IPS em português http://www.ipsnoticias.net/portuguese Jornalismo e comunicação para transformar o mundo Fri, 22 Jul 2016 13:44:28 +0000 en-US hourly 1 http://wordpress.org/?v=4.2.9 Produzir alimentos ou conservar florestas http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/produzir-alimentos-ou-conservar-florestas/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/produzir-alimentos-ou-conservar-florestas/#comments Fri, 22 Jul 2016 13:44:28 +0000 talita http://www.envolverde.com.br/?p=211775 Por Baher Kamal, da IPS –  Roma, Itália, 22/7/2016 – O mundo enfrenta um enorme desafio: por um lado, a necessidade imperiosa de produzir alimentos para a crescente população mundial, por outro, a pressão de frear e reverter o desaparecimento das florestas, tão necessárias para a vida humana como cobrir as necessidades de sua dieta.   […]

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Por Baher Kamal, da IPS – 

Roma, Itália, 22/7/2016 – O mundo enfrenta um enorme desafio: por um lado, a necessidade imperiosa de produzir alimentos para a crescente população mundial, por outro, a pressão de frear e reverter o desaparecimento das florestas, tão necessárias para a vida humana como cobrir as necessidades de sua dieta.

Desmatamento. Foto: FAO

Desmatamento. Foto: FAO

 

As florestas têm um papel fundamental no desenvolvimento da agricultura sustentável por vários fatores: ciclos da água, conservação de solos, sequestro de carbono, controle natural de pestes, incidência nos climas locais, e preservação do habitat dos polinizadorese de outras espécies.

Mas a agricultura responde pela maior parte do desmatamento. Nas regiões tropicais ou subtropicais, a agricultura comercial e a de subsistência são responsáveis por 50% e 33%, respectivamente, da conversão de florestas, e os restantes 27% do desmatamento ocorre pelo crescimento urbano, pela expansão da infraestrutura e da mineração.

Para conseguir os dois objetivos, as agências da Organização das Nações Unidas (ONU) encarregadas da alimentação e da agricultura oferecem dados específicos que falam por si mesmos. “A agricultura continua sendo a principal responsável pelo desmatamento e é urgente a necessidade de promover interações mais positivas entre ela e a silvicultura, para construir sistemas agrícolas sustentáveis e melhorar a segurança alimentar”, destacou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Essa foi a principal mensagem do informe O Estado das Florestas do Mundo, apresentado no dia 18 deste mês, na abertura da sessão do Comitê Florestal da FAO (Cofo), que termina hoje. “A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e o Acordo de Paris sobre mudança climática reconhecem que não podemos pensar a segurança alimentar e a gestão dos recursos naturais separadamente”, pontuou o diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva.

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Foto: FAO

 

“Os dois acordos exigem um enfoque coerente e integrado da sustentabilidade de todos os setores da agricultura e dos sistemas alimentares”, apontou Graziano. “As florestas e a silvicultura têm um papel importante nesse campo. A mensagem do Cofo é clara: não precisa desmatar para produzir mais alimentos”, ressaltou. A agricultura ocupa um lugar importante na retórica sobre as florestas, mas a FAO destaca que estas cumprem muitas funções ecológicas vitais que beneficiam a própria agricultura, já que incentivam a produção de alimentos.

“A segurança alimentar pode ser obtida pela intensificação da agricultura e de outras medidas como proteção social, em lugar da expansão das áreas cultivadas à custa das florestas”, disse Eva Müller, diretora da Divisão de Recursos e Políticas Florestais da FAO. “Precisa-se é de melhor coordenação entre os setores das políticas agrícolas, florestais, de alimentação e de uso da terra, bem como melhor planejamento do uso da terra, marcos legais efetivos e maior participação das comunidades e dos pequenos agricultores”, afirmou.

Para Müller, os “governos deveriam garantir às comunidades locais não somente a posse da terra, como também direitos sobre as florestas. Um agricultor sabe como manejar seus próprios recursos, mas costuma carecer dos instrumentos legais para isso”.

Melhorar a segurança alimentarfrear o desmatamento

O fato é que as florestas bem administradas têm um potencial enorme para promover a segurança alimentar. Além de sua vital contribuição ecológica, diz o informe a FAO. As florestas são um meio de subsistência para as comunidades rurais e uma forma de aliviar a pobreza, ao permitirem a geração de renda mediante a elaboração de produtos florestais e serviços ambientais.

Cerca de 24 bilhões de pessoas usam lenha para cozinhar e deixar a água potável. Além disso, as florestas oferecem proteínas, vitaminas e minerais às comunidades e são uma alternativa em casos de escassez de alimentos.Desde 1990, mais de 20 países conseguiram melhorar a segurança alimentar porque mantiveram ou melhoraram sua cobertura vegetal, demonstrando que não é necessário cortar árvores para produzir alimentos, segundo o informe da FAO.

Os 12 países que aumentaram sua cobertura vegetal são: Argélia, Chile, China, República Dominicana, Gâmbia, Irã, Marrocos, Tailândia, Tunísia, Turquia, Uruguai e Vietnã. Seu êxito se baseou em um conjunto de ferramentas: marcos legais efetivos, garantias na posse da terra, medidas para regular a mudança de uso da terra, incentivos para a silvicultura e a agricultura sustentável, fundos adequados e definições claras sobre papéis e responsabilidades de governos e comunidades locais.

Foto: FAO

Foto: FAO

 

Casos de sucesso

O informe apresenta sete estudos de casos de sucesso, de Chile, Costa Rica, Gâmbia, Geórgia, Gana, Tunísia e Vietnã. Esse grupo de países, segundo o documento, ilustra as oportunidades de melhoria na segurança alimentar, bem como o aumento ou a manutenção da cobertura vegetal. Seis desses países conseguiram mudanças positivas entre 1990 e 2015 em dois indicadores de segurança alimentar (prevalência de pessoas subalimentadas e o número de pessoas subalimentadas), bem como no aumento da superfície reflorestada.

No caso de Gâmbia, único país de baixa renda entre os sete mencionados, se conseguiu o primeiro objetivo de reduzir pela metade a proporção de pessoas com fome nesse período.O Vietnã, por exemplo, implantou com sucesso uma reforma agrária para garantir a posse da terra, como forma de impulsionar o investimento de longo prazo. O processo foi acompanhado de uma mudança na gestão florestal, de uma silvicultura estatal para uma de múltiplos atores, com a participação das comunidades locais, incluído o programa de destinação de áreas florestais e contratos para sua proteção com os moradores locais.

A reforma agrária também foi acompanhada de instrumentos para aumentar a produtividade agrícola, como isenção de impostos, empréstimos brandos, promoção da exportação, garantia de preços, apoio à mecanização e redução das perdas de cultivos colhidos.

Na Costa Rica, o desmatamento atingiu seu máximo na década de 1980, principalmente pela conversão de florestas em áreas de pastagem. O país conseguiu reverter essa tendência graças a uma lei florestal que proíbe mudanças no uso das florestas naturais e a um sistema de pagamento por serviços ambientais, que oferece aos agricultores incentivos para plantar árvores e apoio para a conservação florestal. Graças a essas medidas, a cobertura florestal aumentou para quase 54% da superfície do país em 2015.

Na Tunísia, os planos de desenvolvimento nacional reconhecem os benefícios das florestas em proteger a terra da erosão e da desertificação. A produção agrícola aumentou com intensificação, que melhora o uso das terras cultiváveis existentes mediante a irrigação, os fertilizantes, a mecanização, melhores sementes e práticas agrícolas. Os incentivos para fomentar o plantio de árvores incluem distribuição gratuita de sementes e compensações pela perda de renda derivada da agricultura.

Os temas mais importantes da sessão do Comitê Florestal da FAO buscavam responder diretamente aos acordos históricos de 2015 e pesquisar como as florestas e a gestão sustentável podem contribuir para o sucesso dos objetivos de desenvolvimento acordados pela comunidade internacional.

Na Semana Florestal Mundial, o Comitê avalia como aproveitar melhor o potencial das florestas, incluída sua contribuição parao sustento, a segurança alimentar, o emprego, a igualdade de gênero e muitos outros dos objetivos de desenvolvimento incluídos na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e no Acordo de Paris. Envolverde/IPS

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Feminismo tem cada vez mais apoio na ONU http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/feminismo-tem-cada-vez-mais-apoio-na-onu/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/feminismo-tem-cada-vez-mais-apoio-na-onu/#comments Fri, 22 Jul 2016 13:38:09 +0000 talita http://www.envolverde.com.br/?p=211771 Por Lyndal Rowlands, da IPS –  Nações Unidas, 22/7/2016 – Conseguir a igualdade de gênero é uma das maiores prioridades da Organização das Nações Unidas (ONU), mas a palavra feminismo há pouco se colou nos discursos oficiais em sua sede em Nova York. A croata Vesna Pusic uma das 12 candidatas para encabeçar a secretaria-geral da […]

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Emma Watson, embaixadora de Boa Vontade da ONU Mulheres, e o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon. Foto:Mark Garten/ONU

Emma Watson, embaixadora de Boa Vontade da ONU Mulheres, e o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon. Foto:Mark Garten/ONU

Por Lyndal Rowlands, da IPS – 

Nações Unidas, 22/7/2016 – Conseguir a igualdade de gênero é uma das maiores prioridades da Organização das Nações Unidas (ONU), mas a palavra feminismo há pouco se colou nos discursos oficiais em sua sede em Nova York. A croata Vesna Pusic uma das 12 candidatas para encabeçar a secretaria-geral da ONU, explicou em um debate na televisão, no dia 12 deste mês, porque sua orientação feminista a torna apta para o cargo.

“Sou uma mulher, mas não creio que seja suficiente; sou feminista e creio que é importante”, disse Pusic, sendo em seguida aplaudida pelos diplomatas e pessoal da ONU que a ouviam em uma sala da Assembleia Geral. Pusic se somou ao grupo de conhecidas feministas da ONU, entre elas a atriz britânica Emma Watson, cujo discurso,em setembro de 2014, sobre sua própria posição feminista atraiu a atenção mundial.

