IPS em português http://www.ipsnoticias.net/portuguese Jornalismo e comunicação para transformar o mundo Fri, 12 Feb 2016 11:38:02 +0000 en-US hourly 1 http://wordpress.org/?v=4.2.7 ONU anuncia Cúpula Mundial Humanitária http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/onu-anuncia-cupula-mundial-humanitaria/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/onu-anuncia-cupula-mundial-humanitaria/#comments Fri, 12 Feb 2016 11:38:02 +0000 talita http://www.envolverde.com.br/?p=205767 Por Valentina Ieri, da IPS –    Nações Unidas, 12/2/2016 – O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, convocou a comunidade internacional para que “nenhuma pessoa que esteja em um conflito armado, nenhuma com pobreza crônica, nenhuma que viva com o risco de perigos naturais e do aumento do nível do mar […]

The post ONU anuncia Cúpula Mundial Humanitária appeared first on IPS em português.

]]>
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon (segundo a partir da esquerda) informa a Assembleia Geral sobre a Cúpula Mundial Humanitária, que acontecerá em maio, em Istambul.Foto: Rick Bajornas/ONU

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon (segundo a partir da esquerda) informa a Assembleia Geral sobre a Cúpula Mundial Humanitária, que acontecerá em maio, em Istambul.Foto: Rick Bajornas/ONU

Por Valentina Ieri, da IPS – 

 

Nações Unidas, 12/2/2016 – O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, convocou a comunidade internacional para que “nenhuma pessoa que esteja em um conflito armado, nenhuma com pobreza crônica, nenhuma que viva com o risco de perigos naturais e do aumento do nível do mar fique esquecida”.Ao falar perante os delegados durante a apresentação de um novo informe, Ban afirmou que a primeira Cúpula Mundial Humanitária, que acontecerá em Istambul, na Turquia, nos dias 23 e 24 de maio, “será o momento para nos unirmos na renovação de nosso compromisso com a humanidade”.

O informe Uma Humanidade: A Responsabilidade Compartilhada, foi divulgado no dia 9.A ONU afirma que precisa de mais de US$ 20 bilhões para alimentar e cuidar de mais de 60 milhões de pessoas deslocadas dentro de seus países ou que fugiram para outras terras se convertendo em refugiados. Aproximadamente 40 dos 193 Estados membros das Nações Unidas experimentam “crises e violência de nível, alto, médio ou baixo”, destacouo secretário-geral.

Ban advertiu que “as atuais crises em nossa economia política mundial, junto com a mudança climática”, a violência extremista, o terrorismo, a criminalidade transnacional e a persistência de brutais conflitos armados estão devastando as vidas de milhões de pessoas e provocando a desestabilização de regiões inteiras.“Os complexos desafios de hoje cruzam as fronteiras e superam a capacidade de qualquer país ou instituição individualmente. Precisamos restaurar a confiança em nossa ordem mundial internacional e na capacidade de nossas instituições nacionais e regionais para enfrentar com eficácia esses desafios”, pontuou.

Um alto funcionário da ONU disse que o informe contém uma petição pessoal do secretário-geral para “restaurar a humanidade” e, dessa forma, garantir a dignidade e a segurança de todas as pessoas, segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030.Como parte do plano quinquenal de Ban, a cúpula de Istambul convocará a comunidade internacional para que redescubra “a unidade e a solidariedade mundiais” e ponha fim ao sofrimento humano e à desigualdade, segundo o funcionário, que não quis ser identificado.

Os fundos com fins “humanitários se multiplicaram por completo até mais de 600% do que precisávamos há dez anos, e quase 80% mais de pessoal humanitário, mas também forças de manutenção da paz e pessoas em missões políticas especiais estão envolvidos nessas situações prolongadas”, destacou a fonte da ONU.Países e organizações da sociedade civil de todo o mundo receberam bem a iniciativa de Ban.

“O sistema humanitário está esmagado pela magnitude de necessidades crescentes em um mundo sacudido pelas crises e (os governantes) não devem se limitar às palavras, são necessárias medidas concretas com urgência. O maior legado da Cúpula Mundial Humanitária seria o compromisso real para mudar essa situação”, afirmou Charlotte Stemmer, representante da Oxfam.

O informe assinala que “a comunidade internacional está aumentando sua resposta às crises, enquanto luta para encontrar soluções políticas e de segurança sustentáveis para acabar com elas”.Em 2014, calculava-se que o custo econômico e financeiro dos conflitos armados chegava a US$ 14,3 trilhões, ou 13,4% da economia mundial.

O informe recomenda que a humanidade compartilhe a responsabilidade na liderança política para evitar e acabar com os conflitos armados. Em lugar de investir na assistência humanitária, a comunidade internacional deve dar prioridade às soluções políticas, à unidade e à construção de sociedades pacíficas, acrescenta.

Também deve aplicar e cumprir as leis internacionais para proteger a população civil, respeitar os direitos humanos, restringir o uso e a transferência de certas armas e munições, cessar os bombardeios e fortalecer o sistema de justiça internacional, diz o documento.

Em terceiro lugar, o recomenda “não esquecer ninguém” – que também é o tema central da Agenda 2030 de Desenvolvimento da ONU – e ajudar a população mais pobre e vulnerável nas zonas afetadas pela guerra ou em casos de desastres naturais. Também inclui a proteção das mulheres e meninas e se concentra no direito à educação para todos.

O informe destaca que, em 2014, os conflitos armados e a violência obrigaram cerca de 42.500 pessoas a fugirem de suas casas a cada dia, o que resultou em mais de 60 milhões de pessoas deslocadas, refugiadas e solicitantes de asilo no primeiro semestre de 2015. Cerca de metade das meninas e dos meninos refugiados do mundo não estão recebendo educação primária e 75% não têm acesso à educação secundária, segundo a ONU.

Atualmente, quase 1,4 bilhão de pessoas vivem em situações de fragilidade, e estima-se que serão 1,9 bilhão até 2030, de acordo com o documento.Portanto, é fundamental que sejam adotadas medidas coordenadas para antecipar as crises, reforçar as instituições e os governos locais, aumentar a resiliência da comunidade e investir na análise de dados e riscos.

O informe também recomenda o investimento na humanidade. Ban Ki-moon exortou os doadores e as autoridades nacionais a mudarem a mentalidade para a “doação de fundos para financiamento” dos atores e instituições locais, já que melhoram a rentabilidade e a transparência. O secretário-geral explicou que a cúpula de Istambul, que será organizada pelo Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU, oferecerá pela primeira vez a oportunidade de refletir sobre um novo contexto de ajuda humanitária.

A cúpula tem por objetivo reunir a comunidade internacional (sociedade civil, governantes, setor privado, representantes das missões de paz) para conceber novas políticas e estratégias de assistência humanitária nos países afetados.

“Peço aos líderes do mundo que venham à Cúpula Mundial Humanitária preparados para assumir suas responsabilidades por umanova era nas relações internacionais. Uma era na qual a salvaguarda da humanidade e a promoção do progresso humano impulsione nossa tomada de decisões e medidas coletivas”, escreveu Ban no prefácio do informe. Envolverde/IPS

The post ONU anuncia Cúpula Mundial Humanitária appeared first on IPS em português.

]]>
http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/onu-anuncia-cupula-mundial-humanitaria/feed/ 0
Anticoncepção sexista mata na Índia http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/anticoncepcao-sexista-mata-na-india/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/anticoncepcao-sexista-mata-na-india/#comments Fri, 12 Feb 2016 11:33:58 +0000 talita http://www.envolverde.com.br/?p=205764 Por Neeta Lal, da IPS –  Nova Délhi, Índia, 12/2/2016 – As mortes por esterilização não são muito conhecidas na Índia. Mas um trágico episódio ocorrido em 2014, no qual 12 mulheres morreram após uma falida campanha estatal de esterilização em massa no Estado de Chhattisgarh, ocupou as manchetes da imprensa internacional. Cerca de 80 […]

The post Anticoncepção sexista mata na Índia appeared first on IPS em português.

]]>
As mulheres rurais na Índia suportam uma enorme pressão de suas famílias para não usarem anticoncepcionais orais nem injeções, optando, por outro lado, pelo método cirúrgico. Foto: Neeta Lal/IPS

As mulheres rurais na Índia suportam uma enorme pressão de suas famílias para não usarem anticoncepcionais orais nem injeções, optando, por outro lado, pelo método cirúrgico. Foto: Neeta Lal/IPS

Por Neeta Lal, da IPS – 

Nova Délhi, Índia, 12/2/2016 – As mortes por esterilização não são muito conhecidas na Índia. Mas um trágico episódio ocorrido em 2014, no qual 12 mulheres morreram após uma falida campanha estatal de esterilização em massa no Estado de Chhattisgarh, ocupou as manchetes da imprensa internacional. Cerca de 80 mulheres foram “fustigadas como gado” em acampamentos provisórios para realizarem a ligadura de trompas mediante laparoscopia sem exames prévios, o que custou a vida de muitas delas.

Em outro caso, registrado em 2013, a policial do Estado indiano de Bihar deteve três homens por praticarem intervenções cirúrgicas sem anestesia em cerca de 53 mulheres durante duas horas. Aproximadamente quatro milhões de intervenções cirúrgicas realizadas entre 2013 e 2014 deixaram cerca de 1.434 mulheres prejudicadas por essa causa, segundo o Ministério da Saúde.

Uma das principais causas desse problema é o exagerado foco posto na esterilização feminina nos programas de planejamento familiar do governo e uma lamentável falta de opções para as mulheres em matéria de controle da natalidade. Não há outras formas de anticoncepção disponíveis devido à falta de centros de saúde. Existem apenas injetáveis e comprimidos de progesterona em hospitais privados, inacessíveis para as mulheres pobres.

