IPS em português http://www.ipsnoticias.net/portuguese Jornalismo e comunicação para transformar o mundo Fri, 24 Jun 2016 11:40:57 +0000 en-US hourly 1 http://wordpress.org/?v=4.2.9 Seca expõe problemas de irrigação em Cuba http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/seca-expoe-problemas-de-irrigacao-em-cuba/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/seca-expoe-problemas-de-irrigacao-em-cuba/#comments Fri, 24 Jun 2016 11:40:57 +0000 Ivet González http://www.envolverde.com.br/?p=210582 Por Ivet González, da IPS –    Holguín, Cuba, 24/6/2016 – Cinco modernas e chamativas máquinas irrigam os 138 hectares da fazenda estatal La Yuraguana, na província de Holguín, a terceira mais importante de Cuba. Mas,“às vezes, não podem ser ligadas devido ao baixo volume de água”, explicou seu administrador, EdilbertoPupo.“Os últimos três anos foram tensos […]

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Uma das máquinas de irrigação por aspersão na fazenda La Yuraguana e que várias vezes este ano não pôde ser usada por falta de água em uma represa próxima, devido à seca que assola a província de Holguín e muitas outras áreas de Cuba. Foto: Ivet González/IPS

Uma das máquinas de irrigação por aspersão na fazenda La Yuraguana e que várias vezes este ano não pôde ser usada por falta de água em uma represa próxima, devido à seca que assola a província de Holguín e muitas outras áreas de Cuba. Foto: Ivet González/IPS

Por Ivet González, da IPS – 

 

Holguín, Cuba, 24/6/2016 – Cinco modernas e chamativas máquinas irrigam os 138 hectares da fazenda estatal La Yuraguana, na província de Holguín, a terceira mais importante de Cuba. Mas,“às vezes, não podem ser ligadas devido ao baixo volume de água”, explicou seu administrador, EdilbertoPupo.“Os últimos três anos foram tensos pelas poucas chuvas. E para regar nos abastecemos de uma represa que quase secou”, contou à IPS o responsável pela exploração, que em 2008 recebeu novos sistemas de irrigação graças ao financiamento internacional.

As máquinas do tipo com pivô central, montadas em Cuba com componentes europeus, irrigam pelo método de aspersão, que imita a chuva que cai sobre ou entre as plantas. Desde o final de 2014, Cuba sofre a seca mais severa dos últimos 115 anos, que alerta para a urgência de modernização e ajuste da gestão da água no setor agropecuário aos desafios climáticos, entre outros problemas, como desperdício devido ao mau estado das redes hidráulicas, ineficientes políticas de economia e pouca medição do volume entregue.

O processo de reformas,iniciadonesse país em 2008, ainda não conseguiu levantar o setor agropecuário, que, ainda assim, é o maior consumidor de água, ao absorver 65% do total de extrações para irrigação, aquicultura e pecuária.A situação se torna complexa para o futuro porque as secas serão cada vez mais estacionais no Caribe, como efeito da mudança climática, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) anuncia em seu último estudo sobre a área, divulgado no dia 21 deste mês.

“A agricultura será o setor mais afetado, com graves consequências econômicas e sociais, já que a maioria da agricultura do Caribe é de terra seca”,além de se observar maior demanda de abastecimento de água doce pelo “uso cada vez mais generalizado da irrigação”.Dos 36 países com maior escassez de água no mundo, sete são caribenhos, segundo a FAO.Comono resto do leste cubano, a região do país que mais sofre secas, os camponeses da província de Holguín enfrentam o problema com outras alternativas e sabem que, em situações extremas, as máquinas de irrigação de pouco servem.

O camponês Julio César Pérez na plantação de mandioca em uma das propriedades da Cooperativa de Crédito e Serviços Eduardo R. Chibás, na província de Holguín, em Cuba. Graças a um sistema de irrigação instalado em 2010, o rendimento da cooperativa aumentou 70%. Foto: Ivet González/IPS

O camponês Julio César Pérez na plantação de mandioca em uma das propriedades da Cooperativa de Crédito e Serviços Eduardo R. Chibás, na província de Holguín, em Cuba. Graças a um sistema de irrigação instalado em 2010, o rendimento da cooperativa aumentou 70%. Foto: Ivet González/IPS

“Nos momentos mais críticos, tivemos que semear cultivos resistentes, como mandioca e banana, que se mantêm até serem colhidos”, explicouPupo, sobre a fazenda que vende hortaliças, grãos, frutas e tubérculos paraos 287.800 habitantes da cidade de Holguín, capital da província.A meta de produção para 2016 de La Yuruguana, com 93 trabalhadores, dos quais 14 são mulheres, é de cerca de 840 toneladas de alimentos, que são vendidos diretamente para mercados na cidade.

“Esperamos que São Pedro nos ajude, que chova e a represa encha para podermos regar e produzir sem parar”, destacouPupo, se referindo ao santo católico cuja data é comemorada no dia 29 de junho, e que os crentes rurais invocam porque lhe atribuem o poder de fazer chover. A área agrícola de Cuba chega a 6.240.263 hectares, dos quais apenas 459 mil dispõem de sistemas de irrigação, a maioria com tecnologias obsoletas, segundo o informe governamental Panorama doUso da Terra. Cuba 2015.

Atualmente, apenas 11% das terras cultivadas são irrigadas, mas a FAO prevê que, até 2020, a superfície equipada praticamente duplicará e cobrirá cerca de 875.600 hectares, mediante um programa, iniciado em 2011, de modernização das máquinas e reorganização da irrigação e da drenagem no setor agropecuário. A irrigação eleva em até 30% os rendimentos agrícolas, segundo especialistas do setor.

As autoridades cubanas desejam que a produção local alivie o gasto de US$ 2 bilhões anuais em alimentos importados, para atender a demanda dos 11,2 milhões de habitantes e dos turistas que chegam ao país, que em 2015 foram três milhões.O agrônomo Theodor Friedrich, representante da FAO em Cuba, opinou à IPS que “a irrigação não é a resposta à seca”.

Cuba“deveria reduzir o uso da irrigação em lugar de estendê-lo”, aconselhouFriedrich, porque espremer as fontes de água, sobretudo as subterrâneas, pode levar “à degradação e salinização acelerada dos recursos hídricos”.A alternativa “é aplicar técnicas de economia de água de forma imediata, como reduzir as perdas ao longo da rede de distribuição, evitar qualquer irrigação por aspersão, aplicar diretamente a água no solo e regar segundo as necessidades do cultivo, considerando também as previsões meteorológicas”, destacou.

Para o agrônomo, a solução sustentável reside “no manejo do solo”, com técnicas de conservação. Também destacou que a agricultura ecológica “permite produzir mais com menos água e abre os solos para que as futuras chuvas possam se infiltrar de forma completa e encher o aquífero”. Por sua geografia, sem grandes lagos e rios, Cuba depende das chuvas, cuja água retém em 242 represas e dezenas de microrrepresas.

Como o representante da FAO, especialistas locais desaconselham levar ao extremo a exploração subterrânea, porque há o risco de salinização e perda da fonte de água doce. Originada no fenômeno El Niño/Oscilação do Sul, que causou estragos este ano na América Latina, a atual escassez de água afetou 75% do território cubano, segundo fontes oficiais, com os maiores danos em Santiago de Cuba, província vizinha de Holguín.

Um reservatório quase vazio, perto da fazenda La Yuraguana, que recolhe água de chuva, que é usada pelos camponeses dos subúrbios rurais da cidade de Holguín para dar de beber ao gado. Foto: Ivet González/IPS

Um reservatório quase vazio, perto da fazenda La Yuraguana, que recolhe água de chuva, que é usada pelos camponeses dos subúrbios rurais da cidade de Holguín para dar de beber ao gado. Foto: Ivet González/IPS

Apesar de medidas que priorizam o consumo da população sobre a agricultura e as indústrias, um milhão de pessoas sofreu em maio alguma limitação no acesso a água, informou o estatal Instituto Nacional de Recursos Hídricos.

No dia 20 deste mês, a União Europeia anunciou que entregará cem mil euros adicionais a Cuba, por intermédio da Cruz Vermelha, para dar assistência a dez mil pessoas prejudicadas pela seca em Santiago de Cuba. O apoio busca melhorar o acesso a água segura, com a entrega de equipamentos de transporte, reservatórios e materiais para tratá-la. Apesar disso, responsáveis do setor agrícola e camponeses veem a irrigação como fundamental para disparar a produção.

“O rendimento com os ciclos exigidos de irrigação é muito maior do que quando se espera pela natureza”, argumentou Abdul González, vice-prefeito para a agricultura do governo municipal de Holguín. “Hoje, 80% de nossas áreas cultivadas estão desprotegidas de irrigação”, afirmou à IPS.“Os camponeses de todas as formas produtivas (Estatal, privada e cooperativa) pedem sistemas de irrigação, inclusive alguns fazem tanques e poços para minorar um pouco a situação”, pontuou.

