IPS em português http://www.ipsnoticias.net/portuguese Jornalismo e comunicação para transformar o mundo Fri, 24 Apr 2015 12:42:06 +0000 en-US hourly 1 http://wordpress.org/?v=4.1.3 Casamento é apenas para ele e ela na Nicarágua http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/casamento-e-apenas-para-ele-e-ela-na-nicaragua/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/casamento-e-apenas-para-ele-e-ela-na-nicaragua/#comments Fri, 24 Apr 2015 12:42:06 +0000 juliana http://envolverde.com.br/?p=132993   Manágua, Nicarágua, 24/4/2015 – A Nicarágua estreou este mês um novo Código de Família que, no geral, melhora e atualiza os direitos da população, mas também apresenta uma grande lacuna: não reconhece o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, em consequência, lhes fecha as portas para a adoção. As organizações que defendem os […]

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Uma das inúmeras mobilizações realizadas em 2014 por organizações defensoras da diversidade sexual na Nicarágua pelo direito ao matrimônio e à adoção de pessoas lésbicas, gays, bissexuais e trans, o que finalmente não foi reconhecido no novo Código de Família. Foto: Cortesia da Rede de Desenvolvimento Sustentável da Nicarágua

 

Manágua, Nicarágua, 24/4/2015 – A Nicarágua estreou este mês um novo Código de Família que, no geral, melhora e atualiza os direitos da população, mas também apresenta uma grande lacuna: não reconhece o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, em consequência, lhes fecha as portas para a adoção.

As organizações que defendem os direitos das pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersexuais (LGBTI) lutaram sem êxito até o final para que a nova ordem legal estabelecida pela Lei 870, a do novo Código, acolhesse suas demandas em favor do matrimônio igualitário e da adoção.

Marvin Mayorga, ativista do Projeto Ações Urgentes Contra a Discriminação por Orientação Sexual e Identidade de Gênero na Nicarágua, ressaltou à IPS “o caráter discriminatório da lei”. A falta de reconhecimento do casamento igualitário “nos obriga a permanecer sob o estado civil de solteiro e as pessoas solteiras não têm permissão para adotar neste país e constituir uma família”, explicou.

Além disso, segundo Mayorga, “fora da família há mais barreiras para se ter acesso a garantias mínimas e benefícios como trabalho digno, seguro social, educação, saúde e moradia”. Também destacou que “as famílias na Nicarágua são diversas, mas se quer impor um único modelo familiar”.

O novo Código entrou finalmente em vigor no dia 8 deste mês, após ser cumprida uma série de trâmites desde sua aprovação em 2014 pela legislativa Assembleia Nacional. Com esta ferramenta jurídica, o Estado busca proteger os direitos individuais de cada membro da família e dos coletivos deste núcleo social reconhecido com instituição sujeita a garantias e obrigações.

Conforme detalhou à IPS seu principal promotor, o deputado Carlos Emilio López, da governante Frente Sandinista de Libertação Nacional, o Código reúne e atualiza em 674 artigos o que até agora estava disperso em 47 leis diferentes. O novo contexto jurídico aborda temas como matrimônio, direitos patrimoniais, adoção e aposentadoria, direitos de mãe, pai e filhos, divórcios, demandas por alimentos, e responsabilidade materna e paterna.

Até agora, os assuntos de família eram baseados principalmente no vetusto Código Civil de 1904, que regulamentava o tema sob uma forte doutrina católica e conservadora, condicionando os direitos das mulheres e das crianças à figura masculina como principal suporte da família , apontou López.

Segundo o deputado, “foi analisado minuciosamente para que cada membro da sociedade, como indivíduo parte de uma família, tivesse bem claro seus direitos, deveres e suas obrigações conforme a Constituição Política e as leis do país, de modo que não houvesse discriminação de ninguém por nenhuma razão”.

López ressaltou que não existe discriminação para as pessoas LGBTI, porque a Constituição Política, que é a lei suprema do país e está acima do novo Código, protege o direito de cada nicaraguense sem nenhuma desigualdade.

Porém, Luis Torres, coordenador executivo da organização Alternativa Nicaraguense de Diversidade Sexual, afirmou à IPS que o novo Código discrimina as pessoas LGBTI ao negar-lhes o direito ao casamento legal e obrigar o Estado a transferir os benefícios sociais unicamente ao núcleo familiar reconhecido pela nova lei.

Torres assegurou que “é um retrocesso. Com o Código, o Estado deixa de fora em questões de amparo e assistência social os casais do mesmo sexo que vivem juntos. Não se reconhece o casamento nem a união de fato estável entre pessoas do mesmo sexo”. Isso se traduz em que “os casais LGBTI não têm acesso a direitos conexos como direito a crédito familiar, adoção, extensão por viuvez, morte e lesões em seguro social, entre outros direitos que beneficiam os casais heterossexuais”, afirmou o ativista.

Estimativas locais e internacionais indicam que 10% da população nicaraguense, de 6,1 milhões de pessoas, são sexualmente diversos. O Código tem entre seus avanços o reconhecimento pela primeira vez no país da união de fato estável em igualdade de direitos e obrigações com o casamento tradicional. Mas essa união só pode ser “entre um homem e uma mulher”.

Para o catedrático de direito penal e direitos humanos na Universidade Centro-Americana e na Universidade Americana, Ramón Rodríguez, “ao estabelecer que o matrimônio e a união de fato estável seja apenas entre homem e mulher, um setor importante da população, que faz parte da diversidade sexual, é vítima direta da violação do princípio universal de igualdade de não discriminação”.

Samira Montiel, procuradora especial da Diversidade Sexual, discorda das críticas dos defensores dos direitos humanos e das organizações LGBTI. “Eu também queria que a lei me permitisse casar e adotar, mas a Constituição não estabelece isso e o Código não pode estar acima da carta magna”, afirmou Montiel à IPS. Ela assegurou que embora “no momento” não se estabeleça o casamento entre pessoas do mesmo sexo, “os direitos individuais de cada membro da comunidade lésbico-gay está protegido em razão de serem irmãos, filhos, pais, parentes e cidadãos com igualdade de condições sociais”.

Montiel declarou à IPS que “nenhuma mulher lésbica ou homem gay que tenha um filho terá seu direito tirado, não lhe será negado beneficio. Até agora não recebi uma queixa formal sobre o Código, ninguém apelou, não existe uma só gestão de adoção de crianças por parte de um casal gay, não se nega atenção médica a uma lésbica ou a um bissexual”.

Entre as novidades positivas do Código também estão a aceleração dos processos por pensão alimentícia de mães ou pais, com limite máximo de 150 dias, quando antes podia demorar até cinco anos. Entre outras coisas. Também fixa o valor da manutenção dos filhos menores de 18 anos em até metade da renda do pai ou da mãe em questão, bem como sanção econômica e patrimonial pelo não cumprimento.

Ao mesmo tempo, incorpora a demanda de pais por abandono, direitos dos idosos diante do abandono de seus filhos, pensão de alimentos a filhos e filhas até os 24 anos, desde que demonstrem que necessitam desse recurso econômico.

O Código inclui o direito a faculdade legal de qualquer membro da família com autoridade parental no caso de ausência de pai ou mãe de um filho, e assuntos concernentes a divórcios, divisão de bens, proteção do lar quando há crianças, permissões de trabalho e outros. Além disso, proíbe o castigo físico e tratamento humilhante da criança em qualquer âmbito, e só permite o casamento a partir dos 18 anos, idade estabelecida como maioridade penal, para ambos os sexos, para assumir obrigações legais.

A Federação Coordenadora Nicaraguense de Organizações Não Governamentais que trabalham pela infância e adolescência pediu que a idade para casar fosse aumentada até os 18 anos, para pôr freio a casamentos entre meninas de 14 anos, ou menos, e homens maiores de idade. Muitas vezes esses casamentos constituíam o chamado “remédio familiar” para abusos sexuais e gravidez de meninas e adolescentes por parte de homens maiores. Envolverde/IPS

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Erradicar a malária continua como meta pendente http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/erradicar-a-malaria-continua-como-meta-pendente/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/erradicar-a-malaria-continua-como-meta-pendente/#comments Fri, 24 Apr 2015 12:35:58 +0000 Correspondentes da IPS http://envolverde.com.br/?p=132989 Nações Unidas, 24/4/2015 – Amanhã, 25 de abril, será celebrado o último Dia Mundial da Malária** antes do vencimento do prazo para cumprir os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), um dos quais é combater o HIV/aids, a malária e outras enfermidades. A maioria dos 189 governantes presentes à Cúpula do Milênio, como são […]

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Fatomata Nafo-Traoré, diretora-executiva da Associação Roll Back Malaria (RBM). Foto: Cortesia da autora

Fatomata Nafo-Traoré, diretora-executiva da Associação Roll Back Malaria (RBM). Foto: Cortesia da autora

Nações Unidas, 24/4/2015 – Amanhã, 25 de abril, será celebrado o último Dia Mundial da Malária** antes do vencimento do prazo para cumprir os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), um dos quais é combater o HIV/aids, a malária e outras enfermidades.

A maioria dos 189 governantes presentes à Cúpula do Milênio, como são conhecidas as instâncias inaugurais da Assembleia Geral de 2000, quando acordaram os oito grandes objetivos de desenvolvimento, já não estão em seus cargos, mas o compromisso permitiu unir esforços para um futuro melhor para a humanidade.

Os ODM propunham reduzir pela metade a proporção de pessoas que vivem na indigência e sofrem fome, alcançar educação primária universal, promover a igualdade de gênero, reduzir a mortalidade infantil em dois terços e a materna em três quartos, entre 1990 e 2015, lutar contra a expansão do vírus HIV, causador da aids, a malária e outras enfermidades, assegurar a sustentabilidade ambiental, e gerar uma aliança mundial para o desenvolvimento entre o Norte e o Sul.