A esterilização masculina ainda é mal vista, e, segundo as últimas pesquisas da organização Planejamento Familiar 2020 (FP2020), a feminina representa 74,4% dos métodos anticoncepcionais modernos utilizados na Índia, enquanto a dos homens chega a apenas 2,3%. O uso de preservativos representa 11,4% e as pílulas anticoncepcionais apenas 7,5%, e não há registros de implantes ou injetáveis.

No Estado de Karnataka, por exemplo, mulheres representam 95% das esterilizações realizadas nos centros de bem-estar familiar. A situação sanitária se deve a uma grave disparidade de gênero, a uma mentalidade patriarcal e a atitudes sociais fortemente arraigadas, e, apesar de a vasectomia ser um procedimento muito menos invasivo e complicado do que a ligadura de trompas, obriga-se as mulheres a realizá-la.

“Na esterilização masculina os cirurgiões seccionam o conduto por onde circula o esperma dos testículos até o pênis. É muito menos doloroso do que a esterilização feminina, que éuma cirurgia abdominal, para ocorte e ligamento das trompas de Falópio”, explicou o ginecologista e obstetra Pratibha Mittal, do Hospital Fortis, em Nova Délhi.

O capítulo de Bengaluru da Associação de Planejamento Familiar da Índia (FPAI,) que promove a saúde sexual no país, informou que recebe entre 70 e 80 pedidos de esterilização tubária por mês. “Raramente um homem consulta sobre uma vasectomia”, concordou um dos médicos consultados.As mulheres rurais suportam a pressão de seus maridos e familiares dele para não tomar anticoncepcional oral nem injeção, por isso só lhes resta a alternativa cirúrgica. Além disso, são oferecidos a elas todos os tipos de incentivos, desde máquinas de lavar e batedeiras, até dinheiro em espécie.

Defensores da saúde feminina afirmam que os objetivos em matéria de esterilização fixados pelo governo também empurram as mulheres para a sala de cirurgia.“A insistência oficial na esterilização feminina é a alternativa preferida para evitar a difícil tarefa de educar a população sobre outras opções, ensinar as mulheres pobres sem educação formal de comunidades isoladas sobre o uso de pílulas anticoncepcionais é muito mais caro do que as campanhas em massa de esterilização”, lamentou Neha Kakkar, voluntária da Associação de Planejamento Familiar.

Para os especialistas, a preocupação está em que o número de homens interessados na vasectomia diminuiu nos últimos cinco anos. Estatísticas do governo da capital indiana mostram que, entre 2009 e 2010,eles representavam 20% das esterilizações, mas o índice caiu para 14% entre 2010 e 2011, 8% entre 2012 e 2013, 7% entre 2013 e 2014, e 5% entre 2014 e 2015.

As esterilizações em massa começaram na Índia em 1970, dentro do programa de planejamento familiar, com ajuda do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e do Banco Mundial. Mas se converteram em uma infâmia em meados daquela década, quando a primeira-ministra Indira Gandhi suspendeu o governo democrático, e organizações estatais lançaram uma campanha draconiana para esterilizar homens pobres mediante métodos coercitivos.

Centenas de homens, até jovens de 16 ou 17 anos e solteiros, foram conduzidos em caminhões e operados em acampamentos provisórios. Aqueles que se negavam a se submeter a essa prática sofriam abusos policiais. Mas a coerção nunca funciona.“É necessária uma campanha de educação sobre a esterilização masculina. Os homens acreditam que perdem potência sexual, o que não é verdade. Então, as mulheres assumem a carga do planejamento familiar e esquecem que os homens são igualmente responsáveis”, pontuou Mittal.

Segundo especialistas, é necessária uma mudança de paradigma, especialmente porque a Índia, com cerca de 1,2 bilhão de habitantes, segue para superar a China como país mais povoado do mundo em 2030, ao se aproximar de 1,5 bilhão de habitantes. Inclusive, no país nascem 11% mais meninos do que meninas a cada ano, acima da referência de 5%, o que aprofunda o desequilíbrio entre os sexos.

Um informe de 2012da Human Rights Watch (HRW), organização com sede em Nova York, pedia urgência ao governo indiano no sentido de criar um sistema de denúncias independente, para que as pessoas denunciassem a coerção e a qualidade do serviço nos centros de esterilização. Também recomendava educar os homens sobre as alternativas contraconceptivas para eles, mas não há evidências de que as autoridades tenham agido conscientemente.

A salvação pode estar no crescimento da população da Índia, que diminuiu de 21,54%, no período 1991-2000, para 17,64%, entre 2001 e 2011. Segundo dados oficiais, a fertilidade também caiu, de 2,6% em 2008, para 2,3% em 2013. Com a constante pressão dos meios de comunicação, além da esterilização, o governo tenta aumentar a oferta e a disponibilidade de anticoncepcionais no contexto do programa nacional de planejamento familiar. Há pouco a Índia incluiu o anticoncepcional injetável no programa.

“A oferta de mais opções e um acesso melhor a anticoncepcionais modernos deveria ser uma parte intrínseca dos programas de igualdade de gênero e saúde na Índia”, ressaltou a voluntária Kakkar. “As campanhas de sensibilização sobre os benefícios do planejamento familiar e a substituição das cirurgias coercitivas por um maior acesso a opções de saúde reprodutiva modernas devem fazer arte das bases de nossa estratégia sanitária”, enfatizou. Envolverde/IPS

The post Anticoncepção sexista mata na Índia appeared first on IPS em português.

]]>
http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/anticoncepcao-sexista-mata-na-india/feed/ 0
Quem fala bem inglês não é terrorista http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/quem-fala-bem-ingles-nao-e-terrorista/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/quem-fala-bem-ingles-nao-e-terrorista/#comments Fri, 12 Feb 2016 11:29:35 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=205761 Por Baher Kmal, da IPS –    Cairo, Egito, 12/2/2016 – Você fala inglês fluentemente? Não? Então você corre o risco de se converter em terrorista! A IPS apresentou esse dilema a várias jovens muçulmanas que vivem no Cairo, explicando que essa parece ser a fórmula do primeiro-ministro britânico, David Cameron, para julgar o nível de […]

The post Quem fala bem inglês não é terrorista appeared first on IPS em português.

]]>
Cartaz de protesto contra o primeiro-ministro britânico, David Cameron, em uma rua de Londres, em 2011. Foto: Mark Ramsay/Flickr

Cartaz de protesto contra o primeiro-ministro britânico, David Cameron, em uma rua de Londres, em 2011. Foto: Mark Ramsay/Flickr

Por Baher Kmal, da IPS – 

 

Cairo, Egito, 12/2/2016 – Você fala inglês fluentemente? Não? Então você corre o risco de se converter em terrorista! A IPS apresentou esse dilema a várias jovens muçulmanas que vivem no Cairo, explicando que essa parece ser a fórmula do primeiro-ministro britânico, David Cameron, para julgar o nível de risco das mulheres muçulmanas de caírem, passivamente, na armadilha do extremismo islâmico.

Aqui vão algumas respostas: “Este senhor deve estar brincando, não posso acreditar”, disse a estudante universitária egípcia Fatima S. M., que, como as demais consultadas, pediu para não ter o sobrenome revelado. “Isto é um insulto. O que tem a ver o idioma com esse risco?”, afirmou Fakhira H., do Paquistão, casada com um engenheiro egípcio.

“Isto é puro colonialismo. Cameron continua sonhando com o Império Britânico”, reagiu a jovem nigeriana Afunu K., que trabalha em uma empresa de exportação e importação na capital do Egito. “Meu Deus! Sabíamos que as mulheres muçulmanas são vítimas de estigmatização constante em todas as partes, em particular nos países ocidentais. Mas nunca esperava que fosse nesse nível”, protestou a tradutora tunisina Halima M.

Naturalmente, esta não é em absoluto uma pesquisa científica, mas um exemplo indicativo de como as mulheres muçulmanas de diferentes países e origens reagem diante da surpreendente declaração de Cameron, de que aquelas que não alcançarem um elevado nível de inglês poderiam ser expulsas da Grã-Bretanha.

Cameron sugeriu que um “nível pobre” de inglês pode tornar as pessoas “mais suscetíveis”a mensagens de grupos como o Estado Islâmico (EI). “Depois de dois anos e meio, as muçulmanas deverão ter melhorado seu inglês e nós as examinaremos. Vamos fazer em outubro o exame, que será aplicado às pessoas que chegaram recentemente com um visto de cônjuge”.

Os comentários do primeiro-ministro foram feitos no dia 18 de janeiro, ao anunciar a implantação por seu governo conservador de um fundo do idioma, no valor de US$ 28,5 milhões para as mulheres muçulmanas que vivem na Grã-Bretanha, como parte de uma campanha para “construir sua integração na sociedade”. As atuais normas britânicas de imigração exigem que os cônjuges ou companheiros sejam capazes de falar inglês antes de chegarem ao país para viverem com seus parceiros.

“Serão submetidas a mais testes depois de dois anos e meio na Grã-Bretanha”, explicou Cameron, para imediatamente ameaçar as muçulmanas dizendo não ser seguro que possam continuar nas ilhas britânicas se não estiverem melhorando o idioma inglês.Estima-se que o número de muçulmanas que vivem na Grã-Bretanha esteja em torno de 2,7 milhões, de uma população total de 64 milhões. O governo britânico considera que aproximadamente 190 mil mulheres muçulmanas (cerca de 22% do total) que vivem no país falam pouco ou nada de inglês.

“Se não são capazes da falar inglês, se não são capazes de se integrar, é possível, portanto, que se vejam diante do desafio de entender qual é sua identidade e, assim, poderiam ser mais suscetíveis à mensagem extremista”, afirmou o primeiro-ministro britânico.Cameron insistiu na vinculação entre o desconhecimento ou a pobreza no uso do idioma pelos muçulmanos e a vulnerabilidade às mensagens de grupos islâmicos radicais. “Não estou dizendo que exista algum tipo de ligação causal entre não falar inglês e se converter em um extremista, naturalmente que não”, amenizou o chefe de governo.