Na Cooperativa de Créditos e Serviços Eduardo R. Chibás, próxima a La Yuraguana, Virgilio Díaz, usufrutuário com 22 hectares onde planta alho, milho, batata-doce, papaia e sorgo, atribui parte de seu êxito ao sistema de irrigação que pôde comprar em 2010,por intermédio da associação de 140 integrantes.“A renda aumentou em mais de 70%, e melhoramos os salários, pude pedir mais terra em usufruto e construí uma nova casa”, ressaltou à IPS esse produtor, que costuma obter, junto com seus cinco trabalhadores, 200 toneladas anuais de alimentos, em condições climáticas favoráveis. Envolverde/IPS

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Refugiados LGBTI temem violência http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/refugiados-lgbti-temem-violencia/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/refugiados-lgbti-temem-violencia/#comments Fri, 24 Jun 2016 11:28:38 +0000 talita http://www.envolverde.com.br/?p=210590 As pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgênero e intersexuais (LGBTI) refugiadas não solicitam a ajuda que precisam, apesar de sua extrema vulnerabilidade, pelos riscos de manifestar sua identidade sexual ou de gênero. Por Lyndal Rowlands, da IPS –  Nações Unidas, 24/6/2016 – “As pessoas estão totalmente aterrorizadas em revelar sua situação, e com razão, estariam mortas, […]

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Pessoas LGBTI participam de uma marcha do orgulho gay em Uganda, um dos países onde os refugiados desse coletivo sofrem mais violência. Foto: Amy Fallon/IPS

Pessoas LGBTI participam de uma marcha do orgulho gay em Uganda, um dos países onde os refugiados desse coletivo sofrem mais violência. Foto: Amy Fallon/IPS

As pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgênero e intersexuais (LGBTI) refugiadas não solicitam a ajuda que precisam, apesar de sua extrema vulnerabilidade, pelos riscos de manifestar sua identidade sexual ou de gênero.

Por Lyndal Rowlands, da IPS – 

Nações Unidas, 24/6/2016 – “As pessoas estão totalmente aterrorizadas em revelar sua situação, e com razão, estariam mortas, estariam mortas se o fizessem”, ressaltou à IPS o diretor executivo da Organização para Refugiados, Asilo e Migrações (Oram), Neil Grungras.

Com sede em São Francisco, a Oram trabalha com alguns dos refugiados mais vulneráveis do mundo, inclusive LGBTI, que fogem da Síria e buscam refúgio na Turquia, onde Grungras disse que atualmente há apenas cinco pessoas que se definiram como tal entre os 2,7 milhões de refugiados. “O número de pessoas LGBTI que percorrem todo o sistema, saem vivos e solicitam reassentamento é pequeno. Nem mesmo chega à proporção mínima de LGBTI que existe na população mundial”, apontou.

Na segunda semana deste mês,“teve o caso de um iraquiano que regressou ao seu país porque não conseguiu articular as palavras para explicar sua situação ao Acnur, não conseguiu”, contouGrungras se referindo ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), que faz o trâmite das solicitações de asilo. O diretor explicou que os medos atuais têm mais a ver com suas experiências passadas, em particular com a burocracia em seus próprios países, do que com um indício do procedimento do Acnur.

O Acnur está “muito preocupado”pela segurança dos refugiados LGBTI, ressaltou Grungras, lembrando que há pouco distribuiu um guia para garantir a segurança da informação pessoal. Também disse que essa é uma das principais preocupações expressas pela agência nas reuniões realizadas em Genebra na segunda semana deste mês. Uma das razões pelas quais as pessoas LGBTI refugiadas são particularmente vulneráveis é por não contarem com o apoio de outros refugiados.

“As atitudes homofóbicas e transfóbicas em seus países não se evaporam simplesmente porque são refugiados, o que costumeiramente deixa as pessoas LGBTI isoladas e propensas ao abuso”, explicou à IPS a diretora executiva da OutRightInternational, Jessica Stern. “Muitas pessoas nos países anfitriões as discriminam por serem refugiadas, e em seus países por serem LGBTI. A consequência disso é que essas pessoas, que já escaparam de um trauma terrível, continuam padecendo um profundo sofrimento”, acrescentou.

A população LGBTI sofre uma grande violência no mundo. O último exemplo de repercussão é o massacre do dia 12 deste mês, em uma discoteca na cidade norte-americana de Orlando, no Estado da Flórida, no qual morreram 49 pessoas e 53 ficaram feridas. Sobre isso, Stern aplaudiu uma declaração do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgada na segunda semana deste mês, em resposta à matança de Orlando, porque é a primeira vez que esse órgão “se refere oficialmente à orientação sexual”.

“Esperamos que esse comunicado seja um sinal de que os membros do Conselho de Segurança finalmente reconhecem que a homofobia supõe uma ameaça para a paz”, destacou Stern, mas ressaltando que a ausência da identidade de gênero na declaração constitui uma “omissão importante”.

“Não há uma forma verossímil de separar o impacto que a homofobia e a transfobia têm no massacre de Orlando. As pessoas transgênero costumam ser as primeiras vítimas da violência. Só nos primeiros seis meses deste ano, cem pessoas transgênero foram assassinadas no mundo. Esses dados só refletem os casos veiculados nos meios de comunicação. Imaginem quantos mais podem ter sofrido”, acrescentou Stern.

Para Grungras, é importante que mais refugiados LGBTI se sintam seguros para revelar sua identidade de gênero ou sexual, mas também é importante que sejam criados mais espaços de reassentamento paraos refugiados vulneráveis. “Só agora compreendemos que mal conseguimos fazer uma contribuição e que há muitas pessoas com necessidade de serem reassentadas. Comumente, as pessoas encarregadas do reassentamento estão diante de um terrível dilema”, reconheceu.

“Conversando a respeito da situação dos refugiados com uma funcionária em Ancara, na qual confio e que sei tratar-se de alguém incrivelmente sensível, ela medisse:‘bem, Neil, o que quer que façamos?Tenho uma mulher grávida com dois filhos e que tem que se prostituir para sobreviver, uma pessoa com câncer e outra LGBTI que será assassinada por sua família. Quer que sejamos Deus?’”, contou Grungras.

O Acnur revelou este mês que só haverá 170 mil lugares para o reassentamento de refugiados mais vulneráveis no mundo em 2017, uma pequena proporção diante dos 1,19 milhão de pessoas consideradas nessa situação, e menos ainda em relação aos mais de 60 milhões de pessoas obrigadas a abandonar suas casas e/ou seus países em todo o mundo.

Ainda restam esperanças de que as duas cúpulas que acontecerão na ONU em setembro, convocadas pelo seu secretário-geral, Ban Ki-moon, e pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, façam com que a comunidade internacional encontre uma forma de aumentar os lugares disponíveis. Envolverde/IPS

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Recorde de mortes de ambientalistas em 2015 http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/recorde-de-mortes-de-ambientalistas-em-2015/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/recorde-de-mortes-de-ambientalistas-em-2015/#comments Thu, 23 Jun 2016 12:57:15 +0000 Correspondentes da IPS http://www.envolverde.com.br/?p=210509 Os assassinatos de 185 defensores do ambiente em 16 países converteram 2015 no pior da história pelo número de ambientalistas que perderam a vida no mundo, segundo o último informe da organização Global Witness. Por Tharanga Yakupitiyage, da IPS –  Nova York, Estados Unidos, 23/6/2016 –  Os assassinatos do ano passado, registrados no documento No Terreno […]

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A ativista e indígena ashéninka Diana Rios (centro), da aldeia amazônica de Saweto, no Peru, é filha do ativista Jorge Rios, assassinado por madeireiros ilegais em setembro de 2014. Foto: LyndalRowlands/IPS

A ativista e indígena ashéninka Diana Rios (centro), da aldeia amazônica de Saweto, no Peru, é filha do ativista Jorge Rios, assassinado por madeireiros ilegais em setembro de 2014. Foto: LyndalRowlands/IPS

Os assassinatos de 185 defensores do ambiente em 16 países converteram 2015 no pior da história pelo número de ambientalistas que perderam a vida no mundo, segundo o último informe da organização Global Witness.

Por Tharanga Yakupitiyage, da IPS – 

Nova York, Estados Unidos, 23/6/2016 –  Os assassinatos do ano passado, registrados no documento No Terreno Perigoso, representam 59% a mais do que os registrados em 2014.

“O ambiente se converte no novo cenário onde se defende os direitos humanos”, apontou à IPS Billy Kyte,responsável pela campanha para defensores da terra e do ambiente da Global Witness. “Muitos ativistas são tratados como se fossem inimigos do Estado, quando deveriam ser tratados como heróis”, acrescentou.

O aumento no número de ataques se deveu, em parte, ao crescimento da demanda por recursos naturais, que aviva os conflitos entre moradores de zonas ricas e afastadas e indústrias como as de mineração e de madeira, bem como a agroindústria. Uma das regiões mais perigosas para os ambientalistas é a América do Sul, onde ocorreram 60% dos assassinatos de 2015.

No Brasil perderam a vida 50 defensores do ambiente, o maior número de vítimas registrado nesse ano no mundo.A maioria dos assassinatos em território brasileiro ocorreu nos Estados da Amazônia, de grande diversidade biológica e onde a intrusão de fazendas, plantações agrícolas e o desmatamento ilegal propiciaram o aumento da violência. O informe diz que grupos criminosos “aterrorizam” as comunidades locais, enviados pelas “companhias madeireiras e funcionários corruptos”.

O último assassinato foi de Antônio Isídio Pereira da Silva. Este líder de uma pequena comunidade agrícola do Maranhão sofreu várias tentativas de assassinato e recebeu ameaças de morte por defender sua terra do desmatamento ilegal, e de outras pessoas que queriam se apropriar de terras. Apesar das denúncias, nunca recebeu proteção e a polícia não investigou sua morte.

As comunidades indígenas, que dependem da selva para viver, suportam a maior parte da violência. Quase 40% dos ambientalistas assassinados pertenciam a algum povo originário. Eusébio Ka’apor, integrante do povo ka’apor no Maranhão, foi morto a tiros por dois homens encapuçados que estavam em uma motocicleta. As razões de sua morte: patrulhar e impedir o corte ilegal de árvores em suas terras ancestrais.

Outro líder desse povo disse à organização de direitos humanos indígenas SurvivalInternational, que os madeireiros lhes disseram que seria melhor entregar a madeira do que deixar “que mais gente morresse”. “Não sabemos o que fazer, porque não temos proteção. O Estado nada faz”, lamentou.