No caso do controle e da eliminação da malária o êxito foi exponencial. Desde começo do novo milênio, mais de quatro milhões de vidas foram salvas graças à distribuição em massa de mosquiteiros tratados com inseticida, fumigação de interiores, melhorias no tratamento e rápido diagnóstico no local. Nos últimos 15 anos, a mortalidade por essa doença diminuiu 47% no mundo e 55% na África.

De fato, 64 países conseguiram cumprir a meta específica de “ter detido e começado a reduzir, em 2015, a incidência da malária e de outras doenças graves”. Isso significa menos mortalidade neonatal e materno-infantil, menos dias perdidos de escola e trabalho, comunidades mais produtivas, sistemas de saúde mais fortes e economias mais pujantes.

Mas os êxitos são frágeis e seu impacto é desigual. Agora que passamos dos ODM para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) não devemos esquecer as tarefas pendentes nem as metas não cumpridas. Ainda há populações em risco que continuam sofrendo mortes desnecessárias, sofrendo e perdendo o sustento devido a essa doença.

A iniciativa da Associação Rol Back Malaria (RBM) conseguiu importantes avanços nos últimos 15 anos, mas há muito por fazer. Ainda não se conseguiu uma cobertura universal de mosquiteiros com inseticida, tratamento efetivo, rápido diagnóstico e fumigação de interiores. Ocorre frequentemente que trabalhadores migrantes, comunidades nômades e outras populações afastadas não recebem os serviços adequados contra a malária.

Estima-se que na África morrem dez mil mulheres por ano e entre 75 mil e 200 mil menores de um ano, além de muitos bebês que sofrem as consequências de terem contraído a doença durante a gravidez da mãe. É inaceitável que as pessoas mais vulneráveis de nossa sociedade continuem sendo as menos protegidas. Destinar muito mais recurso às gerações futuras e à proteção de mães e fetos é um imperativo moral. Podemos e devemos fazer mais.

Neste importante ano de transição, a Associação RBM lançará seu segundo plano mundial: Ação e Investimento para Derrotar a Malária 2016-2030: Um Mundo Livre de Malária”. É uma oportunidade para eliminar esse flagelo nos próximos 15 anos e evitar seu ressurgimento, que traz junto um agonizante custo para a economia e um sofrimento de mortes devastadoras.

O plano, conhecido por sua sigla em inglês AIM, pede o aumento do investimento dentro dos novos ODS e destaque para um enfoque centrado nas pessoas, que não deixe ninguém de fora. Também mostra claramente que, ao envolver todos os setores da sociedade, serão fomentados os esforços globais e gerados os tão necessários recursos humanos e econômicos para ganhar a luta contra a malária.

Com a resistência aos medicamentos e inseticidas prejudicando as ferramentas efetivas, os esforços para eliminar e controlar a malária necessitarão investimentos mais inteligentes e maior gasto internacional e nacional na medida em que os países onde a doença é endêmica passem de baixa para média renda e mudem sua visão por objetivos mais ambiciosos.

Investir no controle e na eliminação da malária é investir no futuro, e sem dúvida é uma das melhores aquisições em matéria de saúde mundial. As ferramentas são acessíveis e a rentabilidade sobre o investimento é alta. Se pudermos eliminar a doença somente na África subsaariana até 2030, o mundo ganhará cerca de US$ 270 bilhões.

Se vamos escrever a história da malária, precisaremos de novas ferramentas, inovações que nos ajudem a concretizar nosso objetivo de um mundo livre de malária, especialmente daquelas capazes de acelerar em um futuro próximo a erradicação e atender os desafios que enfrentamos hoje em dia, como a resistência a medicamentos e inseticidas.

Também precisaremos de tecnologias transformadoras, vacinas efetivas e exames clínicos rápidos que possam ser usados em zonas isoladas e sejam capazes de detectar casos assintomáticos. Daqui em diante, a luta contra a malária vai precisar de novas ênfases, fortalecer a participação nacional, empoderar as comunidades, melhorar a qualidade dos dados para a tomada de decisões, envolver vários setores além da saúde e explorar formas de melhorar as coisas em todos os níveis, com máxima rentabilidade.

A Associação RBM estará pronta para adaptar estratégias e enfoques, amplificar a vontade política e a disposição do país para que juntos possamos derrotar a malária. A busca da humanidade por uma sociedade global sustentável, mais justa e saudável não terá êxito sem medidas para o controle e a erradicação sistemática, efetiva e de longo prazo da malária nos países endêmicos.

Ganhar a luta contra essa doença significa que famílias, comunidades e países vão prosperar como nunca antes. Trabalhando juntos podemos pôr fim ao desnecessário sofrimento e fortalecer o potencial de pessoas, comunidades e países para conseguir nosso objetivo final: um mundo livre de malária. Envolverde/IPS

* Fatoumata Nafo-Traoré é diretora-executiva da Associação Roll Back Malaria (RBM).

** O Dia Mundial da Malária foi criado pelos Estados membros da OMS durante a Assembleia Mundial da Saúde, em 2007, e é celebrado anualmente no dia 25 de abril para realçar a necessidade de continuar investindo e de um compromisso político sustentável para o controle e a erradicação da doença. O lema da campanha 2013-2015 é Investir no Futuro. Derrotar a Malária.

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Projetos do Banco Mundial desalojaram 3,4 milhões de pessoas http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/projetos-do-banco-mundial-desalojaram-34-milhoes-de-pessoas/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/projetos-do-banco-mundial-desalojaram-34-milhoes-de-pessoas/#comments Fri, 24 Apr 2015 12:33:02 +0000 Kanya D'Almeida http://envolverde.com.br/?p=132985   Nações Unidas, 24/4/2015 – Entre 2003 e 2013, projetos financiados pelo Banco Mundial desalojaram de suas casas, afastaram de suas terras ou deslocaram de outras formas, 3,4 milhões de pessoas, revelou o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (Icij), no dia 16. Mais de 50 jornalistas de 21 países trabalharam por quase 12 meses […]

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Quase metade dos 3,4 milhões de pessoas afetadas física ou economicamente por projetos financiados pelo Banco Mundial na última década eram da África e da Ásia. Foto: Abdurrahman Warsameh/IPS

Quase metade dos 3,4 milhões de pessoas afetadas física ou economicamente por projetos financiados pelo Banco Mundial na última década eram da África e da Ásia. Foto: Abdurrahman Warsameh/IPS

 

Nações Unidas, 24/4/2015 – Entre 2003 e 2013, projetos financiados pelo Banco Mundial desalojaram de suas casas, afastaram de suas terras ou deslocaram de outras formas, 3,4 milhões de pessoas, revelou o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (Icij), no dia 16. Mais de 50 jornalistas de 21 países trabalharam por quase 12 meses para analisar sistematicamente o cumprimento pelo Banco de sua promessa de proteger as populações locais das consequências negativas de seus próprios projetos.

Jornalistas de Gana, Guatemala, Quênia, Sérvia e Sudão do Sul, entre outros, analisaram milhares de páginas de registros do Banco Mundial, entrevistaram dezenas de pessoas, entre elas ex-funcionários da instituição, e documentaram meticulosamente mais de dez anos de falhas em suas práticas, que deixaram agricultores pobres, residentes de favelas, comunidades indígenas e pescadores indigentes sem emprego, sem teto e sem terra.

Em vários casos, os jornalistas do Icij encontraram populações inteiras que viviam onde seria instalado um projeto financiado pelo Banco Mundial, que foram tiradas à força de suas casas, com uso da violência ou intimidação. Esses fatos violam os Objetivos Gêmeos do Banco Mundial, com sede em Washington, adotados há décadas.

Essas metas estavam destinadas a acabar com a “pobreza extrema mediante a redução da proporção de pessoas que vivem com menos de US$ 1,25 por dia a menos de 3% da população mundial até 2030”, e ao mesmo tempo “promover a prosperidade compartilhada mediante a melhoria dos níveis de vida dos 40% mais pobres da população de cada país”.

O Banco Mundial se comprometeu a cumprir esses objetivos por vias “que de forma sustentável assegurem o futuro do planeta e de seus recursos, promovam a inclusão social e limitem as cargas econômicas que as futuras gerações herdarão”.

Longe de encontrar formas sustentáveis de acabar com a enorme disparidade da riqueza existente no mundo, entre 2009 e 2013, os “prestamistas do Grupo do Banco Mundial injetaram US$ 50 bilhões em projetos qualificados com o maior risco de gerar impactos sociais ou ambientais ‘irreversíveis ou sem precedentes’, mais que o dobro do que no quinquênio anterior”, afirma a investigação do Icij.

“O Banco Mundial e sua agência encarregada dos empréstimos ao setor privado, a Corporação Financeira Internacional (IFC), financiaram governos e empresas acusadas de violarem os direitos humanos, como violações, assassinatos e torturas. Em alguns casos, os prestamistas continuaram esses financiamentos mesmo depois de vir à luz a evidência de seus abusos”, acrescenta a investigação.

Quase 50% dos 3,4 milhões de pessoas deslocadas física ou economicamente por projetos de grande escala – supostamente dirigidos a melhorar o fornecimento de água e eletricidade ou a reforçar as redes de transporte ou energia em seus países – vivem na África ou em três países asiáticos, China, Índia e Vietnã.

Entre 2004 e 2013, o Banco Mundial e a IFC prometeram US$ 455 bilhões para a realização de 7.200 projetos no Sul em desenvolvimento. Nesse período, numerosas populações afetadas em todo o mundo denunciaram que tanto quem emprestou como quem recebeu os empréstimos estavam violando suas próprias garantias.