Curiosamente, ou não, o gabinete ministerial britânico não ratificou no último verão boreal o chamado Convênio de Istambul, uma convenção pan-europeia que estabelece normas mínimas que os governos devem cumprir na hora de abordar a violência contra as mulheres. A Grã-Bretanha havia assinado esse convênio há três anos e meio. A convenção entrou em vigor há cerca de 18 meses.

As declarações do primeiro-ministro não tardaram a ser duramente criticadas em seu próprio país. Trata-se de uma “política-apito… totalmente”, apontou Tim Farron, líder liberal democrata. A ideia de Cameron é “equivocada”, reagiu Sayeeda Warsi, ex-copresidente do partido conservador, criticando o fato de começar a fazer “políticas baseadas em estereótipos que estigmatizem as comunidades”.

Andy Burnham, porta-voz de Assuntos de Interior do gabinete na sombra do Partido Trabalhista, acusou Cameron de um “enfoque torpe e simplista”, dizendo ser “injusto estigmatizar toda uma comunidade”.“Vergonhosos estereótipos”, afirmou Mohammed Shafiq, diretor da Fundação Ramadhan, na Grã-Bretanha.

Essas são algumas reações selecionadas de uma série de pessoas que têm a possibilidade de terem suas vozes ouvidas.Mas imagine que você é uma mulher muçulmana e vive na Grã-Bretanha. Como qualquer outra mulher, já enfrenta muitos obstáculos cotidianos em uma sociedade onde a desigualdade de gênero é flagrante em todas as partes.

Também considere que esses obstáculos aumentam pelo fato de você ser uma estrangeira, e, ainda, a religião que professa acrescenta um peso adicional de estigmatização em sua mente e sobre seus ombros.Como se sentiria? Envolverde/IPS

The post Quem fala bem inglês não é terrorista appeared first on IPS em português.

]]>
http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/quem-fala-bem-ingles-nao-e-terrorista/feed/ 0
Tratado contra testes nucleares só no papel http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/tratado-contra-testes-nucleares-so-no-papel/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/tratado-contra-testes-nucleares-so-no-papel/#comments Thu, 11 Feb 2016 13:43:12 +0000 Thalif Deen http://www.envolverde.com.br/?p=205722 Por Thalif Deen, da IPS –    Nações Unidas, 11/2/2016 –Após nove anos no cargo, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, se retirará em dezembro, possivelmente sem conseguir um de seus objetivos políticos mais ambiciosos, o de garantir a entrada em vigor do Tratado de Proibição Completa dos Testes Nucleares (CTBT). “Em […]

The post Tratado contra testes nucleares só no papel appeared first on IPS em português.

]]>
O cogumelo atômico sobre o atol de Bikini, nas Ilhas Marshall, gerado por Castle Bravo, o maior teste nuclear realizado pelos Estados Unidos em toda sua história. Foto: Departamento de Energia dos Estados Unidos, por intermédio daWikimediaCommons

O cogumelo atômico sobre o atol de Bikini, nas Ilhas Marshall, gerado por Castle Bravo, o maior teste nuclear realizado pelos Estados Unidos em toda sua história. Foto: Departamento de Energia dos Estados Unidos, por intermédio daWikimediaCommons

Por Thalif Deen, da IPS – 

 

Nações Unidas, 11/2/2016 –Após nove anos no cargo, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, se retirará em dezembro, possivelmente sem conseguir um de seus objetivos políticos mais ambiciosos, o de garantir a entrada em vigor do Tratado de Proibição Completa dos Testes Nucleares (CTBT).

“Em 2016 completamos 20 anos desde que o tratado foi aberto para assinaturas”, afirmou Ban no final de janeiro, quando alertou que o teste nuclear da Coreia do Norte, realizado no dia 6 de janeiro – o quarto desde 2006 –, foi um fato “profundamente desestabilizador para a segurança regional e prejudica seriamente os esforços internacionais de não proliferação”.

Agora é o momento de fazer o último esforço para assegurar que o CTBT entre em vigor e de maneira universal, ressaltou o secretário-geral. Os governos devem considerar uma maneira de reforçar a suspensão de fato dos testes nucleares, para que “nenhum Estado possa utilizar a situação atual do CTBT como desculpa para realizar um teste nuclear”, apontou.

Mas a pergunta é: estamos perto ou longe da entrada em vigor do CTBT?

“O CTBT foi amplamente recebido como a prova de fogo da sinceridade dos Estados que possuem armas nucleares em seu compromisso com o desarmamento”, pontuou à IPS JayanthaDhanapala, integrante do Grupo de Pessoas Eminentes designadas pelo secretário executivo da Secretaria Técnica Provisória da Organização do CTBT (CTBTO). “A promessa concreta de sua adoção foi uma das causas que levaram à extensão permanente do Tratado de Não Proliferação Nuclear em 1995”, acrescentou.

O fato de não estar em vigor esse importante freio à pesquisa e ao desenvolvimento da arma mais destrutiva já inventada não é bom sinal, na medida em que se deterioram as relações entre os Estados Unidos e a Rússia, que juntos possuem 93% das armas nucleares do planeta, advertiuDhanapala, que foi subsecretário-geral da ONU para Assuntos de Desarmamento.São gastas enormes quantidades de dinheiro na modernização das armas e existe a possibilidade de grupos extremistas com práticas terroristas poderem adquiri-las, o que se soma à ameaça que estas armas representam apenas por existirem, observou.

John Hallam, da organização australiana Gente pelo Desarmamento Nuclear, disse à IPS que ao longo dos anos sugeriu várias propostas para que seja adotado o CTBT, com a possibilidade de um “grupo de amigos (governos)” declararem que, para eles, o tratado já está vigorando. Esse grupo poderia reunir uma cômoda maioria na Assembleia Geral da ONU para consolidar essa situação com uma resolução declarando que o tratado está em vigor, acrescentou.

“Entendo perfeitamente que essas estratégias provavelmente encontrem resistência por parte dos Estados que não ratificaram o tratado. Dessa forma, a pressão seria sobre eles para que o ratifiquem. E a maioria não deve estar sujeita à pequena minoria daqueles que apresentam resistência, por mais influentes que sejam”, destacouHallam.

O CTBT foi aprovado pela Assembleia Geral da ONU em 1996, mas ainda não entrou em vigor por uma razão fundamental: oito países estratégicos se negam a assiná-lo ou ratificá-lo. Os três que não assinaram (Coreia do Norte, Índia e Paquistão), e os cinco que não ratificaram (China, Egito, Estados Unidos, Irã e Israel) seguem inalteráveis em sua postura, quase 20 anos depois da adoção do tratado.

Atualmente, muitos Estados que possuem armas nucleares suspenderam voluntariamente os testes. “Mas a suspensão não substitui a vigência do CTBT. Os quatro testes nucleares realizados pela Coreia o Norte são uma prova disso”, enfatizou Ban.Em setembro de 2013 foi encomendado a um grupo de aproximadamente 20 “pessoas eminentes” a tarefa pouco invejável de convencer os oito países recalcitrantes a aderirem ao tratado. Segundo o CTBT, o tratado não pode entrar em vigor sem a participação desses oito países.

Em outubro, diante da Comissão da ONU sobre Desarmamento e Segurança Internacional, LassinaZerbo, secretário executivo da CTBTO, disse que é preciso reavivar o espírito da década de 1990 e superar a atitude de “aqui nada acontece” reinante nos últimos anos. No atual milênio, somente a Coreia do Norte violou a suspensão dos testes nucleares, recordou. “Ainda faltam medidas para garantir o futuro do tratado como uma barreira legal firme contra os testes nucleares e a corrida armamentista”, acrescentou.

As armas e os testes nucleares têm um impacto perigoso e desestabilizador na segurança mundial, e negativo parao ambiente, disse Zerbo. Até o momento foram investidos mais de US$ 1 bilhão no regime de verificação mais sofisticado e de maior alcance concebido para controlar esses testes nucleares, assegurou.Os países tomaram de boa fé importantes decisões de segurança nacional, com a expectativa de que o tratado fosse legalmente vinculante e em conformidade com o direito internacional, e os governos devem terminar o trabalho realizado pelos especialistas, enfatizou.

“Os desafios do desarmamento e da não proliferação exigem ideias audazes e soluções globais, bem como a participação ativa das partes interessadas de todos os rincões do mundo. Igualmente importante é a geração de capacidade da nova geração de especialistas, que levaram o esforço adiante”, concluiu Zerbo.

Por sua vez, Hallam considera “que a CTBTO está fazendo um trabalho magnífico, e especificamente que Zerbo faz um grande trabalho de promoção do tratado. Sugeriu que seria importante que os dados brutos recolhidos pela rede de sensores da CTBTO estejam disponíveis com facilidade e rapidez para a comunidade de investigação, e não apenas aqueles relacionados com a não proliferação, mas geofísicos e climatológicos, para não falar dos centros de alerta de tsunamis. Envolverde/IPS

The post Tratado contra testes nucleares só no papel appeared first on IPS em português.

]]>
http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/tratado-contra-testes-nucleares-so-no-papel/feed/ 0
Alegria brasileira, legado contraditório http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/alegria-brasileira-legado-contraditorio/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/alegria-brasileira-legado-contraditorio/#comments Thu, 11 Feb 2016 13:30:57 +0000 Mario Osava http://www.envolverde.com.br/?p=205716 Por Mario Osava, da IPS –  Rio de Janeiro, Brasil, 11/2/2016 – A alegria, um reconhecido patrimônio do Brasil que tem sua manifestação mais explosiva no Carnaval, contradiz qualquer lógica. Provem da chaga histórica da escravidão e nega a crise econômica e política que deprime o país. O Carnaval deste ano seguiu a tendência de se […]

The post Alegria brasileira, legado contraditório appeared first on IPS em português.