Milhares de acampamentos foram montados na Amazônia para o corte ilegal e extração de madeira valiosa como mogno, ébano e teca (ótima para construção naval). Estima-se que 80% da madeira brasileira é ilegal e representa 25% da que circula ilegalmente nos mercados do mundo, a maioria vendida nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e China.

“Os assassinatos que ficam impunes nas aldeias de difícil acesso ou na selva profunda aumentam a pressão das opções dos consumidores na outra ponta do mundo”, destacouKyte, que também denunciou uma “crescente conivência” entre os interesses corporativos e estatais e um alto nível de corrupção como responsáveis pelos ataques contra defensores do ambiente.

Um reflexo disso é o atual caso de corrupção envolvendo o megaprojeto da hidrelétrica de Belo Monte, que seguiu adiante apesar dos alertas por suas consequências sobre o ambiente e as comunidades locais, que, além do mais, foi usada para gerar US$ 40 milhões para os partidos políticos. Mesmo diante da possibilidade de um escândalo público, a legislação ambiental no Brasil continuou enfraquecendo, pontuouKyte.

O governo de Michel Temer propôs uma emenda que reduz o processo de concessão de licenças ambientais para infraestrutura e desenvolvimento de megaprojetos a fim de recuperar a atribulada economia do país. Atualmente o Brasil tem um processo com três etapas e em cada uma delas pode-se interromper um projeto por motivos ambientais.

Mas a emenda, conhecida como PEC 65, propõe que as companhias só enviem uma declaração de impacto ambiental preliminar. Uma vez cumprida essa fase, os projetos não poderão atrasar nem serem cancelados por motivos ambientais.

A debilidade de importantes instituições de direitos humanos também representa uma ameaça para o ambiente e seus defensores. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) atravessa um grave déficit financeiro que poderá levar à perda de 40% de seu pessoal até o final de julho, com sérias consequências para o prosseguimento de seu trabalho.

De fato, a CIDH já suspendeu as visitas aos países e poderá ser obrigada a interromper suas investigações. Muitos países da América Latina deixaram de contribuir para a comissão por discordância com suas investigações e suas conclusões.

Em 2011, a CIDH solicitou ao Brasil “a imediata suspensão da licença” para o projeto de Belo Monte,para consultar e proteger grupos indígenas. A resposta do governo brasileiro foi romper seus vínculos com a Comissão,retirando sua contribuição econômica e chamando seu embaixador na Organização de Estados Americanos (OEA), no âmbito da qual funciona a comissão.

“Quando a CIDH anuncia que precisa cortar 40% de seu pessoal e quando os Estados já se retiraram da Corte Interamericana, temos realmente uma comunidade internacional?”, perguntou em maio o alto comissário das Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos, ZeidRa’ad Al Hussein, no Conselho de Direitos Humanos.

“Existe quando se retira os fios que a formam e o tecido – nosso mundo – se desfaz? Ou são apenas comunidades fragmentadas com interesses comuns, estratégicos e comerciais operando nos bastidores com fingida adesão às leis e às instituições?”, insistiu ZeidRa’ad. Ele também pediu aos Estados que defendam e apoiem economicamente a CIDH, “uma sócia estratégica e uma inspiração para todo o sistema da ONU”.

A Global Witness pediu urgência ao governo do Brasil e também aos da América Latina no sentido de proteger os ambientalistas, investigar os crimes cometidos contra eles, expor os interesses corporativos e políticos por trás de sua perseguição e reconhecer formalmente os direitos dos indígenas.

Segundo Kyte, existe, em particular, a necessidade de investigações internacionais que exponham os assassinatos de ambientalistas e apontem os responsáveis, e ressaltou o caso de Berta Cáceres, a indígena ambientalista de Honduras cujo homicídio atraiu a atenção internacional e gerou indignação em todo o mundo.

Em março, Cáceres, que se opunha à hidrelétrica Água Zarca, foi assassinada em sua casa por dois homens do exército hondurenho. Uma pessoa denunciou que a ambientalista constava de uma lista negra entregue a unidades do exército de Honduras e treinadas pelos Estados Unidos. Envolverde/IPS

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Ódio e xenofobia crescem, afirma a ONU http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/odio-e-xenofobia-crescem-afirma-a-onu/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/odio-e-xenofobia-crescem-afirma-a-onu/#comments Thu, 23 Jun 2016 12:54:16 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=210502 Por Baher Kamal, da IPS –  Roma, Itália, 23/6/2016 – “O ódio está se generalizando. Os muros – que atormentavam as gerações anteriores, e nunca produziram uma solução sustentável para nenhum problema – estão voltando. São erguidas barreiras de desconfiança, que serpenteiam por, e entre, nossas sociedades e são assassinas”, denunciou o Alto Comissariado das Nações […]

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Uma família de refugiados afegãos chega a Lesbos, na Grécia, em 2015.Foto: GilesDuley/Acnur

Uma família de refugiados afegãos chega a Lesbos, na Grécia, em 2015.Foto: GilesDuley/Acnur

Por Baher Kamal, da IPS – 

Roma, Itália, 23/6/2016 – “O ódio está se generalizando. Os muros – que atormentavam as gerações anteriores, e nunca produziram uma solução sustentável para nenhum problema – estão voltando. São erguidas barreiras de desconfiança, que serpenteiam por, e entre, nossas sociedades e são assassinas”, denunciou o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

O diplomata jordaniano ZeidRa’ad Al Hussein pronunciou essas palavras na 32ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que começou no dia 13 deste mês e terminará em 1º de julho, em Genebra, na Suíça.“As restrições das liberdades públicas e a repressão dos ativistas da sociedade civil e dos defensores dos direitos humanos estão reduzindo as forças que sustentam o bom funcionamento das sociedades. As instituições judiciais, que atuam como controles do poder Executivo, estão se desmantelando”, alertou Zeid Ra’ad.

Segundo Zeid Ra’ad, “as leis, as instituições, e mais, os valores que nos unem balançam. Quem mais sofre esse assédio são nossos semelhantes que levam a pior parte da privação, da miséria, da injustiça e do derramamento de sangue”. E acrescentou que, “na realidade, só há uma maneira de garantir um futuro que seja bom e sustentável para a humanidade: assegurar o respeito, resolver as disputas, construir instituições que sejam sólidas e justas, e compartilhar os recursos e as oportunidades de maneira equitativa”.

O comissário de Direitos Humanos da ONU ressaltou que muitos países se distinguem ao darem as boas-vindas a um grande número de imigrantes e refugiados desesperados, comumente aterrorizados e em situação de pobreza.

“Mas muitos outros países não fazem isso. E ao não aceitarem uma parte justa dos mais vulneráveis do mundo, são minados os esforços dos Estados mais responsáveis. Em geral, vemos uma forte tendência que anula os compromissos internacionais, nega a humanidade básica e fecha as portas na cara dos seres humanos que dela necessitam”, denunciou Zeid Ra’ad.

ZeidRa’ad A Hussein,Alto Comissariado para os Direitos Humanos. Foto: Pierre Albouy/ONU

ZeidRa’ad A Hussein,Alto Comissariado para os Direitos Humanos. Foto: Pierre Albouy/ONU

“A única maneira sustentável de resolver os movimentos atuais de pessoas será melhorando os direitos humanos nos países de origem”, assegurou o comissário. “A Europa tem que encontrar a maneira de encarar a crise atual de migração de forma coerente e que respeite os direitos das pessoas afetadas, inclusive no contexto do acordo entre a União Europeia e a Turquia”, concretizado em 22 de março.

Para Zeid Ra’ad, “é totalmente possível a criação de sistemas de gestão da migração que funcionem bem, inclusive para um grande número de pessoas, com uma determinação justa e eficaz das necessidades individuais de proteção, se os governos europeus conseguirem eliminar a histeria e o pânico da equação, e se todos contribuírem para a solução”.

De acordo com o comissário, em muitas partes do Oriente Médio e norte da África a repressão, o conflito ou a anarquia violenta sufocam a liberdade e a esperança das pessoas. “A tortura, as execuções sumárias e as detenções arbitrárias são ataques à segurança das pessoas, e não medidas para proteger a segurança. É um erro imaginar que atacando os direitos do povo os deixará mais seguro”, pontuou.

“O antídoto para a selvageria do extremismo violento é um maior império da lei”, destacou Zeid Ra’ad, lembrando que “a melhor maneira de lutar contra o terrorismo e de estabilizar a região é combater a discriminação, a corrupção, o mau governo, os fracassos da polícia e da justiça, a desigualdade, a negação das liberdades públicas e outros fatores de radicalização”.

A radicalização, ou melhor, a desradicalização, é precisamente o objetivo de umpainel que acontece hoje, dia 23, organizado no contexto do atual período de sessões do Conselho de Direitos Humanos, pelo Centro de Genebra pelo Avanço dos Direitos Humanos e do Diálogo Global e pela missão permanente da Argélia em Genebra. O painel será moderado pelo diplomata argelino,IdrissJazairy.

Mulher prepara refeição no acampamento para refugiados internos Bab Al Salame, em Alepo, na Síria, perto da fronteira com a Turquia, em janeiro de 2014. Foto: Ocha/ONU

Mulher prepara refeição no acampamento para refugiados internos Bab Al Salame, em Alepo, na Síria, perto da fronteira com a Turquia, em janeiro de 2014. Foto: Ocha/ONU

Os organizadores lembram que o “extremismo violento seu deu até 2001, principalmente em países em desenvolvimento, como Uganda (onde o Exército de Resistência do Senhor atacou a população civil e obrigou crianças a participarem dos conflitos armados), Sri Lanka (onde se originaram os primeiros atentados suicidas), e Argélia (onde foram assassinados mais muçulmanos em uma década do que europeus em todo o mundo desde então)”.

E acrescentam que os observadores externos tendiam a minimizar o impacto desse tipo de violência e a consideravam um produto de incidentes locais, e às vezes a atribuíam a “guerrilheiros” que respondia aos déficits de democracia e de governo nos países atacados.

