IPS em português http://www.ipsnoticias.net/portuguese Jornalismo e comunicação para transformar o mundo Fri, 26 Aug 2016 13:19:24 +0000 en-US hourly 1 http://wordpress.org/?v=4.2.9 Pragas e doenças também viajam de navio http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/pragas-e-doencas-tambem-viajam-de-navio/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/pragas-e-doencas-tambem-viajam-de-navio/#comments Fri, 26 Aug 2016 13:19:24 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=213267 Por Baher Kamal, da IPS –  Roma, Itália, 26/8/2016 – “Onde quer que se encontre no mundo, sua vista ao redor, quase seguramente, verá algo que foi ou será transportado por mar, seja como matéria-prima, componente ou produto acabado”, afirma a Organização Marítima Internacional (OMI).“A cada noite, milhões de pessoas sentam-se em suas poltronas para assistir […]

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Contêineres empilhados no porto italiano de Salerno. Foto: FAO

Contêineres empilhados no porto italiano de Salerno. Foto: FAO

Por Baher Kamal, da IPS – 

Roma, Itália, 26/8/2016 – “Onde quer que se encontre no mundo, sua vista ao redor, quase seguramente, verá algo que foi ou será transportado por mar, seja como matéria-prima, componente ou produto acabado”, afirma a Organização Marítima Internacional (OMI).“A cada noite, milhões de pessoas sentam-se em suas poltronas para assistir televisão depois de um árduo dia de trabalho e muitos comerão ou beberão algo. É provável que esse televisor tenha chegado de navio, que o grão do pão do sanduíche tenha chegado em um navio graneleiro e que o café também tenha vindo por mar”, segundo a OMI.

“Inclusive a eletricidade que o televisor utiliza e ilumina a sala provavelmente foi gerada usando combustível que chegou em um enorme petroleiro”, acrescenta a organização.Porém, pouca gente tem ideia de quanto depende do transporte marítimo.“É algo que deve ser considerado. E esse é o motivo de o tema escolhido para o Dia Marítimo Mundial de 2016, celebrado em 29 de setembro, ser O Transporte Marítimo: Indispensável Para o Mundo.

A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) informa que cerca de 80% do comércio mundial em volume e mais de 70% em valor é transportado por mar. Essas porcentagens são mais altas no caso da maioria dos países em desenvolvimento, segundo a organização. “Há mais de 50 mil navios mercantes de comércio internacional, que transportam todo tipo de carga. A frota mundial está registrada em mais de 150 países e é tripulada por mais de um milhão de navegantes de quase todas as nacionalidades”, indica.

Entretanto, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) recorda que nem todo transporte marítimo é benigno. O artigo Uma Ameaça Flutuante: Os Contêineres Marítimos Propagam Pragas e Enfermidades, que a FAO publicou no dia 17 deste mês, destaca que, enquanto os vazamentos de petróleo atraem a atenção do público e geram preocupação, os chamados “lançamentos de origem biológica” supõem uma ameaça maior no longo prazo e não têm tanta repercussão.

“Um fungo estrangeiro acabou com milhares de milhões de castanheiras americanas no século 20, o que alterou drasticamente a paisagem e o ecossistema, enquanto hoje o inseto esmeralda do freixo – outra praga que se deslocou pelas rotas comerciais globais até novos habitats – ameaça fazer o mesmo com essa árvore valiosa, utilizada para fazer cabos para ferramentas, violões e mobiliário para escritório”, acrescenta a FAO.

Essa agência da ONU explica que talvez o maior “lançamento biológico” de todos os tempos ocorra quando um micro-organismo eucariota, semelhante a um fungo, chamado phytophthora infestans(o nome provém do grego e significa “destruidor de plantas”), partiu da América para a Bélgica. Em poucos meses chegou à Irlanda, desencadeando uma praga da batata que provocou uma fome mortal e uma migração populacional em massa.

Em Roma, as autoridades municipais intensificam sua campanha anual contra o mosquito-tigre, uma espécie invasora que chegou por navio à Albânia na década de 1970. O Aedes albopictus, conhecido por suas agressivas picadas, prolifera atualmente na Itália e o aquecimento global facilitará que colonize zonas da Europa setentrional.

A cada ano são comercializados produtos agrícolas no valor de US$ 1,1 trilhão. Foto: OMI

A cada ano são comercializados produtos agrícolas no valor de US$ 1,1 trilhão. Foto: OMI

 

Este é o motivo pelo qual os países do mundo se uniram há mais de seis décadas para aprovar a Convenção Internacional de Proteção Fitossanitária (CIPF), com o objetivo de ajudar a deter a propagação de pragas e enfermidades das plantas por intermédio do comércio internacional, e de proteger agricultores, silvicultores, a biodiversidade, o ambiente e os consumidores, diz o artigo da FAO.

“As perdas de colheitas e os custos gerados pelas pragas invasoras para combatê-las encarecem fortemente a produção de alimentos, fibras e forragens”, afirmou Craig Fedchock, coordenador da secretaria da CIPF na FAO. “Em conjunto, as moscas da fruta, os escaravelhos, os fungos e seus parentes reduzem os rendimentos dos cultivos mundiais entre 20% e 40%”, acrescentou.

As espécies invasoras chegam a novos habitats por diversas vias, mas a principal é o transporte marítimo, afirma a FAO.“Em todo o mundo são realizados cerca de 527 milhões de deslocamentos de contêineres marítimos a cada ano – a China movimenta sozinha mais de 133 milhões de contêineres por ano. Não é só a mercadoria que pode atuar como vetor para a propagação de espécies invasoras capazes de causar estragos ecológicos e agrícolas, mas também os próprios componentes de aço dos contêineres”, adverte a agência da ONU.

Por exemplo, uma análise de 116.701 contêineres para o transporte marítimo vazios, que chegaram à Nova Zelândia nos últimos cinco anos, revelou que um em cada dez estava contaminado externamente, o dobro da taxa de contaminação anterior.Segundo a FAO, “entre as pragas encontradas havia lagarta, caracol gigante africano, formigas argentinas e o percevejo malcheiroso marrom marmorizado. Todas elas ameaçam os cultivos, as florestas e os entornos urbanos. Por outro lado, os resíduos do solo podem conter sementes de plantas invasoras, fitopatológicos e nematódeos”.

“Os novos registros de inspeção nos Estados Unidos, na Austrália, China e Nova Zelândia indicam que milhares de organismos de uma ampla variedade estão sendo transportados involuntariamente nos contêineres marítimos”, afirmou Eckehard Brockerhoff, cientista do Instituto de Pesquisa Florestal da Nova Zelândia e responsável principal do citado estudo, em uma reunião na FAO da Comissão de Medidas Fitossanitárias (CMF), órgão reitor da CIPF.

Essas medidas fitossanitárias têm por objetivo assegurar que as plantas importadas estejam livres das pragas especificadas. A FAO alerta que o dano vai muito mais além de problemas relacionados com a agricultura e a saúde humana. As espécies invasoras podem obstruir os leitos fluviais e parar as centrais elétricas.

As invasões biológicas causam danos de aproximadamente 5% da atividade econômica mundial por ano, equivalente a uma década de desastres naturais, segundo um estudo. O impacto econômico de outras consequências mais difíceis de quantificar poderia duplicar esse valor, segundo Brockerhoff. Envolverde/IPS

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Perigosa busca por desaparecidos no Sri Lanka http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/perigosa-busca-por-desaparecidos-no-sri-lanka/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/perigosa-busca-por-desaparecidos-no-sri-lanka/#comments Fri, 26 Aug 2016 13:16:07 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=213264 Por Amantha Perera, da IPS –  Mannar, Sri Lanka, 26/8/2016 – O Sri Lanka dá os primeiros passos na árdua tarefa de buscar milhares de desaparecidos durante as duas décadas e meia de guerra civil, mas os que já trabalham no terreno temem ser alvo de diferentes tipos de intimidação e ameaças ao longo do processo. […]

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 O governo do Sri Lanka reconheceu que pode haver 65 mil pessoas desaparecidas após mais de duas décadas e meia de guerra civil. Foto: Amantha Perera/IPS


O governo do Sri Lanka reconheceu que pode haver 65 mil pessoas desaparecidas após mais de duas décadas e meia de guerra civil. Foto: Amantha Perera/IPS

Por Amantha Perera, da IPS – 

Mannar, Sri Lanka, 26/8/2016 – O Sri Lanka dá os primeiros passos na árdua tarefa de buscar milhares de desaparecidos durante as duas décadas e meia de guerra civil, mas os que já trabalham no terreno temem ser alvo de diferentes tipos de intimidação e ameaças ao longo do processo. O governo criará um Escritório para as Pessoas Desaparecidas (OMP) em outubro, após a ratificação do parlamento no começo deste mês. Esse órgão, o primeiro de seu tipo no país, deverá coordenar o programa de busca em todo território nacional.

Por ocasião do Dia Internacional das Vítimas de Desaparecimentos Forçados, que é celebrado em 30 de agosto, funcionários da Cruz Vermelha do Sri Lanka, que realizam um programa de busca de pessoas, disseram à IPS que continua sendo difícil encontrar os que desapareceram em combate, especialmente se estiveram ligados aos grupos armados.“É um grande problema”, disse um funcionário da organização, detido durante três horas por militares, quando tentava entrar em contato com a família de uma pessoa desaparecida, cujos familiares na Índia enviaram um pedido de busca à organização.