Há pouco, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, disse à diretora-geral da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, em uma reunião em março deste ano, que não deveria haver uma reação tão forte cada vez que é usada a palavra feminista. “Para mim é óbvio. Temos que defender os direitos das mulheres e tentar criar sociedades mais igualitárias”, afirmou.

Mas o mais significativo talvez seja a designação da Suécia parao Conselho de Segurança da ONU, com uma plataforma feminista em matéria de política externa. A Suécia integrará o Conselho de 15 membros por dois anos a partir de janeiro de 2017, mês em que também assumirá o novo secretário-geral, o nono na história das Nações Unidas.

Muitos esperam que seja uma mulher a dirigir a ONU, já que são metade dos 12 candidatos em disputa.Até o número de candidatas significa mudança dentro da ONU, observou à IPS Natalie Samarasinghe, diretora executiva da Associação das Nações Unidas-Reino Unido. “Não só nunca uma mulher encabeçou a ONU, como apenas três dos candidatos formais em eleições anteriores eram mulheres”, acrescentou.

“Pode haver muitos elementos que se combinem para criar um contexto favorável para o progresso”, disse à IPS Jessica Neuwirth, uma das fundadoras e presidente honorária da Igualdade Já, organização que utiliza a lei para proteger mulheres e meninas. A pressão para eleger uma mulher à frente da secretaria-geral faz com que os candidatos, homens ou mulheres, se esforcem por demonstrar seu compromisso com a igualdade de gênero.

A pessoa eleita continuará o trabalho já iniciado por Ban Ki-moon, indicou Neuwirth, diretora da organização Donor Direct Action, dedicada a reunir fundos para organizações de mulheres. Ele demonstrou seu compromisso com a igualdade de gênero na ONU, embora não se refira a si mesmo como feminista, explicou.“Não sou uma pessoa que viva ou morra pelas palavras. Creio que o que se faz é muito mais importante do que uma qualificação”,disse.

“Não creio ter ouvido Ban usar a palavra feminista, definitivamente não para descrever a si mesmo”, afirmouNewirth.Por outro lado, “como alguém que tem o privilégio de trabalhar nas Nações Unidas durante seu mandato, vi pessoalmente os esforços que fez para aumentar a representação feminina nos altos cargos da ONU”, pontuou. “Ainda não é igualitário e inclusive houve um retrocesso, o que é decepcionante, mas demonstrou que uma pessoa é capaz de fazer a diferença”, disse.

Samarasinghe também apontou que, apesar de a palavra feminista não ser usada de forma explícita na ONU, seu significado se reflete em muitos objetivos destinados a conseguir a igualdade de gênero. “O feminismo trata mulheres e homens com igualdade de oportunidades e direitos, meta reafirmada inúmeras vezes em vários documentos da ONU, desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos”, destacou.

Samarasinghe também recordou que essa palavra continua sendo controversa. Entre os 193 Estados membros da ONU, há muitos países muito atrasados em relação a casos atípicos na matéria, como Suécia e Canadá. “Ser feminista é totalmente óbvio. É como ter que explicar às pessoas que você não é racista. Mas a palavra continua controvertida, por isso temos que continuar usando até que as pessoas a entendam”, ressaltou.

Emma Watson, embaixadora de Boa Vontade da ONU Mulheres, observou, em seu discurso na ONU, em setembro de 2014, que a palavra feminista não é tão simples de ser usada como deveria ser.“Decidi que era feminista e não me pareceu complicado. Mas minhas pesquisas me mostraram que feminismo se tornou uma palavra pouco popular, e as mulheres preferem não se identificar como feministas”, afirmou.

“Aparentemente, faço parte das mulheres cujas expressões parecem muito fortes, muito agressivas, que isolam e vão contra os homens. Inclusive, não são atraentes”, acrescentou a atriz. De fato, no final de 2015 alguns meios de comunicação divulgaram que Watson havia sido aconselhada a não empregar o termo feminismo em seu discurso.

Neuwirth estava presente quando a embaixadora fez seu discurso durante o lançamento da campanha HeforSher, e disse à IPS que os termos que decidiu empregar acabaram tendo grande impacto. “Foi um acontecimento incrível, me refiro ao nível de emoção que houve no salão, foi tão forte que fiquei impactada. Houve tantos diplomatas que foi muito bom e foi um discurso muito forte que os mobilizou, podia-se ver isso”, enfatizou.

Mas, desde então, os avanços em matéria de igualdade de gênero na ONU não são fáceis. A organização de mídia PassBlue, que monitora a situação no fórum mundial, disse que o número de mulheres em cargos de decisão na ONU diminui. Quando a Suécia ocupar seu lugar no Conselho de Segurança, terá que fazer grande esforço para melhorar a representação feminina nos cargos de decisão da ONU, bem como elaborar políticas que promovam a igualdade de gênero em maior escala.

De fato, se prevê que os 15 representes no Conselho em 2017 serão homens, a menos que os Estados Unidos indiquem uma mulher para substituir Samantha Power, que deverá deixar o cargo no final do ano.A Suécia procurará aproveitar seu lugar no Conselho para aumentar a participação das mulheres na negociação e mediação dos acordos de paz, declarou a chanceler sueca, Margot Wallstrom em entrevista coletiva no mês passado.

Neuwirth aplaudiu o compromisso de Wallstrom, e apontou que, no caso da Síria, por exemplo, as mulheres seguem fora das negociações de paz.As mulheres sírias “tratam de desempenhar um papel significativo nas negociações, que são um desastre total, mas se custa tanto para ocuparem um lugar que seja no corredor, o que falar de se sentar à mesa”, observou. “Por que pelo menos não dão a essas mulheres a oportunidade de ver se podem fazer algo melhor, porque é difícil fazer algo pior”, ressaltou. Envolverde/IPS

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Julgar, ou não, criminosos de guerra? http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/julgar-ou-nao-criminosos-de-guerra/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/julgar-ou-nao-criminosos-de-guerra/#comments Thu, 21 Jul 2016 12:40:12 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=211725 Por Edgardo Ayala, da IPS –  São Salvador, El Salvador, 21/7/2016 – A decisão do máximo tribunal de revogar a lei de anistia coloca El Salvador diante da tarefa de decidir se convém julgar os que cometeram graves violações dos direitos humanos durante a guerra civil. Também evidencia que, após mais de duas décadas do fim […]

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Moradores de La Hacienda, no departamento La Paz, em El Salvador, mostram fotos das quatro religiosas norte-americanas assassinadas em1989 por elementos da Guarda Nacional, durante os atos pelos 35 anos do crime, em dezembro de 2015, no local da execução. Foto: Edgardo Ayala/IPS

Moradores de La Hacienda, no departamento La Paz, em El Salvador, mostram fotos das quatro religiosas norte-americanas assassinadas em1989 por elementos da Guarda Nacional, durante os atos pelos 35 anos do crime, em dezembro de 2015, no local da execução. Foto: Edgardo Ayala/IPS

Por Edgardo Ayala, da IPS – 

São Salvador, El Salvador, 21/7/2016 – A decisão do máximo tribunal de revogar a lei de anistia coloca El Salvador diante da tarefa de decidir se convém julgar os que cometeram graves violações dos direitos humanos durante a guerra civil. Também evidencia que, após mais de duas décadas do fim do conflito, em 1992, a reconciliação ainda não chegou a esse país centro-americano de 6,3 milhões de habitantes.

No centro do debate está a imperiosa necessidade de se fazer justiça às vítimas de crimes de guerra, e de outro lado encontra-se a imensa tarefa que isso representa e a dificuldade de consegui-lo: abrir casos que ocorreram há mais de duas décadas, com evidências alteradas, no caso de existirem, ou extraviadas, e testemunhas que já morreram.

Os opositores à abertura desses casos destacam a precariedade do aparelho judicial, com graves deficiências e sufocado por casos atuais aguardando sentenças.“Creio que o conjunto dos salvadorenhos, da população e das forças políticas, não concorda em abrir esses julgamentos, viraram a página”, afirmou o analista de esquerda, Salvador Samayoa, um dos signatários dos Acordos de Paz que puseram fim a 12 anos de guerra civil, que deixou 70 mil mortos e mais de oito mil desaparecidos forçados.

Samayoa acrescentou que El Salvador tem muitos problemas atuais para gastar sua energia naqueles do passado. Para as organizações de direitos humanos, saber a verdade, fazer justiça e proporcionar reparação prevalece sobre conjunturas e necessidades atuais.“Os violadores de direitos humanos já não podem se esconder atrás da lei de anistia, de modo que devem ser investigados de uma vez por todas”, opinou à IPS o diretor da não governamental Comissão de Direitos Humanos de El Salvador, Miguel Montenegro.

A Suprema Corte de Justiça, em sentença considerada histórica, declarou, no dia 13 deste mês, inconstitucional a Lei de Anistia Geral para a Consolidação da Paz, aprovada em 1993, abrindo a porta para levar ao banco dos réus os acusados de cometerem crimes de guerra e de lesa humanidade durante a guerra civil.Em sua resolução, esse tribunal afirma que são inconstitucionais os artigos 2 e 144 da lei de anistia, porque violam o direito de acesso a justiça e reparação das vítimas de crimes de guerra e de lesa humanidade.

Também decidiu que esses crimes não prescrevem e podem ser julgados independente de quando foram cometidos.“Isso é o que estamos esperando por anos. Sem essa sentença, as pessoas não encontram justiça”, afirmou à IPS a ativista EngraciaEcheverría, do Centro para a Promoção da Defesa dos Direitos Humanos Madeleine Lagadec.

Esta organização leva o nome da enfermeira francesa violada e assassinada por tropas governamentais em abril de 1989, quando atacaram um hospital da guerrilha da Frente FarabundoMartí para a Libertação Nacional (FMLN).Echeverría ressaltou que, apesar de muita informação dos casos ter se extraviado, resta outra que pode ser retomada pelos investigadores da Procuradoria Geral da República, responsável pelo processo penal, caso surjam pessoas requerendo instruir uma causa.