Nas últimas fases da Guerra Fria, alguns setores toleraram o extremismo violento como uma arma contra o comunismo, diz o documento de síntese do painel, acrescentando que mais radicais foram recrutados devido à paralisação da conversação entre israelenses e palestinos, o colapso de Iraque e Líbia e as guerras no Afeganistão, Síria e Iêmen.

“Esses fatos aconteceram principalmente nos países muçulmanos, exacerbando, assim, o extremismo violento associado a essa região e que levou à intensificação da islamofobia em outras partes, especialmente na Europa e América do Norte”, diz o documento.

Como destacou a Conferência de Genebra para a Prevenção do Extremismo Violento, realizada em abril deste ano, “o extremismo violento ou o terrorismo não podem e não devem ser associados com nenhuma religião nacionalidade, civilização ou grupo étnico”. A reação da comunidade internacional tardou na ONU pelas diferenças políticas quanto à aceitação da definição de terrorismo, segundo o documento de síntese.

“O próprio linguajar dos assuntos internacionais está sendo manipulado para favorecer reações precipitadas que nutrem as ideologias dos partidos racistas e xenófobos no mundo avançado. Também anima um clima propício para a explosão do extremismo violento em todo o mundo”, alertam os organizadores do painel.

Na Europa, mais de 20 milhões de muçulmanos viveram durante décadas em harmonia com devotos de outras religiões e com pessoas que não são crentes, e contribuíram para a riqueza de seu país de residência, acrescentaram os organizadores.

E ressaltaram que “agora são atacados em virtude de sua identidade e não por seus atos. Sofrem em solidão pela expansão do medo e pelo crescimento da xenofobia contra diversos grupos minoritários em diferentes partes do mundo. Nesse contexto, é necessário compreender melhor as causas e os meios pelos quais se perpetua e se difunde o extremismo violento”. Envolverde/IPS

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Tráfico infantil dispara na Índia http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/trafico-infantil-dispara-na-india/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/trafico-infantil-dispara-na-india/#comments Wed, 22 Jun 2016 17:50:32 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=210482 Por NeetaLal, da IPS –  Nova Délhi, Índia, 22/6/2016 – Sunita Pal, uma frágil adolescente de 17 anos, jazia em uma cama na sala feminina do hospital Ram Manohar Lohia, na capital da Índia, com seu rosto coberto por vendas que só deixavam ver a mancha roxa do olho e o inchaço dos lábios, quando contou […]

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Algumas crianças ganham até US$ 5 por dia para reciclar lixo na Índia. Foto: NeetaLal/IPS

Algumas crianças ganham até US$ 5 por dia para reciclar lixo na Índia. Foto: NeetaLal/IPS

Por NeetaLal, da IPS – 

Nova Délhi, Índia, 22/6/2016 – Sunita Pal, uma frágil adolescente de 17 anos, jazia em uma cama na sala feminina do hospital Ram Manohar Lohia, na capital da Índia, com seu rosto coberto por vendas que só deixavam ver a mancha roxa do olho e o inchaço dos lábios, quando contou a um canal de televisão local o suplício que sofreu nas mãos de seus empregadores, que batiam nela diariamente com um pedaço de pau.

“Eu trabalhava das seis da manhã até meia-noite: cozinhava, limpava, cuidava das crianças e fazia massagem nas pernas dos meus patrões”, detalhouPal, acrescentando que a ameaçaram de morte caso se atrevesse a denunciar a situação que vivia. Em troca, comia apenas duas vezes por dia e nunca me pagaram durante os seis meses em que trabalhei para eles. Quando disse que queria ir embora, me bateram”, disse a jovem.

Pal é uma das poucas jovens resgatadas por uma organização que luta contra a escravidão, e atualmente se recupera em um lar para mulheres de Nova Délhi. Mas há milhões de meninas e adolescentes como ela na Índia, que passam anos submetidas a um sofrimento dickensiano sem socorro. Buscadas em aldeias afastadas das grandes cidades em troca de um pouco de dinheiro para trabalharem como empregadas domésticas em agências, ou, pior, em bordéis.

O Índice Global de Escravidão, elaborado pela Fundação WalkFree,afirma que esse país concentra o maior número de escravos modernos do mundo. Mais de 18 milhões de pessoas sofrem mendicância forçada, servidão por dívidas, ou são obrigadas a se prostituírem, além da existência de crianças-soldado.

As pessoas nessa situação representam 1,4% dos mais de 1,2 bilhão de habitantes da Índia, a maior porcentagem entre os 167 países com maior proporção de escravos. O estudo estima que existam 45,8 milhões de pessoas em condições de escravidão no mundo, dos quais 58% se concentram na Índia, China, Paquistão, Bangladesh e Uzbequistão.

GraceForrest, uma das criadoras da Fundação com sede na Austrália, declarou a um jornal local que, na Índia, existem todas as formas de escravidão moderna, como servidão intergeracional por dívidas, trabalho infantil, exploração comercial sexual, mendicância forçada, recrutamentos forçados de menores por grupos armados não estatais e casamento forçado.

O Escritório Nacional de Registro de Crimes informa que o tráfico de meninas menores de idade, o segundo crime mais importante na Índia nesse setor, aumentou 14 vezes na última década. Apenas no ano passado, seu crescimento foi de 65%. Meninas e mulheres são as principais vítimas do tráfico na Índia e representaram 76% do total de casos em uma década, segundo esse órgão. No país foram registradas 8.099 pessoas vítimas de tráfico em 2014.

A venda ou compra de meninas para prostituí-las e vendê-las ao exterior são as formas mais comuns do tráfico, segundo numerosos especialistas. A exploração sexual de mulheres e menores para fins comerciais toma várias formas, como prostituição em bordéis, turismo sexual e pornografia.

O Escritório Central de Investigação revelou, em 2015, um escândalo de tráfico de pessoas em todo o país, que apontou cerca de oito mil meninas indianas enviadas a Dubai. Também ficou conhecido o caso de um homem que fez o mesmo com cinco mil menores do Estado pobre de Jharkhand.

Entre 2011 e 2013, mais de 10.500 crianças desapareceram em Chhattisgarh, outro dos Estados mais pobres da Índia, vítimas de tráfico infantil e forçados a realizar tarefas domésticas e outras formas de trabalho infantil nas cidades. Estima-se que 135 mil menores caem na rede do tráfico de pessoas todos os anos na Índia.

Numerosos especialistas concordam em afirmar queo crescimento exponencial da demanda por trabalhadores domésticos no país é um dos principais catalisadores do tráfico humano.Um informe de 2013 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), com sede em Genebra, revela que a Índia concentra um número pouco preciso, entre 2,5 milhões e 90 milhões, de trabalhadores domésticos.

Apesar de ser a maior força de trabalho do país, os trabalhadores continuam sem reconhecimento e sem proteção legal.“A incorporação desses trabalhadores no sistema legal servirá para dissuadir os atos criminosos”, explicou o advogado de direitos humanos,KiritPatel. “E, enquanto isso, os trabalhadores continuam sendo um alvo fácil para a exploração”, acrescentou.

Apesar da crescente conscientização e sensibilização que se faz nos meios de comunicação, os casos de tráfico humano dispararam 38,8% em cinco anos, de 2.848, em 2009, para 3.940, em 2013, segundo o Escritório Nacional de Registro de Crimes. E o pior é que as condenações nesses casos caíram 45%, de 1.279, em 2009, para 702, em 2013.

Certamente o tráfico de pessoas não é um fenômeno exclusivo da Índia. Esses crimes são a terceira atividade mais lucrativa do crime organizado, atrás do tráfico de armas e do de drogas, e gera milhares de milhões de dólares por ano no mundo, segundo numerosos estudos.Milhares de crianças desaparecem na Ásia meridional, a segunda região com mais casos de tráfico e onde mais rapidamente aumenta, atrás da Ásia Pacífico, segundo o Escritório das Nações Unidas Contra a Droga e o Crime.

Para enfrentar o problema, a Associação da Ásia Meridional para a Cooperação Regional realizou este mês uma conferência sobre a proteção de crianças em Nova Délhi, da qual participaram ministros de Índia, Paquistão, Bangladesh, Butão, Sri Lanka, Nepal, Afeganistão e Maldivas, que concordaram em combater juntos a exploração infantil, compartilhar as melhores práticas e unificar padrões para atender todas as formas de abuso, exploração e tráfico.

Nessa oportunidade o ministro do Interior da Índia, Rajnath Singh, destacou que “precisamos difundir a mensagem para apoiar os esforços de resgate e reabilitar as vítimas”.E, após divulgar uma linha telefônica gratuita e uma plataforma na internet criadas para denunciar e seguir a pista de menores desaparecidos, entre outras medidas adotadas por diversos ministérios, acrescentou que, “com o rápido avanço da tecnologia e uma economia globalizada com mudanças rápidas, surgem todos os dias novas ameaças contra meninas e meninos”.

Entretanto, o melhor antídoto contra o tráfico humano é uma lei rigorosa, afirmam especialistas. Envolverde/IPS

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Resposta míope aos temores da migração? http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/resposta-miope-aos-temores-da-migracao/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/resposta-miope-aos-temores-da-migracao/#comments Wed, 22 Jun 2016 17:47:16 +0000 Correspondentes da IPS http://www.envolverde.com.br/?p=210477 As nações europeias das quais milhões de pessoas fugiram de penúrias e da fome (Grécia, Irlanda, Itália) hoje em dia são o destino dos que fazem exatamente o mesmo. Por José Graziano da Silva e Andrew MacMillan* Roma, Itália, 22/6/2016 – Há muita gente em movimento. Os dados mais chamativos são os da migração rural para as […]

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As nações europeias das quais milhões de pessoas fugiram de penúrias e da fome (Grécia, Irlanda, Itália) hoje em dia são o destino dos que fazem exatamente o mesmo.