“A família na Índia não sabia, e eu também não, que se era um alto membro dos (separatistas) Tigres para a Libertação da Pátria Tamil Ealam”, explicou o funcionário, se referindo aos rebeldes que enfrentaram as forças do governo por um Estado independente para a minoria tâmil nesse país de maioria cingalesa. “Quando fui à casa buscar informação, o exército estava do lado de fora”, acrescentou a fonte, que não quis revelar sua identidade. Foi detido e interrogado sobre o motivo da procura e para quem trabalhava.

Como não há um programa nacional para a busca de desaparecidos com apoio do governo, os agentes de segurança não costumam permiti-la, especialmente na zona nordeste do país, onde ocorreram os enfrentamentos e onde ainda há uma forte presença das forças de segurança, desde o fim da guerra, em maio de 2009. Mas, tanto o secretário para a Coordenação de Mecanismos de Reconciliação como o do Escritório para a Reconciliação e a Unidade Nacional, disseram que, quando estiver criada a OMP, o governo promoverá o programa de busca. O projeto de lei inclui disposições para a proteção de vítimas e testemunhas.

Os desaparecidos durante a guerra constituem um assunto delicado no Sri Lanka desde o final do conflito, há sete anos. Uma Comissão Presidencial para os Desaparecidos, que funciona desde 2013, registrou 20 mil denúncias, entre as quais as dos cinco mil integrantes das forças governamentais.O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR) registrou cerca de 16 mil denúncias de pessoas desaparecidas desde 1989. E um informe de 2011, do Grupo de Especialistas para a Responsabilidade do Sri Lanka, criado pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), diz que há mais de 40 mil desaparecidos no país.

Por outro lado, um estudo realizado em 2015 pelo grupo Professores Universitários pelos Direitos Humanos, da Universidade de Jaffna, cidade do norte do Sri Lanka, estima que o número de desaparecidos pode chegar a 90 mil, com base nos dados disponíveis entre a população.

Após vários anos de resistência, o governo de Mahinda Rajapaksa permitiu que o CICR, em 2014, realizasse a primeira pesquisa já feita no país sobre as necessidades das famílias dos desaparecidos. O documento, publicado em julho, conclui que “a avaliação revela que a maior prioridade para as famílias é conhecer o destino e o paradeiro de seus familiares desaparecidos, inclusive informação circunstancial relacionada com seu desaparecimento”.

O pessoal do CICR disse que atualmente assessoram o governo na criação de um mecanismo de busca. “O governo recebeu de forma favorável uma proposta do CICR para ajudar na criação de um mecanismo para esclarecer o destino e paradeiro dos desaparecidos e atender de forma exaustiva as necessidades de suas famílias, compartilhando suas experiências em outros contextos e seus conhecimentos técnicos sobre os aspectos relacionados com o desaparecimento de pessoas e seus familiares”, explicou a porta-voz do CICR, Sarasi Wijeratne.

De fato, a Cruz Vermelha do Sri Lanka tem em andamento um programa nos 25 distritos do país, há três décadas. “Nesse momento, o trabalho de busca se relaciona com as pessoas que tiveram que se separar por causa das migrações”, explicou Kamal Yatawera, diretor da unidade de busca. A iniciativa já rastreou cerca de 12 mil pessoas desparecidas, a maioria separada por deslocamentos ou desastres naturais.

Mas a Cruz Vermelha local no momento não está voltada à busca de desaparecidos durante a guerra, a menos que receba pedido de um membro da família, o que raramente acontece. “Mas buscamos as pessoas que se separaram ou se perderam por causa do conflito, especialmente as que fugiram para a Índia”, pontuou Ravi Kumar, coordenador voluntário de busca no distrito de Mannar, ao norte do país. De fato, já encontraram quatro pessoas dos dez casos que receberam desde dezembro de 2015.

A busca seria mais fácil com um programa que tivesse apoio do governo, ressaltou Kumar. “Nem mesmo temos uma carteira funcional que diga que fazemos esse trabalho. Com a aprovação do governo, poderíamos recorrer à máquina pública, no entanto, somos obrigados a ir perguntado de casa em casa”, acrescentou. Envolverde/IPS

*Este artigo é parte da cobertura da IPS por ocasião do Dia Internacional das Vítimas de Desaparecimentos Forçados, celebrado em 30 de agosto.

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Os direitos das mulheres e o transporte público http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/os-direitos-das-mulheres-e-o-transporte-publico/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/os-direitos-das-mulheres-e-o-transporte-publico/#comments Thu, 25 Aug 2016 13:34:48 +0000 Rose Delaney http://www.envolverde.com.br/?p=213234 Por Rose Delaney, da IPS –  Roma, Itália, 25/8/2016 – O assédio que sofrem as mulheres no transporte público está tão generalizado em todo o mundo que o mais comum é que se calem e não denunciem os assédios verbal, sexual e físico que sofrem nesse espaço. Há estudos estimando que aproximadamente 1,5 milhão de meninas, […]

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A Guatemala, onde se comete a maior quantidade de feminicídios da América Central, inaugurou em 2011 um serviço de ônibus exclusivo para mulheres, a fim de evitar o assédio sexual.Foto: Danilo Valladares/IPS

A Guatemala, onde se comete a maior quantidade de feminicídios da América Central, inaugurou em 2011 um serviço de ônibus exclusivo para mulheres, a fim de evitar o assédio sexual.Foto: Danilo Valladares/IPS

Por Rose Delaney, da IPS – 

Roma, Itália, 25/8/2016 – O assédio que sofrem as mulheres no transporte público está tão generalizado em todo o mundo que o mais comum é que se calem e não denunciem os assédios verbal, sexual e físico que sofrem nesse espaço. Há estudos estimando que aproximadamente 1,5 milhão de meninas, que em 2030 seriam suscetíveis a sofrerem algum tipo de violência e assédio por sua condição de gênero no transporte público, residirão nas cidades.

Se a comunidade internacional de mulheres fizer vista grossa para os olhares que salivam e ao contato humilhante dos homens, não estaremos avivando um “mercado de carne” e sucumbindo à objetivação sexual das mulheres em nível global? Por acaso a renúncia das mulheres em reconhecer o medo generalizado que lhes provocam não dá aos homens que as assediam um poder imbatível? Ao deixar de lado o assédio, as mulheres não estarão fortalecendo a cadeia repressiva do patriarcado ao não questionar nem repreender esse comportamento?

Uma boa oportunidade para enfrentar o assédio sexual e a ameaça que sofrem as mulheres no transporte público, e lutar por seu direito básico à liberdade de movimento em seu próprio entorno, será a Terceira Conferência das Nações Unidas sobre Moradia e Desenvolvimento Urbano Sustentável (Habitat III). Especialmente porque, no encontro, organizado pela ONU Habitat que acontecerá em Quito, capital do Equador,entre 17 e 20 de outubro, se discutirá uma Nova Agenda Urbana mundial.

Muitos poderão dizer que brincar ou que um “pequeno toque” são inofensivos, mas o retrocesso que implica os homens serem uma ameaça para elas no transporte público é vital. As pessoas não costumam considerar um comentário como ameaçador ou um olhar luxuriante possa representar um obstáculo para a liberdade e o desenvolvimento educacional e social das mulheres.

Segundo os últimos debates dirigidos pelo espaço digital de debates Wikigender, as questões relacionadas com a acessibilidade e a segurança podem dissuadir as mulheres de utilizar espaços públicos, de continuar sua educação, de aproveitar oportunidades econômicas e de receber atenção médica.

Se a Nova Agenda Urbana se concentrar em como fazer para o transporte público contemplar as mulheres, se estará mais perto de se conseguir o quinto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que promove a igualdade entre os gêneros e o empoderamento de todas as mulheres e meninas. E também ajudará a cumprir o ODS número 11, que se propõe conseguir que as cidades e os assentamentos humanos sejam inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis.

A necessidade de erradicar os sistemas de transporte que são omissos frente às questões de gênero é especialmente importante na conjuntura atual porque, pela primeira vez na história, há mais pessoas vivendo nas cidades do que nas áreas rurais. Não há melhor momento para implantar iniciativas inclusivas de gênero no transporte do que o atual. Nos países em desenvolvimento, cinco milhões de pessoas começam a viver nas cidades a cada mês.

Um informe da organização humanitáriaPlano Internacional,que trabalha a favor da infância e da adolescência, indica que o medo da violência que as adolescentes sentem prevalece particularmente em cidades de países em desenvolvimento como Kampala, Nova Délhi e Lima, onde foi realizada a pesquisa. As conclusões falam de gritos de terror e do incômodo que gera um sistema de transporte que não contempla as questões de gênero em prejuízo de meninas de apenas 12 anos.

Em Nova Délhi, apenas 3,3% das consultadas disseram se sentir seguras em um meio de transporte público. Já em Lima, apenas 2,2% afirmaram se sentir seguras ao caminhar em espaços públicos. Em Kampala, mais de 80% das jovens mulheres entrevistadas disseram se sentir inseguras nas idas e vindas urbanas, em geral.O estudo foi feito em diferentes partes do mundo, mas o silêncio foi o denominador comum em todas as partes. A dúvida das mulheres na hora de denunciar situações difíceis permite que se mantenha o círculo vicioso de vitimização, assédio e ameaça no transporte público.