Na Etiópia, por exemplo, a equipe do Icij concluiu que funcionários do governo desviaram milhões de dólares dos US$ 2 bilhões que o Banco Mundial deu para uma iniciativa de saúde e educação, e usaram o dinheiro para financiar uma campanha com a finalidade de desalojar pela força dois milhões de pessoas pobres de suas terras. Os projetos financiados pelo Banco Mundial deslocaram mais de 95 mil pessoas nesse país africano.

Um informe divulgado no começo deste mês pela organização humanitária Oxfam afirma que a IFC “exerce escassa responsabilidade sobre os milhares de milhões de dólares em investimentos realizados em bancos, fundos de cobertura e outros intermediários financeiros, o que dá lugar a projetos que provocam abusos contra os direitos humanos em todo o mundo”.

Entre 2009 e 2013, a Oxfam apurou que a IFC investiu US$ 36 bilhões nos intermediários financeiros, 50% mais do que a quantia que gastou em saúde e três vezes mais a que o Banco Mundial destinou à educação nesse período.

O novo modelo, pelo qual se injeta dinheiro em uma carteira de investimentos de intermediários financeiros, representa 62% dos investimentos da IFC, mas a “dolorosa verdade é que a IFC não sabe aonde vai parar grande parte de seu dinheiro, e nem mesmo se está ajudando ou prejudicando”, denunciou Nicolas Mombrial, chefe do escritório da Oxfam em Washington, em um comunicado.

Os investimentos que o Banco classifica como intermediários de “alto risco” provocaram conflitos e dificuldades para milhares de pessoas afetadas por plantações de palma, cana-de-açúcar e seringueira em Honduras, Laos e Camboja, uma represa na Guatemala, uma central de energia na Índia, e uma mina no Vietnã, segundo um estudo da Oxfam.

Em resposta às críticas generalizadas sobre essas falhas, o Banco Mundial está em processo de modificação da sua política de garantias, mas seus próprios funcionários asseguram que, em lugar de reforçar a segurança das populações vulneráveis a nova política só aumentará o risco de seu deslocamento.

O “último rascunho da nova política, divulgado em julho de 2014, daria aos governos mais espaços para driblar as normas do Banco e tomar decisões quanto a populações locais necessitarem de proteção”, diz a investigação do Icij com base em declarações de funcionários e ex-empregados do Banco Mundial.

“Os resultados do Icij refletem o que disse a Oxfam durante muito tempo, que o Grupo do Banco Mundial e, em particular a IFC, em ocasiões falham com as pessoas que pretendem beneficiar: os mais pobres e marginalizados”, disse à IPS a integrante dessa organização humanitária, Kate Geary. “Não apenas a Oxfam e o Icij que dizem isto. Essas conclusões inquietantes têm o apoio das próprias auditorias internas do Banco, que constataram, assombrosamente, que o Banco Mundial simplesmente perdeu o rastro das pessoas que deveriam “reassentar devido aos seus projetos”, acrescentou.

“O próprio presidente” do Banco Mundial, Jim Yonk “Kim reconheceu isso como um fracasso, e tem razão. A situação é simplesmente insustentável e inadmissível. Já basta”, ressaltou Geary. O Banco deve oferecer reparação mediante subvenções às pessoas que deslocou, promulgar reformas urgentes e fundamentais para garantir que essas tragédias não se repitam e revisar seu Plano de Ação para o Reassentamento, publicado no mês passado por Kim em resposta às auditorias críticas”, acrescentou. Envolverde/IPS

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Desafiando o poder dos 1% e da desigualdade http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/desafiando-o-poder-dos-1-e-da-desigualdade/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/desafiando-o-poder-dos-1-e-da-desigualdade/#comments Thu, 23 Apr 2015 12:51:25 +0000 Lydia Alp http://envolverde.com.br/?p=132909   São Paulo, Brasil, 23/4/2015 – Quando é preciso mover um objeto muito pesado, em que se pensa primeiro? Pedir ajuda a outra pessoa, aí está a diferença. O mesmo pode ser aplicado aos movimentos sociais que lutam para transformar a realidade. Em um contexto de crises econômica, ecológica e de direitos humanos sem precedentes, […]

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As mulheres costumam suportar a pior carga dos desastres naturais porque são responsáveis pelo cuidado da casa e do bem-estar de suas famílias. Foto: Zofeen Ebrahim/IPS

As mulheres costumam suportar a pior carga dos desastres naturais porque são responsáveis pelo cuidado da casa e do bem-estar de suas famílias. Foto: Zofeen Ebrahim/IPS

 

São Paulo, Brasil, 23/4/2015 – Quando é preciso mover um objeto muito pesado, em que se pensa primeiro? Pedir ajuda a outra pessoa, aí está a diferença. O mesmo pode ser aplicado aos movimentos sociais que lutam para transformar a realidade. Em um contexto de crises econômica, ecológica e de direitos humanos sem precedentes, os atores sociais não podem se manter isolados, devendo se unir e utilizar sua força coletiva para superar os desafios.

O Fórum Social Mundial (FSM), realizado entre os dias 24 e 28 de março na Tunísia, mostrou que outro mundo é possível quando se trabalha de forma coletiva para atender as causas estruturais da desigualdade. Foi isso que levou a Associação para os Direitos das Mulheres no Desenvolvimento (Awid) a se comprometer a trabalhar com as organizações ActionAid, Civicus, Greenpeace e Oxfam.

Cerca de  70 mil ativistas se reuniram na Tunísia e participaram de vários painéis sobre modelos econômicos alternativos, entre eles Imaginações Feministas Para Uma Economia Justa, organizado pela Awid. Esse fato, junto com os protestos contra a redução dos espaços para a dissensão e as reclamações por justiça social são fundamentais em um mundo onde as crises econômica, ecológica e de direitos humanos estão interligadas e indo de mal a pior.

A edição da Tunísia foi a 13ª do Fórum Social Mundial e resultou em uma lembrança e um chamado à ação, pois o poder das pessoas é que mudará o mundo. Transformar a realidade, especialmente em relação aos direitos das mulheres e à justiça de gênero, significa reconhecer e dar visibilidade às interligações entre diversos assuntos. Nos últimos 20 anos, foram registrados notáveis avanços nos direitos das mulheres e na justiça de gênero, mas ainda resta muito por fazer.

No centro da atual crise global, há uma enorme desigualdade econômica na ordem estabelecida. Cerca de 1,2 bilhão de pessoas pobres são responsáveis por apenas 1% do consumo mundial, enquanto o milhão mais rico concentra 72% do mesmo. Nem a população mundial nem o planeta podem sustentar o grau de consumo do Norte rico. Ecossistemas inteiros desaparecem e povos e comunidades são deslocados.

Os desafios não só aumentam, como se aprofundam. Muitas mulheres, meninas e pessoas trans e intersexuais continuam sofrendo múltiplas e cruzadas formas de discriminação, além de distintas vulnerabilidades ao longo de suas vidas. Entre elas se destaca o desproporcional impacto da pobreza, o fundamentalismo religioso e a violência contra as mulheres, as crescentes redes criminosas e o maior poder das corporações transnacionais sobre terras e territórios, bem como o crescimento dos conflitos e da militarização, a generalizada violência de gênero e a destruição ambiental.

As mulheres têm sido as cuidadoras do ambiente e produtoras de alimentos durante séculos e agora estão à frente da defesa do habitat diante do avanço da destruição e da extração de recursos cometido pelas corporações. A violência contra as mulheres que defendem a terra se desenvolve com impunidade, justo quando mulheres e meninas também concentram a atenção de vários atores corporativos filantrópicos como motores do desenvolvimento.

A maioria dos compromissos governamentais e institucionais para atender as desigualdades são fundamentais em todas as regiões do mundo, pois, quanto mais se mobilizam e defendem seus direitos, mais fecham o espaço político e da sociedade às elites governantes. A declaração política da 59ª sessão da Comissão sobre a Condição Jurídica e Social da Mulher (CSW59), realizada entre os dias 9 e 20 de março, não é mais do que o último exemplo disso.

A Declaração de Pequim, da IV Conferência Mundial sobre a Mulher, foi o acontecimento mais progressista em matéria de direitos femininos em seu momento e foi o resultado de 30 mil ativistas de todo o mundo pressionando os representantes dos 189 governos participantes. Mas, 20 anos depois, organizações de mulheres foram excluídas das negociações CSW59, deixando um documento débil que não avança o suficiente para o tipo de transformação necessária para realmente conseguir as promessas de Pequim.

As forças de justiça, liberdade e igualdade se deslocam incansavelmente. É urgente a necessidade de fortalecer nossa voz e nosso poder coletivo para ampliar nossas análises compartilhadas e construir agendas interligadas para a ação. O FSM serve exatamente para isso, e na edição deste ano houve uma diversidade de ativistas feministas que debateram sobre as causas sistêmicas das desigualdades globais de forma inter-setorial, vinculando as novas relações com a terra e o uso desta com o patriarcado, a soberania alimentar, a descolonização e o poder corporativo.

Essas inter-relações fazem parecer que a luta é enorme, mas também permitem a solidariedade entre os movimentos. Como rede global de organizações, movimentos e ativistas feministas e defensoras dos direitos das mulheres, a Awid trabalha há 30 anos para transformar as estruturas dominantes de poder e de tomada de decisões e promover os direitos humanos, a justiça de gênero e a sustentabilidade ambiental. Em tudo o que fazemos, a colaboração é central.

Creio firmemente que não poderemos conseguir uma transformação significativa se não nos unirmos em toda nossa diversidade. Para a Awid, unir-se à luta pela sustentabilidade ambiental, por uma economia justa e pelos direitos humanos é outro passo em uma longa trajetória com e para outros movimentos.