A lei foi duramente questionada por organizações de direitos humanos fora e dentro do país desde sua aprovação, em março de 1993. Seus críticos afirmavam que promoveu a impunidade, ao proteger os membros do exército e da guerrilha que cometeram abusos de direitos humanos durante o conflito.Mas foi defendida por militares, da reserva e da ativa, pela direita e por empresários do país, pois evitava que justamente esses oficiais, vistos como os que evitaram o triunfo da FMLN, enfrentassem a justiça.

“Todos os crimes cometidos foram (motivados) por uma agressão guerrilheira”, afirmou o general da reserva, Humberto Corado, ex-ministro da Defesa entre 1993 e 1995.A revogada lei foi aprovada apenas cinco dias depois que a Comissão da Verdade – que com mandato das Nações Unidas investigou os abusos de direitos humanos durante a guerra civil – divulgou seu relatório, com 32 casos específicos: 20 cometidos pelo exército e 12 pelos rebeldes.

Entre esses casos, destacaram os assassinatos do arcebispo Oscar Arnulfo Romero, em março de 1980, de quatro religiosos norte-americanas, em dezembro do mesmo ano, e o de centenas de camponeses crivados de balas em vários massacres, entre eles o de El Mozote, em dezembro de 1981, e o de Sumpul, em maio de 1980. Há também os de seis padres jesuítas, uma mulher e sua filha, em novembro de 1989, um caso que já é investigado por um tribunal espanhol.

A Comissão da Verdade também apontou alguns comandantes da FMLN como responsáveis pela morte de vários prefeitos, tomados como alvo por serem considerados parte da estratégia governamental contrainsurgente. Alguns desses insurgentes apontados agora são funcionários do governo, como o diretor de Proteção Civil, Jorge Meléndez.

Antes de chegar ao poder, em 2009, o FMLN, já reconvertido em partido político, criticou duramente a lei de anistia e pediu sua revogação, alegando que fomentava a impunidade. Mas, após ganhar naquele ano as eleições presidenciais com Mauricio Funes, sua postura mudou e deixou de defender a anulação da lei. Desde 2014, o país é governado por um antigo comandante do FMLN, Salvador Sánchez Cerén.

O partido governante qualificou a anulação da lei como “irresponsável”, enquanto o presidente afirmou, no dia 15 deste mês, que os magistrados da Corte “não medem os efeitos que podem ter na frágil convivência” e pediu que se assuma a sentença “com responsabilidade e maturidade em função dos interesses do país”.Após a declaração de inconstitucionalidade da lei, os meios de comunicação apresentaram uma série de opiniões e análises sobre o tema, a maioria apontando o risco de o país se desestabilizar e sucumbir ao caos, pela infinidade de demandas nos tribunais com casos da guerra civil.

“Aos que afirmam que os magistrados colocaram o país em um inferno, é preciso dizer que o inferno foi vivido, e continua sendo vivido, pelas vítimas e seus familiares”, ressaltaram em um comunicado, no dia 15 deste mês, as autoridades da Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas, onde viviam e trabalhavam as jesuítas assassinadas em 1989. A maioria das vítimas quer ser ouvida, conhecer a verdade e dar rosto a quem tem que perdoar, acrescentaram

De fato, em meio ao debate ressurge a ideia de justiça restaurativa como um mecanismo de encontrar a verdade e sanar as feridas das vítimas, sem que isso necessariamente implique o encarceramento dos acusados. “Não queremos que sejam colocados presos por um longo tempo, queremos que os responsáveis nos digam por que mataram se sabiam que eram civis. E que nos peçam perdão, queremos que alguém assuma essas mortes”, destacouEchverría.

Por sua vez, Montenegro, vítima ele próprio de detenção ilegal e torturas em 1986, explicou que investigar os que cometeram crimes de guerra é uma necessidade para encontrar a verdade, mas é mais importante ainda para que o país encontre os mecanismos idôneos para perdoar e reparar.Já para o general Corado, a justiça restaurativa é “uma hipocrisia que só busca a vingança”. Envolverde/IPS

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O mercado negro cubano e suas distorções http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/o-mercado-negro-cubano-e-suas-distorcoes/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/o-mercado-negro-cubano-e-suas-distorcoes/#comments Thu, 21 Jul 2016 12:35:24 +0000 Patricia Grogg http://www.envolverde.com.br/?p=211720 Por Patricia Grogg, da IPS –  Havana, Cuba, 21/7/2016 – Em um cenário que se faz comum na capital cubana, vendedores de todo tipo de produto, geralmente em falta nas lojas, abordam as pessoas nas proximidades, ou mesmo na porta, dos estabelecimentos formais para mostrar suas ofertas, que vão desde fraldas descartáveis até caras banheiras de […]

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Materiais diversos, produzidos e vendidos sob controle estatal, à mostra para venda em um posto informal, na entrada de uma casa no município de Cerro, em Havana, Cuba. Um mercado que cresce alimentado pela corrupção. Foto: Jorge LuisBaños /IPS

Materiais diversos, produzidos e vendidos sob controle estatal, à mostra para venda em um posto informal, na entrada de uma casa no município de Cerro, em Havana, Cuba. Um mercado que cresce alimentado pela corrupção. Foto: Jorge LuisBaños /IPS

Por Patricia Grogg, da IPS – 

Havana, Cuba, 21/7/2016 – Em um cenário que se faz comum na capital cubana, vendedores de todo tipo de produto, geralmente em falta nas lojas, abordam as pessoas nas proximidades, ou mesmo na porta, dos estabelecimentos formais para mostrar suas ofertas, que vão desde fraldas descartáveis até caras banheiras de hidromassagem.

“Tenho jogos de banhos a partir de 280 CUC (US$ 314 na troca da moeda conversível local), banheiras, duchas, louças de cerâmica, tudo de qualidade muito boa. O que procura?”, perguntou uma mulher a uma potencial cliente, antes que acabasse de estacionar seu carro. “Levamos o produto à sua casa e sem compromisso. Se não gostar, não há negócio”, acrescentou

Em uma banca de ferragens numa rica área residencial de Havana, não havia muito para ver. Duas pessoas andavam de um lado para outro observando a escassa mercadoria, enquanto uma mulher sentada junto à caixa registradora as observava com cara de aborrecida. “Não tem”, respondeu laconicamente a alguém que procurava por um recipiente branco com pedestal para lavar as mãos.

O economista cubano Esteban Morales contou à IPS que esse mercado negro se nutre da corrupção no setor do comércio, que ele denunciou em 2010, o que custou seu afastamento por vários meses das fileiras do governante Partido Comunista de Cuba (PCC). “Os revendedores aproveitam a escassez e o que vendem provém das lojas estatais”, assegurou.

Cuba é um país de economia centralmente planejada, onde o Estado controla todas as importações, bem como o comércio interno e externo, embora, como parte do processo de modernização de seu modelo socialista, permita o trabalho privado em determinadas áreas produtivas e de serviços, como a gastronomia.

Em um informe à Assembleia Nacional do Poder Popular (parlamento unicameral), em sessão na primeira semana deste mês, a controladora geral, Gladys Bejerano, informou que a análise dos fatos delitivos nas “organizações econômicas”,informados em 2015, mostra que prevalece em algumas administrações um ambiente de descontrole e impunidade.

Essa situação tem maior incidência no comércio, na gastronomia e no setor agroalimentar. No período analisado, o desvio de recursos e manifestações de corrupção administrativa custaram ao país 30 milhões em CUC (mais de US$ 33 milhões) e mais de cem milhões de pesos cubanos.

Caminhão transportando tanques para armazenar água. Esse produto industrial de grandes dimensões não escapa de ser furtado em entidades estatais e chega para vendano florescente mercado negro. Foto: Jorge Luis Baños/IPS

Caminhão transportando tanques para armazenar água. Esse produto industrial de grandes dimensões não escapa de ser furtado em entidades estatais e chega para vendano florescente mercado negro. Foto: Jorge Luis Baños/IPS

Bejerano acrescentou que a essência do problema está na conduta assumida por parte dos que se associam para delinquir ou faltar com a ética em beneficio próprio e de terceiros, e nas falhas dos sistemas de controle interno, bem como no abuso no exercício do cargo e na utilização de privilégios por parte dos diretores e funcionários.

“O mercado negro é a expressão visível e diária da corrupção, porque por trás dele há um problema mais sério, que é a subtração de reservas e recursos do Estado, único importador de eletrodomésticos, peças para automóveis, materiais de construção, enfim, tudo o que é oferecido por essas pessoas”, apontou Morales.

Em sua opinião, essa economia negra, que aproveita a escassez para lucrar com perdas milionárias para o erário nacional,também prejudica moralmente. “As pessoas que não estão envolvidas se desanimam, se cansam e dizem, bom, se outros fazem, por que não farei, eu que tenho tantas necessidades”, pontuou o pesquisador.

Morales considera insuficientes as inspeções e as punições penais, que às vezes passam despercebidas porque não são publicadas. Em certas ocasiões, os revendedores desaparecem dos arredores das principais lojas de Havana, devido abatidas policiais de surpresa. Mas, passado um tempo, retornam.

Neste momento “de maior abertura para o exercício da crítica, a imprensa deveria denunciar e investigar sistematicamente esses problemas, expor à opinião pública os culpados, destacou Morales, convencido de que uma transparência maior na divulgação de informações ajudaria muito a enfrentar o comércio clandestino.

Interior do centro comercial Plaza Carlos III, com lojas e praça de alimentação, no município de Centro Habana, na capital de Cuba. Esses novos negócios, parte administrados por operadores privados, são prejudicados pelos vendedores informais que operam no mercado negro. Foto: Jorge LuisBaños/IPS

Interior do centro comercial Plaza Carlos III, com lojas e praça de alimentação, no município de Centro Habana, na capital de Cuba. Esses novos negócios, parte administrados por operadores privados, são prejudicados pelos vendedores informais que operam no mercado negro. Foto: Jorge LuisBaños/IPS

Isbel Díaz, integrante do coletivo autônomo CUP (Consumidores e Usuários Protegidos), que acompanha o tema do ponto de vista do consumidor, afirmou à IPS que, entre outras razões, as pessoas costumam optar pelo “comércio informal” em busca de artigos de melhor qualidade, como acontece com as roupas, por exemplo.