As entrevistadas destacaram o fato de suas opiniões não terem sido consideradas na hora de realizar o planejamento urbano e compartilharam um sentimento generalizado de exclusão no que diz respeito à tomada de decisões importantes em suas respectivas cidades. E, o que é irônico, muitas jovens diminuíram a importância ou desculparam as ações dos homens agressores e que assediam.

Durante as entrevistas parao informe da Plano Internacional, palavras como “agressão” e “assédio” foram substituídas por “bobagem inocente”, em Nova Délhi, e por “contato inapropriado”, no Cairo. Isso revela que a reticência das mulheres vítimas de assédio e violência em condenar os agressores deriva de um sentimento intrínseco de vergonha que lhes foi inculcada.

E, no que pode ser considerado um processo de revitimização, o profundo temor socialde ser responsável pelo assédioe de ser objeto de zombaria, de ridículo, e até sofrer castigos, funciona com eixo do silêncio que cerca o assédio contra as mulheres no transporte público. E, indo além, a recorrente negação do direito fundamental que têm as mulheres de se deslocarem nas cidades não gera nada mais do que indignação.

O incômodo e a insegurança feminina já não podem ser considerados uma “norma social” ou uma consequência associada ou vinculada ao fato de ser mulher. A apatia das testemunhas do assédio é consequência de um medo subjacente de intervir de alguma forma na situação. Se ninguém escolhe condenar a agressão, continuarão existindo os obstáculos à livre circulação das mulheres.

É fundamental compreender que esse assunto não é menor nem específico das mulheres, mas que é uma epidemia mundial avivada por um sentimento de machismo adquirido. De fato, uma pesquisa feita pelo Hollaback!, um movimento internacional contra o assédio nas ruas, e pela norte-americana Universidade Cornell, com base em 16 mil entrevistas em 22 países, concluiu que entre 80% e 90% das mulheres sofrem assédio em espaços públicos.

A evidência revela a impactante dimensão do assédio público, a ponto de 66% das mulheres alemãs consultadas dizerem que foram tocadas em público e 47% das indianas terem sido testemunhas de diferentes tipos de exposição masculina em espaços públicos.Em Nova York, estima-se que não são denunciados 96% dos casos de assédio sexual, nem 86% das agressões sexuais que ocorrem no metrô. Em Bogotá, a cidade colombiana considerada como a que tem o transporte público mais perigoso do mundo para a população feminina, seis em cada dez mulheres denunciaram ter sido vítimas de assédio físico enquanto viajavam.

Esses dados mostram que o contínuo assédio dos homens é uma ameaça generalizada e prejudicial ao futuro da igualdade de gênero. Por isso é fundamental que a Nova Agenda Urbana da Habitat III implemente iniciativas com forte ênfase em conseguir que a mobilidade de mulheres e meninas seja segura nos entornos urbanos. Ao garantir um transporte seguro e a proteção das mulheres, criar uma rede de apoio e reconhecer o significado fundamental da voz feminina nos processos de decisão nos âmbitos urbanos, estará preparando o caminho para que se desloquem livremente nas cidades.

Dessa forma, a próxima mulher ou menina que se sentir ameaçada por um olhar que a denigra ou um comentário humilhante não sofrerá as consequências da reprovação e, por outro lado, denunciará o responsável e ajudará a pôr fim à insegurança e à vitimização no transporte público. Envolverde/IPS

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Reflorestamentos que produzem alimentos http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/reflorestamentos-que-produzem-alimentos/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/reflorestamentos-que-produzem-alimentos/#comments Thu, 25 Aug 2016 13:21:28 +0000 Jorge Rodr http://www.envolverde.com.br/?p=213205 Por Jorge Rodríguez, da IPS –  Projeto tem finalidade de apoiar a diversificação dos cultivos graças à árvore de moju (Brosimumalicastrum), espécie nativa de Petén, bem como proporcionar assessoria técnica no cultivo, na colheita e no consumo da mesma. Cidade da Guatemala, Guatemala, 25/8/2016 – A incerteza de embarcar em práticas totalmente desconhecidas é um risco […]

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Uma propriedade de San Luis, na Guatemala. Foto: FAO Guatemala

Uma propriedade de San Luis, na Guatemala. Foto: FAO Guatemala

Por Jorge Rodríguez, da IPS – 

Projeto tem finalidade de apoiar a diversificação dos cultivos graças à árvore de moju (Brosimumalicastrum), espécie nativa de Petén, bem como proporcionar assessoria técnica no cultivo, na colheita e no consumo da mesma.

Cidade da Guatemala, Guatemala, 25/8/2016 – A incerteza de embarcar em práticas totalmente desconhecidas é um risco que quase ninguém na área rural guatemalteca está disposto a assumir. As atividades agrícolas realizadas nas diferentes comunidades costumam utilizar as mesmas técnicas, e plantar os mesmos cultivos, que os avós. Mas essa tradição não necessariamente se traduz em benefícios para as gerações seguintes.

No sul do departamento de Petén, nas comunidades de San Luis, formadas por 40 a 50 famílias, a maioria se dedica ao plantio de feijão e milho. As monoculturas, bem como o avanço da fronteira pecuária, criaram uma paisagem que contrasta com as frondosas florestas que se vê mais ao sul do departamento. Com o objetivo de reflorestar a área, o Ministério de Agricultura e Pecuária (Maga) idealizou um programa de incentivos florestais para as famílias, sem afetar os cultivos tradicionais.

Pedro May Mez é um camponês e agricultor pertencente à etnia maia q’eqchi’. Quando criança migrou com sua família da comunidade de Alta Verapaz para Aguapaque, em busca de oportunidade de terra. Quando chegou junto com sua mãe, seu pai e o avô, sua tarefa era cortar todas as árvores para poderem semear milho e feijão. “Quando chegamos, fui encarregado de matar a floresta e desde há muito tempo não há nada aqui. Só milho e feijão”, contou.

Há dois anos, o Maga, com apoio da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), iniciou a tarefa de gerar desenvolvimento para as comunidades e incentivar o reflorestamento da região. Com essas ideias em mente, foi iniciada a implantação, em 2014, do projeto de desenho e estabelecimento de Sistemas Agroflorestais, com fundos da TeleFood, impulsionada pelo Maga e pela FAO.

A finalidade do projeto é apoiar a diversificação dos cultivos graças à árvore de moju (Brosimumalicastrum), espécie nativa de Petén, bem como proporcionar assessoria técnica no cultivo, na colheita e no consumo da mesma.Além disso, o pessoal do Ministério realiza um acompanhamento dos participantes durante seis anos, para que suas propriedades sejam certificadas pelo Instituto Nacional de Florestas como terrenos de reflorestamento, e assim estarem em condições de receber um incentivo que chega a cerca de US$ 2,3 mil, por esse mesmo período de tempo.

“Os incentivos florestais funcionam como geradores de desenvolvimento para as famílias, sem tirar produtividade de suas terras”, apontou Aldo Rosales, diretor de Recursos Naturais e Agroturismo do Maga. Esse órgão governamental conta com um viveiro próprio, em Poptún, com inventário de 300 mil plantas de espécies de moju, mogno e cedro, e distribui as mudas entre as famílias participantes do programa.

O primeiro passo do programa é a escolha das famílias, que passam por uma série de capacitações técnicas para poderem integrar os novos cultivos às suas terras. Em seguida recebem 160 mudas que plantam no terreno. A partir daí são dadas palestras e capacitações para mantertodas as árvores em bom estado.Depois de seis anos, a árvore de moju já produz sementes e é nesse momento que pode ser aproveitada pelas famílias participantes, já que é utilizada tanto para consumo humano como de animais como vacas, cavalos e outros.

O Ministério também proporciona capacitação às famílias para aprenderem como incorporar omoju à dieta familiar.Além disso, incentiva-se a plantação de outros cultivos como moringas, com uma carga proteica de 24%, que são aproveitados como suplementos alimentareseficazespara essas famílias com recursos limitados. “As ramas têm até 23% de valor proteico. Isso é mais de 20% que o pasto normal. As famílias podem fazer acordos com os pecuaristas locais para realizar atividades de colheita das folhas de moju”, explicou Rosales.

Após anos cortando árvores para dar lugar ao milho e ao feijão, dom Pedro vê esse projeto como uma nova oportunidade para ele e sua família de recuperar algo que todos necessitamos: árvores. “É um projeto muito bom. Faz muito calor, não temos sombra e não há água. Agora em minhas terras teremos de tudo, até madeira. Antes existia a tentação de ir roubar madeira. Mas agora contaremos com nossas próprias árvores e não faremos coisas ruins”, ressaltou.

Rosales assegurou que um dos objetivos, que se contrapõe ao conceito tradicional de reflorestamento, é recuperar uma espécie nativa, como o moju, que gere sustento para as 13 famílias que atualmente integram o programa. “Estamos implantando um programa de reflorestamento que gera alimentos. A ideia é aproveitar o solo ao máximo”, indicou o especialista. No terreno de dom Pedro pode-se ver milho, feijão, moringa e cacau ao lado das árvores de moju com um ano de crescimento.

Durante os seis anos pelos quais se estende o programa, será dividido o valor deaproximadamente US$ 2,4 mil,em pagamentos anuais proporcionais. No final de 2015, os participantes receberam seu primeiro incentivo florestal, de US$ 1 mil. A quantia vai diminuindo paulatinamente até completar a totalidade do incentivo.