Por José Graziano da Silva e Andrew MacMillan*

Roma, Itália, 22/6/2016 – Há muita gente em movimento. Os dados mais chamativos são os da migração rural para as cidades nos países em desenvolvimento. Em 1950, 746 milhões de pessoas viviam em cidades, 30% da população mundial. Em 2014, a população urbana atingiu os 3,9 bilhões (54%).

Migrantes africanos interceptados na Líbia quando se preparavam para tentar chegar à Europa em uma perigosa travessia pelo Mar Mediterrâneo, onde muitos deles perdem a vida a cada ano. Foto: Rebecca Murray/IPS

Migrantes africanos interceptados na Líbia quando se preparavam para tentar chegar à Europa em uma perigosa travessia pelo Mar Mediterrâneo, onde muitos deles perdem a vida a cada ano. Foto: Rebecca Murray/IPS

 

Comparativamente, cerca de quatro milhões de migrantes se trasladaram para países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos) a cada ano desde 2007. E,em 2013, 60% dos 3,4 milhões de imigrantes da Europa procediam de outros Estados membros da União Europeia (UE) ou já possuíam a cidadania europeia. As pessoas procedentes do exterior eram menos de 0,3% da população da UE.

Os conflitos no Afeganistão, Iraque e Síria, além do descalabro da lei ou das liberdades na Líbia, Eritreia, Somália e Sudão do Sul, detonaram um aumento de solicitantes de asilo, cujo número aumentou,apenas em 2014, para 800 mil nos países da OCDE e que, em virtude do direito internacional, devem ser protegidos.

Uma apreensão crescente por parte de alguns países receptores aumentou os pedidos para criar barreiras e erguer muros para reduzir os fluxos migratórios. As barreiras, porém, são caras, podem ser evitadas e, sobretudo, são uma reminiscência demasiadamente forte das restrições à liberdade,das quais muitos migrantes buscam refúgio.

A ânsia por uma vida melhor é a principal força motora para a migração tanto local como internacional. A crença de que existem melhores perspectivas em outros lugares exerce uma poderosa atração. Agora que os telefones celulares e o acesso à internet chegam aos rincões mais remotos do planeta, tais crenças proliferaram.

José Graziano da Silva. Foto: Cortesia do autor

José Graziano da Silva. Foto: Cortesia do autor

Para os países que desejam reduzir as pressões migratórias transfronteiriças, provavelmente a melhor opção seja enfrentar suas causas na raiz. Isso implica realizar ações para fomentar a paz e a segurança onde há conflito e opressão. Também implica fechar, tanto entre nações como entre ricos e pobres, as crescentes brechas nos níveis de vida, principalmentenos países dos quais os migrantes econômicos partem.

Algumas das nações de destino reduziram o pagamento de seguridade social para os recém-chegados, em uma tentativa de reduzir sua atração. Mas faltam mudanças mais fundamentais de políticas nas sociedades mais ricas e voltadas a dissuadir o comportamento de consumo desenfreado de seu próprio povo. E não será fácil. Poderia implicar que os consumidores assumissem os custos dos danos ambientais e sociais ocasionados pela produção e pelo uso do que compram.

A pobreza extrema é encontrada principalmente nas comunidades rurais, onde começa a maior parte da migração interna. A pobreza não é simplesmente uma questão de baixa renda, mas também de acesso limitado a moradia adequada, água potável, energia, educação decente e serviços de saúde.

Em quase todos os contextos, a população rural está pior do que os habitantes da cidade e também é mais vulnerável aos choques. Paradoxalmente, a incidência da fome e da desnutrição é mais alta nas próprias comunidades que produzem grande parte dos alimentos do mundo.

Parece que a urbanização ampliará ainda mais essas brechas. As remessas de dinheiro enviadas pelos imigrantes de primeira geração locais e internacionais para seus familiares em casa ajudam, mas costumam ser modestas. As políticas para eliminar a pobreza rural devem responder às prioridades que as comunidades locais manifestam para melhorar o acesso a infraestrutura e serviços públicos, que devem incluir instituições de gestão local honesta e competente.

Também devem incluir programas de proteção social, idealmente baseados nas transferências de dinheiro – regulares e previsíveis – às famílias mais pobres, garantindo que todas as pessoas sejam, no mínimo, capazes de comer de forma saudável e enfrentar períodos de escassez.

Andrew McMillan. Foto:Cortesia do autor

Andrew McMillan. Foto:Cortesia do autor

A União Europeia apoia o princípio de abordar as causas fundamentais da migração da África para a Europa e, na cúpula de Malta de novembro de 2015, declarou que o investimento em desenvolvimento rural é uma prioridade. Mas os quase 30 membros da UE só aprovaram US$ 1,8 bilhão em recursos adicionais. Devido à magnitude da pobreza, é uma quantia insignificante. É um quarto do que ofereciam à Turquia para deter o fluxo dos migrantes para a Europa.

É necessário maior financiamento. Essa necessidade foi reconhecida explicitamente em setembro do ano passado, com o apoio unânime de todos os governos aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), promovidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), incluindo a erradicação da pobreza e da fome até 2030. Além de ser moralmente correto, isso reduzirá os conflitos que frequentemente impulsionam a migração internacional.

O vínculo entre a redução da privação extrema e a paz foi reconhecido pelos fundadores da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em 1945, quando escreveram: “O progresso para a libertação da miséria é essencial para uma paz duradoura, já que é uma condição para liberar as tensões que surgem da inadaptação econômica, do descontentamento profundo e da sensação de injustiça, que são tão perigosas nessa comunidade de nações modernas”.

Hoje a FAO se guia por esses princípios em seu trabalho de reconstrução da segurança alimentar e da criação de uma capacidade maior de recuperação em países devastados pelos conflitos.As remessas e a ajuda podem colaborar para reduzir as desigualdades, mas o comércio justo de alimentos, a principal saída comercial das comunidades rurais, é uma forma mais sustentável de fechar a brecha entre as comunidades rurais e as urbanas.

Quando os consumidores começarem a pagar preços pelos alimentos que recompensam de forma justa os produtores por seus investimentos, suas habilidades, sua exposição ao risco e mão de obra, e por sua administração responsável dos recursos naturais, o mercado poderá chegar a ser o principal veículo para a erradicação da privação extrema e da fome que “impulsiona” a migração.

Uma virada para preços mais justos dos alimentos seria um primeiro passo para aproveitar o grande potencial que os processos da globalização oferecem e para criar um mundo no qual todas as pessoas saibam que podem ter uma vida decente por meio de seu trabalho, mesmo se decidirem viver onde nasceram. Envolverde/IPS

*José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e Andrew MacMillané ex-diretor do Centro de Pesquisas da FAO.

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A Turquia e sua “bomba humana” http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/a-turquia-e-sua-bomba-humana/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/a-turquia-e-sua-bomba-humana/#comments Tue, 21 Jun 2016 13:21:29 +0000 IPS http://www.envolverde.com.br/?p=210424 Por Baher Kamal, da IPS –  Roma, Itália, 21/6/2016 – A rápida escalada da tensão política entre a União Europeia (UE) e a Turquia, embora silenciosa, deu uma virada perigosa nas últimas semanas. Será possível que Ancara lance uma “bomba humana” contra a Europa e abra suas fronteiras, permitindo a passagem de refugiados para a […]

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Centenas de refugiados em um barco pesqueiro, pouco antes de serem resgatados pela marinha italiana em sua operação Mare Nostrum, em junho de 2014. Foto: MassimoSestini/Guarda Costeira italiana. Fonte: Centro de Notícias/ONU

Centenas de refugiados em um barco pesqueiro, pouco antes de serem resgatados pela marinha italiana em sua operação Mare Nostrum, em junho de 2014. Foto: MassimoSestini/Guarda Costeira italiana. Fonte: Centro de Notícias/ONU

Por Baher Kamal, da IPS – 

Roma, Itália, 21/6/2016 – A rápida escalada da tensão política entre a União Europeia (UE) e a Turquia, embora silenciosa, deu uma virada perigosa nas últimas semanas. Será possível que Ancara lance uma “bomba humana” contra a Europa e abra suas fronteiras, permitindo a passagem de refugiados para a Grécia e outros países do bloco?

A pergunta pode ser tudo, menos trivial, e, de fato, o assunto preocupa enormemente as agências humanitárias e a Organização das Nações Unidas (ONU), que realizam incansáveis esforços para cobrir as enormes necessidades de assistência provocadas pela aparente grande indiferença das potências, as principais responsáveis pela atual crise sem precedentes.

As potências – concretamente Estados Unidos, Grã-Bretanha e França, com apoio de outros países ocidentais e de ricas nações árabes – estão à frente de coalizões militares que invadiram Afeganistão e Iraque e, junto com a Rússia, fornecem armas à maior parte dos grupos que se enfrentam na Síria. É irônico que essas quatro potências também sejam membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e com direito a veto.

Refúgio de Al-Riad na cidade síria de Alepo. A população civil continua sofrendo violência e horríveis privações na Síria, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários. Foto: Josephine Guerrero/Ocha

Refúgio de Al-Riad na cidade síria de Alepo. A população civil continua sofrendo violência e horríveis privações na Síria, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários. Foto: Josephine Guerrero/Ocha

Nesse contexto, a pergunta inicial não é simples especulação alarmista. De fato, o presidente turco, Recep Tayyib Erdogan, fez ameaças concretas contra a Europa, se esta continuar sem cumprir os dois compromissos que assumiu no contexto do acordo que assinou com Ancara, nodia 22 de março,para administrar o fluxo de refugiados, que muitos rotularam de “vergonhoso”.