“Devem coexistir as duas formas de comércio, desde que gerem mecanismos de autocontrole, como, por exemplo, a qualidade e os preços e que tenham um vínculo real com os consumidores e a sociedade”, opinou Díaz. O coletivo CUP é uma iniciativa criada no ano passado com a intenção de reverter a desproteção dos consumidores.

Com salário médio equivalente a US$ 23, uma parte da população cubana, de 11,2 milhões de pessoas, busca resolver suas necessidades de alimentos, calçados ou roupas no mercado informal, no qual, em alguns casos, os preços são menores do que nas lojas estatais, as únicas autorizadas.

O mercado paralelo teve seu maior auge nos anos 1990, depois do começo da recessão econômica conhecida oficialmente como período especial. Com a queda do bloco socialista e a extinção da União Soviética, Cuba perdeu seus principais fornecedores e a escassez se tornou crítica.

No entanto, pesquisadores consideram que a economia paralela na ilha se diferencia da existente na maior parte da região, porque não compete com a formal – nesse caso, estatal – com base em preçosmenores, a tendência mundial, mas que, pelo contrário, opera a preços mais altos, devido à falta de oferta no mercado oficial.

O governo de Raúl Castro criou a Controladoria Geral da República em 2009, com a missão de elevar o controle interno e “o enfrentamento direto de qualquer manifestação de corrupção”, entre outras funções. Sua autoridade está acima dos ministérios e despacha diretamente com o presidente.

No entanto, estudos coincidem em afirmar que o movimento ilegal de mercadorias existirá enquanto a economia não melhorar. Com finalidade declarada de aumentar a capacidade aquisitiva do peso cubano, o governo baixou, em maio deste ano, os preços de alguns produtos de primeira necessidade nas Lojas Arrecadadoras de Divisas (TRD).

Porém, muitas pessoas consultadas pela IPS consideram insuficiente a medida e se queixam de que nem todas as TRD estão bem abastecidas. A família cubana tenta, segundo sua renda, completar nesses estabelecimentos suas necessidades não atendidas pela caderneta de abastecimento racionado que o Estado subsidia. Envolverde/IPS

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África reescreve história de sua agricultura http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/africa-reescreve-historia-de-sua-agricultura/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/africa-reescreve-historia-de-sua-agricultura/#comments Wed, 20 Jul 2016 13:21:01 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=211676 Por Friday Phiri, da IPS –  Abidjã, Costa do Marfim, 20/7/2016 – O marfinense Albert KangaAzaguie já não se considera um pequeno agricultor. Aprendeu a analisar a oferta e a demanda de um dos produtos básicos da Costa do Marfim, a banana, e começou a produzir fora de temporada para vender a um preço melhor. “Agora […]

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A plantação de bananas de Albert Kanga,em Abidjã, na Costa do Marfim. Foto: Friday Phiri/IPS

A plantação de bananas de Albert Kanga,em Abidjã, na Costa do Marfim. Foto: Friday Phiri/IPS

Por Friday Phiri, da IPS – 

Abidjã, Costa do Marfim, 20/7/2016 – O marfinense Albert KangaAzaguie já não se considera um pequeno agricultor. Aprendeu a analisar a oferta e a demanda de um dos produtos básicos da Costa do Marfim, a banana, e começou a produzir fora de temporada para vender a um preço melhor. “Agora sou um grande agricultor. A lógica é simples. Quando quase não há banana no mercado, estou pronto para vender a um preço maior”, explicou.

Kangapossui 15 hectares, a 30 quilômetros de Abidjã, capital do país,e, com uma produção de 12 toneladas por hectare, é um dos poucos produtores que reescrevem a história da agricultura africana,desafiando a retórica habitual em uma região pobre, de fome e insegurança alimentar, com mais de 232 milhões de pessoas subalimentadas, aproximadamente uma em cada grupo de quatro.

Para os especialistas, é irônico que esse continente tenha importado cerca de US$ 35,4 bilhões em alimentos em 2015, porque tem 60% das terras cultiváveis do mundo e porque 60% da força de trabalho está empregada na agricultura, o que representa aproximadamente um terço do produto interno bruto. As razões são várias, desde desafios estruturais pelas más infraestrutura e governança, e um mercado com cadeia de valorpobre, o que deriva em uma baixa produtividade.

Além disso, as mulheres são a base do trabalho agrícola, mas são sistematicamente discriminadas no tocante à propriedade da terra e a receber outros incentivos, como créditos e insumos, o que limita suas possibilidades de tirar proveito da cadeia de valor nesse setor. “As mulheres possuem apenas 1% da terra na África, recebem 1% do crédito para agricultura e, no entanto, são a maioria da força de trabalho do setor”, explicou Buba Jan, oficial de programa da organização ActionAid.

Jan acredita que a África não conseguirá alcançar a segurança alimentar, e menos ainda a soberania, se as mulheres seguirem marginalizadas em relação ao direito à terra, e a Agenda do Banco Mundial para o Sistema Global de Alimentos é favorável ao fechamento da brecha de gênero. Segundo este manual, se as mulheres tiverem acesso aos mesmos bens, insumos e serviços que os homens na agricultura, a produção poderá aumentar entre 20% e 30% e o número de pessoas que passam fome diminuir de 12% para 17%.

Albert Kanga em sua plantação de bananas em Abidjã, na Costa do Marfim. Foto: Friday Phiri/IPS

Albert Kanga em sua plantação de bananas em Abidjã, na Costa do Marfim. Foto: Friday Phiri/IPS

O empoderamento das mulheres é um dos fatores cruciais do quebra-cabeça. O outro é enfrentar os desafios estruturais que estão profundamente arraigados, que exigem ambição e investimento, segundo a agenda Alimentando a África, do Banco de Desenvolvimento Africano (BDA). Transformar a cadeia de valor na agricultura exigirá entre US$ 280 bilhões e US$ 340 bilhões na próxima década, de acordo com essa instituição, o que criará um mercado de US$ 55 bilhões a US$ 65 bilhões ao ano até 2025.

O BDA prevê quadruplicar seus investimentos, dos US$ 612 milhões atuais para US$ 2,4 bilhões, a fim de alcançar esse objetivo ambicioso.“Nosso objetivo é claro: conseguir a autossuficiência alimentar da África em dez anos, eliminar a má nutrição e a fome, e colocar o continente no alto da cadeia de valor na agricultura, bem como acelerar o acesso a água potável e saneamento”, ressaltouAknwumiAdesina, presidente do banco, na reunião anual.

A instituição procurará transformar a agricultura em um negócio para os produtores. Mas, mesmo com esse ambicioso objetivo e os enormes recursos econômicos que estão sobre a mesa, o “como” continua sendo a questão fundamental. O BDA procura usar a agricultura como ponto de partida para a industrialização,por meio de intervenções multissetoriais em infraestrutura, do uso intensivo de insumos agrícolas, da mecanização, de melhoras na oferta creditícia e de melhores sistemas de posse da terra.

Porém, ainda são necessárias compensações para equilibrar os dois sistemas, tendo em conta o desafio da mudança climática, que já causa estragos na agricultura. As duas escolas em matéria de desenvolvimento agrícola, a intensificação – mais produção por unidade mediante práticasintensivas – e a extensão – aumento da terra cultivada –, exigem um equilíbrio.

“A agricultura é importante para o desenvolvimento da África, é a principal fonte de renda, de alimentos e segurança do mercado, e também a principal fonte de emprego. Mas o setor deve enfrentar desafios enormes, sendo o mais urgente o da mudança climática, e precisa agir. Mas há compensações para os dois enfoques de ampliação”, explicou Sarwat Hussein, responsável de comunicações de Prática Global Agrícola do Banco Mundial. “Por exemplo, a intensificação exige cortar mais florestas e, em alguns casos, deslocar populações, duas medidas que têm impacto negativo no papel da agricultura na mitigação da mudança climática”, acrescentou.

“A ênfase deve ser para os investimentos agrícolas serem sensíveis ao clima para oferecer oportunidades, especialmente aos jovens africanos, e evitar que cruzem o Mediterrâneo em busca de oportunidades econômicas”, destacou o ministro de Agricultura e Desenvolvimento Rural da Costa do Marfim, MamadouCoulibalySangafowa.

“Os agricultores precisam de informação sobre tecnologias atuais, mas ela não chega quando mais necessitam”, apontouSangafowa, que também preside a Conferência Africana de Ministros de Agricultura, ao apontar a necessidade de melhorar a comunicação em matéria agrícola. O Banco Mundial e a African Media Initiative (AMI) também observaram a necessidade de atender a falta de informação em questões agrícolas nesse continente.

A agricultura concentra 60% da atividade econômica nacional e da renda da África, mas recebe uma cobertura desproporcionalmente menor na mídia, ocupando menos de 10% das declarações políticas e econômicas. A falta de interesse da imprensa deriva na falta de conhecimento público sobre o que ocorre na agricultura, mas também mal-entendidos sobre seu lugar na economia nacional e regional, destaca uma análise do Banco Mundial e da AMI.

Seja qual for o caminho que a África seguir para alcançar seu objetivo de ser autossuficiente em matéria alimentar e se converter em exportadora de alimentos até 2025, o agricultor marfinense Albert Kanga já começou sua transformação, graças ao Programa de Produtividade Agrícola na África ocidental (WAPP), apoiado pelo Banco Mundial, que o capacitou em técnicas de produção fora de época.

“Quando começamos, em 2007, havia um enorme déficit de alimentos na África ocidental, com produtividade de 20%, mas agora está em 30%, e depois foram lançados outros dois programas similares na África oriental e austral”, pontuou Abdoulaye Toure, especialista em economia agrícola do Banco Mundial, ao destacar os êxitos do programa.