Ricardo May Ché, filho de dom Pedro, também faz parte do programa. Tem uma área ao lado da de seu pai e já investiu o dinheiro em objetos de benefícios para sua família. “Compramos sapatos para meus filhos, um painel solar, que nos ajuda a carregar os telefones e dar um pouco de eletricidade às nossas casas, e uma vaca, que em caso de necessidade podemos vender no mercado”, contou. Seu pai comprou um touro para poder ter sua própria criação de gado e assim aumentar a produção de seu trabalho cotidiano.

Outro fator a ser considerado é que são os próprios camponeses que cuidam da fertilização e do solo com seus próprios meios. Em geral, utilizam mato como fertilizante e um sistema de irrigação natural. Envolverde/IPS

*Este artigo foi publicado originalmente pelo escritório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) na Guatemala. A IPS o distribui por acordo especial de difusão com a FAO Guatemala.

 

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Potências ignoram proibição à venda de armas http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/potencias-ignoram-proibicao-a-venda-de-armas/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/potencias-ignoram-proibicao-a-venda-de-armas/#comments Wed, 24 Aug 2016 12:48:21 +0000 Thalif Deen http://www.envolverde.com.br/?p=213148 Por Thalif Deen, da IPS –  Nações Unidas, 24/8/2016 – Os grandes fornecedores de armamento violam o tratado que regula seu comércio e que pretende frear o fluxo de armas pequenas e leves para zonas em guerra e países com regimes repressores, conforme denunciam organizações de direitos humanos e analistas militares.As guerras civis e os conflitos […]

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momumentoarmasPor Thalif Deen, da IPS – 

Nações Unidas, 24/8/2016 – Os grandes fornecedores de armamento violam o tratado que regula seu comércio e que pretende frear o fluxo de armas pequenas e leves para zonas em guerra e países com regimes repressores, conforme denunciam organizações de direitos humanos e analistas militares.As guerras civis e os conflitos atuais no Iraque, Líbia, Afeganistão, Síria, Iêmen, Sudão do Sul e Ucrânia se agravam pelos milhões de dólares destinados ao fornecimento de armas, a maior parte por países que assinaram ou ratificaram o Tratado sobre Comércio de Armas (TCA), que entrou em vigor em dezembro de 2014.

“O tratado é incrivelmente importante”, destacou à IPS Natalie Goldring, consultora da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Instituto Acrônimo para a Diplomacia do Desarmamento e integrante do Programa de Estudos de Segurança da Universidade de Georgetown, nos Estados Unido. “Para dizer de forma simples, se for implantado em sua totalidade, tem o potencial de salvar vidas”, acrescentou. Mas, sem uma boa implementação, corre-se o risco de continuarem a inércia e as violações ao direito humanitário internacional e aos direitos humanos, apontou.

“As últimas vendas de armas e as propostas pelos Estados parte e signatários podem chegar a prejudicar o TCA”, afirmou Goldring, que estuda os 20 anos de negociações do Tratado, adotado pela Assembleia Geral da ONU em abril de 2013.

As denúncias de violações coincidem com as reuniões,esta semana,da segunda Conferência dos Estados Parte, que começaram no dia 22, em Genebra, e terminarão no dia 26. Organizações como Anistia Internacional, Human Rights Watch, Controle de Armas, Forumon Arms Trade, entre outras, documentaram a contínua transferência de armas convencionais, que poderiam ser usadas para violar o direito humanitário internacional e os direitos humanos.

O diretor de controle de armas e direitos humanos da Anistia, Brian Wood, disse que o TCA pode salvar milhões de vidas e, por isso, gera alarme o fato de os Estados que assinaram e até ratificaram o Tratado acreditarem que podem continuar fornecendo armas a forças conhecidas por cometerem e facilitarem crimes de guerra, bem como emitir autorizações de exportação mesmo quando há enormes riscos de as armas participarem de graves violações dos direitos humanos.

“Tem que haver tolerância zero para os Estados que pensam poder assinar o TCA da boca para fora”, ressaltou Wood. É óbvia a necessidade de se conseguir uma implantação efetiva, “do Iêmen, passando por Síria até o Sudão do Sul,todos os dias crianças morrem ou ficam mutiladas, há civis que sofrem ameaças e são detidos à ponta de pistola e grupos armados que cometem abusos com armas fabricadas em países que estão obrigados pelo Tratado”, acrescentou.

Ao fornecer uma lista de “transferências inescrupulosas de armas”, a Anistia apontou os Estados Unidos, que assinaram o TCA, a União Europeia, que o ratificou, e incluiu Bulgária, República Checa, França e Itália, por continuarem fornecendo armas pequenas e leves, munições, veículos blindados e equipamento policial ao Egito, “apesar da brutalidade com que reprimem a oposição e que levou ao assassinato de centenas de manifestantes, a milhares de detenções e a denúncias de torturas contra detidos desde 2013.

Em 2014, a França concedeu uma licença de exportação que incluiu novamente os sofisticados veículos blindados Sherpa, utilizados apenas um ano antes pelas forças de segurança egípcias para assassinar centenas de manifestantes na praça Rabaa al-Adawiya, no Cairo. As armas fornecidas por países signatários do TCA continuaram avivando sangrentas guerras civis, denunciou a Anistia.

Nesse mesmo ano, a Ucrânia aprovou a exportação de 830 metralhadoras leves e 62 pesadas para o Sudão do Sul, acrescentou a organização. Seis meses depois de assinar o Tratado,as autoridades ucranianas emitiram, em 19 de março de 2015, uma licença de exportação para o Sudão do Sul com um número não revelado de helicópteros artilhados e de ataque Mi-24 operacionais. Três deles são usados atualmente pelas forças governamentais desse país, e ao que parece esperam por nova remessa.

Além disso, em março de 2015, o Departamento de Estado norte-americano aprovou a possível venda de equipamentos e apoio logístico à Arábia Saudita, no valor de US$ 24 bilhões, e, entre essa data e junho deste ano, a Grã-Bretanha fez o mesmo no valor de US$ 3,4 bilhões. “Essas aprovações coincidiram com um momento em que a coalizão encabeçada pelos sauditas no Iêmen realizava ataques aéreos e terrestres indiscriminados e desproporcionais contra populações civis, sendo que alguns podem constituir crimes de guerra”, diz um comunicado divulgado pela Anistia esta semana.

Jeff Abramson, do Forumonthe Arms Trade, disse que as reuniões de Genebra coincidem com a controvérsia gerada pela transferência e pelo uso responsáveis das armas convencionais. Entre as questões que podem ser discutidas em Genebra, seja de maneira informal ou formal, destacam-se a promoção da transparência no comércio de armas e em seu fornecimento à Arábia Saudita à luz da catástrofe humanitária causada no Iêmen, incluídas as últimas notificações dos Estados Unidos sobre a possível venda de tanques aos sauditas, enfatizou a organização.

Por sua vez, Goldring pontuou à IPS que há pouco Washington propôs vender 153 tanques Abrams M1A2 para a Arábia Saudita. “A resposta do governo norte-americano ao suposto bombardeio de objetivos civis pelos sauditas é vender-lhes mais armas?”, questionou. “Não tem sentido. Isso faz parte do padrão de contínua transferência de armas apesar dos riscos de serem utilizadas para violar direitos humanos e o direito humanitário internacional”, acrescentou.

Os países sem um forte sistema de controle de suas exportações declararam que levará tempo implantar totalmente o TCA, enquanto outros, como os Estados Unidos, têm inconvenientes internos para ratificar o tratado.Entretanto, uma das fortalezas do texto são as especificações das condições sob as quais se deve frear a transferência de armas, explicou Goldring. Os países não têm motivo para esperar a ratificação ou seu acesso ao tratado para começar a implantá-las. “O TCA é um tratado novo, mas não podemos nos permitir adotá-lo lentamente. Enquanto o discutimos, vidas são perdidas em todo o mundo. Precisamos ser rígidos em sua implantação desde o início”, insistiu.

Outro assunto importante, segundo Goldring, é que a venda de armas seja transparente para a sociedade compreender os compromissos que seus governos assumem em seu nome. “Os governos não deveriam transferir as armas, a menos que estivessem dispostos a serem responsáveis por elas. Sua posição contra a abertura e a transparência gera dúvidas sobre o que tentam esconder”, ressaltou.

Mas, definitivamente, embora a transparência seja importante para a discussão desses temas, o assunto central é se essas transferências são controladas. As últimas vendas geram dúvidas importantes a respeito, explicou Goldring, acrescentando que “a Conferência dos Estados Parte é uma oportunidade fundamental para enfrentar essas questões”.“Para fortalecer o TCA, a Conferência deve se concentrar nessa preocupação crucial e substancial dos riscos de se manter a inércia. Os Estados não devem de distrair dos processos”, ressaltou Goldring, que se encontra em Genebra. Envolverde/IPS

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ONU admite responsabilidade em epidemia de cólera http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/onu-admite-responsabilidade-em-epidemia-de-colera/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/onu-admite-responsabilidade-em-epidemia-de-colera/#comments Wed, 24 Aug 2016 12:44:07 +0000 Phoebe Braithwaite http://www.envolverde.com.br/?p=213145 Por Phoebe Braithwaite, da IPS –  Nova York, Estados Unidos, 24/8/2016 – Seis anos depois de as forças de paz da Organização das Nações Unidas terem levado o cólera parao Haiti, o fórum mundial reconheceu sua responsabilidade na epidemia que causou a morte de dezenas de milhares de pessoas e deixou doentes centenas de milhares no […]

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Manifestante segura um cartaz contra a ONU durante um protesto em frente à base da organização em Porto Príncipe, no Haiti. Foto: AnselHerz/IPS

Manifestante segura um cartaz contra a ONU durante um protesto em frente à base da organização em Porto Príncipe, no Haiti. Foto: AnselHerz/IPS

Por Phoebe Braithwaite, da IPS – 

Nova York, Estados Unidos, 24/8/2016 – Seis anos depois de as forças de paz da Organização das Nações Unidas terem levado o cólera parao Haiti, o fórum mundial reconheceu sua responsabilidade na epidemia que causou a morte de dezenas de milhares de pessoas e deixou doentes centenas de milhares no país mais pobre do continente americano.