]]>
Os carnavais fazem transbordar a alegria e a festa nas cidades brasileiras, como ocorreu este ano em Olinda, no nordeste do país. Foto: Diego Galba/Prefeitura de Olinda

Os carnavais fazem transbordar a alegria e a festa nas cidades brasileiras, como ocorreu este ano em Olinda, no nordeste do país. Foto: Diego Galba/Prefeitura de Olinda

Por Mario Osava, da IPS – 

Rio de Janeiro, Brasil, 11/2/2016 – A alegria, um reconhecido patrimônio do Brasil que tem sua manifestação mais explosiva no Carnaval, contradiz qualquer lógica. Provem da chaga histórica da escravidão e nega a crise econômica e política que deprime o país. O Carnaval deste ano seguiu a tendência de se prolongar por duas semanas, e foi tão festejado como os anteriores – ou mais –, com as ruas tomadas por multidões, apesar da economia em queda desde o ano passado, da epidemia do vírus zika e de escândalos de corrupção envolvendo crescente quantidade de política.

A África está na raiz desse entusiasmo que faz dançar e cantar dias inteiros. Essa origem, se percebe, por exemplo, ao se visitar Angola e comprovar que 27 anos de guerra civil, com meio milhão de mortos e cem mil mutilados, segundo estimativas considerada parciais, não sacrificaram o riso fácil e o hábito de viver dançando. Na África do Sul, juntar três ou quatro pessoas é o suficiente para que elas comecem a cantar, dançar e rir, observou o veterano e premiado jornalista brasileiro Washington Novaes, em um artigo de junho de 2010, no qual recorda sua experiência de 2002, quando cobriu a Cúpula Mundial do Desenvolvimento, em Johannesburgo.

Surpreso, perguntou a um taxista jovem sobre o fenômeno de seu povo, tão sofrido, onde encontrava tanta alegria”. A resposta foi que “o sofrimento nos ensinou que nossa alegria tem de ser apenas nossa, vir de dentro, nada pode tirar nossa alegria”.Do outro lado do Atlântico algo semelhante acontece em países e regiões que receberam grande quantidade de africanos escravizados, como Cuba e outras nações do Caribe, além do Brasil. Fora dos trópicos, também no sul dos Estados Unidos, povoado por muitos afrodescendentes, há testemunhos desse fenômeno.

Há mais semelhanças entre o Brasil e o sul norte-americano “do que se imagina, inclusive nas momentos ruins, ambos têm um passado escravagista, de violência contra o povo negro, e somos povos alegres”, destacou o cônsul geral dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, James Story, em uma entrevista ao jornal O Globo, no dia 1º de janeiro.A dança, a música e o futebol são áreas onde a alegria aportada pelos descendentes de escravos é mais visível no Brasil, mas é uma influência difusa na vida nacional, ainda que seja mais difícil comprovar como ocorre o contágio em geral.

No Carnaval fica clara sua participação decisiva na popularização da festa, nas ruas, no papel fundamental da percussão, já que os negros são reis do ritmo. Mas essa participação diminuiu em momentos de maior controle oficial da festa e por sua expansão como negócio, restrito aos que podem pagar melhor pelo entretenimento.O momento atual é de popularização. Os blocos resgataram o carnaval de rua, se multiplicando pelo Brasil.

A tendência anterior, acentuada nas últimas décadas do século passado, fazia predominar o espetáculo comercial. As escolas de samba atraíam a atenção, desfilando suas gigantescas alegorias e milhares de figurantes em áreas fechadas, os sambódromos. Suas apresentações se destinavam mais aos espectadores da classe média e às emissoras de televisão, um mercado milionário, turístico e audiovisual, a cada ano excluindo mais os negros.

Na pré-história do Carnaval,houve outras tentativas de enquadrá-lo à religião ou aos bons modos da elite, afastando-o dos pobres. O catolicismo, que lhe deu o nome, procurou fazer da festa um “adeus à carne” antes da quaresma de reflexão e jejum, conciliando com suas origens pagãs, como as bacanais gregas e romanas.No Brasil, os governantes tentaram proibir o precursor do carnaval, conhecido como entrudo –caóticas brincadeiras de rua portuguesas que ganharam grande adesão entre os escravos negros –, e confinar a celebração aos bailes de gala.

Integrantes de um bloco de mulheres dançam portando instrumentos de raízes africanas, em desfile em um bairro do Rio de Janeiro durante o carnaval deste ano, que confirmou o resgate popular da festa. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Integrantes de um bloco de mulheres dançam portando instrumentos de raízes africanas, em desfile em um bairro do Rio de Janeiro durante o carnaval deste ano, que confirmou o resgate popular da festa. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Mas o Carnaval, como baile de rua e com suas canções típicas, só ganhou forma no final do século 19, com forte e crescente participação negra. O samba, que depois se converteria em seu ritmo oficial, surgiu em 1917, como expressão musical de moradores pobres do Rio de Janeiro, de maioria negra.Esse gênero de música permaneceu exclusivo das favelas (com maioria de população negra) até que, décadas depois, as classes médias e brancas o incorporaram aos seus repertórios, se assenhorando do ritmo e suavizando-o como bossa nova.

Uma diversidade de ritmos e gêneros musicais foi criada pelos negros, não só no Brasil, como forma de contagiar de alegria variados povos do mundo. O jazz nos Estados Unidos, o reggae jamaicano, a cúmbia colombiana, o merengue dominicano e o mambo cubano, entre outros.O futebol brasileiro deve sua fase ascendente e mais alegre principalmente aos negros. Nesse caso, o processo foi inverso ao do Carnaval e do samba, começou em 1894 como esporte da elite, proibido aos negros e pobres, até que algumas equipes desafiaram essa regra e incorporaram os excluídos.

O Brasil vive, então, uma popularização do futebol, com heróis como Pelé, um negro, e Garrincha, um mulato justamente apelidado de “alegria do povo”. Com eles o Brasil venceu as Copas do Mundo de 1958, 1962 e 1970, conquistando admiradores em todo o mundo.Houve outros ídolos negros, antes e depois desse apogeu, que ajudaram a fazer do futebol uma fonte de alegria para os brasileiros, mas também exemplos que desnudaram e talvez aumentaram o persistente racismo no país.

Três negros da seleção de 1950 foram considerados pela população os principais culpados da derrota diante do Uruguai, consideradauma tragédia nacional, que impediu o Brasil de ganhar o primeiro mundial em seu próprio templo do futebol, o Maracanã no Rio de Janeiro.

De todo modo é uma ironia da história que os negros, trazidos da África à força, tenham aportado ao país, que os escravizou e continua tratando-os com racismo, esse dom da alegria, que apaixona visitantes, imigrantes e inclusive pesquisadores internacionais de história e sociologia.São numerosos os “brasilianistas” norte-americanos, que adotaram o Brasil como objeto de seus estudos, e o sociólogo italiano Domenico de Masi, autor de O Ócio Recreativo, aponta o país como modelo para o futuro.

O Brasil foi o último país a abolir a escravidão, em 1888, e nunca aprovou nenhum tipo de reparação pelos mais de três séculos de exploração, opressão, maus-tratos e matanças praticadas contra os afrodescendentes.A população negra diminuiu no país nas décadas seguintes. Sem medidas para lhes garantir a sobrevivência em liberdade, os antigos escravizados afundaram na miséria e na consequente alta mortalidade. Envolverde/IPS

The post Alegria brasileira, legado contraditório appeared first on IPS em português.

]]>
http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/alegria-brasileira-legado-contraditorio/feed/ 0
Microcefalia reabre discussão sobre aborto http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/microcefalia-reabre-discussao-sobre-aborto/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/microcefalia-reabre-discussao-sobre-aborto/#comments Thu, 11 Feb 2016 13:15:54 +0000 Mario Osava http://www.envolverde.com.br/?p=205712 Por Mario Osava, da IPS –  Rio de Janeiro, Brasil, 11/2/2016 – O momento é adverso, de avanço de grupos conservadores e religiosos, especialmente no parlamento, mas a epidemia do vírus zika, acompanhada de um foco de microcefalia, renova a discussão sobre o aborto no Brasil. A advogada Silvia Pimentel afirmou à IPS ter identificado, nessa […]

The post Microcefalia reabre discussão sobre aborto appeared first on IPS em português.

]]>
Cartaz mostrado durante uma das inúmeras manifestações no Brasil a favor da legalização da interrupção voluntária da gravidez. Foto: Cortesia de Distintas Latitudes

Cartaz mostrado durante uma das inúmeras manifestações no Brasil a favor da legalização da interrupção voluntária da gravidez. Foto: Cortesia de Distintas Latitudes

Por Mario Osava, da IPS – 

Rio de Janeiro, Brasil, 11/2/2016 – O momento é adverso, de avanço de grupos conservadores e religiosos, especialmente no parlamento, mas a epidemia do vírus zika, acompanhada de um foco de microcefalia, renova a discussão sobre o aborto no Brasil. A advogada Silvia Pimentel afirmou à IPS ter identificado, nessa dramática situação gerada pelo vírus zika,“um chamado à sociedade para debater de forma racional e generosa” uma revisão da lei que penaliza a interrupção da gravidez.

Pimentel, integrante do comitê de 23 especialistas independentes que vigiam o cumprimento da Convenção das Nações Unidas sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher (Cedaw), defende o direito ao aborto no caso de “anomalia fetal grave e irreversível”, um passo à frente na dura legislação brasileira.