Juntos podemos tomar medidas mais audazes, nos incentivarmos a dar um passo a mais e nos apoiarmos em nosso poder coletivo e nosso conhecimento combinado para amplificar nossas vozes. Trabalhar juntos é a única forma de reverter a desigualdade e de conseguir um mundo justo e sustentável. Envolverde/IPS

* Lydia Alpízar Durán é diretora-executiva da Associação para os Direitos das Mulheres no Desenvolvimento (Awid).

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China penetra na América Latina com créditos a países em penúria http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/china-penetra-na-america-latina-com-creditos-a-paises-em-penuria/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/china-penetra-na-america-latina-com-creditos-a-paises-em-penuria/#comments Thu, 23 Apr 2015 12:48:21 +0000 Mario Osava http://envolverde.com.br/?p=132905   Rio de Janeiro, Brasil, 23/4/2015 – Os angolanos em geral agradecem a participação da China na reconstrução de seu país, apesar da má qualidade de algumas estradas e prédios construídos por empresas chinesas sem empregar mão de obra local. Para recuperar sua infraestrutura destruída pela guerra civil, Angola precisava de financiamentos que foram negados […]

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Cidade Kilamba, um bairro construído inteiramente por empresas chinesas no sul de Luanda, capital de Angola, para acolher meio milhão de pessoas, com prédios de cinco a 13 andares, elevadores inteligentes, escolas, comércios e locais de lazer. Foto: Mario Osava/IPS

Cidade Kilamba, um bairro construído inteiramente por empresas chinesas no sul de Luanda, capital de Angola, para acolher meio milhão de pessoas, com prédios de cinco a 13 andares, elevadores inteligentes, escolas, comércios e locais de lazer. Foto: Mario Osava/IPS

 

Rio de Janeiro, Brasil, 23/4/2015 – Os angolanos em geral agradecem a participação da China na reconstrução de seu país, apesar da má qualidade de algumas estradas e prédios construídos por empresas chinesas sem empregar mão de obra local.

Para recuperar sua infraestrutura destruída pela guerra civil, Angola precisava de financiamentos que foram negados pelo Ocidente, enquanto a China aportou seus créditos e sua engenharia sem impor condições impossíveis para um país que só conheceu a paz 27 anos depois de sua independência em 1975, afirmam dirigentes angolanos.

Em situações distintas, do outro lado do Atlântico, vários países latino-americanos em dificuldades financeiras recorreram ultimamente a essa espécie de janela creditícia de última instância. Argentina e Venezuela, por exemplo, sem acesso a créditos internacionais, obtiveram empréstimos elevados de bancos chineses.

Na lógica chinesa, não tem sentido tirar capacidade de endividamento de países com grande produção agrícola ou que possuam muita matéria-prima, especialmente hidrocarbonos. Não há motivo para duvidar de sua solvência se dispõem de produtos como garantia, pouco importando a razão de seu infortúnio.

No Brasil, a Petrobras pôde anunciar, no dia 1º de abril, um alívio chinês de US$ 3,5 bilhões em suas finanças, debilitadas por causa do escândalo de corrupção que desde o ano passado faz tremer a economia, o governo, gigantes empresariais e vários partidos políticos do país. O empréstimo do Banco de Desenvolvimento da China (BDC) ajuda a Petrobras a mitigar uma tempestade que também compreende erros grotescos de gestão, que elevaram em dezenas de milhares de milhões de dólares os custos de construção de duas refinarias, da compra de outra usina na cidade norte-americana de Pasadena, e em outros projetos.

As crises de possíveis provedores são oportunidades para a China, mas não são indispensáveis. O mesmo BDC já havia emprestado US$ 10 bilhões à Petrobras em 2009, quando a estatal parecia próspera com as gigantescas reservas recém-descobertas do pré-sal no fundo Atlântico brasileiro. O acordo de empréstimo assegura, como pagamento, dez anos de fornecimento de petróleo à China.

Assim, “a potência financeira da China tende a acentuar o desequilíbrio comercial”, no qual países ou regiões inteiras lhe vendem quase que somente bens primários e importam manufaturas chinesas, reconheceu Luis Afonso Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e Globalização Econômica (Sobeet).

Minério de ferro e soja concentram 75% das exportações brasileiras à China, destacou Lima. Nas importações a quase totalidade é de manufaturados. Mas “trata-se de um sócio novo, com o qual há grande complementaridade e se pode construir uma situação de ganha-ganha, se soubermos conduzir bem a oportunidade”, acrescentou.

“O Brasil tem que fazer sua própria tarefa, que é definir o que quer da China, em uma estratégia de longo prazo, e negociá-lo, em lugar de ficar na posição passiva de apenas reagir às demandas chinesas”, pontuou Lima. Em sua avaliação, o momento atual seria oportuno para mudanças nesse intercâmbio desigual, porque a China vive “a perspectiva de reduzir suas exportações e estimular o dinamismo da demanda interna, enquanto no Brasil o mercado interno tende a enfraquecer, exigindo mais exportações”.

Entretanto, Lima reconhece que as dificuldades econômicas e políticas que o Brasil enfrenta não favorecem a definição de estratégias e objetivos de longo prazo para uma negociação com uma potência em ascensão.

O avanço chinês na América Latina também é exercido por meio de crescentes investimentos. A Sobeet identificou 69 projetos anunciados para o Brasil desde 2010, a grande maioria de indústrias de transformação e quantias médias, inferiores a US$ 100 milhões. Apenas três estão no pódio de financiamento de milhares de milhões de dólares, lideradas pela State Grid, a estatal de energia, com US$ 5 bilhões para a compra principalmente de linhas de transmissão elétrica. O segundo extrairá e exportará minério de ferro e a terceira processará soja.

A lista não é completa devido à dificuldade de monitorar os investimentos chineses que passam por outros países, como os europeus, antes de chegarem ao seu destino produtivo sem declarar sua nacionalidade original, explicou Lima.

A China vem aumentando seus investimentos diretos no exterior desde o começo deste século, chegando a US$ 206,874 bilhões em 2013, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgados pela Sobeet. A América Latina não foi um destino prioritário, já que apenas 4,1% desses investimentos se destinaram a região, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, (Cepal).

Mas será nos próximos dez anos, nos quais a China investirá US$ 250 bilhões na região, anunciou o presidente Xi Jinping, em janeiro, em Pequim, durante o primeiro Fórum Ministerial entre China e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Alguns projetos serão excepcionais, como o canal interoceânico da Nicarágua, que competirá com o canal do Panamá e que, se estima, custará US$ 40 bilhões, quatro vezes o produto interno bruto do país.

Boa parte do capital já aplicado é petroleira. Companhias estatais chinesas do setor já estão presentes na extração de hidrocarbonos no Brasil, Equador, Peru, Argentina e Venezuela. Mas o aumento mais espetacular nas relações sino-latino-americanas ocorreu no comércio, que cresceu 22 vezes nos 13 primeiros anos do século. O intercâmbio somou US$ 275 bilhões em 2013. E praticamente duplicará ao final desta década, segundo prognóstico de Jinping.

A expansão extremou o desequilíbrio e melhorou os termos de intercâmbio com a alta dos preços dos produtos básicos latino-americanos, que durou pelo menos até 2012. Os dados dos empréstimos chineses à região são menos destacados, mas também refletem a expansão da potência asiática em seus interesses prioritários em petróleo, minerais e produtos agrícolas.

Entre 2005 e 2014, esses créditos somaram US$ 119 bilhões, segundo o banco de dados do Diálogo Interamericano, um fórum que reúne dirigentes políticos e empresariais das Américas, incluindo ex-presidentes de vários países. Desse total, quase metade, US$ 56,3 bilhões, foi concedida à Venezuela, dona das maiores reservas de petróleo do mundo. Em seguida aparecem Brasil e Argentina, grandes exportadores de soja, com US$ 22 bilhões e US$ 19 bilhões, respectivamente.

O México, segunda maior economia latino-americana, ficou em sexto lugar na preferência dos bancos estatais chineses, com US$ 2,4 bilhões, menos de um quarto do que recebeu o Equador (US$ 10,8 bilhões) e superado inclusive pelas Bahamas (US$ 2,9 bilhões). Envolverde/IPS

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Ambiente belicista em El Salvador devido à onda de violência criminosa http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/ambiente-belicista-em-el-salvador-devido-a-onda-de-violencia-criminosa/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/ambiente-belicista-em-el-salvador-devido-a-onda-de-violencia-criminosa/#comments Thu, 23 Apr 2015 12:40:19 +0000 Edgardo Ayala http://envolverde.com.br/?p=132969     São Salvador, El Salvador, 23/4/2013 – O recrudescimento da violência criminal que vive El Salvador está esquentando o ambiente interno do país com um tom que recorda a passada guerra civil e que poderia comprometer a incipiente democracia local. Depois dos recentes ataques de gangues contra policiais, soldados e outros funcionários públicos, na […]

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Familiares, vizinhos e efetivos da Polícia Nacional Civil durante o enterro do agente Justo Germán Gil, da Unidade de Manutenção da Ordem, morto por membros de gangues no município de San Juan Opico, no leste de El Salvador, no dia 10 de janeiro de 2015. Foto: Vladimir Girón/IPS

 

 

São Salvador, El Salvador, 23/4/2013 – O recrudescimento da violência criminal que vive El Salvador está esquentando o ambiente interno do país com um tom que recorda a passada guerra civil e que poderia comprometer a incipiente democracia local. Depois dos recentes ataques de gangues contra policiais, soldados e outros funcionários públicos, na Assembleia Legislativa se discute a decretação de estado de sítio nos municípios mais violentos, e o governo determinou a criação de três batalhões de resposta rápida, como os que existiram durante o conflito.