“A ONU chegou à convicção de que é preciso fazer muito mais com relação à sua própria participação no foco inicial e no sofrimento das pessoas afetadas pelo cólera”, disse Farhan Haq, porta-voz adjunto do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, em um comunicado. “A ONU está trabalhando para adotar um novo conjunto significativo de ações”, cujos detalhes serão apresentados nos próximos dois meses, informou.

“Esse é um primeiro passo inovador para a justiça”, afirmou Beatrice Lindstrom, advogada das vítimas do cólera e colaboradora do Instituto para a Justiça e a Democracia no Haiti (IJDH), esclarecendo que “a verdadeira prova está no que virá depois”.Segundo ela, “a ONU deve seguir esse anúncio com medidas, incluídas uma desculpa pública, um plano para compensar as vítimas que tanto perderam, e a garantia de que o cólera será eliminado no Haiti por meio de um forte investimento na infraestrutura de água e saneamento. Vamos continuar lutando para isso”.

Lindstrom ressaltou que “as promessas não impedirão que o cólera mate nem compensarão as famílias pobres do Haitipelo dano”.O IJDH, além de representar as vítimas em colaboração com a organização haitianaEscritório de Advogados Internacionais, encabeça uma campanha mundial que cobra da ONU resposta justa e critica Ban por sua falta de liderança decisiva nesse tema, que prejudicaria a ética das forças de manutenção de paz.

Durante anos a ONU negou sua responsabilidade e afirmou que tinha imunidade no assunto, e a admissão atual ocorreu após as provas que surgiram de uma investigação realizada pelo Escritório de Serviços de Supervisão Interna das Nações Unidas. A investigação mostrou que a Missão de Estabilização no Haiti (Minustah) lançou nos canais haitianos, até 2015, esgoto tratado inadequadamente, entre outras práticas negligentes.

Os especialistas acreditam que o cólera foi introduzido no Haiti em 2010, pelas forças de paz do Nepal, quando lançaram esgoto infectado no rio Arbonite. A missão de estabilização integrava os esforços de ajuda depois do devastador terremoto que matou 220 mil haitianos naquele ano. Os últimos estudos sugerem que 30 mil pessoas morreram de cólera no país e que mais de dois milhões sobreviveram à doença, bem acima das estatísticas citadas antes, que indicavam 9.202 mortes e 754.735 pessoas afetadas.

Diferentes vozes da comunidade internacional, inclusive dos Estados Unidos e da própria ONU, exigiam do fórum mundial que assumisse a responsabilidade por sua suposta negligência ao permitir que forças de paz do Nepal levassem o cólera parao Haiti, onde a doença antes não era endêmica. A questão surgiu no contexto da corrida para eleger o próximo secretário-geral da ONU. Alguns candidatos ao cargo se declararam a favor de apresentar desculpas às vítimas, o que reflete a opinião generalizada de que as Nações Unidas não podem deixar o problema sem solução.

“Creio que a integridade das Nações Unidas na realidade foi chamuscada”, afirmou a candidata costa-riquenha, Christiana Figueres, em um debate televisionado pela rede de notícias Al Jazeera, no dia 12 de julho. “Espero ter a oportunidade de pedir desculpas ao Haiti”, disse, posteriormente, à IPS.A questão mais polêmica é se a ONU deveria indenizar as vítimas, que segue sem resposta. Os advogados do IJDH esperam a sentença do Segundo Tribunal de Circuito de Apelações dos Estados Unidos, onde o caso foi apresentado em 1º de março.

Lindstrom pontuou que a imunidade da ONU, segundo estabelece a Convenção sobre os Privilégios e Imunidades das Nações Unidas (1946), é violada quando “não são adotadas medidas adequadas” para resolver as reclamações que surgem de seus atos ilícitos.Pelo Acordo sobre o Estado das Forças entre a ONU e o governo haitiano, a Minustah deveria criar uma comissão independente para revisar as reclamações das vítimas, algo que não foi feito. “Há uma obrigação recíproca muito clara de garantir que exista alguma outra maneira de administrar a situação”, ressaltou.

Ao contrário de outras situações de más práticas, como as de exploração e abuso sexual, “o caso do cólera é em muitos aspectos extremamente atípico”, já que a ONU havia se negado a reconhecê-lo, explicou Lindstrom. Assim, a admissão pública pela ONU é importante,mas ainda não oferece o recurso que as vítimas necessitam com urgência, a desculpa pública, um plano de indenização, o compromisso com a erradicação do cólera no Haiti e, por fim, a criação de uma comissão formal para processar as queixas das vítimas, acrescentou.

“É triste termos que gastar tanta energia para que a ONU respeite seus próprios princípios, mas creio que, além do apoio às vítimas, parte da razão pela qual vale a penaé o fato de, em última instância, acreditarmos que teremos uma instituição mais forte”, enfatizou Lindstrom.

A mudança de postura da ONU, segundo informou o jornal The New York Times no dia 17 deste mês, se deu depois que o escritório do secretário-geral recebeu um rascunho do relatório sobre o cólera no Haiti, realizado pelo norte-americano Philip Alston,relator especial sobre extrema pobreza e direitos humanos, que provavelmente será publicado em setembro.

Caso a ONU se responsabilize pelo pagamento da indenização às vítimas do cólera no Haiti, é provável que os Estados membros paguem a conta. Por ser o maior contribuinte para o orçamento das Nações Unidas, a carga recairia principalmente sobre os Estados Unidos, cujos tribunais de justiça terão que decidir o caso. Envolverde/IPS

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Dilma inicia contagem regressiva http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/dilma-inicia-contagem-regressiva/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/dilma-inicia-contagem-regressiva/#comments Tue, 23 Aug 2016 12:58:21 +0000 Mario Osava http://www.envolverde.com.br/?p=213091 Por Mario Osava, da IPS –  Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,23/8/2016 – Só um milagre poderia salvar Dilma Roussef de ser destituída no julgamento político no Senado, que começará no dia 25, com desenlace previsto para seis dias depois. Essa é a avaliação de Fernando Lattman-Weltman, professor de política na Universidade do Estado do Rio […]

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A presidente Dilma Rousseff durante encontro com o Movimento de Mulheres, na residência do Palácio da Alvorada, antes do início do julgamento de seu impeachment. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

A presidente Dilma Rousseff durante encontro com o Movimento de Mulheres, na residência do Palácio da Alvorada, antes do início do julgamento de seu impeachment. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Por Mario Osava, da IPS – 

Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,23/8/2016 – Só um milagre poderia salvar Dilma Roussef de ser destituída no julgamento político no Senado, que começará no dia 25, com desenlace previsto para seis dias depois. Essa é a avaliação de Fernando Lattman-Weltman, professor de política na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, um crítico do processo contra a presidente, que considera “um golpe”, assim como os partidários de Dilma, afastada do cargo desde 12 de maio.

“Um fato consumado”, é como vê a situação Antonio Augusto de Queiroz, diretor de Documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, organização que acompanha as questões legislativas para o movimento sindical.Dos 81 senadores, 60 aprovaram o julgamento de Dilma no dia 9 de agosto, o que faz prever que será alcançada com juros a maioria de dois terços exigida pela Constituição para abertura do julgamento que poderá acabar com o longo processo destinado a tirar do poder a primeira mulher que chegou à Presidência do país, ao vencer as eleições de 2010 e ser reeleita em 2014.

O processo de impeachment foi aberto em dezembro, quando o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha – afastado do cargo por denúncias de corrupção e obstrução das investigações contra seus atos – acolheu uma das 37 solicitações feitas por pessoas e instituições para inabilitar Dilma. No dia 17 de abril, a Câmara Federal aprovou por 367 votos contra 137 a continuidade do processo, enviando-o ao Senado, que é a instância julgadora nesses casos.

A acusação é de crime de responsabilidade, um conceito genérico e difuso que permite destituir o chefe do Poder Executivo quando “atenta” contra “o livre exercício” dos demais poderes institucionais, a segurança interna do país, a probidade administrativa, a lei orçamentária e outras legislações.O Senado acolheu o processo por 55 votos contra 22 em decisão adotada em 12 de maio, que determinou o afastamento da presidente do cargo e a designação do vice, Michel Temer, como presidente interino, até a decisão final dos senadores.