Uma lei de 1940 define como crime contra a vida pôr fim à gestação, estabelecendo duas exceções, uma quando o aborto é “necessário” como única forma de salvar a vida da mulher grávida e outra se a gravidez é resultado de uma violação. A anencefalia se incorporou como “terceira permissão legal”, por uma decisão de 2012 do Supremo Tribunal Federal (STF), baseada no fato de que sem cérebro o feto não sobrevive fora do útero.

“Agora é diferente, a microcefalia não é como anencefalia, em termos de vida extrauterina. Para o feto anencéfalo, o útero atua como uma unidade de terapia intensiva, muitos morrem inclusive antes de nascer”, destacou Clair Castilhos, secretária executiva da Rede Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Reprodutivos. A microcefalia, ou cérebro pequeno, indica graves deficiências neurológicas, mas não necessariamente inviabiliza a vida.

“Nesse caso se trata de discutir o direito da mulher escolher se mantém ou não a gravidez,quando a gestante e seu companheiro sabem que o filho poderá sofrer graves problemas”, explicou Castilhos, farmacêutica e bioquímica especializada em saúde pública.Se o STF, convocado a se pronunciar sobre o tema, acolher a demanda das feministas será “uma quarta permissão”, acrescentou a especialista.

“Ainda não será o que defendemos, que é o direito de todas as mulheres decidirem sobre a gravidez em qualquer circunstância, e não como crime permitido em alguns casos”, destacou Castilhos à IPS. “Será difícil, porém, aprovar essa exceção adicional. O aborto, em qualquer circunstância, viola o primeiro dos direitos humanos, que é a vida”, argumentam os opositores, encabeçados pelos movimentos religiosos, que condenaram inclusive a despenalização no caso de fetos anencéfalos, sustentando que a vida começa nafecundação.

“Prática eugenésica” é a nova acusação, disseminada pelas redes sociais, contra os que querem impedir o nascimento de microcéfalos, sugerindo que têm semelhanças com os nazistas.A eugenesia ocorre quando o Estado, de forma autoritária, intervém ditando decisões, controlando úteros, e não quando se quer liberdade para que as mulheres decidam como planejar sua família, responde Débora Diniz, pesquisadora do Instituto de Bioética Anis e da Universidade de Brasília, em entrevistas e artigos de opinião.

Bairro Bom Jardim, em Fortaleza, uma das grandes cidades da regiãoNordeste do Brasil, a mais afetada pelo vírus zika. A falta de saneamento, com grandes lixões às margens de riachos e água parada em vários recipientes, incluindo a tampa de uma garrafa, ajudam na propagação do mosquito Aedes Aegypit, vetor da zika, da dengue e da chicungunya. Foto: Mario Osava/IPS

Bairro Bom Jardim, em Fortaleza, uma das grandes cidades da regiãoNordeste do Brasil, a mais afetada pelo vírus zika. A falta de saneamento, com grandes lixões às margens de riachos e água parada em vários recipientes, incluindo a tampa de uma garrafa, ajudam na propagação do mosquito Aedes Aegypti, vetor da zika, da dengue e da chicungunya. Foto: Mario Osava/IPS

Diniz integra um grupo de juristas, feministas e outros ativistas, que pretende pedir ao STF uma sentença sobre o aborto em caso de microcefalia, repetindo o processo sobre a anencefalia, que começou em 2004 e só teve decisão em 2012.Até 30 de janeiro, o Brasil já tinha 404 casos comprovados de recém-nascidos com microcefalia, contados desde outubro, quando foi identificado o foco relacionado com a epidemia de zika. Seguem em exames outros 3.670 casos.

Houve 76 mortes associadas ao cérebro reduzido ou a anomalias do sistema nervoso central, antes ou depois do parto, mas apenas cinco tiveram o vírus zika identificado no tecido fetal e outras 56 continuam sob exame.Dezessete das crianças nasceram com má-formação cerebral comprovadamente vinculada à infecção de suas mães pelo vírus zika, transmitido pelo mosquito Aedes Aegypti, que também é vetor da dengue e da chicungunya.

Essas três doenças provocam febre, mais moderada e intermitente no caso da zika, que também apresenta dores e erupções e irritação na pele, mas menos intensas do que nas outras duas. Por isso muitos infectados por zika não dão importância aos sintomas e isso dificulta registrar a quantidade de enfermos. O governo não tem dados nem mesmo estimados das vítimas da epidemia e só agora decidiu tornar obrigatória a notificação dos contagiados.

Por dengue houve 1.649.008 afetados registrados pelo Ministério da Saúde em 2015, com 863 mortos, 82,5% mais do que em 2014. Esse vírus está mais disseminado e é mais letal, mas parece comover menos a população do que o zika. A microcefalia, uma consequência restrita aos casais em idade fértil, tem um impacto mais mobilizador. Sua associação com o zika foi estabelecida por pesquisadores brasileiros.

A Organização Mundial da Saúde afirma que ainda não está comprovada plenamente uma razão de causa entre as duas doenças, mas declarou,no dia 1º, emergência sanitária de nível mundial pela epidemia de zika e pelo aumento dos transtornos neurológicos e das más-formações congênitas.

No Brasil, o Aedes só provocou a decisão nacional de conter sua proliferação ao afetar a infância de uma forma perversa. Uma campanha com 220 mil militares, outros milhares de funcionários e mobilização popular foi lançada pelo governo no final de janeiro. O país “terá uma geração de infectados com sequelas” se não conseguir eliminar o mosquito, afirmou o ministro da Saúde, Marcelo Castro, criticado por suas contraditórias declarações sobre a epidemia.

O governo quer responsabilizar a sociedade pelo combate ao mosquito, sem assumir sua responsabilidade na precariedade do saneamento básico do país, deixando “lixo e água parada por todos os cantos”, compondo um imenso criadouro de mosquitos, pontuou à IPS uma grande referência nacional em bioética, Volnei Garrafa.No debate que se renova sobre o direito ao aborto seria importante contar com um conselho de bioética, como os existentes na Europa e inclusive em alguns países da América Latina, a região onde a interrupção voluntária da gravidez permanece ilegal, salvo poucas exceções muitos restritas.

Garrafa reconhece que, com a atual composição bicameral do Congresso, sob forte influência de grupos evangélicos e católicos, é quase impossível aprovar medidas que avancem na legislação do aborto, ainda que gradualmente. “O Congresso deixou de ser nacional para converter-se em um tribunal de inquisição no qual prevalecem as crenças religiosas”, radicalizou Clair Castilhos.As propostas parlamentares em tramitação caminham para trás, buscam restringir o direito ao aborto no caso de violação, impondo exigências humilhantes às vítimas que praticamente inviabilizam a medida.

“O STF se vê obrigado a cobrir os vazios legislativos, com risco de produzir uma corrosão do Estado democrático, pela inversão de poderes, com o Judiciário legislando em lugar do parlamento”, ressaltou Garrafa. O máximo tribunal do país emitiu, nas últimas décadas, sentenças sobre temas complexos, como biossegurança e uso de células embrionárias, temas em que especialistas em avaliar conjuntamente questões biológicas e éticas ajudariam a superar ou atenuar as controvérsias, acredita o fundador de várias instituições brasileiras e latino-americanas de bioética.

No atual quadro político brasileiro, o STF é a esperança de avanços em direitos reprodutivos e sexuais, para a autonomia da família, reconheceram à IPS tanto Pimentel, como Castilhos e Garrafa. Nesse contexto, o foco de microcefalia é traumático, mas também representa uma oportunidade para o debate sobre aborto e saneamento, enfatizaram. Envolverde/IPS

The post Microcefalia reabre discussão sobre aborto appeared first on IPS em português.

]]>
http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/microcefalia-reabre-discussao-sobre-aborto/feed/ 0
Um trabalhador imigrante fala por muitos http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/um-trabalhador-imigrante-fala-por-muitos/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/um-trabalhador-imigrante-fala-por-muitos/#comments Fri, 05 Feb 2016 12:23:33 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=205669 Por Francesco Farnè, da IPS –  Roma, Itália, 5/2/2016 – “Nos primeiros meses que passei na Itália, sempre rezei para que chovesse. Passava horas olhando a previsão do tempo”, contou Roni, um universitário de 26 anos de uma família de renda média de Bangladesh. De pai funcionário público e mãe dona de casa, Roni teve que […]

The post Um trabalhador imigrante fala por muitos appeared first on IPS em português.

]]>
Três em cada quatro trabalhadores de Bangladesh residentes na Itália atuam no setor terciário e 23,3% estão empregados no setor de hotelaria e restaurantes. Foto: SimbaShaniKamaria Rousseau/IPS

Três em cada quatro trabalhadores de Bangladesh residentes na Itália atuam no setor terciário e 23,3% estão empregados no setor de hotelaria e restaurantes. Foto: SimbaShaniKamaria Rousseau/IPS

Por Francesco Farnè, da IPS – 

Roma, Itália, 5/2/2016 – “Nos primeiros meses que passei na Itália, sempre rezei para que chovesse. Passava horas olhando a previsão do tempo”, contou Roni, um universitário de 26 anos de uma família de renda média de Bangladesh. De pai funcionário público e mãe dona de casa, Roni teve que vender guarda-chuva nas ruas de Roma por mais de um ano, antes de encontrar trabalho de verão junto ao mar em uma cafeteria.

O rapaz disse à IPS que em 2012 abandonou seu país, como muitos outros bengaleses, em busca de melhores oportunidades na Europa. “Era impossível conseguir emprego em Bangladesh, apesar de universitário. Tinha ouvido que muitos amigos e parentes fizeram uma fortuna na Itália e queria ser como eles”, acrescentou.

Segundo cálculos do Instituto Nacional de Estatísticas, em 2015 havia mais de 138 mil bengaleses morando legalmente na Itália, aumento de 9% em comparação com 2014. E 75,6% deles estavam empregados no setor de serviços. Além disso, mais de 20 mil bengaleses foram registrados como proprietários de empresas em 2013, segundo o informe anual sobre a presença de imigrantes A Comunidade Bengalesa, do Ministério de Trabalho e Política Social italiano.