Alguns dos principais elementosdo programa são pesquisa, capacitação de cientistas jovens para substituir a geração mais velha e disseminação de tecnologias melhoradas para os agricultores. Com a criação de centros de pesquisa em função do potencial particular de cada país, foi melhorado o intercâmbio de informação sobre as melhores práticas.

Kanga, que batizou seu terreno com o nome de seu irmão falecido, Dougba, não só fornece aos grandes supermercados como exporta para mercados internacionais, como a Itália. A agenda para alimentar a África pretende fornecer alimentos para 150 milhões de pessoas e tirar da pobreza outros cem milhões  até 2025. Kanga é um exemplo de que é possível. Envolverde/IPS

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Economia cubana volta aos tempos de crise http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/economia-cubana-volta-aos-tempos-de-crise/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/economia-cubana-volta-aos-tempos-de-crise/#comments Wed, 20 Jul 2016 13:09:44 +0000 Patricia Grogg http://www.envolverde.com.br/?p=211670 Por Patricia Grogg, da IPS – Havana, Cuba, 20/7/2016 – O fantasma do período especial, como foi chamada a aguda depressão dos anos 1990, percorre atualmente os lares de Cuba, embora governo e especialistas coincidam em que a nova crise é diferente e existem recursos para enfrentá-la. O presidente Raúl Castro reconheceu, este mês, a crise […]

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Os cubanos, como esses moradores de Havana, que se dispõem a dividir um veículo particular que funciona como táxi, temem que tenham que suportar novamente as penúrias do chamado período econômicoespecial, devido à nova crise que afeta Cuba e obrigou o governo a adotar um programa de austeridade. Foto: Jorge LuisBaños/IPS

Os cubanos, como esses moradores de Havana, que se dispõem a dividir um veículo particular que funciona como táxi, temem que tenham que suportar novamente as penúrias do chamado período econômicoespecial, devido à nova crise que afeta Cuba e obrigou o governo a adotar um programa de austeridade. Foto: Jorge LuisBaños/IPS

Por Patricia Grogg, da IPS –

Havana, Cuba, 20/7/2016 – O fantasma do período especial, como foi chamada a aguda depressão dos anos 1990, percorre atualmente os lares de Cuba, embora governo e especialistas coincidam em que a nova crise é diferente e existem recursos para enfrentá-la. O presidente Raúl Castro reconheceu, este mês, a crise e alertou o país para tempos duros pela frente, enquanto tomava medidas a favor da economia de energia e da contenção de gastos de divisas, além de substituir o ministro de Economia e Planejamento, Marino Murillo, por Ricardo Cabrisas, um veterano e eficaz negociador das áreas de comércio exterior e relações financeiras.

No começo de julho, Castro e Murillo, ainda ministro, insistiram em que o programa de ajustes criado para enfrentar a falta de liquidez financeira e o desabastecimento de petróleo afetará “o menos possível” os 11,2 milhões de habitantes do país. Mas já são numerosas as queixas por cortesinesperados no fornecimento de energia.A empresa estatal Unión Eléctrica insistiu, este mês, em que os cortes para o setor residencial se devem a imprevistas quebras e à poda de árvores, comuns no início da temporada de ciclones, entre junho e novembro.

De fato, tempestades elétricas, ocorridas desde o começo do período de furacões, já causaram falhas no fornecimento de energia em vários bairros de Havana. As medidas aplicadas pelo governo para enfrentar a crise incluem diminuir o fornecimento de eletricidade em organismos e empresas do Estado e redução no gasto em divisas. Além disso, é dada prioridade ao uso da reduzida disponibilidade de divisas e de oferta energética aos setores que garantem renda externa, como o turismo, e que substituem importações.

“No momento não haverá novo período especial, mas é muito provável que a economia entre em recessão, isto é, que diminua o produto interno bruto (PIB), e obviamente isso terá um impacto negativo no consumo e no nível de vida dos cubanos”, apontou à IPS, da Colômbia, o economista cubano Pável Vidal.

Durante a grave recessão que se seguiu à extinção da União Soviética e ao desaparecimento do bloco socialista, no começo dos anos 1990, Cuba perdeu o fornecimento de petróleo procedente de Moscou e seus principais mercados. Os apagões passaram a ser chamados popularmente de “alumbrones” por causa de sua frequência. Entre 1989 e 1993, a fase mais crítica do período especial, o país registrou queda de 34,8% de seu PIB.

 Turistas em uma praia do polo turístico de Guardalavaca, na província de Holguín. As divisas provenientes do turismo são um dos instrumentos com que Havana conta para atenuar os efeitos da economia nacional. Foto: Jorge LuisBaños/IPS


Turistas em uma praia do polo turístico de Guardalavaca, na província de Holguín. As divisas provenientes do turismo são um dos instrumentos com que Havana conta para atenuar os efeitos da economia nacional. Foto: Jorge LuisBaños/IPS

A contração no fornecimento de combustível pela Venezuela, principal sócio comercial de Cuba neste século, se repete entre os analistas como a origem dos problemas que desaceleraram a economia no primeiro semestre de 2016, quando cresceu apenas 1%, a metade do previsto.Segundo um convênio vigente desde 2000, Caracas abastece Havana com 90 mil barris diários de petróleo, em troca de professores, médicos e outros serviços. O corte repentino desse intercâmbio geraria a Cuba gasto de US$ 1,3 bilhão anuais, segundo especialistas internacionais.

“A analogia é evidente, embora Caracas represente hoje menos do que Moscou significou há mais de duas décadas para o comércio, o desenvolvimento e as finanças de Cuba”, afirmou em um artigo sobre o assunto Ariel Terrero, jornalista especializado em temas econômicos.Não há dados oficiais sobre a redução da chegada de petróleo venezuelano ao país.

Apesar de sua baixa qualidade, a produção cubana de petróleo pesado, que precisa ser deixado leve com petróleo importado, e de gás atende 40% do consumo energético do país, incluindo a geração de eletricidade. Existem planos para elevar a matriz energética proveniente de fontes renováveis em 24% até 2030.

Vidal alertou que “se sabia” que a crise da Venezuela teria efeito negativo sobre a economia cubana, mas ainda assim se mantevea alta dependência comercial e financeira em relação a esse país, enquanto a renegociação com credores e a abertura de novos espaços de integração internacional não se traduziu em maiores fluxos comerciais e de investimentos.

Antes de chegar a um novo período especial, “a primeira fase pela qual transitaremos é uma forte contração da disponibilidade de divisas, que colocará em risco a acertada política desses anos, de renegociar e colocar em dia as finanças internacionais”, observou Vidal, professor da Universidade Javeriana de Cali, na Colômbia.Portanto, o primeiro desafio será evitar um “corralito financeiro” como o dos anos 2008 e 2009, acrescentou, se referindo a medidas bancárias restritivas a empresários estrangeiros, adotadas pelo governo cubano na época para equilibrar sua balança de pagamentos.

 Equipamentos pesados extraem níquel em uma das minas do município de Moa, no leste de Cuba. O mineral é o principal produto de exportação do país e a segunda ou terceira fonte de divisas. Foto: Jorge LuisBaños/IPS


Equipamentos pesados extraem níquel em uma das minas do município de Moa, no leste de Cuba. O mineral é o principal produto de exportação do país e a segunda ou terceira fonte de divisas. Foto: Jorge LuisBaños/IPS

Vidal reiterou que atualmente as opções para amortizar o impacto incluem dar sinal verde aos projetos de investimento estrangeiro que estão em fase de aprovação e eliminar o monopólio estatal sobre o comércio externo, o que implica abrir um “mercado competitivo de insumos e bens de capital físico”.O especialista também propõe expandir o espaço para pequenas e médias empresas privadas e às cooperativas, com possibilidade de participação dos profissionais. “Isto é, a resposta para a crise tem de ser uma combinação de ajuste (que é o que o governo já tem planejado), mas também de liberalização dos mercados”, afirmou.

A mudança no Ministério de Economia e Planejamento colocouà frente dessa importantíssima pasta, desde o dia 14 deste mês,Cabrisas, de 79 anos, com reconhecida experiência na frente externa, sendo uma de suas últimas gestões a renegociação da dívida cubana com o Clube de Paris, que reúne os credores oficiais, alcançada em dezembro de 2015. Desta vez, terá que usar sua experiência para tratar de preservar a credibilidade de Cuba diante de seus devedores e tornar manejável o endividamento externo.

Murillo, de 55 anos dirigia o Ministério desde setembro de 2014e foi mantido como chefe da Comissão Permanente para a Implantação e o Desenvolvimento, responsável pelo processo de atualização do modelo econômico do país.Em seu discurso na Assembleia Nacional do Poder Popular (parlamento unicameral), no dia 8 deste mês, Castro reconheceu que há alguns atrasos nos pagamentos correntes aos fornecedores, mas assegurou que seu governo mantém “a vontade de recuperar os vencimentos pendentes”.

A difícil conjuntura econômica coincide com o primeiro aniversário do restabelecimento oficial de relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos, que ocorre hoje. Desde então, os dois países mantêm um fluido diálogo, embora a total normalização dos vínculos bilaterais continue entorpecida pela manutenção do embargo econômico norte-americano à ilha.