Todas essas decisões de deputados e senadoras foram precedidas por resoluções de comissões especiais, aprovadas após longos debates e trâmites processuais. O Senado tinha prazo de 180 dias para concluir o julgamento, mas deverá fazê-lo em 111 dias.“O golpe, a ruptura já ocorreu. Agora se trata apenas de confirmá-lo no Senado”, afirmou Lattman-Weltman à IPS. “É uma saída ruim para a crise, porque diminui as instituições, quebra as regras democráticas, a ordem jurídica”, que requer o voto popular para legitimar o poder, acrescentou.

Manifestação contra a corrupção no Brasil, em apoio à investigação da operação Lava Jato e a favor da saída definitiva de Dilma Rousseff da Presidência, no dia 31 de julho em Copacabana, no Rio de Janeiro. Foto: Tânia Rêgo, Agência Brasil

Manifestação contra a corrupção no Brasil, em apoio à investigação da operação Lava Jato e a favor da saída definitiva de Dilma Rousseff da Presidência, no dia 31 de julho em Copacabana, no Rio de Janeiro. Foto: Tânia Rêgo, Agência Brasil

Mas não é o que pensa uma ampla maioria de legisladores, que vem superando facilmente os dois terços constitucionais para prosseguir com o processo, e da população, que desde 2015 se manifestou em protestos contra o governo de Dilma e do Partido dos Trabalhadores (PT), que governou o país de 2003 a maio deste ano.

“O principal erro da presidente foi a falta de diálogo não só com o parlamento mas também com o mercado, com os empresários”, apontou Queiroz à IPS. “A origem de tudo foi o modo de interferir na economia, reduzindo a margem de lucro do setor privado, sem um diálogo prévio. Enfrentar o sistema financeiro, com ela fez, não prejudica a popularidade do governante, porque ninguém gosta dos banqueiros, mas é diferente com o setor produtivo”, acrescentou.

“Com mais diálogo poderia fazer o que ela fez sem tantos questionamentos, mas preferiu empregar a autoridade em lugar de legitimidade, e a política não perdoa quem a menospreza ou a usa de forma inadequada”, concluiu Queiroz. Dilma decidiu pela luta em seus prováveis últimos dias de Presidência formal.No dia 16 de agosto, divulgou uma mensagem aos brasileiros e ao Senado condenando o “golpe de Estado” que representaria sua destituição e propondo um plebiscito para convocar novas eleições presidenciais e um pacto de “unidade nacional”, como fórmula para superar a crise política.

Sua carta aberta teve escassa repercussão. Eleições presidenciais antecipadas não são viáveis, exigiriam uma emenda constitucional e um tempo que superaria o prazo existente, já que em 2018 haverá as eleições regulares, afirmou o próprio presidente do PT, Rui Falcão.Dilma também decidiu ir ao julgamento no dia 29, para apresentar uma defesa e responder às perguntas dos senadores e advogados de acusação e defesa. Antes pensava apenas em ler suas alegações e não se submeter a interrogatório, que poderá se prolongar por todo o dia.

O julgamento começará antes, no dia 25, com as manifestações iniciais dos advogados e senadores, seguidas dos depoimentos de oito testemunhas de defesa e duas de acusação, que poderiam absorver os dias 27 e 28. A conclusão do processo será no dia 30 deste mês com os argumentos finais da defesa e acusação e de todos os senadores que querem falar, com limite de dez minutos para cada um. Por isso se prevê que a votação dos 81 senadores terminará somente na madrugada do dia 31.

A sorte já está lançada, somente serão cumpridos os ritos formais do julgamento, segundo Queiroz. Ainda assim, há senadores que apostam em uma inesperada reviravolta.“É difícil, mas não impossível”, segundo o senador socialista João Capiberibe, que defende a saída de eleições extraordinárias para retroceder, na prática, ao sistema de “eleições indiretas”, restritas a colégios eleitorais legislativos, típicas da ditadura militar que governou o país entre 1964 e 1985.

Além da falta de um diálogo, “houve erros na condução econômica e uma situação política incontrolável”, apontou Lattman-Weltman, como causas da queda da presidente e do PT. O “fator fundamental foi a insegurança gerada pela operação Lava Jato”, acrescentou a respeito do escândalo de corrupção na Petrobras, que envolveu mais de 200 empresários, políticos, diretores de empresas e funcionários do governo.

A corrupção foi, de fato, o grande problema que, segundo a população, jogou por terra os governos do PT, iniciados em 2003 com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Antes do atual escândalo, houve outro em 2005, em que foram condenados vários dirigentes do PT, acusados de compra de votos de parlamentares. Dilma não está diretamente acusada, mas como chefe de dois governos petistas se viu envolvida pela ira nacional contra a corrupção.

A ironia, e o que deixa Dilma e seus defensores mais inconformados, é que sua destituição será decidida por um Congresso Nacional povoado e dirigido por parlamentares denunciados, ou que já são réus, por corrupção, cujos julgamentos estão a cargo do Supremo Tribunal Federal, onde os julgamentos duram muito e as sentenças demoram muito tempo. Envolverde/IPS

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Momento oportuno para acabar com a seca http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/momento-oportuno-para-acabar-com-a-seca/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/momento-oportuno-para-acabar-com-a-seca/#comments Tue, 23 Aug 2016 12:49:38 +0000 Monique Barbut http://www.envolverde.com.br/?p=213087 Por Monique Barbut* Windhoek, Namíbia, 23/8/2016 – Comecemos com boas notícias. O El Niño mais forte dos últimos 35 anos está chegando ao fim. No período 2015-2016, esse fenômeno climático provocou secas em mais de 20 países. Houve altas temperaturas, escassez de água e inundações em todo o mundo. Mas as zonas mais afetadas foram África […]

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Lara Adama cava um poço em busca de água no leito seco de um rio em Dumai, no norte de Camarões. Foto: Monde Kingsley Nfor/IPS

Lara Adama cava um poço em busca de água no leito seco de um rio em Dumai, no norte de Camarões. Foto: Monde Kingsley Nfor/IPS

Por Monique Barbut*

Windhoek, Namíbia, 23/8/2016 – Comecemos com boas notícias. O El Niño mais forte dos últimos 35 anos está chegando ao fim. No período 2015-2016, esse fenômeno climático provocou secas em mais de 20 países. Houve altas temperaturas, escassez de água e inundações em todo o mundo. Mas as zonas mais afetadas foram África oriental e austral.

Para entender o que isso significa para a população, basta ver as repercussões na insegurança alimentar que afetou cerca de 32 milhões de pessoas na África austral. Em todo o continente, um milhão de crianças precisaram de tratamento para desnutrição severa.

E, embora o pior da seca esteja chegando ao fim, aproximadamente 75% dos especialistas prognosticam que o La Niña (o fenômeno complementar do El Niño, conhecido pelas inundações que provoca) chegará ao final deste ano. É provável que as autoridades políticas e a população da África não sintam alívio algum antes que termine o ano. E então, mais uma vez, poderemos voltar à normalidade, verdade?

Albert Einstein disse uma vez que uma das definições de loucura é “fazer a mesma coisa uma e outra vez e esperar resultados diferentes”. Voltar à normalidade nesse contexto se ajusta muito bem a essa definição de loucura.

Monique Barbut. Foto: Cortesia da autora

Monique Barbut. Foto: Cortesia da autora

Sabemos que:

– as próximas secas do El Niño provavelmente regressem periodicamente, a cada dois a sete anos;

– a extensão e gravidade das secas aumentarão. Isso se deve à mudança climática e ao uso insustentável da terra. Os cientistas calculam que a superfície terrestre que atualmente sofre condições de seca aumentará, de menos de 5% para mais de 30% na década de 2090;

– não serão cumpridas as metas 6.4, 6.5 e 6.6 referentes à escassez de água incluídas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS);

– as consequências atingirão os pobres, que tendem a ser totalmente dependentes dos recursos naturais, como água e terra, para manter suas famílias.

A menos que mudemos de estratégia, quando aparecer a seca e as chuvas falharem, o futuro dos 400 milhões de agricultores africanos que dependem da agricultura de sequeiro de subsistência, por exemplo, correrá perigo. Essa agricultura é praticada em mais de 95% da terra cultivada na África subsaariana. E a escassez de água poderá custar a algumas regiões até 6% de seu produto interno bruto.

Se não mudarmos de estratégia, as pessoas serão obrigadas, cada vez mais, a decidir se suportarão o desastre da seca para depois reconstruir ou se simplesmente partirão. Obrigar nossa gente a tomar essas decisões difíceis é uma forma de loucura. Especialmente se é possível romper o ciclo de desastres provocados pela seca e pela recuperação.

Já há avanços. Brasil, Marrocos, México e Vietnã, para citar apenas alguns países, agora implantam planos contra a seca, com forte ênfase na mitigação de riscos e na preparação.

Nas regiões onde a terra foi recuperada, em Tigray, na Etiópia, os ecossistemas e a população parecem ter conseguido melhores resultados nas últimas secas relacionadas com o El Niño do que em outros lugares onde não foi empreendida nenhuma restauração.

Mas resta muito a fazer, já que em 2050 uma em cada quatro pessoas (até 2,5 bilhões de seres humanos) estará vivendo em um país em risco de escassez de água. Temos que nos preparar melhor e administrar os riscos de seca de maneira proativa.

A África já fez muito, mas precisa ficar atenta. A Convenção das Nações Unidas de Luta Contra a Desertificação propõe três pilares importantes para serem considerados.

Em primeiro lugar, os sistemas de alerta. Declarar uma seca muito tarde pode ter impacto devastador nas vidas e nos meios de subsistência. Porém, a decisão de declará-la pode ser muito subjetiva e extremamente política.