O trato consiste em que a Turquia volte a receber centenas de milhares de solicitantes de asilo, que chegaram ao seu território procedentes, principalmente, de Síria, Iraque e Afeganistão, e que seguiram para a Europa através de países fronteiriços, especialmente a Grécia.Então a UE “selecionará” um número determinado deles, concretamente de origem síria.

Em troca, a UE se comprometeu a pagar 3 bilhões de euros (US$ 3,395 bilhões) ao ano, a partir de novembro de 2015, a Ancara como forma de compartilhar uma relativamente pequena porção do grande custo econômico que implicará dar lugar para viver, alimentos e atenção médica aos solicitantes de asilo repatriados. O bloco também se comprometeu a permitir a entrada de cidadãs e cidadãos turcos em seu território sem exigência de visto.

Na Turquia residem atualmente três milhões de refugiados. As tensões entre a União Europeia e a Turquia ficaram claras durante a Cúpula Humanitária Mundial, organizada por esse país nos dias 23 e 24 de maio, assumindo uma grande parte de seu custo.

Menina em um centro de recepção de refugiados em Roma, na Itália. Foto: Rick Bajornas/ONU

Menina em um centro de recepção de refugiados em Roma, na Itália. Foto: Rick Bajornas/ONU

A cúpula procurou ressaltar o fato de que o sofrimento humano alcançou níveis assombrosos sem precedentes, como escreveu para a IPS o secretário-geral adjunto da ONU para Assuntos Humanitários, Stephen O’Brien, político e diplomata britânico nascido na Tanzânia, além de convocar os governantes do mundo a mobilizarem os tão necessários recursos para aliviar o drama humano.

Por ocasião do encontro, a ONU reuniu uma série de dados impactantes.O mundo é testemunha de necessidades humanitárias com não se via desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e experimenta uma catástrofe humana “de proporções titânicas”, como disse à IPS o porta-voz da cúpula, HervéVerhoosel. Há 125 milhões de pessoas com uma necessidade extrema de assistência, mais de 60 milhões de deslocados pela força e 218 milhões afetados a cada ano por desastres nas duas últimas décadas.

A ONU também quantificou a necessidade de recursos, que situou em US$ 20 bilhões, para ajudar 37 países afetados atualmente por desastres e conflitos.Além disso, destacou que, se não forem tomadas medidas imediatamente, 62% da população mundial, quase duas em cada três pessoas, viverão em condições consideradas frágeis até 2030.

Apesar desses espantosos fatos, nenhum dos governantes dos países mais ricos do Grupo dos Sete (G-7) mais industrializados, ou dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, participou da Cúpula Humanitária Mundial. A única exceção foi a chefe de governo da Alemanha, Angela Merkel, que viajou a Istambul com Erdogan, mais para aliviar a tensão política do que para participar do encontro de alto nível.

A ausência dos governantes dos países mais ricos foi amplamente criticada, começando pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que lamentou o fato publicamente, no dia 24 de maio. Por sua vez, Erdogan expressou profunda decepção pelo boicote dos líderes mundiais. E, em uma entrevista coletiva ao final da cúpula, se queixou de que a Europa não cumpriu seus compromissos porque não forneceu os fundos prometidos, nem parou de pedir visto aos cidadãos turcos para poderem entrar nos países da União Europeia.

O presidente turco expressou sua enorme indignação pelas 72 novas condições que a UE impôs a Ancara em troca de isentar de visto os cidadãos de seu país, as quais implicam, entre outras coisas, que a Turquia mude suas leis antiterroristas.

Nesse contexto, Erdogan ameaçou a UE dizendo que, se não cumprir sua parte no acordo de refugiados, o parlamento turco tampouco ratificará o documento. Isso significa que a Turquia não só impedirá a repatriação forçada de refugiados para seu território, como permitirá que cada vez mais pessoas nessa situação atravessem suas fronteiras com países da União Europeia.

Menino afegão mostra os pertences de sua família em frente a uma barraca de campanha, perto de Röszke, na Hungria. Foto: Zsolt Balla/© Alto Comissariado para os Refugiados

Menino afegão mostra os pertences de sua família em frente a uma barraca de campanha, perto de Röszke, na Hungria. Foto: Zsolt Balla/© Alto Comissariado para os Refugiados

Além disso, cada vez mais organizações acusam a UE de selar com a Turquia um acordo imoral, pouco ético e, sobretudo, ilegal no tocante ao tratamento de refugiados. Ao mesmo tempo, na Europa crescem rápida e perigosamente os movimentos e partidos de extrema direita que alimentam o ódio, a xenofobia e s islamofobia. E, enquanto isso, dezenas de milhares de refugiados e migrantes continuam tentando chegar à Europa, muitos deles morrendo no mar, vítimas de práticas desumanas e da manipulação de contrabandistas.

Organizações e agências humanitárias como Médicos Sem Fronteiras, Save The Children, Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e Agência das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), entre outras, alertam que um número crescente de meninas e meninos menores de idade sem acompanhantes adultos cruzam o Mar Mediterrâneo e as fronteiras europeias, e constituem uma em cada três pessoas nessa situação, segundo estimativas atuais.

Dois dias antes do Dia Mundial dos Refugiados, celebrado no dia 20, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, visitou a ilha grega de Lesbos, convertida no ponto de entrada para a Europa de numerosos refugiados. Na ocasião, pediu “aos países da região” que respondessem com “um enfoque baseado no direito humanitário e nos direitos humanos, e não com fechamento de fronteiras, com barreiras e intolerância”.

“Me reuni com refugiados de alguns dos lugares mais problemáticos do mundo. Viveram um pesadelo, que ainda não terminou”, ressaltou Ban às organizações não governamentais, voluntários e meios de comunicação presentes.

O tique-taque da “bomba humana” que se houve às portas da Europa contrasta com a inexplicável passividade de seus governantes. Envolverde/IPS

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Escassez de água prejudica Ásia ocidental http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/escassez-de-agua-prejudica-asia-ocidental/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/escassez-de-agua-prejudica-asia-ocidental/#comments Tue, 21 Jun 2016 13:16:09 +0000 Correspondentes da IPS http://www.envolverde.com.br/?p=210421 Somente quatro dos 12 países da Ásia ocidental estão acima do limite da escassez de água, de mil metros cúbicos por pessoa ao ano, o mínimo viável para um ser humano. Por Manipadma Jena, da IPS –  Nairóbi, Quênia, 21/6/2016 – “A escassez de água potencialmente poderia ter maior impacto nas qualificações de crédito soberano do […]

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A guerra civil na Síria destruiu grande parte da infraestrutura hídrica do país. Cinco milhões de pessoas sofrem escassez crítica de água. Foto: Bigstock

A guerra civil na Síria destruiu grande parte da infraestrutura hídrica do país. Cinco milhões de pessoas sofrem escassez crítica de água. Foto: Bigstock

Somente quatro dos 12 países da Ásia ocidental estão acima do limite da escassez de água, de mil metros cúbicos por pessoa ao ano, o mínimo viável para um ser humano.

Por Manipadma Jena, da IPS – 

Nairóbi, Quênia, 21/6/2016 – “A escassez de água potencialmente poderia ter maior impacto nas qualificações de crédito soberano do que as catástrofes naturais, já que as condições de escassez de água demoram a aparecer”, apontou Moritz Kraemer, diretor-gerente da agência qualificadora Standard & Poors Global Ratings.

“A escassez de água, a migração e os conflitos ainda não são levados em conta para a Análise da Integração do Risco Ambiental ao Crédito Soberano (Erisc), mas certamente temos que fazê-lo”, opinou Kraemer.A Erisc pretende ajudar as instituições financeiras a integrarem os riscos ambientais às suas avaliações de risco e às decisões de investimento, mediante a identificação e quantificação da forma em que podem afetar o rendimento econômico dos países e, portanto, o custo do crédito no mercado da dívida soberana.

A análise parte da base de que o risco soberano pode ser materialmente afetado por riscos ambientais como a mudança climática, escassez de água, degradação dos ecossistemas e o desmatamento.“Até o momento não temos dados suficientes sobre as possíveis consequências econômicas da escassez de água ou da mudança nos padrões de chuva para simularmos numericamente o resultado, mas sabemos que os países com grandes problemas hídricos terão repercussões muito além de suas fronteiras, o que desatará movimentos migratórios, para começar. A Europa é um exemplo”, alertou Kraemer.

A Ásia ocidental é importante geopoliticamente porque vincula África, Ásia e Europa.“A Jordânia era, em 2013, o quarto país com maior escassez de água do mundo, mas em apenas dois anos, em 2015, sua situação se deteriorou e foi para o segundo lugar quando centenas de milhares de refugiados sírios e iemenitas emigraram” para o reino jordaniano, explicou Carl Bruch, do Instituto de Direito Ambiental, com sede em Washington.

“Muitas das economias com problemas hídricos, como Jordânia e Marrocos, já têm baixas qualificações de crédito. Ainda é necessárioinvestigarmais”, ressaltouKraemer à IPS, por ocasião da segunda Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente, realizada no final de maio em Nairóbi, onde ministros de todo o mundo se reuniram para tomar decisões sobre a agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável.

“Existe uma estreita ligação entre os problemas políticos e sociais derivados do deslocamento, mas o fato de as pessoas decidirem se trasladar, em última instância, se deve frequentemente a problemas ambientais, cada vez mais em razão da escassez de água que se repete muito na Ásia ocidental”, destacou Jacqueline McGlade, diretora de Alerta e Avaliação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

A degradação do solo, a desertificação e a escassez de recursos hídricos renováveis são os problemas mais graves da Ásia ocidental, na medida em que os conflitos afetam diretamente o ambiente e a saúde, o que prejudica a capacidade de a região produzir alimento suficiente para sua crescente população, especialmente na sub-região de Mashreq, que inclui Iraque, Jordânia, Líbano, os territórios palestinos ocupados, Síria e Iêmen, segundo a sexta Perspectiva de Meio Ambiente Mundial (GEO-6), divulgada em maio pelo Pnuma.