Essas unidades militares foram responsáveis no passado por inúmeros massacres contra a população civil, como o ocorrido em dezembro de 1981 no vilarejo El Mozote, no Departamento de Morazán, por parte de soldados do batalhão Atlacatl, que deixou mais de mil camponeses mortos. Ao mesmo tempo, policiais e cidadãos propõem abertamente a criação de grupos de extermínio de bandidos, à moda dos esquadrões da morte, os grupos paramilitares de extrema direita que atuaram no país na década de 1970 e em 1992.

“É perigosíssimo falar de estado de sítio e tudo mais, pois pode afetar o processo democrático do país”, ressaltou à IPS o coordenador da ecumênica Iniciativa Pastoral pela Vida e a Paz (Ipaz), Félix Arévalo. A Ipaz aglutina líderes de várias religiões que buscam uma saída negociada para o fenômeno da violência das gangues, também conhecidas na América Central como maras, que afeta este país de 6,3 milhões de habitantes.

Se o parlamento aprovar o estado de sítio, estarão suspensas as garantias constitucionais, como as de reunião e livre trânsito, além da militarização das áreas com altos níveis de homicídios. Esse estado de exceção foi imposto pela última vez em El Salvador durante a ofensiva guerrilheira denominada “até o topo”, de novembro de 1989, em plena guerra civil, que de 1980 a 1992 deixou 75 mil mortos e oito mil desaparecidos.

Agora a Presidência do país é exercida por um daqueles dirigentes guerrilheiros, Salvador Sánchez Cerén, da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN), convertida em partido político após os acordos de paz e no poder desde 2009.

Seu governo assegura que o recrudescimento da violência seria uma reação das gangues ao traslado, realizado em fevereiro, de 14 de seus líderes, de uma prisão comum para outra de segurança máxima, conhecida como Zacatraz, localizada no município de Zacatecoluca, 41 quilômetros a leste de São Salvador. Entre os que foram transferidos estavam alguns cabeças da MS13 e da Barrio 18, duas organizações criminosas que em março de 2012 permitiram uma trégua entre as maras que reduziu drasticamente o número de homicídios.

Raúl Mijango, mediador dessa trégua, já enterrada, assegurou à IPS que o fato de ter isolado esses líderes fez com que as ações desses grupos passassem ao comando de jovens mais fanáticos, que fazem da violência uma forma de vida. “No que esses jovens menos pensam é em acabar com esse conflito”, ressaltou.

A trégua foi considerada encerrada em maio de 2013, quando o então presidente Mauricio Funes (2009-2014), também da FMNL, foi forçado a destituir por uma questão técnico-legal o ministro de Justiça e Segurança, general David Munguía, um dos maiores defensores desse processo dentro do governo.

Até 20 de abril, as gangues assassinaram, além de cidadãos em geral, 20 policiais, seis militares, um promotor e seis carcereiros, em uma guerra não declarada, também alimentada pela reação policial e militar que matou dezenas de criminosos em enfrentamentos. No dia 18 de abril, sete deles foram abatidos por um esquadrão militar em Uluapa Arriba, parte do município de Zacatecoluca.

Inclusive, alguns policiais falam abertamente em assassiná-los. “Quando toparem conosco, vamos matá-los”, disse sem rodeios um policial a uma emissora de televisão local, mas com o rosto coberto por um capuz. Também nas redes sociais circulam vídeos caseiros de policiais e cidadãos defendendo o aniquilamento de mareros (membros das maras) e o uso dos esquadrões da morte dedicados a assassinar opositores de esquerda durante a guerra.

Em março o número de homicídios disparou. O mês passado foi o mais violento da última década até agora, segundo a polícia, com 481 homicídios, média de 16 assassinatos por dia, 56,2% mais do que em março de 2014. Se esse padrão for mantido, ao final de 2015 o país terá superado mais de cinco mil assassinatos e uma taxa de 86 homicídios para cada cem mil habitantes, bem acima dos 63 para cem mil com os quais fechou 2014.

O estado de sítio, ou de exceção, é defendido pelos deputados da direitista Grande Aliança pela Unidade Nacional, com 11 dos 84 membros da legislatura que começará em 1º de maio, após as eleições de março.

“Essa escalada de violência poderia ter sido evitada”, segundo Arévalo, “caso se tivesse recorrido a mecanismos de diálogo que também incluísse as gangues”, uma ideia rejeitada frontalmente pelos setores políticos, pelas reações virulentas da população contra esses grupos, que, se calcula, possuem 60 mil integrantes. O governo de Cerén fechou toda possibilidade de aproximação com esses grupos em janeiro.

Roberto Valent, representante residente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), disse à IPS que a intensificação das ações das gangues é, em parte, uma resposta ao controle territorial que, por meio da polícia, o Estado procura exercer naqueles territórios que controlam. A ação policial é importante para abrir espaços à prevenção, reabilitação e reinserção socioeconômica nesses territórios, acrescentou. “É claramente uma reação à ação do Estado”, pontuou Valent, que atua como coordenador técnico do Conselho Nacional de Segurança Social e Convivência.

O Conselho foi criado pela Presidência, em setembro de 2014, para propor as linhas de ação a fim de enfrentar a criminalidade, com a participação de diferentes setores da sociedade e a contribuição técnica da cooperação internacional. Em janeiro o Conselho apresentou 124 medidas prioritárias que o governo pretende implantar para reduzir a criminalidade no país.

São necessários US$ 2 bilhões para impulsionar o programa durante cinco anos. Uma parte desses fundos já foi obtida e outra está sendo negociada. O programa pretende levar projetos educativos, de saúde e recreativos, bem como criar 250 mil postos de trabalho para jovens em situação de risco.

Porém, na prática, o governo se mostra mais interessado em endurecer sua política de perseguição, por meios policiais e militares. Além dos batalhões militares, o presidente anunciou uma reestruturação e o fortalecimento da polícia, bem como a criação de mais unidades policiais de elite para enfrentar as gangues.

Arévalo, do Ipaz, acredita que se deveria agir ao contrário: “Menos ação policial e mais prevenção e reinserção. Mexemos no vespeiro, o governo agiu torpemente, e não se pode impulsionar um plano com cadáveres caindo ao lado”. Envolverde/IPS

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O gênero ficção climática tem lugar na Índia http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/o-genero-ficcao-climatica-tem-lugar-na-india/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/o-genero-ficcao-climatica-tem-lugar-na-india/#comments Wed, 22 Apr 2015 14:23:20 +0000 Dan Bloom http://envolverde.com.br/?p=132837   Taipe, Taiwan, 22/4/2015 – Os corredores das universidades dos Estados Unidos já não são alheios ao gênero literário e cinematográfico chamado ficção climática e, em breve, a Índia se somará a essa tendência graças a um professor pioneiro em seu ensino nesse país, T. Ravichandran. Ficção Climática e Filmes Climáticos é o título do […]

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As devastadoras inundações, que em 2014 causaram estragos no Estado de Assam, na Índia, levaram o governo a construir pontes de bambu. Este homem e este menino vão de uma aldeia a outra de barco e cruzam as pontes a pé. Foto: Priyanka Borpujari/IPS

As devastadoras inundações, que em 2014 causaram estragos no Estado de Assam, na Índia, levaram o governo a construir pontes de bambu. Este homem e este menino vão de uma aldeia a outra de barco e cruzam as pontes a pé. Foto: Priyanka Borpujari/IPS

 

Taipe, Taiwan, 22/4/2015 – Os corredores das universidades dos Estados Unidos já não são alheios ao gênero literário e cinematográfico chamado ficção climática e, em breve, a Índia se somará a essa tendência graças a um professor pioneiro em seu ensino nesse país, T. Ravichandran.

Ficção Climática e Filmes Climáticos é o título do curso que Ravichandran dará no Instituto de Tecnologia Kanpur (IITK), no Estado indiano de Uttar Pradesh. O curso começará no final de julho e contará com 15 módulos que versarão sobre ecoficção, ecofabulismo e representações de questões vinculadas à mudança climática em filmes e documentários.

Os temas foram pensados para estudantes do IITK e será o primeiro curso desse tipo na Índia, confirmou Ravichandran à IPS. “Na Índia não há tanta consciência sobre a mudança climática como nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha”, explicou.

“Minha última pesquisa, intitulada Literatura, Tecnologia e Ambiente: Perspectivas Global e Pedagógica, patrocinada pela bolsa de excelência acadêmica e profissional Fulbright-Nehru, oferecida pela Fundação Educacional Estados Unidos-Índia (Usief-Índia), e realizada na Universidade de Duke, na Carolina do Norte, foi um ponto de inflexão na minha carreira”, destacou Ravichandran.

O professor de literatura afirmou que, enquanto esteve na Carolina do Norte, experimentou uma mudança de paradigma em seu pensamento sobre como se conectava com o ambiente. “Me fez pensar seriamente em meu papel como professor de literatura para estudantes de engenharia”, explicou à IPS. “Quanto tempo continuarei ensinando (William) Shakespeare e (Percy) Shelley, fazendo com que lhes agrade a beleza dos narcisos ou dos sabiás, quando logo estarão em perigo se a mudança climática não for detida?”, se perguntou.

“Para que minha existência seja relevante na Terra, pensei que pelo menos deveria gerar consciência sobre a mudança climática nos estudantes. Assim, comecei a trabalhar no curso. Espero ter êxito na Índia e ser efetivo”, pontuou, esperançoso.