O presidente norte-americano, Barack Obama, que visitou Cuba em março, anunciou na época a eliminação da proibição à ilha de usar o dólar em suas transações internacionais. Mas “o certo é que ainda não se conseguiu realizar pagamentos nem depósitos em dinheiro nessa moeda”, queixou-se Raúl Castro.Em meio às dificuldades, o governo cubano se prepara para celebrar, no dia 26, mais um aniversário do ataque ao quartel Moncada, comandado em 1953 pelo líder histórico Fidel Castro, que está próximo de completar 90 anos. A data agora é comemorada como Dia da Rebeldia Nacional. Envolverde/IPS

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Juros elevados refletem anomalias no Brasil http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/juros-elevados-refletem-anomalias-no-brasil/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/juros-elevados-refletem-anomalias-no-brasil/#comments Tue, 19 Jul 2016 14:10:55 +0000 Mario Osava http://www.envolverde.com.br/?p=211610 Por Mario Osava, da IPS –  Rio de Janeiro, Brasil, 19/7/2016 – A dívida permanente é um modo de vida desde que foi criado o cartão de crédito. Mas isso custa muito caro paraos brasileiros, por causa das taxas de juros cobradas, aumentadas ainda mais pela atual crise econômica. Disso já sabia Laura (que preferiu não […]

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Consumidores nos caixas de uma grande loja de eletrodomésticos durante um dia de ofertas especiais, que levam os brasileiros a gastarem mais do que seus bolsos permitem, com apoio dos cartões de crédito, o que os mantêm fortemente endividados. Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

Consumidores nos caixas de uma grande loja de eletrodomésticos durante um dia de ofertas especiais, que levam os brasileiros a gastarem mais do que seus bolsos permitem, com apoio dos cartões de crédito, o que os mantêm fortemente endividados. Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

Por Mario Osava, da IPS – 

Rio de Janeiro, Brasil, 19/7/2016 – A dívida permanente é um modo de vida desde que foi criado o cartão de crédito. Mas isso custa muito caro paraos brasileiros, por causa das taxas de juros cobradas, aumentadas ainda mais pela atual crise econômica. Disso já sabia Laura (que preferiu não citar o sobrenome). Mas não pôde evitar cair na armadilha. Havia comprado um fogão novo que apresentou falhas irreparáveis e a empresa fornecedora demorou dois meses para fazer a troca.

Laura teve que comer fora, gastando em restaurantes, justamente quando perdeu sua renda como cuidadora de uma idosa que morreu. A conta de seu cartão de crédito mais do que duplicou em junho, chegando a R$ 3.740, e ela só conseguiu pagar 15% do total, refinanciando o restante. Sua conta duplicou novamente em julho, apesar de ter gasto menos.

“Não posso pagar”, admitiu Laura, cuja aposentadoria cobre pouco mais que o aluguel do pequeno apartamento onde vive sozinha em um bairro no centro do Rio de Janeiro. Ela vai esperar a indenização da loja que lhe vendeu o fogão para negociar um desconto e pagar a dívida, que por enquanto “cresce em progressão geométrica”.

Os descontos costumam ser tão elevados quanto as taxas de juros cobradas no Brasil. Os R$ 35.730 que Leo (pseudônimo de um eletricista) devia a um banco caíram para R$ 6.435. A redução de 82% teve como condição o pagamento à vista, e a ajuda da família permitiu que quitasse a dívida, causada por um déficit em sua conta bancária. Cerca de R$ 1 mil se multiplicaram acumulando juros sobre juros durante mais de três anos.

O Brasil é um país de devedores contumazes que costumam atrasar os pagamentos, justificando a existência de vários serviços de proteção ao crédito, com listas de maus pagadores. Um total de 59,4 milhões de brasileiros estava inadimplentes em maio, segundo aconsultoria Serasa, um banco de dados sobre cidadãos e empresas com dívidas financeiras. O número, quase metade da população adulta do país, foi comemorado como um avanço, já que em abril eram 60,7 milhões os que tinham dívidas vencidas.

Isso ocorre apesar da alta penalização das taxas de juros sobre o crédito e especialmente sobre os atrasos no pagamento. Refinanciar parte da dívida do cartão de crédito, por exemplo, custava, em junho, 447,44% de juros ao ano, enquanto os bancos cobravam 286,27% sobre o saldo devedor em contas correntes, segundo a Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). É mais de dez vezes o que se cobra em países de desenvolvimento semelhante, como os latino-americanos.

O custo de um crédito pessoal em um banco é de 72% ao ano, inclusive para clientes com boa capacidade de pagamento. Esse limite foi ultrapassado devido à crise econômica que afeta o Brasil desde 2014, mas já eram abusivas há três anos, quando estavam em 41%. As grandes redes comerciais de bens duráveis preferem vender a prazo, mais lucrativo, com juros próximos de 100% ao ano. Para comprar com prestações mensais compatíveis com seus bolsos, os consumidores aceitam preços que duplicam a cada ano.

No Brasil, as taxas de juros para cartões de crédito estavam, em maio, em 450% ao ano, nível de usura que faz o número de inadimplentes ser, este mês, de quase 60 milhões de pessoas. Foto: Fernanda Carvalho/Fotos Públicas

No Brasil, as taxas de juros para cartões de crédito estavam, em maio, em 450% ao ano, nível de usura que faz o número de inadimplentes ser, este mês, de quase 60 milhões de pessoas. Foto: Fernanda Carvalho/Fotos Públicas

As empresas também pagam juros altíssimos, entre 37% e 45%, para capital de giro (circulante ou de trabalho) vinculado às contas a receber. Isso acontece enquanto os países ricos baixaram suas taxas para perto de zero, para estimular a demanda. São “juros de extorsão que freiam a demanda” das pessoas físicas e os investimentos das empresas, impedindo o desenvolvimento econômico e “drenando imensos recursos para os intermediários financeiros”, ressaltou à IPS Ladislau Dowbor, professor de economia na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.

“Caímos na armadilha porque os bancos se juntaram em um cartel” e o Banco Central fixou, desde 1996,taxas básicas de juros “exorbitantes” para “compensar os banqueiros pelo fim da hiperinflação que lhes dava ganhos fáceis”, explicou Dowbor.Para o professor, um militante do esquerdista Partido dos Trabalhadores (PT), o poder financeiro é uma “deformação mundial”, que assumiu formas específicas de criar obstáculosà economia no Brasil, onde seus ganhos crescem mais enquanto o produto estanca ou diminui, como ocorre desde 2014.

A saída seria uma reforma financeira, para baixar as taxas de juros do Banco Central e dos bancos públicos, ampliar os sistemas locais de financiamento, descentralizando o crédito, como fez a Alemanha, e regular o setor para priorizar os investimentos produtivos em lugar da especulação. Seria “persistir” no que tentou o governo do PT em 2013, sob a administração de Dilma Rousseff, freado por falta de força política.

Uma visão oposta, majoritária entre economistas, é a de Andrew Storffer, diretor executivo da Anefac. “É o governo, que gasta muito em proporção aos serviços prestados, o principal culpado pelos jurosaltos”, afirmou à IPS. A tentativa “voluntariosa” de baixar os juros em 2013 foi um dos erros que alimentaram a forte e prolongada recessão da economia brasileira desde 2014, acrescentou.

Com seus gastos e dívida em crescimento, o governo drena muito mais recursos da economia, tendo de se autofinanciar emitindo títulos que pagam altos juros para atrair investidores, elevando as taxas de todo o sistema financeiro, explicouStorffer. No ano passado, os juros da dívida pública totalizaram R$ 500 bilhões, equivalentes a 8,2% do produto interno bruto (PIB).

Os bancos são intermediários, captam o dinheiro e o redistribuem. “Se cobram caro, é porque há demanda, e o governo é o que mais demanda”, opinouStorffer. “Se ter um banco no Brasil fosse tão bom negócio, todos os bancos estrangeiros tratariam de se instalar no país, e não de sair, com fez o britânico HSBC”, que em 2015 vendeu sua subsidiária local ao Bradesco, segundo maior banco privado do país. Os juros aqui são grandes, mas os riscos também, acrescentou.

“O Brasil tem, provavelmente, o nível de juros reais mais elevado do mundo”, reconheceu Storffer, porque são altos os custos, os impostos e os riscos de insolvência, mas principalmente porque a taxa básica fixada pelo Banco Central se situa atualmente em elevados 14,25%. Esta taxa é um instrumento de política monetária, “elevada quando sobe a inflação”, para desestimular o consumo, e que no Brasil tem de ser mais alta pelo “desacerto nas contas públicas”, acrescentou. Encarecendo o dinheiro a ser emprestado, todas as taxas de juros sobem às nuvens. “A chave para baixar os juros é reduzir o gasto do governo”, concluiu.

A solução proposta por Reinaldo Domingos, presidente da DSOP Educação Financeira, parte do indivíduo. Sua organização já proporcionou educação financeira a meio milhão de pessoas, principalmente crianças, e divulga sua metodologia por meio de 15 livros para alunos e outros 15 para professores. DSOP são siglas de Diagnosticar, Sonhar, Orçamentar e Economizar, os quatro passos de seu curso. “Trata-se de mudar comportamentos, em uma formação preventiva para as novas gerações, pois a nossa já não muda. É necessário fixar sonhos para economizar”, enfatizou à IPS. Envolverde/IPS

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El Niño abranda e La Niña chegará logo http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/el-nino-abranda-e-la-nina-chegara-logo/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/el-nino-abranda-e-la-nina-chegara-logo/#comments Tue, 19 Jul 2016 13:30:47 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=211637 Por BaherKamal, da IPS –  Roma, Itália, 19/7/2016 – O fenômeno El Niño de 2015-2016 é um dos mais fortes até agora e o La Niña, que poderá golpear em breve, agravaria a severa crise humanitária que afeta milhões de pessoas nas comunidades mais vulneráveis de dezenas de países, especialmente na África e Ásia Pacífico. El […]

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A região de Hararghe ocidental, na Etiópia, em dezembro de 2015. Cerca de 10,2 milhões de pessoas sofrem insegurança alimentar no contexto de uma das piores secas registradas nesse país africano em décadas. Foto: Stephanie Savariaud/WFP

A região de Hararghe ocidental, na Etiópia, em dezembro de 2015. Cerca de 10,2 milhões de pessoas sofrem insegurança alimentar no contexto de uma das piores secas registradas nesse país africano em décadas. Foto: Stephanie Savariaud/WFP

Por BaherKamal, da IPS – 

Roma, Itália, 19/7/2016 – O fenômeno El Niño de 2015-2016 é um dos mais fortes até agora e o La Niña, que poderá golpear em breve, agravaria a severa crise humanitária que afeta milhões de pessoas nas comunidades mais vulneráveis de dezenas de países, especialmente na África e Ásia Pacífico. El Niño é como se conhece o aquecimento do Oceano Pacífico oriental equatorial que ocorre de forma cíclica a cada três a sete anos.