Com o aumento da demanda, a Ásia ocidental agora enfrenta a deterioração da qualidade da água devido à superexploração das águas subterrâneas, invasão marinha, esgotamento e salinização dos aquíferos, além do aumento dos custos para bombear. A região já superou sua capacidade natural para atender sua própria demanda de alimentos e água.

Embora as prioridades da região sejam paz, segurança e ambiente, o ciclo vicioso da degradação, consequência e motivo dos conflitos, pode impedir que as pessoas regressem para suas casas e normalizem suas vidas e, ao mesmo tempo, a economia, destacou Daria Mokhnacheva, especialista da Organização Internacional para as Migrações (OIM).

“A maioria dos refugiados dos conflitos no Iraque não poderá voltar para suas casas e normalizar suas vidas, embora seja o que desejem, se antes forem retiradas as minas e munições sem explodir colocadas no que costumavam ser seus terrenos. E a eliminação das minas pode demorar décadas”, acrescentou Mokhnacheva.

Por outro lado, embora o Iraque tenha a maior superfície de terras de cultivo disponíveis na região, é o país que mais sofre com a salinidade do solo e a erosão eólica. Cerca de 97% do território iraquiano é árido, a desertificação afeta 39% do total, e 54% está sob ameaça, segundo a GEO-6.

“Os agricultores e pastores tradicionais podem permanecer nos acampamentos temporários durante anos, e estes, se estão em áreas com escassez de água ou propensão à seca, poderão provocar numerosos deslocamentos”, pontuou o especialista da OIM.Segundo ele, “a migração para zonas urbanas destrói seus estilos de vida, costumes e formas de vida por completo, o que aumenta a vulnerabilidade. Com uma estada de longo prazo nos acampamentos, as meninas e mulheres se convertem em alvo dos traficantes, e meninas até nove anos de idade são obrigadas a casar para reduzir a pressão por alimentos”.

“Temos evidência da Ásia ocidental de que a transição das áreas rurais para as urbanas começa a semear as sementes do deslocamento que, em última instância, pode levar aos conflitos”, alertou McGlade. “Assim, o verdadeiro problema para a governabilidade ambiental é se podemos detectar com suficiente antecedência as condições em que é provável falhar a segurança alimentar ou hídrica, e se podemos identificar esses pontos críticos para tomar medidas preventivas e as pessoas não abandonem as terras”.

“Já vimos três milhões de pessoas procedentes da Síria e do Iêmen em movimento rumo à fronteira com a Jordânia. Esse êxodo poderia ter sido evitado?”, perguntou McGlade.Para Mokhnacheva, “devemos integrar a investigação sobre as migrações e o ambiente com aquela sobre a vulnerabilidade social, a fim de identificar os pontos críticos de forma precoce. Também temos de melhorar a evidência local para informar às políticas de migração que podem responder às necessidades reais”. Envolverde/IPS

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África entre o carvão e a energia verde http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/africa-entre-o-carvao-e-a-energia-verde/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/africa-entre-o-carvao-e-a-energia-verde/#comments Mon, 20 Jun 2016 12:59:02 +0000 Correspondentes da IPS http://www.envolverde.com.br/?p=210366 “Estamos cansados da pobreza e da falta de energia e precisamos atender os dois problemas de uma vez. Para enfrentar o primeiro precisamos de energia que alimente a indústria”, afirmou o presidente de Ruanda, Paul Kagame. Por FridayPhiri, da IPS –  Pemba, Zâmbia, 20/6/2016 – Moses Kasoka, de 51 anos e com dificuldades de movimento por […]

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Um congolês transporta carvão vegetal em sua bicicleta em Lumbabashi, na República Democrática do Congo. Foto: Miriam Mannak/IPS

Um congolês transporta carvão vegetal em sua bicicleta em Lumbabashi, na República Democrática do Congo. Foto: Miriam Mannak/IPS

“Estamos cansados da pobreza e da falta de energia e precisamos atender os dois problemas de uma vez. Para enfrentar o primeiro precisamos de energia que alimente a indústria”, afirmou o presidente de Ruanda, Paul Kagame.

Por FridayPhiri, da IPS – 

Pemba, Zâmbia, 20/6/2016 – Moses Kasoka, de 51 anos e com dificuldades de movimento por causa de uma má-formação de nascença, tem apenas a alternativa de mendigar para sobreviver. Mas acredita que sua vida seria diferente se pudesse ter energia elétrica em sua choça neste povoado de Zâmbia. “Com eletricidade poderia criar aves para ganhar dinheiro”, explicou, convidando a IPS a entrar em sua humilde casa.

“Como vê, durmo com um fogareiro que serve tanto para iluminar como de calefação durante a noite”, disse Kasoka, um dos 645 milhões de africanos que carecem de serviço elétrico, o que o impede de realizar atividades econômicas.Porém, a um quilômetro dali, PhineliaHamangaba, diretora do centro de coleta de leite do distrito de Pemba, já está acostumada a ter um plano alternativo quando tem sua energia cortada, porque a cooperativa não tem um gerador de reserva.

Phinelia tem que garantir que os 1.060 litros de leite entregues por centenas de produtores não fermentem antes de serem recolhidos pela Parmalat Zâmbia, empresa com a qual a cooperativa tem contrato. “A eletricidade é nosso principal desafio, mas, na maioria dos casos, nos avisam antes de um corte de energia e então nos preparamos”, contou a jovem empresária. “Mas, quando acontece o pior, os produtores entendem que nos negócios há perdas e ganhos”, indicou.

A cooperativa é um dos muitos empreendimentos pequenos que têm sua situação complicada pelo racionamento de energia. Falta água para que funcionem as usinas hidráulicas, devido à escassez de chuvas há duas temporadas. O déficit de energia pode demorar anos para ser corrigido, especialmente na usina de Kariba norte, de 1.080 megawatts (MW), porque as centrais dos dois lados do rio Zambezi, em Zâmbia e no Zimbábue, teriam consumido um volume muito superior ao estabelecido em 2015 e começo deste ano, segundo um informe da Unidade de Inteligência econômica.

O documento diz que em fevereiro a represa de Kariba ficou apenas 1,5 metro acima do nível necessário para fechar totalmente a usina.As últimas e reduzidas chuvas elevaram um pouco o nível do lago, mas seu volume de água foi de apenas 17% de sua capacidade em março, bem abaixo dos 49% registrados em 2015. Para enchê-lo, é necessária uma série de boas estações chuvosas, somada a uma produção de energia moderada da central, requisitos que não podem ser garantidos.

Moses Kasoka diante de sua choça em Pemba, no sul de Zâmbia. Foto: Friday Phiri/IPS

Moses Kasoka diante de sua choça em Pemba, no sul de Zâmbia. Foto: Friday Phiri/IPS

A angústia, pelas variações da mudança climática e pela necessidade de energia para manter as ambições econômicas das pessoas mais pobres, poderia levar a África a tomar um caminho fácil, recorrendo ao carvão.“Estamos cansados da pobreza e da falta de energia e precisamos atender os dois problemas de uma vez. Para enfrentar o primeiro precisamos de energia que alimente a indústria”, afirmou o presidente de Ruanda, Paul Kagame, durante as reuniões anuais do Banco de Desenvolvimento Africano, realizadas em Lusaka, capital de Zâmbia.

Segundo Kagame, as fontes renováveis só podem cobrir parte da demanda.Mas o ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, acredita que o continente pode seguir outro caminho. “As nações africanas não precisam se ater às velhas tecnologias movidas a carvão. Podemos ampliar nossa geração elétrica e conseguir acesso universal dando um salto para as novas tecnologias que transformam os sistemas energéticos do mundo”, destacou.

“A África se beneficiará do desenvolvimento de uma energia que consuma pouco carvão, assim como o mundo se beneficiará se esse continente evitar um grande consumo de carvão, seguido dos países mais ricos e dos mercados emergentes”, enfatizou Annan, que preside o Painel para o Progresso da África (APP). Em seu informe Energia, Pessoas, Planeta: Aproveitando as Oportunidades Climáticas e Energéticas da África, o APP destaca a alternativa para esse continente sem que recorra a sistemas que fazem uso intensivo do carvão, que atualmente impulsiona o crescimento econômico e que levou o mundo ao atual ponto de inflexão.

O documento recomenda aos governantes africanos que usem a mudança climática como um incentivo para implantar as demoradas políticas e demonstrem sua liderança em escala internacional.Como disse o ex-presidente da Tanzânia, JakayaKikwete: “Para a África é um desafio e uma oportunidade. Se concentrar-se nas opções inteligentes, poderá conseguir investimentos para o desenvolvimento com baixas emissões contaminantes e resiliente ao clima nas próximas décadas”.

A atual arquitetura de financiamento não cobre a demanda, afirma o APP, ressaltando que o chamado à liderança africana não nega o papel da cooperação internacional, à qual há anos os governantes reclamam fundos e tecnologia confiável. A Aliança Pan-Africana de Justiça Climática (PACJA) lamenta a difusa redação do Acordo de Paris no tocante à transferência de tecnologia para o continente africano.

Há estimativas que sugerem que 138 milhões de famílias pobres gastam US$ 10 bilhões ao ano em produtos relacionados com a energia, como carvão, velas, querosene e lenha. O Banco Africano de Desenvolvimento acredita que, com um aumento marginal dos investimentos, se resolve o problema.“A África registra US$ 545 bilhões ao ano com tributos. Se destinar 10% dessa quantia à eletricidade resolve o problema”, afirmou o presidente do grupo do Banco Africano de Desenvolvimento, AkinwumiAdesina.

