150 companhias chinesas. No entanto, se por um lado o afastamento norte-americano do Oriente Médio representa oportunidades para a China, pode também sinalizar o redirecionamento das forças norte-americanas para a contenção da China na região da Ásia-Pacífico em uma mudança do pensamento estratégico dos formuladores de política da Casa Branca.

Já o Irã, enxerga de maneira positiva a presente situação no conflito sírio. Com grande quantidade de efetivos (regulares e irregulares) e equipamentos militares, Teerã não teria dificuldade em direcionar o governo sírio para retomar essas localidades com o uso da força. Outro ponto de interesse é na possibilidade de Teerã, via a falta de um adversário na região Norte da Síria, de com facilidade, conectar por via terrestre, todos os membros do chamado “Eixo de Resistência” (Irã, Síria e Hezbollah, utilizando o Iraque como ligação e que também possui grande população xiita), para a implementação das operações de resistência contra Israel, inimigo estratégico do Governo Iraniano.

Por outro lado, Teerã considera a retirada das forças estadunidenses da Síria como um primeiro passo para que outras nações árabes tentem projetar sua influência dentro da Síria. Isso ocorreria com a reaproximação dos países árabes que isolaram Damasco no início da Guerra Civil. Na última semana, os Emirados Árabes Unidos reabriram sua embaixada no país, sinalizando que outros países árabes, como a Arábia Saudita, futuramente o  façam. Como os países do Golfo possuem mais recursos financeiros que o Irã, estes poderiam tentar cooptar Assad a não cooperar com os iranianos. Essa preocupação decorre do fato de que mesmos aliados, a Síria permaneceu próximo ao Irã não apenas pela proximidade entre as populações alauita síria e xiita iraniana, mas também porque não havia ninguém mais na região pronto a ajudar Assad a vencer a guerra[5]. Considerando a projeção de poder saudita sobre o Líbano, é de se presumir que os países do Golfo vão tentar servir como fiadores de um novo pacto de Assad com a maioria sunita do país.

Para o governo sírio, em Damasco, a retirada das forças estadunidenses foi uma notícia muito boa e isso acontece por dois distintos motivos. O primeiro é que a saída dos estadunidenses enfraquece os grupos opositores, que hoje estão encapsulados no Norte do país, e que contavam com a presença dos EUA para “constranger” as ações das forças legalistas e seus aliados iranianos e russos. Também pode vir a baixar a moral das forças da SDF, que com medo de uma invasão turca, viriam até Assad para negociar, de preferência sob termos lucrativos para Damasco, como o abandono da ideia de federalização da Síria. O segundo motivo é que o recuo das forças estadunidenses sinalizaria aos Estados que financiam a oposição, de que Assad venceu (ou vencerá) logo o conflito, e que é hora de restabelecer laços  políticos e econômicos. Isso praticamente isola Israel na região (que ainda demanda a deposição de Assad) e de quebra, permitirá a Assad escolher em quais termos irá se engajar com os seus vizinhos no médio prazo[6].

Por fim, parece que se inicia uma nova fase do conflito na Síria. As razões da decisão do Governo Trump de retirar as tropas do Oriente Médio ainda não estão evidentes e qualquer afirmação pode ser precipitada. No entanto, cabe avaliar no futuro, se a decisão do Governo Trump não estaria ligada a uma saída do conflito que sirva como instrumento político para as eleições de 2020. Além disso, outra análise possível é o do reordenamento estratégico da política externa norte-americana focando na contenção da China e apontando baterias para o eixo Ásia-Pacífico. O certo é que o Governo Trump, ao contrariar o desejo de aliados regionais e favorecer os adversários com interesse na Síria, parece demonstrar mais um sintoma da queda da projeção global de força dos EUA. A atual administração parece tentar também solucionar conflitos domésticos operando com o intuito de atingir os interesses da elite política e econômica presentes dentro do seu governo.  Por consequência, há no Oriente Médio menos excedentes de poder fáticos, duros, da Superpotência (e seus ex-aliados ou quase-aliados europeus) diante do aumento da importância dos potências regionais (Israel, Turquia, Arábia Saudita e Irã), além da evidente presença quase como árbitra de conflitos por parte da Rússia.