Este fenômeno, conhecido como El Niño-Oscilação do Sul, eleva a temperatura da superfície do mar e altera os sistemas climáticos do mundo, gerando chuvas copiosas em algumas regiões e seca total em outras, ao contrário do que ocorre habitualmente.A fase de esfriamento, conhecida como La Niña, gera chuvas intensas nas zonas afetadas pela seca durante o El Niño e inundações onde já havia caído chuvas em abundância.

O El Niño destrói colheitas, mata o gado e afeta o sustento de milhares de pessoas. Mas um dos maiores impactos é contra meninos e meninas, porque “a fome, a má nutrição e as doenças seguem aumentando em razão das secas e das inundações”, segundo o último informe do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

A seca associada ao fenômeno El Niño afetou severamente a comunidade Arsi, na Etiópia. Foto: Charlotte Cans/Ocha

A seca associada ao fenômeno El Niño afetou severamente a comunidade Arsi, na Etiópia. Foto: Charlotte Cans/Ocha

Essa situação poderia piorar com o La Niña este ano, alerta o estudo Ainda Não Terminou. As Consequências do El Niño Sobre as Crianças. El Niño e La Niña são fenômenos cíclicos que nos últimos anos ocorreram principalmente pelos efeitos da mudança climática, e os eventos extremos associados, como secas e inundações, aumentaram em frequência e gravidade.

“Milhões de meninos e meninas e suas comunidades precisam de apoio para sobreviver e ajuda para se prepararem caso o La Niñaaprofunde a crise humanitária. Também deverão redobrar a redução do risco de desastre e se adaptar à mudança climática, que provoca eventos extremos mais frequentes e intensos”, destacou o diretor de programas de emergência do Unicef, Afshan Jan.

O informe do Unicef diz que, nas zonas mais afetadas pelo fenômeno, as crianças passarão fome. Na África austral e oriental, as regiões mais golpeadas, cerca de 26,5 milhões de crianças necessitam de assistência, e um milhão delasprecisa de atenção médica por desnutrição aguda e grave. “As mesmas crianças afetadas pelo El Niño e em risco pelo La Niña estão na linha de frente diante da mudança climática”, advertiu Jan.

O informe também destaca como os eventos climáticos extremos perturbam o ano escolar, aumentam a ocorrência de enfermidades e a má nutrição, além de prejudicarem o sustento das famílias. Nas áreas afetadas pela seca, as crianças não vão à escola porque são as responsáveis por buscar água potável e devem percorrer grandes distâncias, ou porque se mudaram com as famílias por causa da perda de cultivos e gado.

As crianças não escolarizadas correm o risco adicional de sofrer abusos, exploração e, em algumas áreas, serem vitimas do casamento infantil, afirma o Unicef. Além disso, a má nutrição em menores de cinco anos aumentou de forma alarmante nas áreas afetadas pelo fenômeno climático, onde as famílias já viviam o dia a dia. Em muitos países, o El Niño afeta o acesso a água potável e se relaciona com doenças como dengue, diarreia e cólera, “grandes assassinas de crianças”.

A seca pode empurrar as adolescentes e mulheres à prática do comércio sexual para sobreviverem. Além disso, alerta o Unicef, a mortalidade das crianças com HIV (vírus causador da aids) é de duas a seis vezes maior para os que sofrem má nutrição severa.O Unicef não é a única agência da Organização das Nações Unidas (ONU) que destaca as devastadoras consequências de El Niño e La Niña. De fato, a falta de preparação e adaptação à nova norma de crescentes emergências climáticas coloca em risco o cumprimento dos objetivos de desenvolvimento e aprofunda o sofrimento humano em áreas já golpeadas por inundações e secas, alertaram funcionários da ONU.

Agricultores da Etiópia. O Chifre da África é uma das regiões mais prejudicadas pelo El Niño. Foto: TamiruLegesse/FAO

Agricultores da Etiópia. O Chifre da África é uma das regiões mais prejudicadas pelo El Niño. Foto: TamiruLegesse/FAO

Os diretores das três agências da ONU com sede em Roma – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida) e Programa Mundial de Alimentos (PMA) –, além do enviado especial para El Niño e o Clima, alertaram que a projeção é de que mais de 60 milhões de pessoas no mundo, 40 milhões delas na África austral e oriental, não terão segurança alimentar devido a esse fenômeno climático.

Para atender a esses desafios, essas agências e alguns colaboradores se reuniram no dia 6 de julho, na sede da FAO em Roma. O diretor-geral da organização, José Graziano da Silva, destacou que as consequências do El Niño na agricultura foram enormes e que, com o risco do La Niña, a situação poderá piorar.“O El Niño causou principalmente uma crise alimentar e agrícola”, afirmou o diretor, anunciando que a FAO mobilizará fundos adicionais “para se concentrar em ações prévias, em particular na agricultura, alimentação e nutrição, para mitigar as consequências dos eventos e para fortalecer as capacidades de resposta de emergência, mediante investimentos focados e destinados a ações de preparação”.

Por sua vez, a Oxfam Internacional informou que cerca de 60 milhões  de pessoas na África austral, no Chifre da África, na América Central e zona do Pacífico veem como piora a fome e a pobreza devido à seca e à perda de cultivos em 2014 e 2015, as quais se exacerbaram devido ao El Niño. “Esse número provavelmente aumentará”, alertou a confederação de 17 organizações não governamentais.

A Oxfam divulgou uma pesquisa onde apresenta depoimentos impactantes de algumas das pessoas com as quais trabalha na Etiópia, Malawi, Zimbábue, El Salvador e Papua-Nova Guiné. “Nos disseram que viveram tempos difíceis mas que esta seca é muito pior do que as anteriores”, diz o informe O Que Será de Nós. Vozes de Diferentes Partes do Mundo Comentam a Seca e o El Niño,elaborado por Debbie Hillier.

“Pessoas vão dormir de estômago vazio, trabalham em seus campos ou vão à escola com a persistente dor da fome, e caminham ou pedalam quilômetros tentando encontrar comida. Muitas pessoas reduziram as refeições diárias para duas ou mesmo uma”, destaca o documento.A fome dói. Para os pais, o esforço de colocar comida na mesa é especialmente doloroso, as crianças choram de fome e os bebês mamam em peitos vazios, enfatiza o informe.A Oxfam publicou uma resenha, El Niño e a Mudança Climática: Tudo o Que se Deve Saber, que detalha a relação entre os dois fenômenos. Envolverde/IPS

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Empoderamento feminino e desenvolvimento http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/empoderamento-feminino-e-desenvolvimento/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/empoderamento-feminino-e-desenvolvimento/#comments Mon, 18 Jul 2016 14:26:38 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=211533 Por Diego Arguedas Ortiz, da IPS –  São José, Costa Rica, 18/7/2016 – A inclusão das mulheres no modelo de desenvolvimento latino-americano, com maior participação no mercado de trabalho e melhores condições salariais, contribuiu decisivamente para reduzir a pobreza extrema na região. Além disso, traça um mapa do caminho para as dívidas em matéria de gênero […]

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 Da esquerda para a direita, a diretora regional da ONU Mulheres para as Américas e o Caribe, Luiza Carvalho; a diretora executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka; a ministra da Condição da Mulher da Costa Rica, Alejandra Mora, e a copresidente do Painel de Alto Nível para o Empoderamento Econômico das Mulheres e presidente executiva da IKEA Suíça, Simona Scarpaleggia, durante a sessão do painel em São José. Foto: Diego Arguedas Ortiz/OS


Da esquerda para a direita, a diretora regional da ONU Mulheres para as Américas e o Caribe, Luiza Carvalho; a diretora executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka; a ministra da Condição da Mulher da Costa Rica, Alejandra Mora, e a copresidente do Painel de Alto Nível para o Empoderamento Econômico das Mulheres e presidente executiva da IKEA Suíça, Simona Scarpaleggia, durante a sessão do painel em São José. Foto: Diego Arguedas Ortiz/OS

Por Diego Arguedas Ortiz, da IPS – 

São José, Costa Rica, 18/7/2016 – A inclusão das mulheres no modelo de desenvolvimento latino-americano, com maior participação no mercado de trabalho e melhores condições salariais, contribuiu decisivamente para reduzir a pobreza extrema na região. Além disso, traça um mapa do caminho para as dívidas em matéria de gênero que ainda existem na América Latina e no resto do mundo.

Foi o que determinou a segunda sessão do Painel de Alto Nível do Secretário-Geral das Nações Unidas para o Empoderamento das Mulheres, que reuniu, na capital da Costa Rica, entre os dias 13 e 15 deste mês, 15 líderes de vários continentes, com o objetivo de trocarem experiências positivas para maior autonomia econômica da população feminina.

“Se as mulheres tivessem mantido a condição dos anos 1990, a pobreza extrema hoje estaria em torno dos 30%, e não dos 12% como agora”, afirmou a brasileira Luiza Carvalho, diretora regional da ONU Mulheres para as Américas e o Caribe. Assim ela se referiu a indicadores regionais de empoderamento econômico, como o aumento de mulheres no mercado de trabalho, que passou de uma participação de 40% das mulheres, em 1990, para 55% atualmente, o maior aumento entre as regiões do mundo.

Para Carvalho, é uma estatística que traz esperança para enfrentar os muitos desafios pendentes em matéria de igualdade de gênero “Vemos esses avanços somente como um ponto a partir do qual devemos avançar. Ainda não estamos onde queremos”, afirmou.A segunda sessão do Painel de Alto Nível, fórum criado em março pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, enfatizou especialmente a região latino-americana, embora seu olhar fosse mundial.