O processo de obtenção de visto é muito complexo. “Há dois tipos de vistos, um para os trabalhadores agrícolas e outro para os demais. O primeiro é bastante fácil de conseguir e custa menos, cerca de oito mil euros, enquanto o segundo, o que consegui, exige um patrocinador residente na Itália e o custo passa de 12 mil euros”, contou Roni.

“Paguei ao meu patrocinador diretamente e ele completou toda a documentação necessária. Uma vez que obtive a nullahosta (autorização), pude solicitar o visto na embaixada da Itália em Bangladesh”, continuou o rapaz. “Tive sorte porque os documentos demoraram apenas três meses. Muitas pessoas têm de esperar muito mais tempo e pagar a dois ou três intermediários para se conectar com um patrocinador”, acrescentou.

Conseguir apoio da comunidade de bengaleses é difícil. “Ninguém me ajudou na busca por emprego, nem me deram indicação alguma sobre onde comprar guarda-chuvas para vender, nem me ajudou com o idioma, já que não falava italiano. Meu patrocinador só me ajudou a encontrar um lugar para dormir – um quarto dividido com nove estranhos que paguei por minha conta – e isso foi tudo”, lamentou Roni.

Após 18 meses de procura, o rapaz encontrou trabalho em um restaurante e está contente. Além disso, tem um contrato que lhe permitirá renovar sua autorização de residência. Roni ganha mais de mil euros por mês, suficiente para enviar entre 400 e 600 para sua família em Bangladesh. As remessas são parte de sua “missão” na Itália já que, desde que seu pai se aposentou, sua família usa o dinheiro para pagar o aluguel e a subsistência em geral.

Depois da China, Bangladesh é o segundo país de destino das remessas procedentes da Itália, que chegaram a 346,1 milhões de euros em 2013, ou 7,9% do total de remessas, segundo o informe anual do Ministério de Trabalho e Política Social.

Embora por contrato Roni tenha jornada de seis horas de trabalho, na realidade faz dez ou mais pelo mesmo salário, e os dias de licença ou doença não contam como dias trabalhados, explicou. Ele afirmou que recebe menos do que outros trabalhadores. Ainda que as condições de emprego de Roni pareçam melhores do que as de outros imigrantes, seu empregador não cumpre muitos dos direitos trabalhistas em matéria de retribuições, licença por doença e horas de trabalho semanal, que constam de numerosas diretrizes estabelecidas pela Comissão Europeia.

“Mas isso não tem a ver apenas com chefes maus que exploram os imigrantes”, opinou Roni. “Nós, como trabalhadores imigrantes temos que lutar por nossos direitos e deixar de aceitar essas condições humilhantes. Acredito que as políticas do governo para proteger os trabalhadores são boas”, acrescentou.“Não é questão de políticas, mas da forma como são implantadas para garantir o respeito às leis. De fato, depois que funcionários do governo fizeram uma inspeção onde trabalho, fomos imediatamente contratados e ganhamos acesso formal a medidas básicas de segurança e proteção social”, concluiu, com um chamado ao seu próprio povo.

“Nos ajudemos entre nós e juntemos nossos pontos fortes. Não nos esqueçamos de ajudar os recém-chegados, porque isso nos dará frutos. Eu mesmo ajudei dois cidadãos bengaleses dando-lhes abrigo em casa e pagando seu aluguel. Eles me devolverão logo que conseguirem emprego. A solidariedade leva a uma situação em que todos ganham e é a única maneira de melhorar nossa condição”, pontuou Roni.

O rapaz é apenas um dos inúmeros rostos que representam a crise migratória na Itália. Os mais fracos sofrem as piores consequências, desde a perspectiva das políticas de Estado, e não há dúvida de que uma estratégia integrada da União Europeia será a única maneira eficaz de enfrentar a questão.Isto é especialmente certo quando se trata de garantir a aplicação e o cumprimento das leis trabalhistas, de seguridade social e os direitos humanos.

Em nível nacional e local, as instituições italianas e as organizações não governamentais têm um papel fundamental a desempenhar. Devem criar consciência e melhorar a compreensão desses temas.Os trabalhadores devem ser conscientes de seus “direitos trabalhistas e de emprego, direitos sociais e de bem-estar, e onde buscar ajuda”, afirmaa Organização Internacional do Trabalho em sua publicação A Proteção dos Direitos dos Trabalhadores Migrantes: Uma Responsabilidade Compartilhada.

Tudo isso pode ajudar significativamente a gerar mudanças legislativas necessárias no setor do trabalho, para garantir que os direitos dos migrantes sejam protegidos. Por fim, as instituições italianas e a sociedade civil devem exigir controles mais rígidos por parte das autoridades para garantir que as leis existentes sejam cumpridas, conforme sugeriu Roni. Envolverde/IPS

The post Um trabalhador imigrante fala por muitos appeared first on IPS em português.

]]>
http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/um-trabalhador-imigrante-fala-por-muitos/feed/ 0
ONU saúda novo parlamento da Birmânia http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/onu-sauda-novo-parlamento-da-birmania/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/onu-sauda-novo-parlamento-da-birmania/#comments Fri, 05 Feb 2016 12:20:54 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=205665 Por ThalifDeen, da IPS –  Nações Unidas, 5/2/2016 – Quando o birmanês U Thant foi eleito secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1961, também se converteu no primeiro asiático a ocupar o cargo, o terceiro na história do fórum mundial, seguindo Trygve Lie, da Noruega, e Dag Hammarskjold, da Suécia. Sua designação foi um […]

The post ONU saúda novo parlamento da Birmânia appeared first on IPS em português.

]]>
Guardas fronteiriços de Bangladesh negam a entrada a refugiados rohingyas da Birmânia, em novembro de 2013. Foto: AnurupTitu/IPS

Guardas fronteiriços de Bangladesh negam a entrada a refugiados rohingyas da Birmânia, em novembro de 2013. Foto: AnurupTitu/IPS

Por ThalifDeen, da IPS – 

Nações Unidas, 5/2/2016 – Quando o birmanês U Thant foi eleito secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1961, também se converteu no primeiro asiático a ocupar o cargo, o terceiro na história do fórum mundial, seguindo Trygve Lie, da Noruega, e Dag Hammarskjold, da Suécia. Sua designação foi um acontecimento histórico para a Ásia, especialmente porque depois esperaria longos 45 anos para que outro asiático ocupasse o cargo, até que o atual secretário-geral, o sul-coreano Ban Ki-moon, foi eleito em janeiro de 2007.

Outro acontecimento histórico ocorreu na Birmânia, em novembro de 2015, quando foram organizadas eleições nacionais, as primeiras após décadas de ditadura, consideradas pela ONU como “um êxito significativo da transição democrática”.A líder democrática birmanesa e prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, que cumpriu 15 anos de prisão domiciliar, foi eleita legisladora à frente da opositora Liga Nacional para a Democracia (LND), que obteve a maioria parlamentar.

Nodia 2, o parlamento se reuniu na capital,Naypyidaw, pela primeira vez depois de décadas, e pelo menos 110 legisladores da LND, dos 390 parlamentares, são ex-presos políticos.Mas Aung San não pode ocupar a Presidência, porque a Constituição proíbe que um cidadão ou cidadã com descendência ou cônjuge estrangeiro ocupe a chefia de governo.Seus filhos, nascidos na Grã-Bretanha, são considerados estrangeiros; seu pai, já falecido, Michael Aris, era um acadêmico britânico.

Entretanto, a reabertura do parlamento “é um passo extremamente importante para o restabelecimento da democracia no país”,destacou o porta-voz da ONU,StephaneDujarric. Por sua vez, PalithaKohona, ex-representante permanente do Sri Lanka na ONU, pontuou à IPS que é preciso aplaudir a transição gradual para a democracia na Birmânia. “Há tempos esse país não goza de uma democracia como a da Grã-Bretanha (nem como a da Índia). Levará um tempo para consolidar uma transição que tenha êxito”, opinou.

“Sabemos por experiências recentes que uma democracia tipo ocidental não pode ser imposta em um país sem trajetória democrática. Vale recordar que a integridade territorial será uma prioridade para a Birmânia que deverá atender as tensões étnicas na medida em que absorve com lentidão a nova experiência política”, apontou Kohona.Em 2007, foi criado o Grupo de Amigos do Secretário-Geral para a Birmânia, um fórum consultor de 14 países para colaborar com seus esforços no sentido de promover uma mudança dessa nação no sudeste asiático.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, se reuniu com Aung San Suu Kyi na Birmânia (Myanmar), em novembro de 2014. Foto RichBajornas/ONU

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, se reuniu com Aung San Suu Kyi na Birmânia (Myanmar), em novembro de 2014. Foto RichBajornas/ONU

Durante anos Ban aplaudiu a libertação de presos políticos, como a própria Aung San. Em 2010, se mostrou preocupado pela decisão do regime militar de dissolver dezpartidos políticos, incluída a LND, antes das eleições de novembro daquele ano.

Agora, os Estados Unidos, que impuseram duras sanções econômicas e militares contra o regime pelo tratamento dado aos presos políticos e pelas violações de direitos humanos, começaram a aliviar as restrições. Desde 2012 Washington contribuiu com US$ 500 milhões para o processo de reforma política nesse país, com iniciativas como a implantação do Acordo Nacional de Cessar-Fogo e os esforços para aumentar a participação da sociedade civil e das mulheres nos processos de paz.