Dado que o principal motivo de preocupação global atualmente é a mudança climática, que elimina as barreiras geopolíticas e conecta os humanos na busca de soluções comuns, Ravichandran destaca o enfoque interdisciplinar do curso. “A ficção climática e os filmes climáticos oferecem um estudo interdisciplinar de um fenômeno ameaçador do qual os humanos da era Antropocena (período mais recente da história na Terra) são testemunhas impotentes, como se estivessem presos em um barco que naufraga”, afirmou.

“A verdadeira questão a ser atendida não é, como dizem os céticos da mudança climática, se a catástrofe é tão alarmante a ponto de os humanos terem de agir imediatamente, mas quanto tempo a humanidade pode se permitir permanecer insensível a algo tão evidente”, acrescentou.

Ravichandran espera que, se conseguir que seus alunos se concentrem em literatura e filmes de ficção climática, promoverá uma mudança de mentalidade que lhes permita pensar no uso sustentável dos recursos escassos e assegurar um sustento simbiótico entre humanos e não humanos no planeta Terra.

Os estudantes do curso pioneiro do IITK lerão romances como O Ano do Dilúvio, de Margaret Atwood, Um Amigo da Terra, de T. Coraghessan Boyle, e Flight Behavior (Comportamento de Voo), escrita em 2012 por Barbara Kingsolver. Também assistirão e debaterão sobre filmes como Interestelar, dirigido por Christopher Nolan e que estreou em 2014, Snowpiercer (Limpa-Neve), um filme sul-coreano-norte-americano estreado em 2013, dirigido por Bong Joon-ho e escrito por Kelly Masterson, e O Dia Depois de Amanhã, de 2005, dirigido por Roland Emmerich, elencou Ravichandran. É gratificante o auge do gênero ficção climática no Ocidente, é gratificante que na Índia o IITK ofereça um curso desse tipo a estudantes de engenharia, opinou.

O gênero ficção climática pode ser considerado uma abertura do prisma cultural, um termo de moda, um instrumento de relações públicas ou um conceito de mercado, mas chegou para ficar, e a Índia não fez mais do que se unir ao clube, seguindo o auge que já se registrou em países ocidentais.

De fato, o professor Ravichandran e seus alunos farão história com o curso, e esperamos que os meios de comunicação em Uttar Pradesh e outros Estados considerem essa história como uma notícia e a publiquem em inglês e hindi. O curso poderia se converter em um modelo a ser imitado por outros acadêmicos da Índia. Envolverde/IPS

* Dan Bloom é jornalista independente de Boston e mora em Taiwan. Em 1971 se formou na Tufts University, onde se especializou em literatura francesa. Pode ser seguido em seu Twitter: @polçarcityman.

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Na terra de ninguém, mandatos da sociedade civil interamericana http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/na-terra-de-ninguem-mandatos-da-sociedade-civil-interamericana/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/na-terra-de-ninguem-mandatos-da-sociedade-civil-interamericana/#comments Wed, 22 Apr 2015 13:18:30 +0000 Ivet González http://envolverde.com.br/?p=132833   Cidade do Panamá, Panamá, 22/4/2015 – A falta de uma declaração final deixou abandonadas em terra de ninguém as recomendações que a fortalecida sociedade civil latino-americana apresentou de várias maneiras aos 35 governantes do continente durante a VII Cúpula das Américas. Para ativistas ouvidos pela IPS, é uma incógnita se os Estados acolherão as […]

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Participantes do Fórum da Sociedade Civil e Atores Sociais da VII Cúpula das Américas em foto de recordação feita no dia 10 de abril, ao final do encontro de três dias na Cidade do Panamá. Foto: VII Cúpula das Américas

Participantes do Fórum da Sociedade Civil e Atores Sociais da VII Cúpula das Américas em foto de recordação feita no dia 10 de abril, ao final do encontro de três dias na Cidade do Panamá. Foto: VII Cúpula das Américas

 

Cidade do Panamá, Panamá, 22/4/2015 – A falta de uma declaração final deixou abandonadas em terra de ninguém as recomendações que a fortalecida sociedade civil latino-americana apresentou de várias maneiras aos 35 governantes do continente durante a VII Cúpula das Américas.

Para ativistas ouvidos pela IPS, é uma incógnita se os Estados acolherão as demandas apresentadas, porque os governos não assinaram, por falta de consenso, o projeto de declaração que, sob o título Mandatos Para a Ação, deveria encerrar o encontro realizado na Cidade do Panamá nos dias 10 e 11 deste mês.

Agora circulam desagregadas pela internet as propostas – algumas com dissensos – que assinaram atores de todo o espectro ideológico em espaços paralelos e alternativos, celebrados na capital que atuou como ponte entre os dois países do Norte industrial (Canadá e Estados Unidos) e as 33 nações do Sul em desenvolvimento do continente.

A cúpula foi histórica porque, pela primeira vez, participaram os 35 países americanos, com a presença, também pela primeira vez, de Cuba e de seu presidente, Raúl Castro, que nesse cenário consagrou com o presidente norte-americano, Barack Obama, o degelo entre os dois países vizinhos, enfrentado há mais de meio século.

Cerca de 800 ativistas participaram em paralelo do Fórum da Sociedade Civil e Atores Sociais, realizado entre os dias 8 e 10 de abril, no Hotel Panamá, enquanto setores que se sentiram “excluídos” e “pouco representados” operaram separadamente em outros dois encontros alternativos à cúpula oficial.

Mais de 3.500 pessoas ser reuniram no Auditório da Universidade do Panamá, entre os dias 9 e 11, na V Cúpula dos Povos. Além disso, 300 líderes originários debateram na V Cúpula dos Povos Indígenas de Abya Yala (América), da qual resultou a declaração Defendendo Nossas Nações.

Apesar de discrepâncias em cada encontro e entre os três espaços, diversas vozes da cidadania, da extrema direita à extrema esquerda radicais, pensaram em como construir um continente mais seguro, economias prósperas sustentáveis e garantir educação gratuita, para erradicar a terrível desigualdade no hemisfério sul.

Também estreou no fórum a sociedade civil cubana, embora no Panamá tenha encenado a persistência do rancor entre grupos pró-governo e antigoverno de Havana, o que criou em certas ocasiões obstáculos ao debate dos ativistas sociais do continente.

As demandas e propostas das declarações finais dos diversos espaços sociais mostraram os avanços e desafios da América Latina, a região que, segundo o Banco Mundial, tem pela primeira vez mais da metade de sua população na classe média (com renda diária de US$ 10 a US$ 50), após uma história de colonizações e ditaduras militares.

“A educação deve ser em valores, corresponsabilidade e de pais de família e da sociedade na formação de um Estado pluricultural e multiétnico”, disse à IPS a mexicana Sofía Martínez, porta-voz das recomendações da comissão de Educação e Cultura do Fórum da Sociedade Civil e Atores Sociais.

O acesso de mais latino-americanos e caribenhos a um sistema de ensino público, universal e gratuito foi uma meta compartilhada pela sociedade civil, sobretudo porque o setor produtivo requer profissionais e técnicos para deixar para trás as economias de produção de matérias-primas e entrar no caminho mais sustentável do conhecimento.

Desta forma puderam se manter fora da pobreza os mais de 70 milhões de pessoas que saíram dessa faixa entre 2000 e 2012, segundo o Banco Mundial, quando a economia regional entrou em perigosa desaceleração.

Por sua vez, o argentino Sebastián Schuff, porta-voz da mesa de segurança social do fórum, declarou que “os governos devem garantir a proteção diante de ameaças crônicas como fome, doenças e violência em todas suas formas, respeitando os princípios de autodeterminação dos povos e sua soberania”.

Nesse sentido, o ativismo exigiu dos Estados “que não morram mais pessoas por violência e falta de atendimento médico” e até propôs “a criação de protocolos e mecanismos que permitam a criação de um banco de DNA regional e contra o tráfico de pessoas”, detalhou o integrante do Movimento Frente Jovem.

“O flanco débil da região é a violência, o crime e a insegurança”, afirma o Informe Regional de Desenvolvimento Humano 2013-2014. Segurança Social Com Rosto Humano: Diagnóstico e Propostas Para a América Latina, cujos dados serviram de base para os debates dos atores sociais durante a cúpula.

O documento, preparado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, avaliou que a América Latina ostenta “democracias mais consolidadas, bem como Estados que assumiram maiores responsabilidades na proteção social”, mas “sofre a pesada carga da violência, com mais de cem mil homicídios registrados por ano”.

As mortes por homicídio apresentam, na região, taxas “com níveis de epidemia”, afirma o documento, acrescentando que “a desigualdade, a falta de mobilidade social e a insegurança puseram um freio ao desenvolvimento humano da região”, que nos últimos 12 anos registrou melhoras em setores como saúde, educação e esperança de vida.

Questões de segurança atravessaram todas as recomendações do fórum, que também exigiu garantia de acesso universal, gratuito e equitativo aos cuidados de saúde, manejo transparente dos recursos, mais acesso a água potável, educação sexual para todas as pessoas, direito a migrar e enfrentar a mudança climática.

O mexicano Pedro Gamboa disse à IPS que espera que a governança dos países se volte ao uso sustentável dos ecossistemas e espécies, em reconhecimento ao “direito humano a um ambiente saudável, em particular dos povos indígenas, das comunidades camponesas e dos afrodescendentes”.

Embora “não podendo produzir os consensos absolutos nas mesas de governabilidade democrática e na de participação da cidadania”, nelas se expressou que, “diante da debilidade do exercício de democracia, pedimos aos Estados o reconhecimento efetivo da sociedade civil e da participação dos cidadãos”, ressaltou Gamboa.

Para isso, foram pedidos melhores marcos legais para proteger a livre independência dos poderes do Estado, garantir a transparência da informação pública, o direito à livre associação, acesso universal à informação e à manifestação pacífica sem detenção, entre outros.