O Painel está integrado por influentes líderes de governos, setores privado e acadêmico, e sociedade civil, sendo copresidido por Simona Scarpaleggia, presidente executiva da empresa Ikea Suíça, e pelo presidente da Costa Rica, Luis Guillerrmo Solís. Ainda este ano o painel apresentará suas recomendações ao secretário-geral.Carvalho recordou que as mulheres da região ainda estão sub-representadas em setores científicos e tecnológicos e que a violência contra a mulher na América Latina continua sendo a mais alta do mundo.

Em nível mundial, os salários das mulheres são 24% inferiores aos dos seus colegas homens, elas fazem duas vezes e meia mais trabalhos de cuidados e domésticosnão remunerados do que eles, e têm uma presença desproporcional nos escritórios e de apoio (63%) em comparação com os cargos de gestão (33%).Durante o Painel a diretora executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, pediu que sejam as próprias mulheres a indicar as áreas em que a economia as impacta mais e nas quais se sentem limitadas.

“Que sejam as mulheres a nos dizerem como consideram que os governos poderiam facilitar esses processos para elas”, apontou Mlambo-Ngcuka, de nacionalidade sul-africana e que também é secretária-geral adjunta da ONU. Apesar de pequenos triunfos em matéria de participação da mulher, a região latino-americana ainda “tem um bom número de desafios. Podemos aprender tanto com desafios como com êxitos”, destacou.

Em geral, o empoderamento econômico é um requisito necessário para se alcançar uma verdadeira igualdade de gênero em nível global, e as persistentes brechas em matéria de participação trabalhista, salário igual e retribuição por serviços no âmbito privado dificultam esse avanço, insistiram as participantes do Painel. Conseguir a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres e meninas é o quinto dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

No entanto, as líderes reunidas em São José destacaram que se trata de um objetivo que permeia todos os demais. “O empoderamento econômico das mulheres é condição imprescindível para atingir os objetivos desta agenda”, ressaltou Carvalho.Mas os mecanismos para isso ainda estão longe de serem os desejados e, por isso, foi necessária a criação do Painel de Alto Nível, explicou Scarpaleggia. “O ritmo para alcançar a meta (de número 5) até 2030 é muito lento e por isso necessitamos acelerar e adotar ações. Se mantivermos esse passo, demorará cem anos”, enfatizou.

Para a executivada Ikea, um grupo multinacional de fabricação e venda de móveis e objetos para o lar, sobram os argumentos econômicos para incluir as mulheres e conseguir a paridade 50-50. “As companhias podem fazer muito para cumprir essa meta. A Ikea, por exemplo, tem um objetivo de conseguir uma composição de 50-50 em posições de liderança até 2020. Na Ikea Suíça já chegamos a essa meta!”, comemorou.

De fato, um estudo divulgado em 2015 pela consultoria McKinsey afirma que uma maior incorporação da mulher no mercado de trabalho pode aumentar anualmente o produto interno bruto global entre 12% e 26% ao ano a partir de 2025. Isso significaria entre US$ 12 trilhões e US$ 28 trilhões adicionais. O amplo arco do incremento se deve a duas opções propostas pelo estudo: o aumento menor ocorreria se cada região alcançasse o país mais avançado em igualdade de gênero, enquanto o cenário superior propõe que a porcentagem de mulheres no mercado de trabalho seja igual à dos homens.

Em escala mundial, 75% dos homens em idade de trabalhar são parte da população ativa, contra 50% no caso das mulheres em idade de trabalhar, segundo o informe O Progresso das Mulheres no Mundo 2015-2016: Transformar as Economias Para Realizar os Direitos, apresentado no encontro.“Nossas economias, além de estarem paralisadas, têm um problema de inclusão. Isso significa que nossos países estão desperdiçando cerca de 50% do talento das mulheres”, alertou Alejandra Mora, ministra da Condição da Mulher da Costa Rica.

Mora explicou que um empoderamento econômico imediatamente influi em outros setores da vida das mulheres. “Uma mulher com capital que permita satisfazer suas necessidades básicas pode pôr fim a agressões abusivas de violência, à falta de controle do corpo”.Na América Latina, 29% das mulheres não tinham acesso a renda própria em 2013, contra 13% dos homens. As especialistas foram claras em afirmar que o emprego por si não basta, e é necessário que seja trabalho remunerado e de qualidade.

Também destacaram que 59% dos empregos das mulheres na região são informais, sem legislação trabalhista, nem proteção social.Para garantir isso é crítico o campo do trabalho doméstico remunerado, que representa 17% do emprego feminino na América Latina. Dos 22 países que ratificaram o Convênio 189 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que regula os direitos dessas trabalhadoras, 12 são da região. Envolverde/IPS

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Cessam os fortes combates no Sudão do Sul http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/cessam-os-fortes-combates-no-sudao-do-sul/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/07/ultimas-noticias/cessam-os-fortes-combates-no-sudao-do-sul/#comments Mon, 18 Jul 2016 14:04:08 +0000 Lyndal Rowlands http://www.envolverde.com.br/?p=211542 Por Aruna Dutt e Lyndal Rowlands, da IPS –  Nações Unidas, 18/7/2016 – A situação em Juba, capital do Sudão do Sul na quinta-feira dia 14 era “tensa”, mas “calma”, após os intensos combates vividos na semana passada nesse país, informou o porta-voz da Organização das Nações Unidas (ONU), Stephane Dujarric. “A relativa calma abriu uma […]

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Uma patrulha da missão de manutenção da paz da ONU percorre a aleia de Yuai, no Sudão do Sul, no começo de 2016. Foto: Jared Ferrie/IPS

Uma patrulha da missão de manutenção da paz da ONU percorre a aleia de Yuai, no Sudão do Sul, no começo de 2016. Foto: Jared Ferrie/IPS

Por Aruna Dutt e Lyndal Rowlands, da IPS – 

Nações Unidas, 18/7/2016 – A situação em Juba, capital do Sudão do Sul na quinta-feira dia 14 era “tensa”, mas “calma”, após os intensos combates vividos na semana passada nesse país, informou o porta-voz da Organização das Nações Unidas (ONU), Stephane Dujarric. “A relativa calma abriu uma janela de oportunidades para que as organizações humanitárias respondessem e visitassem todas as áreas onde havia registro de pessoas deslocadas”, informou Dujarric nesse dia.

“As organizações humanitárias respondem às necessidades mais cruciais, como distribuir bolachas de alto conteúdo energético, complementos nutricionais e artigos de higiene, criar sistemas de reunificação e acompanhamento familiar, repor medicamentos vitais e distribuir suprimentos básicos leves para as pessoas mais vulneráveis”, acrescentou o porta-voz da ONU.

O cessar-fogo anunciado no dia 12 deste mês, que até o final de semana se mantinha, permitiu acabar com cinco dias de intensos combates entre as forças leais ao presidente Salva Kiir e as do vice-presidente, Riek Machar.

A difícil situação do país se deve principalmente ao conflito armado entre o governo e as forças opositoras, que começou em dezembro de 2013 e que já deixou milhares de mortos. Esse país da África oriental, que ficou independente em 9 de julho de 2011, também está à beira do colapso econômico, alertou a organização humanitária Oxfam no dia 5 deste mês.

O atual episódio de violência obrigou novamente milhares de cidadãos do Sudão do Sul a deixarem suas casas e causou mais mortes de civis. A missão da ONU no país protege cerca de 33 mil pessoas deslocadas em Juba, a maioria delas abrigada em instalações civis e das Nações Unidas.

Talvez seja impossível saber quantas pessoas morreram em combate, afirmou a responsável pela Missão de Assistência das Nações Unidas na República do Sudão do Sul (Unmiss), a dinamarquesa Ellen Margrethe Løj, em teleconferência para a imprensa na semana passada. O próprio pessoal da ONU e de organizações não governamentais também foi alvo de ataques, em uma clara violação do direito internacional. O fórum mundial pediu uma investigação dos fatos.

Løj também denunciou o saque de instalações da ONU com suprimentos humanitários durante os combates, quando seu pessoal foi obrigado a se proteger por segurança. A maternidade do hospital da organização internacional Medical Corps no Centro de Proteção de civis (PoC), em Juba, foi bombardeada no dia 12. Já o pessoal da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) informou ter ouvido relatos terríveis de pacientes que atenderam quando a violência cessou.

“As histórias que estamos ouvindo são terríveis, inclusive relatos de coisas que acontecem agora, desde que cessaram os combates”, destacou Ruben Pottier, coordenador de campo da MSF. “Conheci um menino de oito anos cujos pais foram assassinados e agora não tem quem cuide dele”, disse Pottier. “Vi chegar uma menina de 12 anos com sua irmão de três os braços para uma consulta dizendo que havia perdido os pais. Meus colegas na clínica móvel atenderam pelo menos outros três meninos que chegaram sozinhos porque seus pais foram mortos”, acrescentou.

Diante da crueza dos combates, a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) pediu aos países vizinhos que abrissem suas fronteiras para ajudar os cidadãos do Sudão do Sul que fugiram da violência. Mas a Anistia Internacional informou que as forças de segurança nacional podem ter impedido a saída das pessoas do país. “As forças de segurança sul-sudanesas impedem propositalmente que as pessoas saíam do país, em clara violação do direito à liberdade de deslocamento”, diz o comunicado da Anistia.

Milhares de sul-sudaneses haviam se concentrado na fronteira sul do país tentando entrar em Uganda, mas foram impedidos, informou a organização. “A conduta arbitrária das forças de segurança do Sudão do sul é totalmente inaceitável. O país deve respeitar o direito à liberdade de movimento das pessoas, inclusive o de abandonar seu próprio país”, afirmou Elizabeth Deng, pesquisadora local da Anistia. “É absolutamente crucial que as partes em conflito não obstruam a circulação de civis que buscam refúgio tanto dentro como fora do país”, acrescentou.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu ao Conselho de Segurança um embargo de armas para o Sudão do Sul, mas até a sexta-feira seus 15 integrantes não haviam chegado a um acordo a respeito. Envolverde/IPS

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