Em uma entrevista coletiva realizada em Naypyitaw, em dezembro, o secretário de Estado adjunto dos Estados Unidos, Antony J. Blinken, declarou que seu país aplaudia as declarações positivas do presidente birmanês TheinSein e da cúpula militar por felicitar a LND e se comprometer a respeitar o resultado eleitoral. Também é animador que Aung San tenha se reunido com o presidente e o comandante-chefe das forças armadas, Min Aung Hlaing, para conversar sobre a transição democrática.

“Sabemos que são muitos os desafios pela frente. É necessário fomentar um crescimento econômico de base ampla e sustentado. O processo de reconciliação nacional deve continuar”, ressaltouBlinken. Os presos políticos que restam devem ser libertados, bem como é necessário contar com garantias para a proteção dos direitos humanos, sem importar questões étnicas ou religiosas, acrescentou.

As reformas devem seguir até que haja um governo civil eleito nas urnas e realmente soberano e todas as instituições nacionais respondam ao povo. “Os Estados Unidos trabalharão estreitamente com o novo governo, ajudando-o a conseguir esses objetivos, e continuarão promovendo investimentos responsáveis de nossas companhias na Birmânia, que acreditamos fortalecem as novas empresas locais e constroem capital humano, em lugar de apenas extrair recursos”, acrescentou o secretário.

Blinkenobservou que “falamos sobre o processo de paz e o diálogo político entre governo e os diferentes grupos étnicos. Os Estados Unidos farão tudo o que os atores desse esforço histórico considerarem necessário para contribuir para seu êxito. Mas pedimos que acabem com urgência as operações militares e que os civis necessitados tenham acesso irrestrito à assistência humanitária”.

Washington se preocupa especialmente pela discriminação e violência sofrida pelas minorias étnicas e religiosas, como os rohingya, do Estado de Rakhine. Ban lamentou que um grande número de integrantes das minorias, especialmente da comunidade rohingya, não puderam votar nem se candidatar, segundo comunicado emitido pela secretaria geral da ONU, que também pediu urgência aos atores nacionais para que mantenham um ambiente de calma, respeito aos direitos humanos e proteção do Estado de direito.

“Resta muito trabalho no caminho para a democracia e para um futuro com eleições verdadeiramente inclusivas”, diz a declaração do secretário-geral. “Um futuro em que o desenvolvimento e a paz tenham raízes firmes na inclusão, no respeito e na tolerância, e sejam protegidos os direitos humanos, independente da origem étnica, raça, religião ou do gênero, e ninguém fique marginalizado, vulnerável ou seja discriminado”, enfatizou. Envolverde/IPS

 

The post ONU saúda novo parlamento da Birmânia appeared first on IPS em português.

]]>
http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/onu-sauda-novo-parlamento-da-birmania/feed/ 0
Mulheres, vítimas da política migratória http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/mulheres-vitimas-da-politica-migratoria/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/mulheres-vitimas-da-politica-migratoria/#comments Thu, 04 Feb 2016 12:47:01 +0000 Ivet González http://www.envolverde.com.br/?p=205613 Por Ivet González, da IPS –  Santo Domingo, República Dominicana, 4/2/2016 – Uma mulher prepara ramos de rosas amarelas no mercado de rua em Pequeno Haiti, um bairro pobre da capital da República Dominicana. “Não quero falar, não tire fotos”, pediu à IPS essa trabalhadora, acompanhada de uma menina que parecia ser sua filha.Outras vendedoras do […]

The post Mulheres, vítimas da política migratória appeared first on IPS em português.

]]>
Duas vendedoras de frutas, grãos e vegetais, no mercado de rua em Pequeno Haiti, em Santo Domingo, capital da República Dominicana. Elas permitiram ser fotografadas, mas preferiram não falar de sua situação. O medo faz parte da vida das imigrantes haitianas no país. Foto: Dionny Matos/IPS

Duas vendedoras de frutas, grãos e vegetais, no mercado de rua em Pequeno Haiti, em Santo Domingo, capital da República Dominicana. Elas permitiram ser fotografadas, mas preferiram não falar de sua situação. O medo faz parte da vida das imigrantes haitianas no país. Foto: Dionny Matos/IPS

Por Ivet González, da IPS – 

Santo Domingo, República Dominicana, 4/2/2016 – Uma mulher prepara ramos de rosas amarelas no mercado de rua em Pequeno Haiti, um bairro pobre da capital da República Dominicana. “Não quero falar, não tire fotos”, pediu à IPS essa trabalhadora, acompanhada de uma menina que parecia ser sua filha.Outras vendedoras do grande mercado informal em que se converteram as ruas do bairro, todas afrodescendentes, também se recusam a conversar.

“Têm medo porque pensam que serão deportadas”, disse, sussurrando, uma comerciante, enquanto mexia um caldo em um fogão à lenha em plena calçada.Esse medo se deve à última onda de deportações, dentro do conflito migratório, algumas vezes aberto e outras escondido, que domina as relações deste país com o Haiti, o mais pobre da América Latina e com sua população majoritariamente negra, com o qual compartilha a ilha caribenha La Espanhola.

Segundo dados oficiais, a Direção Geral de Migração dominicana deportou, entre agosto de 2015 e janeiro de 2016, 15.754 haitianos sem documentos, e regressaram voluntariamente ao seu país outros 113.320, incluídos 23.286 menores de idade. “Esse processo afeta em maior grau as mulheres, porque, quando a identidade dominicana é negada a um filho ou uma filha, as mães são as responsáveis diretas por não ter legalizado sua situação”, explicou à IPS Lilian Dolis, coordenadora do não governamental Movimento de Mulheres Dominicano-Haitiana (Mudha).

“Se a mãe não tem os documentos, então a documentação dos filhosé questionada. E, no caso das migrantes haitianas, não basta se casar com um dominicano, embora a Constituição lhe conceda a nacionalidade do marido. Muitas vezes esse direito é violado, por isso elas ainda carregam uma carga muito tortuosa”, acrescentou a ativista do movimento nascido em 1983.

A mais recente crise migratória começou em 2013, quando uma sentença do Tribunal Constitucional determinou os novos parâmetros para obter a nacionalidade. A medida mais conflituosa é que não são considerados dominicanos os filhos de imigrantes ilegais nascidos no país, inclusive aqueles inscritos no registro civil. As pessoas nessa situação ficam em um limbo sem nacionalidade, ou apátridas, segundo críticas de muitos organismos internacionais.

Com base nessa decisão, o governo promoveu a Lei Especial de Naturalização, que pôde ser aplicada uma única vez, entre 23 de maio de 2014 e 1º de fevereiro de 2015, às filhas e aos filhos de estrangeiros residentes que nasceram em solo dominicano entre 16 de junho de 1929 e 18 de abril de 2007. Durante esse período a norma de regime especial foi aplicada a 8.755 pessoas.

A florista Antonia Abreu, uma das poucas vendedoras ambulantes que aceitaram falar sobre a dura realidade das imigrantes haitianas na República Dominicana, em seu posto de venda no bairro de Pequeno Haiti, em Santo Domingo, capital da República Dominicana. Foto: Dionny Matos/IPS

A florista Antonia Abreu, uma das poucas vendedoras ambulantes que aceitaram falar sobre a dura realidade das imigrantes haitianas na República Dominicana, em seu posto de venda no bairro de Pequeno Haiti, em Santo Domingo, capital da República Dominicana. Foto: Dionny Matos/IPS

Paralelamente, as autoridades implantaram, de 1º de junho de 2014 a 17 de junho de 2015, o Plano Nacional de Regularização de Estrangeiros para todos os imigrantes radicados no país que estivessem em situação irregular. Nesse programa puderam se inscrever 288.466 imigrantes sem documentos, na maioria haitianos, para obter uma autorização de permanência e trabalho. Mas apenas 240 mil cumpriram todos os requisitos e conseguiram status legal.

Desde agosto, as forças policiais realizam contínuas operações e os que não estão com documentos em dia vão para “campos de boas-vindas”, instalados em vários pontos da fronteira para serem devolvidos ao Haiti. “A maioria das haitianas trabalha fora de casa, e poucas têm situação econômica que permita serem donas de casa”, apontou Antonia Abreu, umadominicano-haitiana que há 40 anos vende arranjos de flores para festas, presentes e também funerais no mercado em Pequeno Haiti.

Conhecida pelo seu sobrenome, La Araña contou à IPS que “as mulheres vendem roupas, comida, aplicam perucas, são empregadas doméstica e há trabalhadoras sexuais. Muitas são paleteras (vendedoras ambulantes) que sofrem os abusos da polícia, que apreende seus carrinhos e suas mercadorias quando não têm documentos”. Ela ressaltou que “as que trabalham de forma saudável conseguem se inserir na sociedade e contribuir para o país”.

Entre a rara mescla de odores de especiarias, esgoto a céu aberto, comidas típicas e lixo, muitas mulheres subsistem a duras penas nesse mercado do bairro de maioria haitiana, com a venda de flores, refeições, alimentos crus, roupas, utensílios domésticos e equipamentos eletrodomésticos de segunda mão.O bairro, localizado bem perto de uma grande via comercial e da turística Cidade Colonial de Santo Domingo, está abandonado pelas autoridades municipais, ao contrário de seus pujantes vizinhos.

Isso transformou o local em um submundo onde sobrevive uma população incalculável em um entorno decadente. Entretanto, quase não há criminalidade, destacam moradorese não moradores.A clientela de seus pontos de venda na rua costuma ser de imigrantes haitianos, que trabalham em condições qualificadas como escravidão por organizações internacionais. Também recebe pessoas de renda muito baixa, nesse país de 9,3 milhões de habitantes, onde 33% das famílias vivem na pobreza, de acordo com o Mapa da Pobreza na República Dominicana 2014.