“Além disso, a proporção do produto interno bruto destinada ao setor energético na África é de 0,49%. Se for elevada para 3,4%, poderá gerar US$ 51 bilhões diretamente”, pontuouAdesina.“Os países africanos têm que dar o exemplo e investir em energia”, concluiu, mencionando a importância de pôr fim ao fluxo financeiro ilegal, que custa a este continente cerca de US$ 600 bilhões por ano.

O programa Scaling Solar, que procura diversificar as fontes de energia, pode ser exatamente o que Kasoka precisa para ter eletricidade em sua choça em um povoado de Zâmbia e concretizar seu sonho de criar aves. Segundo o presidente zambiano, Edgar Lungu, seu país pretende cobrir a falta de energia com uma usina solar de 600 megawatts (MW); as instalações para gerar 100 MW já estão em construção.

Desmond Tutu, sul-africano prêmio Nobel no informe do APP de 2015, resumiu o que está em jogo: “Não podemos mais nos distrair das questões de fundo. Não podemos continuar alimentando nosso vício pelos combustíveis fósseis como se não houvesse um amanhã, porque poderá não haver. Temos que começar urgentemente uma transição global para uma nova economia baseada em energias limpas. Isso requer, fundamentalmente, repensar nossos sistemas econômicos para colocá-los em um caminho sustentável e mais equitativo”.Envolverde/IPS

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Agonia anunciada do novo governo do Brasil http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/agonia-anunciada-do-novo-governo-do-brasil/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2016/06/ultimas-noticias/agonia-anunciada-do-novo-governo-do-brasil/#comments Mon, 20 Jun 2016 12:49:09 +0000 Mario Osava http://www.envolverde.com.br/?p=210362 Por Mario Osava, da IPS –  Rio de Janeiro, Brasil, 20/6/2016 – “Aqui tudo parecia ainda estar em construção e já está em ruína”, diz uma canção de Caetano Veloso. O verso serve bem para ilustrar o que acontece com o novo governo do Brasil, presidido por Michel Temer, no cargo desde o dia 12 de […]

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O habitualmente impassível presidente interino do Brasil, Michel Temer, não conseguiu esconder sua frustração durante os vários momentos em que precisou desmentir as acusações de corrupção contra si. A sucessão de crises semelhantes parece ter arruinado seu governo antes mesmo de começar. Foto: Lula Marques/AGPT

O habitualmente impassível presidente interino do Brasil, Michel Temer, não conseguiu esconder sua frustração durante os vários momentos em que precisou desmentir as acusações de corrupção contra si. A sucessão de crises semelhantes parece ter arruinado seu governo antes mesmo de começar. Foto: Lula Marques/AGPT

Por Mario Osava, da IPS – 

Rio de Janeiro, Brasil, 20/6/2016 – “Aqui tudo parecia ainda estar em construção e já está em ruína”, diz uma canção de Caetano Veloso. O verso serve bem para ilustrar o que acontece com o novo governo do Brasil, presidido por Michel Temer, no cargo desde o dia 12 de maio. O PMDB, coração da nova coalizão governante, tem seus principais dirigentes, incluído Temer, no foco de denúncias de corrupção que, embora não os levem à prisão no futuro, já os enfraqueceram politicamente e ameaçam desestabilizar sua administração.

Sergio Machado, ex-senador e ex-presidente da Transpetro, empresa de transporte do grupo Petrobras, revelou que 23 políticos, dez deles do PMDB, receberam dinheiro desviado dos contratos da companhia com construtoras e outros fornecedores.Seus depoimentos ao Ministério Público se tornaram públicos no dia 15 deste mês, por decisão do Supremo Tribunal de Federal (STF), que aceitou seu acordo de colaboração com a justiça nas investigações sobre o escândalo de corrupção que tem como epicentro a Petrobras.

Temer teria pedido R$ 1,5 milhão para ajudar ilegalmente um candidato a prefeito de São Paulo em 2012, denunciou Machado. Temer negou veementemente a acusação, bem como o presidente do Senado, Renan Calheiros, e outros seis senadores, incluindo o ex-presidente José Sarney (1985-1990), todos do PMDB.

Outra foi a atitude de Henrique Alves, também do PMDB, que renunciou ao cargo de ministro do Turismo. Ele enfrenta outros processos abertos dentro da Operação Lava Jato, que há dois anos vem desnudando a organização criminosa que desviou milhares de milhões de dólares de projetos petroleiros estatais.

Temer havia perdido outros dois ministros em suas duas primeiras semanas de governo, do Planejamento, Romero Jucá, e da Transparência, Fabiano Silveira. Machado apresentou conversa gravadaentre ambos, em que discutiam diferentes formas de bloquear essa investigação.

Jucá mantém sua influência como senador e presidente do PMDB, mas já são nove os processos penais que se acumulam contra os dirigentes do partido no STF, a única instância que pode julgar parlamentares e membros do Executivo, que têm foro privilegiado.

O escândalo do petróleo já teve altos custos para o Partido dos Trabalhadores(PT), porque ajudou a afastar Dilma Rousseff da presidência, no dia 12 de maio, e ameaça acabar com a carreira política de seu líder máximo, Luis Inácio Lula da Silva, que presidiu o país entre 2003 e 2011.Agora, chega a vez dos novos protagonistas do poder, do qual participaram de forma permanente nas duas últimas décadas. Temer, seus ministros e copartidários poderão alegar inocência e inclusive serem absolvidos das acusações feitas por Machado em um futuro distante, mas a batalha agora não é judicial, mas política.

As manifestações contra o presidente interino, Michel Temer, e seu governo, o acompanham desde que assumiu o poder, em 12 de maio. Na foto, uma marcha do dia 19 de junho, no Rio de Janeiro, encabeçada por uma faixa onde se lê “Fora Temer”. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

As manifestações contra o presidente interino, Michel Temer, e seu governo, o acompanham desde que assumiu o poder, em 12 de maio. Na foto, uma marcha do dia 19 de junho, no Rio de Janeiro, encabeçada por uma faixa onde se lê “Fora Temer”. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A Operação Lava Jato já prendeu dezenas de empresários, enquanto a maioria dos políticos segue à espera de julgamento no STF. Mas na vida política importam mais a reputação e a imagem popular do que os desenlaces judiciais.Não faltam exemplos de discrepâncias nos julgamentos políticos e legais. No Brasil há uma tradição de políticos de sucesso com o selo de “rouba mas faz”, dos quais são exemplo os ex-governadores de São Paulo, Adhemar de Barros (1947-1951 e 1963-1966) e Paulo Maluf (1979-1982) este eleito deputado com votação recorde.

Mas é difícil que sobrevivam os políticos acusados de corrupção na atualidade, com exceção, talvez, de Lula, beneficiado por outra tradição, a dos “pais dos pobres”. Em seu caso, o que pode ser fatal é o veredito judicial. Lula é suspeito de ter recebido favores de construtoras que obtiveram lucros ilegais nos negócios petroleiros estatais, de encabeçar a máfia do escândalo do petróleo e de tentar obstruir as investigações da Lava Jato.

No caso do ex-presidente, sua popularidade fica arranhada por essas suspeitas, mas se reconhece que ele poderia recuperar boa parte de seu prestígio, especialmente entre a população pobre, em uma campanha eleitoral. Em caso de condenação, no entanto, não poderia se apresentar como candidato em eleições por um mínimo de oito anos, muito tempo para alguém de 70 anos.

A operação anticorrupção no Brasil segue um roteiro nada ortodoxo, a batalha se desenvolve mais na opinião pública, e portanto nos meios de comunicação de massa, do que nos tribunais. É possível que, em um futuro menos conflituoso, grande parte dos processos judiciais seja anulada por irregularidades, como os vazamentos, abuso da prisão preventiva e outras pressões para obter a colaboração dos acusados, mediante as “delações premiadas” e inclusive a desqualificação de testemunhos e supostas provas.

Mas os políticos, culpados ou inocentes, já estarão condenados pela indignação contra a corrupção, intensificada pela recessão econômica que alimenta o desemprego e que muitos consideram uma consequência da desonestidade política.No caso das delações de Machado, além das denúncias contra 23 nomes e as quantias que cada um recebeu, fica evidente o modo de operar o desvio de dinheiro da Petrobras, empresa gigante que lida com centenas de milhões de dólares ao ano.

O ex-senador, designado como presidente da Transpetro por indicação do PMDB, mais precisamente do atual presidente do Senado, Renan Calheiros, deixou claro o papel de diretores e outros executivos introduzidos na Petrobras e em suas subsidiárias por partidos políticos.As estatais são proibidas de fazer contribuições eleitorais. Mas os milhares de fornecedores de produtos e serviços das grandes empresas públicas, obviamente interessados nos altíssimos contratos, eram presas fáceis de pedidos de “doações”.

Machado era a ponta do triângulo que recebia as demandas partidárias e as canalizava aos fornecedores da Transpetro ou Petrobras. Ele alega que era a condição para se manter no cargo bem remunerado e poderoso. Para os empresários era um pedágio forçado.Muitos deles se defenderam diante das acusações de suborno e de atuarem como cartéis para conseguir tais contratos, dizendo que se tratou de “extorsões”. Suas empresas perderiam muitos negócios se não aceitassem “as regras do jogo”.

Os políticos agora alegam que se tratou de contribuições legais para campanhas eleitorais, oferecidas diretamente pelas empresas. Mas a intervenção “facilitadora” de Machado contamina tudo e evidencia que não eram doações voluntárias e que a cumplicidade permitia um sobrepreço a ser compartilhado.

Para má sorte de Temer, o controle dessa operação com epicentro na Transpetro era do PMDB, que ele presidiu de 2001 a março de 2016, incluindo todo o período em que Machado atuou como elo da corrupção, entre 2003 e 2014. Será difícil se eximir da responsabilidade. Envolverde/IPS

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