Ressaltamos que toda “análise internacional” quase sempre enxerga o “tabuleiro” de cima para baixo, mimetizando o comportamento, ou a projeção de mentalidades das Potência, fazendo uma construção ideológica hegemônica com aparência de “leitura geopolítica”. Tentamos fugir destes clichês colonizados, mas observando o comportamento dos EUA, isso nem sempre é possível. No cenário concreto e complexo da Guerra da Síria, do Grande Oriente Médio, do Mundo Árabe, Mundo Islâmico e Ásia Central, uma afirmação é certa: as potências, a Superpotência, tem capacidade de instabilizar, de gerar caos, mas nunca uma nova ordem, menos ainda um ordenamento que favoreça o conjunto de agrupamentos étnicos, religiosos e culturais, quiçá uma ordem econômica menos injusta. A saída na Síria se encontra nos poderes locais, onde há permeabilidade das demandas sociais, a começar pela própria existência da DFNS, ou seja, da resistência democrática, pluriétnica, igualitária e não sectária de Rojava. Se Damasco conseguir conviver com isso, o conflito está “solucionado”, restando “apenas” o impasse através da imposição de derrotas militares sobre a segunda maior força militar ainda na OTAN, a Turquia sob ditadura constitucional de Recep Tayyip Erdogan e seu projeto neo-otomano imperial.

 

*Pedro Guedes é graduado em relações internacionais e acadêmico de direito; Augusto Colório é graduado em relações internacionais e mestrando na área; Bruno Lima Rocha é professor de relações internacionais e de jornalismo, doutor em ciência política e especialista em Oriente Médio. Todos são membros do Grupo de Pesquisa Capital e Estado (capetacapitaleestado.wordpress.com)  

(#Envolverde)

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Problemas ambientais de hoje provocados pela Segunda Guerra Mundial http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2018/11/ultimas-noticias/problemas-ambientais-de-hoje-provocados-pela-segunda-guerra-mundial/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2018/11/ultimas-noticias/problemas-ambientais-de-hoje-provocados-pela-segunda-guerra-mundial/#comments Fri, 23 Nov 2018 13:21:26 +0000 Correspondentes da IPS http://envolverde.cartacapital.com.br/?p=233218 Divulgação Universidade de Helsinque – 

Um docente da Universidade de Helsinque lançou o primeiro levantamento internacional abrangente sobre a história ambiental da Segunda Guerra Mundial. Segundo o estudo, a Segunda Guerra Mundial foi um fator significativo no desenvolvimento de nossos atuais problemas ambientais globais

A Segunda Guerra Mundial deixou marcas profundas no ambiente natural das [...]

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Divulgação Universidade de Helsinque – 

Um docente da Universidade de Helsinque lançou o primeiro levantamento internacional abrangente sobre a história ambiental da Segunda Guerra Mundial. Segundo o estudo, a Segunda Guerra Mundial foi um fator significativo no desenvolvimento de nossos atuais problemas ambientais globais

A Segunda Guerra Mundial deixou marcas profundas no ambiente natural das zonas de guerra, frentes domésticas e áreas ocupadas pelas indústrias de guerra. A guerra global deixou lixo e ruínas por toda parte, consistindo de linhas de frente abandonadas, navios semi-afundados, bases vazias e cidades bombardeadas na Europa e na Ásia.

“Ainda não terminamos de limpar esse lixo global, mesmo na Finlândia e particularmente na Lapônia, em ambos os lados da fronteira leste, bem como nas ilhas do Golfo da Finlândia, que foram concedidos à União Soviética”, diz Simo. Laakkonen , docente da história econômica e social, que é um dos autores da publicação.

A guerra foi travada com pás, enxadas e tratores, não apenas com armas. Soldados, prisioneiros de guerra e trabalhadores forçados em todo o mundo construíram estradas, ferrovias, portos e aeroportos que trouxeram espécies invasoras e poluição industrial para áreas novas e intocadas.

A Segunda Guerra Mundial foi um enorme evento, uma tragédia humana na qual 50 a 70 milhões de pessoas perderam suas vidas.

Armas nucleares são o maior risco

A Guerra Mundial contribuiu para o desenvolvimento de nossos atuais problemas ambientais globais, que incluem a química da produção industrial, a adoção de toxinas ambientais e a precipitação nuclear.

“A ameaça ambiental mais grave com o maior impacto foi, obviamente, o desenvolvimento de armas nucleares.”

Antes da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o controle de pragas baseava-se principalmente em métodos naturais. Durante a guerra, esses métodos foram gradualmente abandonados e o DDT e outras toxinas foram adotadas primeiro para combater as pulgas que espalham a febre maculosa e os mosquitos espalhando a malária, e depois para combater pragas agrícolas como os besouros.

Política ambiental motivada por medos apocalípticos

A guerra gerou preocupação com um apocalipse causado por humanos, o que levou em parte à geração de política ambiental internacional.

“A Guerra Mundial teve um forte impacto na cultura. Criou um fenômeno completamente novo, o catastrofismo ambiental, significando a preocupação de que os humanos trarão o fim do mundo. Desde então, isso se tornou uma parte permanente da discussão ambiental ”, afirma Laakkonen.