Mais reivindicativa, a Declaração Final da V Cúpula dos Povos pediu a defesa dos “recursos naturais, da biodiversidade, da soberania alimentar, de nossos bens comuns, da mãe terra e dos direitos ancestrais dos povos originários, das conquistas e dos direitos sociais.

O resultado das 15 mesas de trabalho dessa cúpula alternativa insistiu no emprego, trabalho e salário digno, na segurança social, nas pensões, na negociação coletiva, sindicalização, direito de greve, liberdade sindical, saúde ocupacional, erradicação do trabalho infantil e escravo, e “justiça com equidade de gênero”.

Por sua vez, a declaração de Abya Yala pede novamente que se respeite o consentimento livre, prévio e informado dos povos originários em seus territórios. Também cobra a implantação de uma educação multicultural, titulação de territórios indígenas e reformas constitucionais e legais que incluam os 55 milhões de indígenas, entre outras demandas. Envolverde/IPS

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Camponesas da Patagônia reescrevem sua história no Chile http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/camponesas-da-patagonia-reescrevem-sua-historia-no-chile/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/camponesas-da-patagonia-reescrevem-sua-historia-no-chile/#comments Wed, 22 Apr 2015 13:00:43 +0000 Marianela Jarroud http://envolverde.com.br/?p=132897   Valle Simpson, Chile, 22/4/2015 – Mais de cem camponesas da Patagônia chilena se uniram para criar uma associação que lhes proporcionasse não só autonomia econômica, mas também empoderamento, em uma região marcada pelo machismo e pela desigualdade de gênero. Patrícia Mancilla, Nancy Millar e Blanca Molina conversaram com a IPS sobre suas histórias e […]

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A partir da esquerda, Nancy Millar, Blanca Molina e Patricia Mancilla na pequena propriedade de Blanca, no povoado de Valle Simpson, região de Aysén, na Patagônia chilena. As três integram a única associação de mulheres camponesas do indômito território austral, o que as ajudou a conquistar sua autonomia econômica e a se empoderarem. Foto: Marianela Jarroud/IPS

 

Valle Simpson, Chile, 22/4/2015 – Mais de cem camponesas da Patagônia chilena se uniram para criar uma associação que lhes proporcionasse não só autonomia econômica, mas também empoderamento, em uma região marcada pelo machismo e pela desigualdade de gênero. Patrícia Mancilla, Nancy Millar e Blanca Molina conversaram com a IPS sobre suas histórias e como a terra, o artesanato e o trabalho com outras mulheres as ajudaram a superar depressões, abusos e desconfianças.

“Finalmente, conseguimos o reconhecimento para a mulher rural. A mulher camponesa aprendeu a se valorizar. Cada uma tem uma história de dor que consegue mitigar com o trabalho conjunto, o diálogo entre nós”, afirmou Mancilla, presidente da Associação de Mulheres Camponesas da Patagônia, criada em 2005. “Aprendemos a nos valorizar como mulheres e a valorizar nosso trabalho, permitindo que nossas mulheres enviem seus filhos à universidade”, acrescentou.

Mancilla vive em uma pequena propriedade familiar, na localidade de Río Paloma, a 53 quilômetros de Coyhaique, capital da região de Aysén. Sua casa não tem luz, mas, graças a um gerador elétrico, ela produz no local o que mais gosta de fazer: queijos artesanais de leite de vaca. Atualmente também explora o agroturismo familiar, mas um câncer na tireoide a obrigou a reduzir sua atividade.

Em seus três anos à frente da Associação, ela trabalhou incansavelmente para consolidar a união e as atividades coletivas de quase 120 camponesas do grupo. Mancilla e suas companheiras aguardam orgulhosas a inauguração do Centro de Gestão da Mulher Rural de Aysén, uma casa que conseguiram por meio de um projeto do governo regional, executado pelo Serviço de Habitação e Urbanização.

O centro vai servir de ponto de encontro, um lugar para compartilharem suas experiências e se capacitarem, e também como loja, para exposição e venda de seus produtos. As integrantes da Associação já realizam uma feira semanal, toda quarta-feira, onde comercializam juntas suas produções.

Blanca Molina mostra orgulhosa uma abóbora, plantada de forma orgânica em uma das quatro estufas que construiu com suas mãos em sua pequena propriedade em Valle Simpson, no sul patagônio do Chile. Foto: Marianela Jarroud/IPS

Blanca Molina mostra orgulhosa uma abóbora, plantada de forma orgânica em uma das quatro estufas que construiu com suas mãos em sua pequena propriedade em Valle Simpson, no sul patagônio do Chile. Foto: Marianela Jarroud/IPS

 

A região de Aysén é uma das menos povoadas do Chile, com 105 mil habitantes, e também a de menor densidade. Em contraste, nessa região de frio austral e vasta biodiversidade, são inúmeros os rios caudalosos, lagos e geleiras, terrenos férteis e recursos marinhos.

A Patagônia cobre 1,06 milhão de quilômetros quadrados do extremo sul americano, dos quais 75% ficam na Argentina e o restante em Aysén e na região de Magalhães, mais ao sul. Essa região natural abriga diversos ecossistemas e inúmeras espécies de flora e fauna, incluindo aves, mamíferos, répteis e anfíbios, alguns sem identificação. Também é o último refúgio do huemul, um cervo endêmico do Chile, que corre risco de extinção. Além disso, segundo especialistas em ambiente, a região possui uma das maiores reservas de água doce do planeta.

Aysén, coração da Patagônia chilena, esconde em suas esplendorosas paisagens uma das regiões mais pobres e vulneráveis do país, onde 9,97% da população vive na pobreza e 4,22% na indigência. Por isso, ativistas locais buscam consolidar a região como uma reserva de vida autossustentável.

“Queremos que o que temos seja cuidado e que se comercialize apenas o que nossa região produz”, explicou Mancilla. “Há outros lugares que são bonitos, mas nada se compara com o natural de nossa região. Ainda comemos frangos, ovos orgânicos, e toda  verdura e fruta que nasce em nossa região é orgânica, não se usa químicos”, destacou.

As artesãs, que integram a Associação Sindical de Mulheres Camponesas da Patagônia, ao sul do Chile, esperam a inauguração do centro comunitário, para poderem exibir e vender ali seus produtos. Enquanto isso, os oferecem em feiras públicas e em espaços emprestados por outras organizações de mulheres da região de Aysén. Foto: Marianela Jarroud/IPS

As artesãs, que integram a Associação Sindical de Mulheres Camponesas da Patagônia, ao sul do Chile, esperam a inauguração do centro comunitário, para poderem exibir e vender ali seus produtos. Enquanto isso, os oferecem em feiras públicas e em espaços emprestados por outras organizações de mulheres da região de Aysén. Foto: Marianela Jarroud/IPS

 

Para isso, agricultoras como Blanca Molina plantam seus produtos de forma orgânica, utilizado seus próprios dejetos. De fato, as integrantes da única associação de mulheres rurais da Patagônia chilena se destacam pelo fato de seus produtos serem todos ecologicamente sustentáveis.

“Há quem diga que essa terra não é boa para plantar, mas sei que é fértil. Sempre estou inovando, plantando coisas para ver se dão. Graças a Deus nesta terra tudo dá. Já comprovei e posso mostrar”, defendeu Molina, apontando seus cultivos. Ela construiu com suas mãos quatro estufas que ocupam boa parte de seu terreno em Valle Simpson, a 20 quilômetros de Coyhaique.

Molina mostra um a um os frutos de seu esforço: abóboras, alcachofras (Cynara cardunculus), pepinos (Cucumis sativus), repolhos ou couves (Brassica oleracea) e até mesmo curcubitas (Curbubita ficifolia), produto pouco habitual para uma região tão fria. Ela assegurou que a terra a enche de vida, ainda mais agora, que sofre de depressão por causa da morte de seus dois filhos, uma tragédia sobre a qual prefere não falar. “Foi a terra que a jogou para cima”, afirmou Mancilla, ao seu lado, sorrindo.

O certo é que essas três mulheres, todas casadas e com filhos de diferentes idades, mudam o semblante quando adentram a terra, em meio aos montes patagônios e da plantação sustentável, da qual emanam aromas inigualáveis.

Elas se conhecem há mais de uma década, quando, junto a outro pequeno grupo de mulheres, criaram a Associação, com o apoio do Programa de Formação e Capacitação para Mulheres Camponesas, impulsionado por um convênio governamental entre o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e a Fundação para a Promoção e o Desenvolvimento da Mulher.

Este programa, criado em 1992, tem por objetivo apoiar mulheres camponesas e/ou pequenas produtoras de famílias rurais, para contribuir com o aumento de suas rendas mediante a consolidação de iniciativas econômico-produtivas associadas ao mundo rural. Até agora, 20 mil delas foram beneficiadas.

Molina afirmou que, com a ajuda do programa, “agora a mulher tem mais direitos e outra renda para ajudar a alimentar a família”. Nancy Millar, que vive em Ñirehuao, a 80 quilômetros de Coyhaique, é artesã em lã, couro e madeira, e reforçou essa ideia: “A mulher camponesa aprendeu a se empoderar, a conhecer seus direitos”.

As três concordaram que Aysén é uma região onde o machismo historicamente tem sido muito forte. “Até o dia de hoje existe, mas o estamos controlando”, pontuou Mancilla. A maior resistência à sua Associação, na verdade, encontraram dentro de suas famílias. “A grande maioria nos dizia ‘já vai sair de casa’, e quando voltávamos nos diziam ‘aonde foi? Andou fazendo bobagens?”, recordou.