A África se beneficiaria de um sistema eficaz de alerta em seus países. Para isso serão necessários bons dados, além do conhecimento local e tradicional. O sistema proporcionará informação oportuna que possa ser usada para reduzir os riscos e se preparar melhor para uma resposta eficaz.

Em segundo lugar, vulnerabilidade e avaliação de riscos. Algumas pessoas e alguns sistemas são mais vulneráveis à seca como resultado de fatores sociais, econômicos e ambientais. É importante combinar melhores prognósticos com um conhecimento detalhado da maneira como a geografia e as sociedades respondem à falta de chuva.

Quais comunidades e ecossistemas estão em maior risco? Por que são vulneráveis setores importantes como agricultura, energia, turismo ou saúde? A seguir, converter esse conhecimento em uma intervenção precoce. Podemos garantir que será muito rentável.

Em Níger e Moçambique, por exemplo, os esforços de intervenção precoce e de geração de resiliência reduziriam o custo em US$ 375 milhões (Moçambique) e US$ 844 milhões (Níger), quando comparados com uma resposta humanitária tardia para a seca.

Por fim, as medidas de mitigação do risco de seca. Há coisas que podem ser feitas em um nível muito prático para reduzir o risco, que podem oferecer benefícios reais e tangíveis às suas comunidades,se forem iniciadas imediatamente.

Os países africanos poderiam considerar o desenvolvimento de sistemas de irrigação para os cultivos e o gado e planos de captação ou reciclagem de água. Podem explorar cultivos que sejam mais tolerantes à seca, ampliar os planos de seguros para os plantios e estabelecer meios de vida alternativos que ofereçam renda às áreas propensas.

O investimento no aprimoramento da gestão do solo, por exemplo, pode melhorar a segurança da água nas explorações agrícolas de 70% a 100%. Isso daria lugar a maiores rendimentos e mais segurança alimentar.

No Zimbábue, a captação de água combinada com a agricultura de conservação melhorou as margens brutas dos produtores entre quatro e sete vezes, e os rendimentos da mão de obra entre duas a três vezes.Esse é o tipo de gestão proativa do risco de seca, que pode salvar vidas e o sustento de milhões de pessoas, algo que todos deveríamos desejar.

A Conferência Africana sobre Seca é uma janela de oportunidade pouco comum para que o continente reconheça que o enfoque tradicional de “resposta” à seca já não é viável. Demonstrou sua ineficiência com demasiada frequência. Por outro lado, a África poderia provocar uma revolução proativa contra a seca.

Ao investir em sistemas de alerta e fazer frente às suas vulnerabilidades, medidas bem planejadas e coordenadas contra a seca terão um efeito multiplicador positivo em todos os setores e através das fronteiras.

Nelson Mandela disse certa vez que “devemos usar o tempo sabiamente e nos dar conta de que sempre é o momento oportuno para fazer as coisas”.É o momento oportuno. A adoção de medidas proativas contra a seca é o que precisa ser feito. Envolverde/IPS

*Monique Barbut é secretária executiva da Convenção das Nações Unidas de Luta Contra a Desertificação, que organizou, junto com o governo da Namíbia, a Conferência Africana sobre Seca, realizada entre os dias 15 e 19 de agosto, em Windhoek, capital da Namíbia.

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Cadeia produtiva germina no campo cubano http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/cadeia-produtiva-germina-no-campo-cubano/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/cadeia-produtiva-germina-no-campo-cubano/#comments Mon, 22 Aug 2016 13:10:11 +0000 Ivet González http://www.envolverde.com.br/?p=213008 Por Ivet González, da IPS – Jesús Menéndez, Cuba, 22/8/2016 – O técnico em eletrônica Eugenio Pérez é conhecido neste povoado cubano por ser o melhor produtor de embriões de árvores frutíferas, idealizar um sistema automático para suas mudas e também dirigir um estabelecimento privado especializado em sucos naturais.“A venda de sucos foi pensada para culminar […]

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O agrônomo e ecologista Fernando Funes junto às colmeias da produção de mel orgânico na Finca Marta, em um município próximo de Havana. Explorações agrícolas como esta criam cadeias produtivas e de valor, que injetam sangue novo no campo cubano. Foto: Jorge LuisBaños/IPS

O agrônomo e ecologista Fernando Funes junto às colmeias da produção de mel orgânico na Finca Marta, em um município próximo de Havana. Explorações agrícolas como esta criam cadeias produtivas e de valor, que injetam sangue novo no campo cubano. Foto: Jorge LuisBaños/IPS

Por Ivet González, da IPS –

Jesús Menéndez, Cuba, 22/8/2016 – O técnico em eletrônica Eugenio Pérez é conhecido neste povoado cubano por ser o melhor produtor de embriões de árvores frutíferas, idealizar um sistema automático para suas mudas e também dirigir um estabelecimento privado especializado em sucos naturais.“A venda de sucos foi pensada para culminar o ciclo produtivo da propriedade e levar fruta fresca à população”, explicou à IPS esse proprietário de uma área familiar de oito hectares, no município de Jesús Menéndez, 650 quilômetros a leste de Havana, na província de Las Tunas.

As oportunidades do trabalho privado, entre outras reformas implantadas em Cuba, são aproveitadas por produtores que surgem com novas visões, para criar algumas cadeias a partir de suas propriedades. Suas iniciativas surgem quando as autoridades econômicas, e sobretudo os governos locais, estimulam e priorizam concatenar os diferentes elos do deprimido setor agroalimentar.

O enfoque de cadeias de produção e de valor, que consiste em associações empresariais para explorar ao máximo uma matéria-prima, avança como nova filosofia de trabalho e elemento fundamental nas estratégias de desenvolvimento do país, que importa 80% dos alimentos que consomem seus 11,2 milhões de habitantes e os 3,5 milhões de turistas anuais.

Pesquisadores receitam as cadeias produtivas, que podem englobar desde o local até o internacional, para impulsionar as economias em desenvolvimento na América Latina, porque potencializam as pequenas e médias empresas, geram empregos, diversificam a produção, ao mesmo tempo em que geram sociedades mais equitativas.

Com coloridas paredes e uma ampla área coberta e aberta, a cafeteria de Pérez vende, desde 2014, sucos e outros alimentos com base nos cultivos de sua Finca de Produção de Plantas e Hortaliças, que proporciona anualmente dez toneladas de frutas, entre goiaba, manga, abacate, abricó e nêspera.

Eugenio Pérez mostra diversas variedades que crescem no viveiro experimental de sua propriedade, no município rural de JesúsMenéndez, no leste de Cuba, onde suas espécies frutíferas e os embriões gozam de crescente fama. Foto: Jorge LuisBaños/IPS

Eugenio Pérez mostra diversas variedades que crescem no viveiro experimental de sua propriedade, no município rural de JesúsMenéndez, no leste de Cuba, onde suas espécies frutíferas e os embriões gozam de crescente fama. Foto: Jorge LuisBaños/IPS

“O tópico fundamental consiste em sucos e doces, para ter maior quantidade de serviços com produções da propriedade. Também elaboramos outros tipos de comidas a partir de frango, porco e cabra, fornecidos por outros cooperativados”, contou Pérez, sócio da Cooperativa de Créditos e Serviços José Manuel Rodríguez.“A maior parte dos recursos saiu da renda obtida com a propriedade. E o Programa de Inovação Agropecuária Local nos deu algum apoio”, acrescentou, se referindo ao projeto agroecológico coordenado desde 2000 pelo Instituto Nacional de Ciências Agrícolas e com financiamento da cooperação suíça.

A família de Pérez escolheu para construir seu estabelecimento, chamado Palma Caribe, um terreno abandonado entre sua propriedade e o terminal municipal de ônibus, com serviço de transportadores estatais e privados. “O lugar foi parte da estratégia, porque está perto e por ali passam muitas pessoas”, enfatizou o empreendedor.“A cafeteria se mantém e prospera, e já abre durante a noite”, afirmou uma cliente assídua, que destacou o serviço noturno por ser pouco comum em assentamentos rurais como JesúsMenéndez, de 49.205 habitantes, onde, ao cair da tarde, a atividade social acaba e a maioria dos comércios fecha.

Para Armando Nova, economista e pesquisador do Centro de Estudos da Economia Internacional, “as cadeias produtivas e de valores são elementos muito importantes para se trabalhar no setor agrícola cubano. Parte do enfoque sistêmico que exige está em implantar cadeias, e o país dispõe de força técnica e profissional para consegui-las”. Entretanto, falta, entre outras coisas, um mercado de insumos para toda a cadeia produtiva, um banco agrícola especializado, mais descentralização e contextos regulatórios flexíveis, “onde possam ser inseridas diversas formas produtivas”, indicou.

A cafeteria Palma Caribe, administrada por Eugenio Pérez e sua família, onde são vendidos sucos de frutas e verduras produzidas em sua propriedade, em uma iniciativa que trouxe prosperidade ao seu empreendimento familiar, em JesúsMenéndez, na província de LasTunas, em Cuba. Foto: Jorge LuisBaños/IPS

A cafeteria Palma Caribe, administrada por Eugenio Pérez e sua família, onde são vendidos sucos de frutas e verduras produzidas em sua propriedade, em uma iniciativa que trouxe prosperidade ao seu empreendimento familiar, em JesúsMenéndez, na província de LasTunas, em Cuba. Foto: Jorge LuisBaños/IPS

“O que deve ser regulado pelo Estado são as margens de ganho em cada elo da cadeia”, pontuou Nova, que aponta a agricultura como o ramo onde a reforma do governo de Raúl Castro realizou mais mudanças estruturais desde que assumiu a Presidência, em 2008. Publicações científicas destacam que o setor ostenta algumas cadeias produtivas de sucesso na elaboração de óleo comestível, leite de vaca e frutas, especialmente cítricas.