De acordo com o estudo, a guerra global teve um impacto profundo no desenvolvimento de nossos problemas ambientais contemporâneos e de suas soluções propostas, durante e após a Guerra Fria.

O novo livro, The Long Shadows: Uma História Ambiental Global da Segunda Guerra Mundial, discute o impacto da infraestrutura construída para apoiar a ação militar no Ártico, no subcontinente indiano e no Pacífico. Ele também examina as conseqüências da produção de matéria-prima para o esforço de guerra no Canadá, Japão, México e Caribe, bem como as crises alimentares resultantes da guerra na África, na União Soviética e na China. O livro foi publicado pela Oregon State University Press: http://osupress.oregonstate.edu/book/long-shadows .

O novo livro, editado por Simo Laakkonen, da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Helsínquia, e Timo Vuorisalo , docente de ecologia na Universidade de Turku, baseia-se no seu trabalho anterior, Sodan ekologia: nykyaikaisen sodan ympäristöhistoriaa (Ecologia da guerra: ambiental História da Guerra Contemporânea).

Mais informações:
Simo Laakkonen
+358 45 13 77 259
simo.laakkonen@helsinki.fi

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Falaj Hili: Redefinindo os Sistemas de Irrigação da Água na Região http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2018/11/ultimas-noticias/falaj-hili-redefinindo-os-sistemas-de-irrigacao-da-agua-na-regiao/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2018/11/ultimas-noticias/falaj-hili-redefinindo-os-sistemas-de-irrigacao-da-agua-na-regiao/#comments Wed, 07 Nov 2018 18:59:30 +0000 Correspondentes da IPS http://envolverde.cartacapital.com.br/?p=232854 AL AIN, 7 de novembro de 2018 (WAM) – A Secretaria de Cultura e Turismo de Abu Dhabi descobriu um dos mais antigos sistemas de aquedutos da região de Hili, em Al Ain, que remonta à Idade do Ferro. “Falaj Hili 15”, ou o Hili Aqueduct 15, é considerado uma descoberta importante, pois fornece aos [...]

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AL AIN, 7 de novembro de 2018 (WAM) – A Secretaria de Cultura e Turismo de Abu Dhabi descobriu um dos mais antigos sistemas de aquedutos da região de Hili, em Al Ain, que remonta à Idade do Ferro. “Falaj Hili 15”, ou o Hili Aqueduct 15, é considerado uma descoberta importante, pois fornece aos historiadores e arqueólogos uma nova compreensão sobre os habitantes da região e seus assentamentos, que se pensava inicialmente terem datado de 700 aC.

Essa descoberta foi corroborada com a escavação de fragmentos de cerâmica espalhados pelo local do Falaj, datados de 1200 aC, evidência de populações de assentamento na região. As escavações começaram em 1983 e continuaram por seis anos, terminando em 1989.

O Hili Falaj é um sistema de aqueduto de design intrincado que permite a distribuição de água de áreas montanhosas para regiões habitadas. O abastecimento de água fornecido através do aqueduto ajudou a fornecer valiosos recursos de água doce para beber e irrigação agrícola.

O sistema Falaj é dividido em várias seções, que começa com um aquífero subterrâneo localizado perto de uma área montanhosa e é a principal fonte de água. O aquífero conecta-se a uma série de túneis subterrâneos, que levam a canais no nível da superfície que permitem o fluxo de água doce até o ponto de acesso principal, também conhecido como ‘Shari’a’, levando a uma cisterna aberta da qual a água é depois alocados por meio de mecanismos e sistemas administrativos aplicados durante esse período.

Os aquedutos dependem de um aquífero subterrâneo, ou fonte de água, disse ele, acrescentando que os canais subterrâneos permitem a passagem de água para túneis na superfície, que transportam água para uma Shari’a, que leva a uma cisterna aberta. Este principal ponto de acesso permite que a água seja alocada aos habitantes e agricultores para irrigação e desenvolvimento agrícola.

O chefe da Divisão de Arqueologia Al Ain do DCT Abu Dhabi, Ali Abdulrahman Al Meqbali, disse: “Os aquedutos ajudaram a mudar o curso da ocupação humana. Inicialmente, os habitantes estavam espalhados em áreas montanhosas, porque durante a Idade do Bronze os indivíduos dependiam de poços para seus recursos hídricos. No entanto, com o advento dos aquedutos, os padrões de ocupação mudaram e os habitantes se dispersaram durante a Idade do Ferro. Isso também teve um impacto nos padrões de produção de itens de silte e argila, incluindo jarros de cerâmica usados ​​para armazenamento de grãos, bem como sistemas em desenvolvimento que permitiam gerenciar a alocação de água através do Edifício Falaj”, concluiu. (#Envolverde)

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