Apesar de no começo se mostrarem reticentes, atualmente os maridos sentem orgulho delas, porque veem os frutos. “Agora nos acompanham”, comentam as três mulheres, “sobretudo quando assamos uma novilha”, disseram rindo.

Os desafios dessas mulheres se centram agora em “ter um hectare próprio, da organização, para ali receberem suas capacitações”, e comprar uma caminhonete, “para podermos nos deslocar com facilidade para as feiras locais e para quando as mulheres precisam de apoio em seus traslados, especialmente as de muita idade”, constatou Mancilla.

Mas há um desafio maior: que os direitos de água passem a ser próprios e que não dependam de uma companhia para ter acesso aos recursos hídricos necessários. No Chile vigora um Código de Águas, que foi redigido pela ditadura militar do general Augusto Pinochet (1973-1990) e que transformou o recurso em propriedade privada, dando ao Estado a faculdade de conceder direitos de aproveitamento à empresas, de forma gratuita e de maneira perpétua. Além disso, permite a compra, venda ou arrendamento desses direitos sem levar em consideração prioridades de uso.

“Por que devemos pagar direitos de água se a gente nasceu e se criou no campo e sempre teve acesso à água?”, questionou Mancilla. “Por que tem de haver mais impostos para o pequeno camponês?”, acrescentou. Contudo, essas mulheres garantem que cada uma coloca tudo de si na criação de seus produtos. “Tudo o que fazemos é com carinho; se uma elabora um queijo o faz com o maior cuidado, quer que saia bem porque disso depende sua renda. Os tecidos de Nancy, as verduras de Blanca, tudo fazemos com paixão”, concluiu.

Autonomia forçada

Apesar do machismo histórico, as mulheres da Patagônia tiveram que assumir desde sempre a produção e a gestão dos alimentos e dos recursos naturais, com trabalhos em produção pecuária, hortícola, frutícola, lenha, turismo rural e artesanato, entre outros, além do cuidado de suas famílias e do lar.

“As mulheres da Patagônia tiveram que parir sem hospitais, tiveram que criar os filhos quando esse território era inóspito, além de fazer a organização social dessas comunidades que começaram a criar”, contou à IPS a dirigente social Claudia Torres.

“Os homens trabalhavam com os animais ou a madeira e partiam duas vezes ao ano por quatro meses. Então, a mulher se acostumou a se organizar e a não depender do homem se não voltasse”, acrescentou Torres.

Apesar do papel protagonista, “quando chegavam os funcionários do governo para falar com os camponeses, sempre se dirigiam aos homens”, enfatizou Mancilla. “Não entendiam que por trás deles havia mulheres fundamentais para o êxito da produção”, resssaltou. Envolverde/IPS

* Esta reportagem é parte de uma série concebida em colaboração com Ecosocialista Horizons.

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Tudo o que se queria saber sobre a mudança climática http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/tudo-o-que-se-queria-saber-sobre-a-mudanca-climatica/ http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2015/04/ultimas-noticias/tudo-o-que-se-queria-saber-sobre-a-mudanca-climatica/#comments Fri, 17 Apr 2015 13:41:30 +0000 Manipadma Jena http://envolverde.com.br/?p=132744   Nova Délhi, Índia, 17/4/2015 – Entre a quantidade esmagadora de informação sobre a mudança climática, seja de origem científica ou as teorias conspirativas que nunca faltam, destaca-se uma avaliação exaustiva realizada por um centro de estudos da Índia sobre os avanços em matéria de mitigação e adaptação ao fenômeno. O informe do Instituto de […]

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Uma mulher observa impotente como a água inunda sua cabana com teto de palha e todas as suas posses nos arredores da cidade de Bhubaneswar, no Estado de Odisha, na Índia, em 2008. Foto: Manipadma Jena/IPS

Uma mulher observa impotente como a água inunda sua cabana com teto de palha e todas as suas posses nos arredores da cidade de Bhubaneswar, no Estado de Odisha, na Índia, em 2008. Foto: Manipadma Jena/IPS

 

Nova Délhi, Índia, 17/4/2015 – Entre a quantidade esmagadora de informação sobre a mudança climática, seja de origem científica ou as teorias conspirativas que nunca faltam, destaca-se uma avaliação exaustiva realizada por um centro de estudos da Índia sobre os avanços em matéria de mitigação e adaptação ao fenômeno.

O informe do Instituto de Recursos e Energia (Teri), com sede em Nova Délhi, oferece um prognóstico detalhado sobre o que cada país pode esperar nos próximos anos, e constitui, de fato, um plano para a ação em um momento em que numerosos cientistas temem que se esgote o tempo para frear o ritmo com que avança o aquecimento global.

O Informe Global sobre Sustentabilidade 2015, divulgado no começo deste mês na Cúpula de Desenvolvimento Sustentável de Nova Délhi, apresenta uma lista dos 20 países, entre 193, que correm mais riscos com a mudança climática, segundo o impacto real de eventos extremos documentados os últimos 34 anos, concretamente de 1980 a 2013.

O informe do Teri cita dados reunidos pelo Centro de Pesquisa sobre Epidemiologia de Desastres (Cred), da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, que tem uma base de dados sobre desastres naturais dos últimos cem anos. O estudo concluiu que em 2002 multiplicou por dez o número de desastres naturais, em relação aos 50 registrados em 1975. Em 2011, 75% das mortes em razão dessa consistente tendência ao aumento de desastres ambientais ocorreram nos países em desenvolvimento.

Moçambique foi o país com maior risco do mundo, seguido do Sudão e da Coreia do Norte. Nos dois primeiros, os eventos climáticos extremos deixaram mais de seis mortos em cada cem mil pessoas, a maior proporção entre todos os países, enquanto a nação asiática sofreu as maiores perdas econômicas ao ano, cerca de 1,65% do produto interno bruto (PIB).

Em 2011, foram registrados os maiores danos em termos econômicos, cerca de US$ 350 bilhões, a maior cifra desde 1975.

A situação é especialmente grave na Ásia, onde países como Birmânia, Bangladesh e Filipinas, com cerca de 300 milhões de habitantes no total, estão em uma situação particularmente vulnerável diante dos desastres climáticos. A China, apesar de seu crescimento econômico, não pôde reduzir o risco de desastres para sua população, que, se prevê, chegará a 1,4 bilhão de pessoas no final deste ano, e ficou em sexto lugar entre os países asiáticos mais vulneráveis à mudança climática.

Os esforços sustentados de Bangladesh permitiram ao país fortalecer suas defesas contra o aumento do nível do mar, seu maior desafio em matéria de mudança climática, mas o risco é grande e segue no terceiro lugar. A Índia, segundo país mais populoso do mundo e que poderá chegar a 1,26 bilhão de habitantes até o final deste ano, ficou em décimo lugar, seguida do Sri Lanka, em 14º, e do Nepal, em 15º lugar.

Na África, Etiópia e Somália também são considerados extremamente vulneráveis, enquanto, na Europa, Albânia, Moldávia, Espanha e França são os primeiros da lista, seguidos da Rússia, em sexto lugar. No continente americano, o Estado insular Santa Lúcia está em primeiro lugar, seguido de Granada e Honduras. O país mais populoso da região, o Brasil, com 200 milhões de habitantes, ficou em 20ª lugar.

Nos 110 anos entre 1900 e 2009, os desastres hidrometeorológicos aumentaram de 25 para 3.526. Os eventos desse tipo, geológicos e biológicos em conjunto aumentaram de 72 para 11.571 no mesmo período, afirma o estudo.

Nos 60 anos entre 1970 e 2030, a Ásia sofrerá a pior parte das inundações, dos ciclones e do aumento do nível do mar. Projeta-se que este último fenômeno afetará 83 milhões de pessoas ao ano, comparado com os 16,5 milhões na Europa, nove milhões na América do Norte e seis milhões na África.

O Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres estima que as perdas econômicas globais até o final deste século chegarão a US$ 25 trilhões, a menos que imediatamente sejam tomadas medidas de mitigação e adaptação à mudança climática e de redução do risco de desastres. Os custos de adaptação ultrapassam as previsões iniciais na medida em que se passa da teoria para a prática.

As nações em desenvolvimento, por exemplo, precisam do dobro, ou triplo, do que se havia estimado, entre US$ 70 bilhões e US$ 100 bilhões ao ano até 2050, com uma escassez de fundos significativa depois de 2020, segundo o informe Brecha na Adaptação, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), divulgado em dezembro de 2014.

Foi avaliada a capacidade de adaptação de cada país mediante indicadores como acesso a água, segurança alimentar, saúde e capacidades socioeconômicas. Nesse item, a Libéria ficou na pior colocação, pois um quarto de seus habitantes não tem água potável, 56% da população urbana mora em favelas e há grande incidência de malária, agravada pela falta de médicos, um para cada 70 mil pessoas.

No outro extremo da capacidade de adaptação, Mônaco tem 100% de acesso a água potável, nenhum assentamento irregular, zero má nutrição, 100% de alfabetização, 71 médicos para cada cem mil habitantes e nem uma pessoa que viva com menos de US$ 1 por dia. Cuba, Noruega, Suíça e Holanda estão entre os cinco países com melhor capacidade de adaptação. Por sua vez, os Estados Unidos estão em 8º lugar, a Grã-Bretanha em 25º, China em 98º e Índia em 146º.

O estudo também classifica os países segundo sua responsabilidade no aquecimento da Terra. A Grã-Bretanha é a maior responsável histórica, com 940 toneladas de dióxido de carbono por habitante, emitidas durante o auge da industrialização (1850-1989). A China foi a maior emissora de gases contaminantes em 2011, com 10,26 bilhões de toneladas, e a Índia a terceira, com 2,358 bilhões de toneladas. Envolverde/IPS

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