Com programas de curto, médio e longo prazos, até 2030 a indústria alimentar cubana se capitaliza e moderniza, com ênfase nos lácteos e derivados da carne. O plano estatal fomenta as cadeias produtivas para elevar as ofertas, reduzir os tempos de entrega ao consumidor e substituir a distribuição a granel pelos envases e pelas embalagens.

“Estamos seguindo um conceito de produção, processamento, comercialização e consumo. Nós mesmos fazemos toda a cadeia”, destacou o agrônomo e ecologista Fernando Funes, que em 2011 começou a aplicar seus conhecimentos em um terreno ocioso de oito hectares, no município de Caimito, a 20 quilômetros da capital.

Promovida até na imprensa internacional, em sua Finca Marta agora trabalham 16 pessoas que produzem vegetais e hortaliças para vender diretamente para 25 restaurantes de luxo na capital, frutas empacotadas com destino ao consumidor e mel de abelha obtido de 75 colmeias, que é comprado por uma empresa estatal.“Aprendemos na prática como nos vincular com os mercados e fazer relações com o resto da comunidade.Duas propriedades vizinhas estão produzindo vegetais e decidimos transportar e vender juntos essa mercadoria”, disseFunes.

Duas vezes por semana grupos de turistas curiosos percorrem a Finca Marta para conhecer seu sistema ecológico e a vida rural da ilha caribenha. “O agroturismo valoriza nosso conhecimento e o ponto de vista dos investimentos, porque essa renda é reinvestida no sistema produtivo”, ressaltou Funes, que também está associado a uma cooperativa agropecuária.

Turistas durante uma visita à Unidade Básica de Produção Cooperativa Viveiro Alamar, na área rural ao leste de Havana. O agroturismo é um novo ingrediente que alguns produtores de Cuba estão somando à sua atividade para melhorar sua renda. Foto: Jorge LuisBaños/IPS

Turistas durante uma visita à Unidade Básica de Produção Cooperativa Viveiro Alamar, na área rural ao leste de Havana. O agroturismo é um novo ingrediente que alguns produtores de Cuba estão somando à sua atividade para melhorar sua renda. Foto: Jorge LuisBaños/IPS

Para isso a equipe tirou um grande número de licenças, incluída a de elaboração de alimentos para fornecer lanches aos visitantes, e assinou contratos com agências estatais de viagem. “Também temos tudo em regra para receber turistas que viajam de forma independente”, ressaltou.

Funes garantiu que “a projeção para o futuro não é somente continuar enriquecendo a propriedade, gerar novos empregos, pagar melhores salários e dar mais garantias sociais aos trabalhadores, mas começar a ter um impacto na transformação do território, isto é, no desenvolvimento local”.

Há muitos outros obstáculos para os governos locais fomentarem em grande escala as cadeias no setor agroalimentar. “Existem limitações porque precisamos capitalizar toda a infraestrutura positiva, não só as indústrias”, declarou Julio César Estupiñan, governador da província de Holguín, no leste do país, cuja capital de mesmo nome é a terceira mais povoada de Cuba.

“No caso de nossa província, muito afetada pelas secas, tivemos que começar investindo na parte hidráulica”, disse o funcionário, para quem as cadeias são uma oportunidade para associar mais os setores estatal, cooperativo e privado. Envolverde/IPS

*Com colaboração de PatriciaGrogg, de Havana.

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Planeta perde 33 mil hectares de terra fértil por dia http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/planeta-perde-33-mil-hectares-de-terra-fertil-por-dia/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/08/ultimas-noticias/planeta-perde-33-mil-hectares-de-terra-fertil-por-dia/#comments Fri, 19 Aug 2016 17:29:08 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=213047 Por BaherKamal, da IPS –  Roma, Itália, 19/8/2016 – O mundo perde 12 milhões  de hectares de terra fértil por ano, equivalente a 33 mil hectares diários, de 30 a 35 vezes mais do que a proporção histórica. Estudos científicos calculam que a superfície terrestre em condições de seca passou de 10% para 15% no começo […]

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Por BaherKamal, da IPS – 

Roma, Itália, 19/8/2016 – O mundo perde 12 milhões  de hectares de terra fértil por ano, equivalente a 33 mil hectares diários, de 30 a 35 vezes mais do que a proporção histórica. Estudos científicos calculam que a superfície terrestre em condições de seca passou de 10% para 15% no começo dos anos 1970, para mais de 30% no início de 2000, e que esses números continuarão aumentando.

Embora as secas ocorram em todas as partes, a África parece ser o continente mais prejudicado. Segundo a Convenção das Nações Unidas para a Luta Contra a Desertificação (UNCCD), dois terços das terras africanas são desertas ou áridas.O desafio é enorme para o segundo maior continente do planeta, com 1,2 bilhão de habitantes distribuídos em 54 países, que foi a região mais afetada em 2015-2016 pelo fenômeno climatológico El Niño.

“Em nível mundial, as secas são cada vez mais graves, mais frequentes, têm maiores duração e extensão espacial. Seu impacto é cada vez maior, e inclui o deslocamento humano em massa e a migração. A seca atual é evidência”, afirmou Daniel Tsegai, funcionário da UNCCD, na Conferência sobre a Seca na África, organizada por esse organismo e pelo governo da Namíbia, que termina hoje, em Windhoek, capital desse país.

A Conferência insiste na “resiliência diante da seca”. Tsegaidestacou à IPS que “a resiliência diante da seca se define simplesmente como a capacidade de um país para sobreviver secas consecutivas e recuperar as condições prévias. Para começar, há quatro aspectos na seca, o meteorológico (clima), o hidrológico (águas superficiais), o agrícola (cultivo) e o socioeconômico (as consequências para os seres humanos)”.

Daniel Tsegai

Daniel Tsegai

Para Tsegai, os principais obstáculos para se conseguir a resiliência diante da seca na África são:

  1. Falta de uma adequada base de dados que inclua clima, recursos hídricos – superficiais e subterrâneos –, umidade do solo e incidências de secas passadas e seus impactos;
  2. Má coordenação entre os diversos setores e atores relevantes em um país e entre países de uma região;
  3. Baixo nível de capacidade para aplicar medidas de redução do risco de seca, especialmente em nível local;
  4. Falta de vontade política para implantar políticas nacionais contra a seca;
  5. O elemento econômico da preparação para a seca não é bem investigado.

Quanto aos objetivos da UNCCD, Tsegaiapontou que essa Convenção procura melhorar a produtividade da terra, restaurá-la ou preservá-la para estabelecer um uso mais eficiente da água e melhorar as condições de vida das populações afetadas pela seca e a desertificação, destacando algumas das estratégias que podem ser adotadas para aumentar a resiliência diante da seca.

Primeiro, uma mudança na maneira de lidar com o problema. Devemos mudar a forma de pensar sobre a seca, explicou. “A seca já não é mais um evento isolado e nem mesmo uma crise. Será mais frequente, grave e de maior duração. É um risco constante”, ressaltou.“Portanto, temos que deixar de ser reativos e ser proativos, passar do enfoque da gestão da crise para a gestão de riscos, do enfoque fragmentado para um mais coordenado e integrado. Tratar a seca como uma crise implica tratar os sintomas e não as causas”, alertou Tsegai, acrescentando que, “em resumo, o caminho a seguir é o desenvolvimento de uma políticanacionalcontra a seca baseada nos princípios da redução do risco”.

Em segundo lugar é necessário fortalecer os sistemas de controle e de alerta das secas. Também é importante avaliar a vulnerabilidade do país diante do fenômeno e realizar perfis de risco: quem será afetado, em que áreas e quais serão os impactos.As medidas de redução do risco incluem o desenvolvimento de sistemas de irrigação sustentável para os cultivos e o gado, acompanhamento e medição do abastecimento de água e seus usos, reciclagem e reutilização das águas, possibilidade de cultivos mais tolerantes à seca e ampliação de seguros das colheitas.

Tsgai espera cinco resultados da Conferência de Windhoek:

  1. Um documento de estratégia comum em nível de África para fortalecer a preparação do continente diante da seca, que possa ser aplicado e compartilhado entre os países;
  2. Que leve ao desenvolvimento de políticas nacionais integradas destinadas à construção de sociedades mais resilientes à seca, baseadas no uso sustentável e na gestão dos recursos naturais (terra, floresta, biodiversidade, água, energia, etc.);
  3. Espera-se que os países acordem um protocolo que seja vinculante e que será apresentado na Conferência Ministerial Africana sobre o ambiente, em 2017, para sua aprovação na Cúpula da União Africana (UA);
  4. Os resultados da Conferência serão apresentados aos governantes da UA para obter seu apoio;
  5. E também que a fortaleça as alianças e a cooperação Sul-Sul para apoiar o desenvolvimento de políticas nacionais e a melhora das já existentes sobre gestão da seca. Envolverde/IPS

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