Uma imigrante haitiana no assentamento rural de Mata Mamón, na República Dominicana, onde trabalha como diarista. As mulheres haitianas que trabalham nas fazendas dominicanas são invisíveis, tanto para as estatísticas como para os programas de apoio aos migrantes rurais, denunciam ativistas. Foto: Dionny Matos/IPS

Uma imigrante haitiana no assentamento rural de Mata Mamón, na República Dominicana, onde trabalha como diarista. As mulheres haitianas que trabalham nas fazendas dominicanas são invisíveis, tanto para as estatísticas como para os programas de apoio aos migrantes rurais, denunciam ativistas. Foto: Dionny Matos/IPS

“As imigrantes ilegais não podem trabalhar, nem estudar ou ter uma vida pública. Acabam indo diretamente para o setor do serviço doméstico e trabalho informal. E, mesmo que tenham a documentação, as dominicano-haitianas sempre são excluídas dos projetos sociais”, afirmou Dolis.Neste país de arraigada cultura machista, as haitianas e suas filhas sofrem uma profunda exclusão em virtude de um coquetel de xenofobia, racismo e discriminação de gênero, segundo diferentes estudos e especialistas.

“Elas estão invisíveis. Nem mesmo sabemos quantas são”, lamentou a ativista. “Os dados dos censos não são confiáveis para saber a população dominicana de ascendência haitiana e a pesquisa do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) já está desatualizada” apontou.Dessa forma Dolis se referiu aos últimos dados sobre a matéria, colhidos pela Pesquisa Nacional de Imigrantes, que o estatal Escritório Nacional de Estatísticas realizou em 2012 com apoio do UNFPA.

O estudo estimou que na época viviam em território dominicano cerca de 560 mil imigrantes, dos quais 458 mil nascidos no Haiti.A falta de estatísticas é um obstáculo ao trabalho do Mudha, que está presente em quatro províncias e cinco municípios dominicanos, com suas mensagens e ações para reivindicar os direitos das mulheres dominicano-haitianas, com ênfase nos sexuais e reprodutivos.

O movimento é liderado por um coletivo de 19 mulheres e conta com 62 promotoras, que realizam atividades em comunidades urbanas e rurais. Com seu acompanhamento, o grupo beneficia de maneira indireta mais de seis mil pessoas. A Mudha assegura que o Estado dominicano nunca reconheceu as mulheres haitianas e suas filhas como sujeitos de direito. “Sempre se falou da imigração de trabalhadores braçais, mas nunca das trabalhadoras braçais, ou seja, as mulheres que acompanhavam os seus maridos ou vinham, e vêm, para realizar esse trabalho”, pontuou Dolis.

Fontes históricas identificam, desde antes de 1844, a presença de trabalhadores braçais haitianos nos bateyes (assentamentos ao redor de usinas de açúcar), que suportaram sobre seus ombros os duros trabalhos no cultivo da cana e na produção de açúcar, o motor durante séculos da economia dominicana.Atualmente, a força de trabalho haitiana no país é importante demais no setor agrícola, nos ramos da construção, manufatura, hotelaria e comércio. Envolverde/IPS

The post Mulheres, vítimas da política migratória appeared first on IPS em português.

]]>
http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/mulheres-vitimas-da-politica-migratoria/feed/ 0
Civis sofrem o pior no Iraque http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/civis-sofrem-o-pior-no-iraque/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/civis-sofrem-o-pior-no-iraque/#comments Thu, 04 Feb 2016 12:38:52 +0000 Katherine Mackenzie http://www.envolverde.com.br/?p=205610 Por Katherine Mackenzie, da IPS –  Roma, Itália, 4/2/2016 – Pelo menos 18.800 pessoas foram assassinadas no Iraque nos últimos dois anos e outras 36.345 ficaram feridas em episódios de violência explícita. Mas os dados esquecem dos que não sobreviveram à falta de alimentos básicos, água e cuidados médicos. Aproximadamente metade dessas mortes aconteceu em Bagdá. […]

The post Civis sofrem o pior no Iraque appeared first on IPS em português.

]]>
Combatentes do Estado Islâmico em um vídeo de propaganda realizado em 2014 na província iraquiana de Anbar. Foto: Domínio Público

Combatentes do Estado Islâmico em um vídeo de propaganda realizado em 2014 na província iraquiana de Anbar. Foto: Domínio Público

Por Katherine Mackenzie, da IPS – 

Roma, Itália, 4/2/2016 – Pelo menos 18.800 pessoas foram assassinadas no Iraque nos últimos dois anos e outras 36.345 ficaram feridas em episódios de violência explícita. Mas os dados esquecem dos que não sobreviveram à falta de alimentos básicos, água e cuidados médicos. Aproximadamente metade dessas mortes aconteceu em Bagdá. Os números, provavelmente subestimados, correspondem ao período entre 1º de janeiro de 2014 e 31 de outubro de 2015, segundo um informe da Missão de Assistência das Nações Unidas ao Iraque (Unami), e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (Acnudh).

A Agência de Notícias dos Emirados Árabes Unidos (WAM) divulgou o editorial do jornal local The Gulf Today, que analisouo informe da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o Iraque e a instabilidade que sacode a região.“Os dados refletem o número de pessoas mortas e feridas pela violência explícita, mas ignora o fato de que muitas outras morrem por falta de acesso a alimentos básicos, água ou cuidados médicos”, afirmou o jornal emiratense no mês de janeiro.

“Cerca de 3,2 milhões de pessoas são refugiadas dentro de seu país desde o começo de 2014, quando o temido Estado Islâmico (EI) assumiu o controle de vastas áreas do país”, acrescentou oThe Gulf Today.“Como se sabe, terroristas do Estado Islâmico cometeram numerosos atos desumanos, como assassinatos, decapitações, destruição, além de queimar pessoas vivas e jogar outras do alto dos edifícios”, ressaltou o editorial.

“Crianças-soldado que tentaram fugir foram assassinadas sem piedade, enquanto era praticada violência sexual contra mulheres e menores, especialmente como escravas”, prosseguiu o The Gulf Today, acrescentando que,“segundo o informe da ONU, mais de 3.500 pessoas, principalmente mulheres e crianças, são escravas de combatentes do EI, que impõem sobre elas uma mão dura caracterizada por macabras execuções públicas”.

“Foram esses horrores que levaram numerosos iraquianos a fugirem para a Europa e outras regiões. A cidade de Ramadi foi considerada o primeiro grande êxito do exército iraquiano, apoiado pelos Estados Unidos, desde que caiu nas mãos do EI em seu avanço pelo norte e oeste do país, em meados de 2014”, lembrou oThe Gulf Today.

O editorial destacou que “erradicar os combatentes rebeldes e eliminar os explosivos da cidade poderia demorar semanas. A descoberta de mais civis do que o previsto entre os escombros, após os sobreviventes falarem sobre o esforço deliberado dos combatentes para empregá-los como escudos humanos, faz pensar que as batalhas que restam serão mais complicadas”.

“Ramadi, onde vivia quase meio milhão de pessoas, infelizmente sofreu uma destruição generalizada. Os desapiedados  terroristas continuam matando, ferindo e forçando o deslocamento de milhares de civis iraquianos e criando um sofrimento interminável”, apontou o jornal, e enfatizou, em consonância com o informe da ONU, que “muitas das ações de combatentes do EI constituem crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio”. “Os responsáveis por esses atos devem ser processados e pagar por sua crueldade extrema”, argumentou.

Por sua vez, o documento das Nações Unidas afirma que “a violência suportada pela população civil no Iraque é incrível. O EI continua exercendo uma violência sistemática e generalizada e cometendo abusos contra o direito humanitário e humano internacional. Esses atos, em alguns casos, são crimes de guerra, contra a humanidade e possivelmente genocídio”.

O documento, preparado pela Unami e pelo Acnudh, foi realizado principalmente com base em testemunhos das vítimas. Algumas das pessoas eram sobreviventes e testemunhas de violações de direitos humanos. Entre elas havia muitos deslocados, vivendo fora de suas casas. “Enquanto o informe era preparado, o EI matou e sequestrou dezenas de civis, frequentemente de maneira dirigida”, aponta o documento.

“As vítimas são as pessoas consideradas opositoras à ideologia do EI, associadas ao governo, como as pertencentes às antigas forças de segurança iraquianas, policiais, funcionários públicos e da comissão eleitoral, profissionais como médicos e advogados, jornalistas e líderes tribais e religiosos”, detalha o documento.

O informe denuncia que “outras pessoas foram sequestradas ou assassinadas supostamente por ajudar ou fornecer informação às forças de segurança do governo. Muitas foram condenadas por tribunais criados pelo EI que, além de ordenar o assassinato de um incalculável número de pessoas, impuseram horríveis castigos como apedrejamento e amputações”.

A ONU também indicou que recebeu denúncias preocupantes sobre assassinatos extrajudiciais e sequestros cometidos por elementos vinculados às forças favoráveis ao governo.O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, afirmou que o número de mortos provavelmente seja muito maior e pediu aos responsáveis medidas urgentes para deter esses atos.

“Mesmo os números obscenos são incapazes de refletir o terrível sofrimento que a população civil iraquianasuporta. Os números refletem as pessoas assassinadas ou feridas em episódios de violência direta, mas muitas outras morreram por falta de alimentos básicos, água e cuidados médicos”, destacou Al Hussein.

Segundo o alto comissário, “o informe deixa descoberto o prolongado sofrimento da população civil no Iraque e é um claro reflexo do que tentam deixar para trás os refugiados iraquianos que fogem para a Europa ou outras regiões. Esse é o horror do qual fogem em sua terra”.Por fim, Zeid apelou ao governo do Iraque para que realize reformas legislativas que concedam aos tribunais locais poderes para processar crimes internacionais e para aderir ao Estatuto de Roma, o instrumento que criou o Tribunal Penal Internacional. Envolverde/IPS

The post Civis sofrem o pior no Iraque appeared first on IPS em português.

]]>
http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/02/ultimas-noticias/civis-sofrem-o-pior-no-iraque/feed/ 0